segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

CRISTINA - CAPÍTULO VI


 
 
CAPÍTULO VI

 
Mateus estava na cozinha fazendo um chá quente quando Cristina acordou na sala e caminhou até ele.

 
- Que horas são?

 
- Ai, que susto! – Mateus não ouvira a amiga caminhando da sala até ele. – Fiz um chá quente pra você. São onze horas ainda. O que você estava fazendo no cemitério??? – Mateus parecia uma metralhadora. Ao encontrar Cristina daquele jeito, imaginou que ela estivesse bêbada, drogada ou ambas as coisas, mas como não havia cheiro de álcool nem qualquer outra marca, ele logo descartou a hipótese. – Você toma algum remédio faixa preta?

 
- Por que? – perguntou Cristina, ingenuamente, aceitando a xícara de chá e sorvendo o conteúdo. Parecia não se lembrar de nada.

 
- Porque quando passei em frente à sua casa ontem você estava quase correndo na direção do cemitério. Sua avó estava berrando com você tropeçando nas pantufas e o Tóbi estava muito estranho e arrepiado latindo atrás dela.

 
- Não tomo nada. Onde está a minha vó?

 
Mateus arregalou os olhos procurando um meio de contar suavemente:

 
- No hospital! – Ele tentou ser suave mas acabou gritando. Não havia dormido ainda desde a noite passada e ainda estava tremendo pelo susto todo. – Ela te seguiu até o cemitério e berrava tanto com você que de repente acho que por causa do cansaço ela ficou toda branca e caiu dura no chão e eu entrei em pânico e chamei a ambulância aí eles levaram a sua avó e eu te trouxe pra casa mas você parecia uma estátua andando daquele jeito!

 
- O que?!

 
Mateus, que ainda não tinha carro, ligou e pediu á mãe que levasse ambos ao hospital. Cristina estava atônita e o garoto já estava quase chorando. A avó de Cristina havia passado mal pela correria da noite anterior e fora medicada e colocada no soro. Agora estava dormindo e em observação. Parecia mais magra e mais pálida. Ao entrar no quarto e ver a avó naquele estado, Cristina não se conteve e chorou muito, caindo instintivamente de joelhos no chão. Agarrou a mão da avó e escondeu o rosto entre os lençóis.

 - Obrigado pela carona mãe. Vou ficar aqui um pouco com elas.

 
Mateus ficou do lado de fora do quarto e como Cristina demorasse, acabou dormindo nas poltronas. Cristina ficou um bom tempo chorando agarrada á mão da avó, sentada no chão. Um médico apareceu para tranquiliza-la dizendo que não parecia ser nada sério, mas que fariam mais exames para descartar a suspeita de um avc. Cristina acabou dormindo e acordou com um beliscão na mão.

- Aaaaaiiiiiii... Que isso vó!!! ? ?

 - Acorda menina! Quando a gente chegar em casa vai ter uma conversa séria!

 
Com a avó era sempre assim. Cristina não sabe o que faria sem ela mas a velha parecia querer repeli-la na mesma medida que a superprotegia. Mateus foi pra casa almoçar a pedido da menina que ficou com pena dele quando soube que sequer dormira, e as duas foram para casa no final do dia, de táxi.

D. Ana, que parecia estar forte novamente, esperou Cristina entrar em casa pela porta dos fundos, colocou Tóbi pra dentro, deu a ele uns biscoitos e trancou a porta cuidadosamente.

 - Agora, mocinha, senta aqui na cozinha e me explica que negócio é esse de ir de pijama no cemitério áquela hora da noite.

 Enquanto falava, D. Ana selecionava os ingredientes para fazer uma sopa, já que a neta sequer se alimentara direito.

 - Eu não sei vó, eu... vi uma coisa.

 - Sabia que não presta ficar andando em cemitério, ainda mais á noite?

 - Ah! – Uma risada sarcástica recém formada ficou contida no fundo da garganta da menina. – Por que?
 

- Dá azar. Sabe-se lá o que você pode encontrar lá! É um lugar de morte, não presta entrar assim sem motivo. Os antigos já diziam...

