segunda-feira, 22 de agosto de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO IV





CAPÍTULO IV

Cristina acordou um tanto nauseada no dia seguinte. Era domingo e como sempre, para Cristina, um dia sem maiores expectativas. Estava ensolarado mas havia um vento frio, furioso. Cristina colocou seu agasalho de domingo, o mesmo de sempre, preto, imitação da Adidas. Colocou mais uma jaqueta bem grossa e comprida por cima, cachecol vermelho e sua touca chilena, e depois do café, saiu para dar uma volta pela cidade com Tóbi.

Ele mijava a cada poste e árvore do caminho, e quando resolveu fazer o número dois, Cristina amaldiçoou a si mesma por ter esquecido do saco e da pazinha para ajuntar os dejetos do animal. O cachorro, após terminar o ato, virou a cabeçona para trás com um olhar de “desculpe” e deu um meio sorriso, continuando seu alegre passeio. A menina ficou mais uns dez minutos morrendo de vergonha, embora ninguém tenha presenciado seu pequeno crime.

Andaram por quase dois quilômetros, e na volta, Cristina resolveu passar pelo cemitério. Como Tóbi era um cachorro mais ou menos obediente e o local estivesse vazio a não ser por eles dois, ela soltou o cachorro da coleira e ficou a dar voltas no lugar enquanto ele corria feito louco, devido à alegria de ter sido solto da coleira. Um parque seria mais apropriado, foi o pensamento de ambos, mas Cristina estava ansiosa para chegar até o local onde o estranho da noite passada a observara, para ter uma idéia de qual a visão que ela ou ele tivera.

Cristina colocou-se na mesma posição do vulto e pode notar que ele tinha uma ampla visão de sua casa, realmente, à exceção da parte que ficava nos fundos. A casa ficava quase de frente para o cemitério, coisa que ela nunca havia notado, mas ficava a uma distância realmente grande. Parecia impossível que a criatura conseguisse enxergar, de fato, o rosto de Cristina. Por isso ela ficou mais aliviada, pois se fosse um maníaco ou algo assim a observá-la, e se ele estivesse ou chegasse ao local naquele momento, não teria como saber que ela e a moça da janela eram a mesma pessoa. A não ser que já a estivesse espionando há tempos, ideia que Cristina prontamente descartou. Era muito consciente dos olhares ao seu redor, e das pessoas; nunca havia notado ninguém a seguindo ou observando os seus passos, exceto por Mateus, na faculdade.

De repente, Cristina ouviu um barulho vindo de dentro do mausoléu das três estátuas, como de algo pesado sendo arrastado. Ela ouviu nitidamente pois estava muito próxima a ele, e decidiu aproximar-se mais, prendendo a respiração por alguns instantes para ouvir. O vento gelado fustigava o local e ao passar pelas janelas, portinholas e vidros quebrados dos mausoléus, uivava e se lamentava pelos mortos. Cristina percebeu que não podia ver ou ouvir Tóbi em nenhum lugar ali por perto. O cão simplesmente desaparecera de vista naquele momento, mas a curiosidade da menina era maior, e ela avançou até ficar encostada em uma das paredes de fora do mausoléu, atrás das três estátuas.

- Tem alguém aí? – perguntou, meio sussurrando, para dentro do mausoléu. Não sabia bem por que fazia aquilo. Uma voz interior lhe dizia que devia mesmo era sair correndo. - Tóbi?

Esperou alguns minutos até ouvir uma respiração pesada, ressonante. Seu corpo se retesou no mesmo instante, e ela não teve coragem de avançar. Viu apenas as pontas de um manto negro de um tecido que parecia ser lã ou algodão bem pesado esvoaçando para fora da portinhola, pela ação do vento.

- Olá...- respondeu a pessoa dentro do mausoléu, meio incerta.

A voz mais doce que Cristina já havia ouvido na vida; que parecia reconforta-la instantaneamente; navegou pelo ar em ondas sonoras como finíssimos fios de seda dourados, até os ouvidos dela. Era uma voz masculina. O vento então parou de fustigar, tornando-se apenas uma brisa morna, que carregou até as narinas da menina o mais doce perfume de flores.

- “É jasmin...” – pensou.

