segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

SOBRE A MORTE

Source: Pinterest.com


Corremos tão rápido
Em direção aos nossos objetivos,
Sempre lutando com os minutos
Que não tem piedade e não nos esperam.
Temos hora marcada para tudo,
Temos que respeitar os horários,
Os atrasados são sempre criticados,
Pessoas que não respeitam,
Que não tem organização.
Muitas vezes eu me pergunto
Se toda essa correria vale á pena.
Pois a morte não pede licença,
E não tem hora pra chegar.
Quando menos você esperar
Pode ser a sua vez de se deitar
Pra sempre
Embaixo da terra fria.
E aquela pessoa que você não pode beijar
Porque estava com pressa
Você nunca mais poderá tocar
Ou olhar nos olhos de novo.

Marie Jo
Dezembro de 2016

AS MÃOS DE SARAH

Foto de: Blog da Ritinha


A EXISTÊNCIA É UM PERPÉTUO EQUILIBRAR ENTRE A VIDA E A MORTE.

Guiga era um garoto normal de nove anos que ía á escola todos os dias acompanhado pela mãe, Sarah.

Ele era um excelente desenhista, porém muito tímido e reservado. E como a maioria das crianças tímidas, sofria bullying pelos mais variados motivos.

Eram coisas leves mas que ficavam na sua cabecinha de criança, martelando, incomodando, e ás vezes quando ele desabafava com a mãe, se sentia um pouco melhor.
Mas ele raramente o fazia.
Mesmo assim não carregava as tristezas que os coleguinhas lhe infligiam por muito tempo na sua cabeça despreocupada de criança.

Já a mãe de Guilherme, Sarah, não levava tudo muito na esportiva.

Ela tentava ensinar ao filho que o melhor de tudo era ficar frio e não dar muita atenção á idiotice alheia porém ás vezes o menino chorava e aquilo lhe fazia arder por dentro.

Sarah percebia que o filho gradativamente perdia o interesse por brincadeiras e que quando chegava na escola ficava um pouco mais isolado dos outros. Um dia ele chegou realmente aborrecido em casa porque, como estava ficando um pouco sedentário, os colegas estavam tirando sarro do corpo do garoto, inclusive apertando seu peito.

Eles ficaram falando: Tetinhas, tetinhas! Contou o garoto em meio a lágrimas.

Sarah decidiu que aquilo era demais! Iria á escola no dia seguinte falar com a professora, com a diretoria, com o apoio pedagógico.

Porém  saiu de lá com a certeza de que essas pessoas jamais protegeriam o seu filho como ela o faria.

Inclusive foi criticada por seu filho ser uma criança isolada, sedentária, pois a culpa era sua, claro. Não tinha nada a ver com a maneira como as outras crianças o tratavam. O sofrimento dele não era causado pelos outros colegas que eram na maioria cruéis e pouco se importavam com os sentimentos alheios.

Ela que era um mau exemplo e não estava educando o garoto direito, deixando ele ser preguiçoso e isolando-o dos demais com seus costumes estranhos e sua morbidade.

Sarah era conhecidamente uma cartomante, e as más línguas a acusavam de bruxaria e magia negra.
Na vida real não era nada disso. Sarah lia cartas sim, mas apenas para os conhecidos. E alimentava um blog dedicado á Tafofilia, para pessoas que gostavam de passear e admirar cemitérios.

Mas Sarah não se esforçava por abafar as fofocas porque sabia que as pessoas, a maioria delas pelo menos, eram falsas piedosas, e valorizavam muito mais os boatos do que a procura pela verdade.
Sarah era apenas uma estudante de esoterismo e se interessava por temas um pouco mais macabros, além de ser amante de filmes de terror.
No fundo, ela era muito zen, e tentava passar isso ao filho. Mas o que o menino herdou mesmo foi seu gosto pelo gótico e pelo terror.

Guiga desde cedo já sabia que a morte fazia parte da vida. E no fundo isso era um profundo sinal de sabedoria que Sarah admirava no garoto.

