domingo, 26 de junho de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO I








CAPÍTULO I

Cristina era uma menina sozinha. Uma moça, aliás, pois já havia completado 22 anos. Seus pais moravam em outra cidade e ela havia se mudado para a casa da avó para cuidar desta, que era muito idosa. Tinha apenas 14 anos, quando se mudou. A casa era antiga, e muito charmosa, no centro da cidade. Para muitos, parecia uma casa mal assombrada. Cristina gostava da casa assim mesmo. Cursava administração de empresas, e sua melhor e quase única amiga na faculdade era Anabela, que um dia lhe contara já ter visto fantasmas.

Na maior parte do tempo, era uma garota bastante calada, também. Pensava muito antes de falar alguma coisa, ou expressar alguma opinião, pois sempre achava que só deveria falar algo se realmente valesse à pena. Por isso, muitas vezes não era ouvida, ou perdia a oportunidade de se expressar, pois a conversa do grupo já havia mudado para outro assunto. A única pessoa que prestava atenção nela era Anabela, de quem era realmente muito próxima. E somente graças a Anabela é que Cristina tinha um grupo de amigos, do contrário andaria sozinha, pelos cantos, lendo ou observando as pessoas.

Cristina também era muito bonita, alta e magra, de longos cabelos ruivos. Apesar de ser realmente atraente, não despertava muita atenção, justamente por esconder sua beleza em agasalhos grandes demais para ela, e no inverno, usava uma infame touca ao estilo chileno, que escondia boa parte de seu rosto. Anabela já lhe havia chamado atenção várias vezes para seu modo de vestir, pois ficava indignada que a amiga, com uma pele alva e grossas pestanas emoldurando seus olhos verdes, vivesse a esconder sua beleza. E os lábios, naturalmente e geralmente rubros como dois morangos, quase nunca viam um batom.

Cristina bem que tentou mudar para acompanhar a amiga, mas de verdade não dava muita importância para as aparências. E sua auto-estima era muito, muito baixa.

- Eu não tenho tempo para essas coisas... - Dizia ela.

- Isso não é desculpa! Você tem que comprar umas roupas mais bonitas, e passar pelo menos um rímel e um batom!

- Mas é que depois do serviço eu corro pra casa dar comida pro Tóbi, e tenho que dar pelo menos uma volta com ele antes de me arrumar pra vir pra cá!

- E...

- E não dá tempo de ficar escolhendo roupa e ficar me embonecando na frente do espelho! – desabafou Cristina.

- Afe, que desperdício!

Anabela teve que atender Juliana; sua outra melhor amiga; ao telefone, por isso acabou deixando a conversa sobre a aparência da amiga pra lá. Cristina realmente só conversava sobre assuntos pessoais com Anabela, que era com quem tinha mais afinidade e conhecia há mais tempo. Foi a primeira pessoa com quem fez amizade na faculdade, e já haviam se passado três meses desde que iniciaram o curso. Claro que Cristina deu um jeito de fugir da festa do trote:

- E aí fujona! – disse Mateus, que se aproximou das duas para puxar conversa antes de entrarem na sala.

- Oi... disse Cristina, toda desenxabida. Não entendia porque ele ainda pegava no seu pé com aquele apelido.

- Estudou para a prova?

- É...

Cristina realmente não estava se esforçando. É que ela achava Mateus um dos garotos mais gatos da sala, e isso pra ela era um problema. Cristina não fazia amizade com pessoas bonitas. Todos os que fossem bonitos e atraentes, pelo menos para a maioria das pessoas, não mereciam a atenção e confiança de Cristina. Não que ela os desprezasse, não é isso. Ela simplesmente não conseguia confiar em pessoas bonitas demais. Sempre ficava martelando algo lá no fundo, em sua mente, dizendo que usariam a própria beleza para conseguir o que queriam, para se sentir superior aos outros, e não eram dignas de confiança. E Cristina não se julgava bela, muito pelo contrário.

Então, juntando isso ao seu complexo de inferioridade, Cristina não conseguia fazer amizade com quase ninguém, exceto com os que se parecessem muito com ela em sua maneira de ser: ressabiados, desconfiados, pessoas não muito populares, como Anabela. Cristina sentiu uma grande empatia por ela desde o primeiro dia em que a viu, sentada na última carteira de um dos cantos da sala, sem nem olhar para os lados ou falar com ninguém. Ela reparou nisso, pois estava sentada no outro canto, com o capuz do agasalho preto sobre a cabeça, fingindo estar lendo algo em sua agenda, que não tinha nenhuma data especial marcada. Na verdade, já estavam em Agosto, e sua agenda estava vazia.

A amizade logo cresceu e a confiança aumentou mais ainda depois que Anabela confessou gostar de passear no cemitério e ter visto coisas muito, muito estranhas. É que Cristina tinha um verdadeiro fascínio por estas coisas estranhas, mas nunca tinha visto nada parecido, nem imaginado ter visto um fantasma.

- É sério que você viu?

- Sério, como estou olhando pra você agora, eu olhava para aquela mulher horripilante.

Nestes três meses de amizade, as duas já tinham ido ao cemitério quatro vezes para Cristina tentar ver alguma coisa, mas não obtiveram sucesso. Cristina nunca havia se aventurado a visitar o cemitério antes de conhecer Anabela, mais por medo de encontrar uma pessoa viva ali que pudesse achá-la estranha passeando lá dentro do que medo de encontrar algum morto ou espírito.

- Acho que a gente não consegue ver quando quer, só quando eles querem. – disse Anabela.

- Amanhã é sábado, a gente podia voltar depois do sol se pôr e ficar conversando, quem sabe vemos alguma coisa.

- Pode ser...- Anabela respondeu meio hesitante.

- Er, desculpe, esqueci que você tem namorado. – Cristina leu a hesitação no rosto dela.

- Ah, não, mas eu não vou ver ele amanhã de tarde, só depois das 9:00 horas! – Anabela respondeu tentando disfarçar o quanto a lembrança de seu namorado a deixou ressabiada naquele momento.

- A gente pode vir antes então? Trazemos algo pra beber e ficamos conversando e ouvindo música!

- Beleza. Depois vamos numa festa, você quer ir? – Ela realmente precisava de algum apoio naquele dia.

- Acho que não... é que não gosto de deixar a vó sozinha. – Cristina não percebeu o tom de súplica na voz da amiga. Ela nunca lia nas entrelinhas. Mas não era culpa dela. Anabela falava pouco de sua vida pessoal, mas Cristina era a campeã nesse quesito, pois escondia tudo o que pudesse revelar seus sentimentos ou fraquezas.

- Sei... – Anabela olhou pra amiga de soslaio, e baixou a cabeça. O vento balançou seus cabelos louros e ela suspirou. – Nossa, isso foi o meu estomago roncando ou foi o seu?

- Acho que foi o meu!

- Ufa, pensei que fosse assombração! Hahahahahah!

As duas riram juntas, e saíram pela lateral do cemitério. Anabela montou em sua BIZ amarela, e Cristina foi na garupa, e lá foram elas para o centro da cidade, à procura de uma boa lanchonete. Cristina deu uma última olhada no cemitério, para um de seus mausoléus preferidos, com três estátuas esquisitas na frente, e pensou ter visto alguém andando por ali.

CONTINUA...