- Mas é que eu vi uma coisa... – Cristina não sabia se contava á avó do estranho que ficava observando a casa, pois não sabia como ela poderia reagir, já que nem ela mesma conseguia explicar esse misto de medo e fascinação que ela sentia por aquele vulto misterioso. Porém a avó insistia, queria saber o que tinha levado a neta a agir feito uma doida:

 - O que você viu menina? Desembucha!


- Pensei ter visto um fantasma... – Cristina resolveu dizer pois sabia que dali em diante a avó não tocaria mais no assunto por considerar tudo uma grande bobagem. Porém a reação da avó foi bastante enigmática. Ela ficou muito séria e disse que pediria a uma amiga para que benzesse a neta. Como Cristina se recusasse, a velha logo surgiu com outra alternativa.

 - Você me empresta um casaco seu que tenha usado recentemente e eu levo pra ela benzer. E não quero mais você andando naquele lugar, entendeu, mocinha?

Cristina só revirou os olhos mas concordou com a avó. Depois de ela ter passado mal era melhor obedecê-la. Tomaram a sopa juntas e Cristina lavou a louça. Domingo amanheceu frio e nublado, e seria mais um domingo pacato em casa com a avó, porém ela saiu para levar a blusa para a tal amiga já depois das três horas, dizendo que a menina arranjasse o que fazer pois iria demorar. Não que elas passassem os dias em casa grudadas. O táxi chegou e Cristina se viu sozinha novamente.

 
            A vontade de investigar esse ser que a assombrava lá do cemitério era imensa mas achou que seria melhor obedecer a avó. Havia ficado preocupada de verdade com a mesma e só não insistiu para que ela ficasse em casa descansando porque sabia que D. Ana era a campeã da teimosia. Mateus havia ligado no dia anterior pra saber se estava tudo bem e prometeu ligar no domingo. Como ele se demorasse, Cristina ficou agoniada e levou Tóbi para passear, mas desta vez pegou o caminho contrário que levava ao centro comercial da cidade.

 A criatura no cemitério também estava a observar. Realmente a intrigava que a menina pudesse tê-la visto mesmo após ter cantado o mantra completo para encantamento naquele dia em que a havia assustado. Não era bom para sua reputação quando humanos a notavam, pois deveria ser a mestre, ou o mestre dos disfarces e das surpresas. A garota evidentemente o percebia, talvez não na sua verdadeira forma pois não parecia reagir horrorizada como a maioria e nem saía correndo em desespero, muito pelo contrário. Parecia até mesmo procura-la. E isso de certa forma a envaidecia. Agradava até. Sentiu-se surpresa o quão agradável essa atenção repentina lhe parecia. A maioria parecia viver sem notar-lhe a constante presença mas a ruiva parecia apreciá-la.

 
Ao ver a menina atravessando o portão, levantou-se num sobressalto. Mas a ruiva pareceu não te-la enxergado e seguiu pelo caminho oposto. Ela, ou ele, resolveu volitar e seguir a menina. A sua encomenda demoraria a chegar de qualquer jeito e a espera era sempre solitária.

 
De vez em quando aparecem pelo caminho essas pessoas especiais que parecem ver mais do que a maioria. Pessoas como a ruiva que enxergavam além e que mesmo assim seguiam com suas vidas, desapercebidas, ajudando a manter o equilíbrio. Ruim era quando se tornavam cientes e metiam-se com os negócios do além, dando mais trabalho do que deveriam, tirando os trabalhos de sua ordem, mudando os cursos e os caminhos. Consertar o estrago que faziam poderia ser bem trabalhoso. A ruiva não, essa não atrapalharia. A criatura tinha certeza. E de repente se viu pensando o quão prazeroso seria poder desfrutar da companhia dela.

 
Ambas riram juntas quando Cristina passou em frente á catedral no centro e viram a menina gordinha brincando com um morcego morto. A amiga dela fazia um escândalo com seus gritos agudos. Mas a criatura se assustou quando a criança lhe encarou com olhos selvagens e Cristina de repente a percebeu pelas costas. Cristina se virou repentinamente e a criatura apenas desvaneceu deixando aquele rastro obscuro que se percebe pelo canto dos olhos.

 O vento ficou mais violento e como Tóbi ficasse arisco de repente, Cristina voltou pra casa a passos rápidos.

 
CONTINUA...

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