E saiu correndo feio louca. Tropeçou na escadaria da saída do cemitério e teria se estatelado no chão se não fosse rápida como um gato. Chegou em casa muito nervosa mas não subiu ainda para o quarto. Tóbi não a havia seguido, precisava voltar.

- Mas o que está acontecendo menina! Está branca como giz?!

Cristina olhou de canto para a avó enquanto apoiava as mãos nos joelhos recuperando o folego. Fez sinal para ela esperar até que conseguisse falar.

- Onde você foi, o que aconteceu? ? Quer matar uma velha de susto é?

- Calma vó, eu já explico... Ufa! Ufa!

Tóbi passou pelas duas que estavam na cozinha e se deitou no tapete, também meio resfolegante.

- Apostando corrida com o cachorro, né! – Disse a vó. – Já não bastava tentar me matar do coração cada vez, agora quer tentar matar o cachorro também!

- Não é isso, vó! – Cristina pensou em tentar contar o que havia acabado de acontecer mas pensou melhor.

- Nós dois somos velhos, temos o coração fraco! – Praguejou a avó enquanto ía para fora regar as folhagens.

“Melhor não falar nada.” – pensou. “Ela vai ficar preocupada pensando que eu ando por aí dando mole para estranhos.”

- É que eu tropecei na escada, e quase caí. Meu joelho que ficou doendo, só isso.

- Que bom, porque parecia que tinha visto a morte!

Cristina deu um sorriso amarelo e foi para seu quarto. Esgueirou para se esconder entre as cortinas e ficou olhando para o cemitério á procura do seu interlocutor de mais cedo. Com certeza era um homem, a voz era inconfundível. Pela fresta da cortina, conseguiu ver que ele ainda estava lá. Quase se jogou no chão pois parecia que ele a olhava de volta. 

CONTINUA...

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO III



Imagem: https://everythingforredheads.co.uk/wp-content/uploads/2012/01/Redhead-wearing-red-lipstick.jpg




CAPÍTULO III

- E ele te deu uma piscada?

- Hahahahaha, deu sim! Eu não consegui agüentar e dei risada!

- Ué, mas por que? – quis saber Anabela.

- Sei lá, é que achei antiquado, mas engraçadinho! Ah, vá, ninguém mais pisca hoje em dia, você sabe!

- É, só em sinal de cumplicidade... – Anabela lembrou quando Davi piscou para ela antes de deixá-la sozinha pela primeira vez com a mãe dele.

- Tome, mais uma cerveja!

Cristina e Anabela estavam tomando cervejas e jogando baralho no cemitério desde as seis horas da tarde, pouco antes de o sol se por. Cristina, na verdade, já havia chegado ás cinco e estava lendo um livro de Jane Austen quando Anabela chegou. As duas ligaram o celular com música bem baixinho e começaram a conversar sobre os últimos eventos. Anabela contou como havia discutido com Davi ao telefone quando ele mencionou comprar alianças de compromisso, e Cristina contou sobre a manhã que passara com Mateus. Ser paquerada parece ter lhe dado mais confiança, e ela contou tudo a Anabela, nos mínimos detalhes.

- Nossa, você gostou mesmo dele, né?

- Ah, que nada! Mas ele foi bem legal, isso fez a diferença! – Cristina estava bem descontraída. Não se sabe se pela cerveja ou pela paquera matinal.

- Vai dizer que não gostou agora! Guria, você nunca conversa com ninguém, e foi logo tagarelando com ele de cara!

- Não foi bem de cara. A gente ficou consertando a casa por umas três horas antes de ir almoçar.

- Sabia que faz tempo que ele está de olho em você?

- Quanto tempo? – quis saber Cristina, incrédula.

- Desde que as aulas começaram, segundo ele me disse. Mas ele disse que te conhece de vista antes disso, porque ele lembra de sempre te ver sentada na varanda da casa, com o cachorro.

- Nossa, eu nunca reparei... – Cristina pensou por uns instantes e pareceu se irritar com a perspectiva. - Ah, então ele me espionava, né!

- Igual metade da cidade, porque sua casa fica bem no centro e você sempre ficava lá, olhando pro vazio, sentada naquela varanda. Até eu lembro de você! Eu e a Ju!

- E a sua amiga, não quis vir?