A gota d'água, porém, foi quando o garoto passou a ser ameaçado por uma coleguinha e seu irmão mais velho acerca de um desenho. Os dois viviam pedindo a Guiga para desenhá-los, mas o menino não se sentia á vontade quando era pressionado. E eles passaram a pressioná-lo mais ainda, inclusive ameaçando-o de levar uma surra no final da aula. Assim ele jamais conseguiria fazer um desenho sequer da dupla, pois estava sentindo medo e perdendo a confiança em seu dom. Desenhar era sua alegria, e eles estavam tirando essa alegria dele, bem como seu sossego.

Sarah decidiu que era hora de começar a dar o troco. Afinal, o mundo não sentiria falta de algumas pessoas idiotas. Estava saturado delas. E a vida era assim mesmo, um dia alguns nascem, no outro alguns morrem. Começou a estudar artes das quais a maioria das pessoas nunca ouviu falar. Artes ás quais ela tinha acesso graças aos contatos ao redor do mundo que ela conseguiu através de seu blog e suas pesquisas na internet.

Naquele dia Sarah levou seu filho á escola, e sentou-se com ele no muro antes da entrada. Tiraram da mochila um papel em branco e um lápis, e Sarah fazia movimentos estranhos com a mão segurando o papel e lápis enquanto murmurava algumas coisas que pareciam ser de uma língua muito antiga.

As crianças da sala de Guiga ficaram observando ao longe. Os adolescentes passavam encarando e dando risadinhas. Alguns falaram em voz alta: bruxa! Mas Sarah e o filho apenas trocaram um olhar de cumplicidade e um breve sorriso.

Quando Sarah, terminou, Guiga pegou o papel e lápis, beijou a mãe e sentou-se no alpendre da escola, começando a desenhar. Faltavam ainda dez minutos para bater o sinal e a mãe do menino ficou olhando do portão o que ele estava fazendo.
As crianças da sala dele se aproximaram e viram que ele desenhava os pombos que vez ou outra bicavam os restos de lanche no pátio..
O desenho era rápido mas estava ficando bem feito.
Mostrava alguns pombos no chão, e outros no telhado esperando o sinal bater para poderem descer ao pátio bicar restos de chips conforme sempre faziam. Conforme estava acontecendo naquele exato momento.

A menina que o ameaçava, Nataly, deu risada do desenho e Guiga o deu a ela de presente.

- Tome, o desenho que você me pediu.

- Mas eu não queria isso aqui! - Disse ela, meio grossa. - Eu queria que você desenhasse eu e meu irmão!

- Fica com esse, por enquanto.- Disse Guiga.


O sinal para a entrada bateu e Guiga lançou um aceno á sua mãe, de longe, e ela foi para casa.


Enquanto ainda estavam na fila para entrar na sala, seis pombos caíram mortos ao chão.

O fato causou um certo frenesi nas crianças, mas a aula prosseguiu normal até a hora do recreio.
Os meninos que beliscavam o peito de Guiga fizeram das suas de novo:

- E aí Tetinhas, tá ficando gordinho hein!

Um dos garotos era irmão de Nataly. Eles seguraram Guiga e o beliscaram no peito várias vezes.

- E você vai fazer o desenho que a Nataly pediu amanhã, senão eu te arrebento! - Falou o irmão de Nataly, prensando-o contra a parede.

Guiga tentou se proteger, mas sem sucesso. Porém, não soltou um gemido sequer. Em casa mostrou para a mãe as manchas roxas que chegaram a se formar onde fora beliscado.

Sarah conteve-se para não chorar. Não queria que o filho se sentisse vítima. Queria que ele aprendesse a não demonstrar sentimento, a ser forte, a reagir quando preciso fosse.

No dia seguinte, novamente a cena das mãos sobre o lápis e papel se repetiu. A maioria das pessoas adultas parecia nem perceber. Mas as crianças que observavam pareciam apreensivas. Elas se lembravam dos pombos e do desenho deles da manhã anterior.

As mãos de Sarah desenhavam formas estranhas no ar, ao redor do lápis e do papel. Desta vez porém Guiga os guardou até o recreio.
Ao final do recreio, Nataly foi até ele, no canto em que ele estava encolhido, debruçado sobre algo no degrau do alpendre.
Ele pareceu se assustar quando ela o tocou no ombro.