- Disse que estava com dor de cabeça, mas eu acho que é dor de cotovelo, porque nós não fazemos mais tanta coisa juntas.

- É cara a faculdade que ela paga?

- É Moda, então deve ser caro! Ela teve que ir morar com o pai pra poder fazer, e disse que ele que tá pagando, porque a mãe é professora aposentada, então só dá pra mandar uma ajudinha.

- Moda deve ser legal... – Cristina pensou alto. Quando ia dar mais um gole na cerveja, ela e Anabela ouviram um barulho vindo de algum lugar próximo de onde elas estavam, como se fosse um portão de ferro batendo.

As meninas se entreolharam, sem ter coragem de levantar a cabeça para tentar espiar. Cristina colocou a sua mão de cartas lentamente no chão. Afundou a sua touca chilena na cabeça e se levantou, seguida por Anabela.

- Você é louca? – sussurrou Anabela. – Acho melhor a gente se mandar.

- Não sou mais do que você! – Ponderou Cristina...

- Se tivermos sorte, serão só góticos...

- Se tivermos sorte, serão só gatos... – corrigiu Cristina.

Na verdade, as pessoas mais góticas da cidade eram elas mesmas. Cristina seguiu o barulho que parecia ter vindo de um dos mausoléus que ela mais gostava. Anabela seguia-a, já segurando a sua mão, tremendo. Aproximaram-se das três estátuas que foram postas em frente ao portão, feitas de um material que parecia ser cobre esmaltado. Era uma estátua pintada de vermelho, apontando com o dedo indicador para elas; a outra, ao meio, era verde escura com uma espada em punho, e a terceira era prateada e estava virada para o lado esquerdo, como se estivesse lendo um livro.

O portãozinho de ferro todo adornado que dava para o interior do mausoléu estava totalmente aberto. Dentro, haviam dois túmulos, e o mausoléu não era muito grande, de forma que só poderia entrar umas três ou quatro pessoas por vez. Não tinha flores nem nada, seu único adorno eram as estátuas do lado de fora, as lápides de mármore branco na parte de dentro, e as letras de cobre onde se lia “AQUI JAZ”, porém os nomes dos donos dos túmulos estavam faltando. Só se podiam ler as datas das mortes, uma de 1859 e a outra de 1876. As duas, vendo que estava vazio, entraram para ver mais de perto.

- Esse túmulo é bem antigo né...

- Deve ser de um dos pioneiros da cidade. – disse Anabela.

- Olha, a tampa está meio aberta...

Cristina passou os dedos pela abertura na lápide, como se tivesse sido movida para o lado.

- As letras de cobre já tinham sido tiradas faz tempo, mas a tampa sempre estava fechada.

- Será que estavam tentando saquear alguma coisa de dentro do túmulo?

- Parece que sim, é melhor a gente ir embora. Se forem ladrões, ainda estão por aí.

As duas amigas foram apressadas para o local onde estavam conversando antes, e resolveram terminar o jogo de cartas na casa de Cristina, que não era muito longe dali. Cristina não resistiu à vontade de dar uma última olhada no Mausoléu enquanto Anabela fazia a volta com a BIZ para irem para a casa dela, e desta vez ela viu mesmo um vulto escuro a observar as duas, da porta do mausoléu das três estátuas.

Cristina desceu da BIZ e abriu o portão para a amiga colocar a moto dentro da garagem.

- Nossa, sua casa é mesmo o máximo. – observou Anabela enquanto elas entravam.

- Você acha? Todo mundo acha meio caída...

- Todo mundo quem, cara pálida?

- Meus parentes, o entregador do supermercado, o carteiro... e sua amiga Juliana.

- Não liga pra o que ela diz... Ela só não te conhece direito, por isso tem um pouco de ciúmes...

- Acho que ela não vai com a minha cara.

- Já é um milagre ela ir com a minha... – riu-se Anabela. Depois suspirou. - Você podia dar uma festa aqui algum dia.

- Quer dizer, no Halloween??? – sugeriu Cristina, fazendo mofa com a amiga, pois a casa parecia um cenário perfeito. Mas então se pegou perguntando quem mais ela convidaria para a festa, já que não tinha mais amigos...

- Claro! Podemos fazer uma festa para a nossa sala da faculdade! Afinal, eles vivem indo no sítio do Ricardo, e eu não agüento mais aquele sítio.

- Só tiveram duas festas até hoje e você não agüenta mais? – ironizou Cristina.

- Você fala porque não foi naquele sítio lamacento ainda...

Cristina ia retomar o assunto do cemitério, para contar para Anabela sobre o vulto, quando o celular da amiga tocou. Era Davi, que viria buscá-la em cinco minutos, pois já eram nove horas.

- Estou na casa da Cristina, aqui em frente á escola de informática. Não, na subida. OK. Beijo, tchau!

- Era seu namorado?

- Era, ele já está vindo. Tem certeza que não quer ir na festa? – Anabela seria capaz de implorar se preciso fosse, pois não queria ter muito tempo sozinha com Davi naquela noite. Ele a estava pressionando para usarem alianças de compromisso.

- Tenho, deixa pra outra hora. Eu nem me arrumei nem nada... – Cristina estava insensível à ansiedade da amiga, pois nem imaginava o que se passava entre ela e o namorado, já que uma não conversava explicitamente sobre assuntos pessoais com a outra.

Cristina também pensou se contaria ou não sobre o vulto, mas achou melhor não assustar a amiga antes de ela ir para a festa. Poderia ser só um fantasma, ou coisa pior, algum ladrão ou maníaco.

- Então tá, eu vou sozinha... – disse Anabela e Cristina achou muito estranha a maneira de ela falar, resignada, afinal, estava indo a uma festa, e com o namorado. Mas Anabela continuou: - ... e acho melhor a gente ir no cemitério passear só de dia, por enquanto.

- Beleza. Vamos ver se tem algo pra comer?

- Bom, eu... pode ser, não queria comer, mas não sei se na festa vai ter alguma coisa.

As duas foram para a cozinha, onde a avó de Cristina assistia a TV antiga, pois não tinha televisão na sala, só uma na cozinha, que era da sua avó, e uma de tela plana no quarto. Tóbi, seu velho cão, já se enrodilhara em frente ao fogão à lenha que a avó havia acendido.

- Eu sei fazer umas panquecas com queijo que são uma delícia! – disse Cristina enquanto já reunia os ingredientes em cima da mesa.

- Olá D. Ana. – Disse Anabela abraçando a velha senhora, que retribuiu com um beijo na bochecha.

Anabela observou o ambiente bucólico ao seu redor, aquela casa antiga e enorme, com o cheiro de casa de avó: ervas e temperos de cozinha, perfume da madeira das paredes e talco. O teto era alto ao estilo das casas germânicas; as janelas estreitas e também alcançavam quase até o teto... e sentiu uma enorme simpatia pela amiga, que passava a maior parte do tempo com aquela senhorinha fofa. Só achava estranho porque Cristina parecia tão fria com ela.

- Tem certeza de que não quer mesmo ir à festa? Você pode se arrumar rapidinho e eu te ajudo a se maquiar.

- Não, obrigada. Preciso passar mais tempo com a vó, e o Tóbi...

O cachorro ergueu a cabeça ao ouvir o seu nome, e encarou a dona por alguns segundos, para depois, repousar novamente a cabeça sobre as patas, morrendo de preguiça. Ele já estava um pouco velho e na verdade não se importava em passar grande parte do tempo sozinho.

- Bobagem... – Praguejou D. Ana. – Por mim você pode ir pra onde você quiser. Melhor aproveitar a vida, senão depois casa e aí já era... – Disse a senhorinha, levantando-se e tirando a colher da mão da neta que estava empelotando a massa de panqueca.

- Ai, vó...

- Menina, pega o queijo e deixa a massa comigo...

As meninas comeram suas panquecas, e quando já iam terminando, ouviram uma buzina em frente à casa de Cristina. Era Davi, que viera buscar Anabela.

- Tchau Cris. – Anabela deu um beijinho na bochecha da amiga e da avó dela e saiu. – Obrigada pelas panquecas, D. Ana!

Cristina ainda acenou para Davi e esperou até o carro sumir de vista antes de fechar a porta da varanda. Apagou a luz da mesma, trancou toda a casa e se certificou duas vezes. A avó já havia ido dormir nesse meio tempo, deixando a pia de louça para ela lavar de manhã cedo. Tomou um banho, deu um pouco de ração para Tóbi que vivia enfastiado e subiu para o quarto, com uma xícara de chá de cidreira na mão.