Recompondo-se, Guiga terminou o que fazia, e entregou um pedaço de papel á menina:

- Toma, o desenho que seu irmão pediu. O seu eu faço amanhã.

Era uma caricatura mal feita dos cinco garotos que o ameaçaram e molestaram recentemente. Eram mais velhos, de outra classe. Adolescentes barulhentos e desrespeitosos na maioria das vezes. Nataly entregou o desenho a eles, que caíram na gargalhada. Dessa vez não tocaram Guiga, apenas acenaram de longe com o dedo do meio, em meio a gargalhadas.

Ao final da aula, um deles foi atropelado ao correr de sopetão sobre a faixa de pedestres. Apesar de ser uma saída de escola, o motorista foi pego desprevenido, e o baque foi forte. Chamaram a ambulância, e levaram o garoto inconsciente para o hospital.

No dia seguinte, as crianças pareciam um pouco mais caladas do que de costume. Algumas andavam de olhinhos arregalados, apreensivas.

Dessa vez não houve a cena do encantamento do papel entre Sarah e Guiga.

Corria pelos corredores da escola os rumores dos últimos acontecimentos: o atropelamento do garoto no dia anterior, que bateu a cabeça muito forte e estava em coma. As meninas da sala choravam.
Um grupo veio correndo contar que mais dois deles não haviam vindo á escola e os pais haviam informado á direção que os garotos estavam desaparecidos desde o dia anterior.
A diretoria esteve na sala de aula deles e conversou com a turma procurando por informações.

Guiga observava a movimentação ao longe, no recreio. Sentado no palco do alpendre, as pernas balançando, comendo seu lanche calmamente. Nataly chegou-se devagar e sentou-se ao lado dele. Não disse uma palavra. Era chata e barulhenta com ele. Ás vezes lhe batia só por pirraça, para ele dividir o lanche. Levava coisas de seu material escolar para casa. Era uma amiga inimiga, parecia sentir gosto em importuná-lo, e ele nunca reagia.

Guiga nem dirigiu seu olhar para ela. O irmão de Nataly e o amigo que sobrou vinham se aproximando. Guiga sentiu um frio na barriga mas esperou paciente. Não se moveria dali. Eles o deixariam em paz. Os dois mal tiveram tempo de atravessar o alpendre e o amigo do irmão de Nataly se agarrou nele com uma mão e com a outra segurou com força a camiseta contra o estomago. Correu para o banheiro mal tendo tempo de segurar o vomito que subia. O irmão de Nataly correu atrás do amigo e logo o sinal para entrar na sala soou.

Guiga levantou-se e deixou Nataly observando a cena, atônita. Uma comoção pareceu abalar a escola no final da aula mas Guiga nem percebeu. Foi distraído para casa, como sempre fazia, brincando na calçada, mexendo com as plantas, conversando com a mãe.

No dia seguinte, Nataly parecia bastante assustada. Ela viu ao longe Guiga vindo com a mãe. Ele segurava um pedaço de papel e um lápis e ela fazia movimentos com as mãos como nos outros dias.

Nataly correu e se escondeu no banheiro até o sino para a entrada soar. Na fila, ela tentou desviar de Guiga mas ele logo se virou ao notar sua presença.

- Esqueci de te dar o teu desenho ontem. - Ele disse, com um meio sorriso.

- Não precisa! - Nataly arregalou os olhos.

- Eu faço depois. - O sorriso de Guiga se intensificou.

A manhã se arrastou para Nataly. Ela observava Guiga o tempo todo e parecia mais branca que de costume. Cada barulhinho lhe dava sobressaltos e ela suava frio. A escola parecia bem menos barulhenta naquele dia.

O sino para o final da aula soou e todos guardaram os materiais menos Guiga. Ele olhou para Nataly sorrindo, com um olhar malicioso e cruel, enquanto começava um desenho com aquele lápis e aquele papel em branco.

A menina saiu correndo e gritando da sala, para nunca mais ser vista.


FIM