Resolveu observar a noite da janela do quarto. Não havia lua mas o céu estava limpo e estrelado. Sentou-se no parapeito sorvendo o seu chá quente, e só então pode reparar que dava para ver o cemitério da janela de seu quarto. Não lembrou de já ter reparado nisso antes, pois sentar-se à janela do quarto no segundo andar era um costume bastante antigo seu, dava pra ver boa parte da cidade já que a janela era bem alta e ela morava em uma subida.

Talvez alguém tivesse podado suas árvores recentemente, ela pensou, desobstruindo a vista. Tentou localizar o local onde antes estivera com a amiga Anabela, quando deparou com aquele mesmo sujeito que vira antes, lá dentro do cemitério. Ele parecia vestir uma túnica ou casaco bem comprido, preto, e seu rosto parecia oculto pela sombra do capuz sobre sua cabeça. Cristina se sentiu bastante incomodada ao perceber que o sujeito misterioso parecia fitá-la de volta. Mesmo com a grande distancia entre eles, o sujeito do cemitério estava voltado para ela, sem se mover, e a sensação de estar sendo observada por aquele ser estranho fez Cristina sentir ondas de calafrios pelo corpo.

Fechou a janela, terminou o chá e se deitou. Logo, Tóbi entrou no quarto e se deitou também, só que sobre o tapete. Cristina ligou a TV e colocou um filme no aparelho de DVD, mas nem quinze minutos do filme se passaram e ela já estava em sono profundo, ressonando com a boca aberta e o controle do DVD quase caindo de sua mão.

O homem, ou criatura de manto negro no cemitério permanecia lá, estático, observando a janela do quarto de Cristina. Ao que parecia, a garota havia percebido sua presença, mais de uma vez, e isso o deixara intrigado. Não era algo muito comum de acontecer e ele então resolveu observar o que se passava do lado de dentro do quarto, e sorriu ao ver a ruiva dormindo de qualquer jeito na cama. Cristina adormecera na metade do filme, ainda com o controle na mão, que acabou escorregando e caiu com um estalido sobre o assoalho de madeira, assustando o cachorro que acordou de um salto e correu para dormir sobre o tapete da cozinha, onde as últimas brasas do que antes fora um fogo abundante ardiam.


CONTINUA...

CRISTINA - CAPÍTULO II


CAPÍTULO II

Cristina passou o sábado de manhã fazendo faxinas e reparos pela casa. Obviamente não era muito boa nisso, e estava do lado de fora praguejando contra uma veneziana que havia caído da dobradiça enferrujada, quando Mateus, que passava por ali, teve sua atenção despertada pelas injúrias de Cristina contra o pedaço de madeira.

Ele abriu o portão, e Cristina foi surpreendida pelo barulho, pois poucas vezes ela ouvia o portão ranger á entrada de alguém num sábado de manhã. Bem, o portão sempre rangia, mas geralmente só Cristina entrava e saía por ele, além do carteiro, e do entregador do supermercado, ou a avó, quando saía para a Missa. Mateus viu a cara de surpresa, ou estupefação com que ela o olhou, e foi logo se oferecendo pra quebrar o gelo:

- Quer ajuda?

Cristina largou a veneziana no chão, e esta caiu de ponta, com um estalido seco. Cristina largou-a não porque fosse pesada, mas porque realmente ficou sem saber o que fazer com a aproximação do rapaz. Ele nunca tinha feito isso, ido á casa dela sem ser convidado. Mateus ficou meio alarmado com a cara que ela fazia, como se ele fosse algum bárbaro invadindo as terras dela.

- Você... precisa de ajuda?

Cristina avermelhou e saiu daquele estado de transe:

- Não... eu... não, eu acho que não.

Mateus se aproximou mais e ajuntou a veneziana do chão.

- Sempre achei a sua casa o máximo.

- É... – Cristina deu uma olhada na casa, que, apesar do charme e da arquitetura antiga darem-lhe uma certa imponência, precisava urgente de uma pintura e algumas reformas. No mesmo instante, seu rosto passou do tom avermelhado para o roxo, pois ela ficou com vergonha da casa caindo aos pedaços. – Só precisa de uma pintura... hehehe

- Pois é, se você precisar de ajuda, estamos aí! – Mateus, que já conhecia o suficiente de Cristina, se odiou por ter dito algo tão evasivo, pois poderia ser uma deixa para a garota cortar o assunto e fugir, e foi o que ela tentou fazer.

- Ah, imagina. Não precisa... – ela tentava articular as palavras de forma a parecer descontraída. – Eu vou deixar isso pro verão.

Mateus passava a mão pela veneziana e quando algo fisgou seu dedo:

- Nossa, - ele realmente estava surpreso – essa dobradiça está bem enferrujada!

Cristina se sentiu culpada no mesmo instante:

- Puxa vida! Me desculpe! – ela disse atônita, já tirando a veneziana da mão dele, e olhando o dedo machucado. Mas não havia machucado algum:

- Não, não chegou a cortar, - disse o rapaz, simpático. – Se cortasse, seria melhor me levar pro pronto-socorro pra tomar uma antitetânica, né? – e terminou a frase com uma piscada para a menina.

Cristina nunca tinha ganhado uma piscada de um paquera, e achou aquilo tão antiquado, mas engraçado, que acabou rindo feito uma estúpida:

- Hihihihihi – e abaixou a cabeça ao se sentir mais ridícula do que já se sentia.

- Nossa, que sorriso lindo que você tem... – no mesmo instante Cristina ficou séria, olhando pro chão e Mateus achou melhor falar coisas menos galanteadoras. Que estúpido, pensou consigo mesmo. Desse jeito só vai espantar a garota.

- Você precisa de ajuda com isso aqui – disse ele, ficando sério de repente. Quer que eu vá comprar umas dobradiças novas e venha te ajudar a colocar de volta?

- Não... – Cristina já ia começar a recuar... Achou um absurdo ele se oferecer para comprar coisas pra casa dela.

- Eu insisto Cristina. – disse Mateus, meio sério, autoritário. – Você tem que contar com os outros de vez em quando! – E ao dizer isso, Cristina levantou o rosto para fitá-lo, mas sem parecer surpresa. Apenas o olhou nos olhos, como que concordando. Ele lhe devolveu um sorriso mais relaxado, confiante. – Vou lá na loja comprar umas dobradiças, precisa de mais alguma coisa?

- Eu tenho dobradiças novas lá dentro... – disse ela, já um pouco menos arredia.

Cristina virou-se e foi para dentro de casa. Cada passo que dava fazia barulho no piso, como sempre acontece em casas antigas, de piso de madeira:

- Adoro esse tipo de piso, me faz lembrar da casa da minha avó! – disse Mateus, que resolveu seguir Cristina já que ela não o convidara a entrar.

Cristina segurou a respiração ao perceber que ele estava muito próximo.

- Espere aqui, vou lá fora no rancho.

Mateus ficou olhando ela sair pela porta da cozinha, para uma espécie de alpendre nos fundos, que dava para um rancho de alvenaria que deve ter sido o defumador em tempos antigos. Tinha até um forno de tijolo, e dava pra ver uma banheira de cobre.

- Isso aí foi o defumador ou banheiro da sua avó? – Mateus falou mais alto para que ela o ouvisse.

Cristina gritou do rancho:

- Defumador e forno à lenha. Eu que coloquei a banheira.

- Nossa, sozinha?

- Não, meu pai me ajudou.

- Ah, boa idéia. Você acende o forno à lenha no inverno e já aproveita pra assar um pão enquanto toma um banho quentinho e demorado... né?

Cristina teve que sorrir:

- E já aproveita pra do outro lado defumar umas lingüiças. – ela completou.

Mateus deu risada e ficou contente por estarem se entrosando, e Cristina nem percebeu que já estava fazendo piadinhas.

- Seu pai está em casa? – lembrou Mateus, já que tinha visto Cristina fazendo reparos na casa, algo que em sua cabeça, era coisa para o homem da casa fazer.

Seus pensamentos começavam já a tomar formas e voar animados pela sua cabeça ao imaginar que estava a sós com Cristina em casa quando uma lufada de vento passou pela parte de trás de sua camiseta, e ao se virar deu de cara com uma senhorinha de cabelos brancos, cheirando a alfazema e comida com alho:

- Olá garoto.

Mateus estremeceu de susto, e se fosse um gato teria ficado todo arrepiado. Simplesmente nem havia percebido a avó de Cristina se aproximar, e ela falava perto demais dele.

- Olá... – Disse o rapaz, meio incerto, se afastando lentamente, com todo o cuidado.

- Não. – respondeu Cristina, nesse meio tempo. – Eu moro só com a minha avó.  – Cristina voltou do rancho com uma maleta de ferramentas de metal numa mão, e deu uma outra de plástico para ele.

Mateus ficou olhando para a garota, mudo, enquanto ela passava por ele. Quando resolveu se mexer, ela já estava quase do outro lado da casa. - Não vai me apresentar a sua avó?

- Não vai me apresentar seu namorado?  - Perguntou a avó por sua vez. – Meu nome é Ana. – e D. Ana apertou a mão do rapaz com os dedinhos macios e gelados.

- Ele não é meu namorado. – disse Cristina, já não tão pateta quanto antes.

- Não liga pra ela. – Disse D. Ana. – Ela é meio carrancuda. – E saiu nos seus passinhos de pantufa para o quintal.

Mateus interrompeu a menina quando ela ia começar a desparafusar a dobradiça enferrujada, e fez quase todo o trabalho sozinho. Trocaram mais umas seis persianas com defeito e algumas ripas que estavam soltas foram fixadas no lugar, nas venezianas e ao redor da casa. Cristina ficou só de ajudante mesmo, como tinha que ser, na opinião de Mateus, que teria assumido a reforma da casa toda se ela deixasse.

- Não sei pra que ficar arrumando essa casa velha... - Comentou D. Ana em voz alta quando eles passaram pela janela da cozinha.

- Eu gosto dela, vó...

Cristina acabou se queixando de fome, e Mateus a convidou para almoçarem juntos no centro da cidade.

- Sabe, era isso mesmo que eu vim fazer aqui hoje de manhã.

- O que ? – quis saber Cristina.
- Convidar você pra almoçar. Eu já tinha pensado de vir almoçar no centro e como fica perto da sua casa, pensei em te convidar pra ir também.

- E se eu me recusasse a almoçar fora com você?

- Eu teria que entender né... Mas eu levei sorte hoje, por causa da veneziana que caiu!

Cristina sorriu, e os dois foram lavar as mãos. Quando já íam saindo, com as roupas meio sujas mesmo, foram interrompidos pela avó de Cristina.

- Aonde pensam que vão?

- Almoçar no centro, vó.

- Nessa sujeira? - A avó pareceu surpresa.

- Não exagera... - Falou a garota.

- Não senhora, eu já estou fazendo almoço pra três.

Mateus nem reclamou já que seu estomago estava realmente roncando. Cristina não gostou muito da ideia com medo de a avó constrange-la na frente do rapaz, mas acabaram conversando e almoçaram animados. Cristina mostrou-se mais tagarela do que ele poderia imaginar, falando, às vezes, com a boca cheia de comida. Mateus ria consigo mesmo, e só não a convidou para uma festa que teria à noite porque sabia que ela já tinha combinado algo com Anabela.

Com certa relutância, se despediu de Cristina, e da D. Ana. Cristina disse que tinha que se arrumar para encontrar com Anabela dali a algumas horas, não sem antes levar o cachorro, que ainda estava no canil, para dar umas voltas. Ele ia se oferecer para ir junto, mas achou melhor não ficar dando muito em cima, ou ela poderia enjoar dele e começar a recuar novamente.

Deram dois beijinhos no rosto, e ele ainda lhe lançou uma piscadela, o que a fez rir baixinho de novo. E assim cada um seguiu o seu caminho: ele contente mas intrigado pensando o que ela tinha achado de tão engraçado, e ela tentando segurar o riso a cada vez que lembrava do Mateus piscando.

- Que fofo... – Disse D. Ana, meio distraída olhando o rapaz indo embora. E saiu com seus passinhos curtos na pantufa, dando risadinhas, enquanto Cristina revirava os olhos e ria consigo mesma a caminho do canil.

CONTINUA...