domingo, 10 de abril de 2016

CARTAS PARA REGINA - CARTA VI


Querida Regina

Estou muito fraca agora e mal consigo escrever, mas esta é minha última tentativa, a minha última chance.

Você precisa me responder, senão eu vou enlouquecer de vez aqui nesse lugar...

Já nem sei mais se você é mesmo real... Mas é minha única chance de salvação... Por Deus, você precisa ser real!

Muitos meses se passaram desde minha última carta para você, e muita coisa aconteceu...

Tive alguns problemas com Ava, e agora, para minha tristeza imensa, ela simplesmente desapareceu! Todos desapareceram! Vou te contar do começo, para que consiga entender, pois nem eu entendo mais...

O inverno havia começado mais cedo, e nossos passeios pelo sanatório foram ficando mais escassos por causa do frio intenso. Não tínhamos muitas roupas, então evitávamos sair lá fora.

Com isso, certas partes do sanatório ficavam invariavelmente mais desertas do que de costume.

Ava começou a me tentar a conhecer a floresta atrás do sanatório. Se conseguíssemos andar até a cabana sem morrer de frio, quem sabe conseguiríamos chegar depois disso até a ponte, e depois, até a liberdade.

Ela já havia me contado da cabana na floresta, mas eu nunca acreditei. Uma vez, quis me levar até lá, mas achei perigoso e não a deixei ir... Como é que iríamos pular o muro, era muito alto... Mas um dia, ela me mostrou o portão que dava para o caminho até a cabana. Um enorme portão enferrujado, meio torto, carcomido... Com uma fresta pela qual passaríamos facilmente.

E eu vi o caminho... um carreiro. Um carreiro no meio da vegetação, um caminho.
Ficamos vários dias pensando naquele caminho. Fazendo planos. Ava prometeu que cuidaria de mim, que me faria feliz.

Mas eu queria levar o jardineiro junto.
Um dia em que ela não estava por perto, eu o procurei. Mostrei a ele o portão.
Nós subimos até a torre da igreja, e conversamos a respeito.
Ele me olhava com aqueles olhos muito azuis, e de repente, me pareceram tão familiares...
Eu o beijei, e não consegui resistir. Ficamos juntos.

Ava nos encontrou, e ficou furiosa. Nós brigamos, e ela não veio para o quarto á noite.
Nem na noite seguinte; e na terceira noite, fui perguntar ao meu médico se ele sabia onde ela estava.
Nós saímos a procurá-la pelo sanatório todo, mas não a encontramos.
Mas achei estranha a atitude dele... Não deveria acionar os guardas, chamar a polícia? Ou coisa que o valha? Afinal, uma paciente desapareceu, e ninguém pareceu notar.

No final daquela semana, eu já não podia aguentar a ausência de Ava, e comecei a pensar que ela podia ter fugido, que ela estava na cabana. Talvez ela estivesse lá, talvez estivesse me esperando.
Era de manhã bem cedo, pensei em chamar o jardineiro para me ajudar a procurá-la, mas se a encontrássemos juntos, ela ficaria zangada, e eu poderia perdê-la para sempre.

O vento estava cortante, mas não parecia estar tão frio. O sol brilhava, por isso não me preocupei em pegar mais casacos. Nem tinha muitos. Cheguei até o portão, que parecia amedrontador, e atravessei.

A floresta era assustadoramente escura e densa. Seguindo pelo carreiro, que segundo Ava daria inevitavelmente com a cabana, tentei pensar em outras coisas para não me apavorar e acabar voltando para o sanatório com o rabinho entre as pernas. E pensei muito.
Pensei na minha família que me trancou ali... Pensei nas coisas que aconteciam comigo e Martina, em um lugar que deveria ser o nosso lar... Mas de repente todas as lembranças pareciam ter ficado mais nubladas, mais distantes... Por que eu lembrava, mas ao mesmo tempo, não conseguia lembrar claramente de nada? Algo dentro de mim gritava de ódio, de meus pais, de minha irmã, de meu passado... Mas ao mesmo tempo, aquelas nuvens na minha mente me deixavam confusas, como se tudo não passasse de sonhos ruins, de coisas que eu inventei por medo de que acontecessem de verdade... Como fazemos quando estamos sozinhos, pensando em nada, e então começamos a fantasiar com outras realidades, o que faríamos se o mundo fosse diferente...
E mesmo assim, por causa disso, eu tentei matar as pessoas que mais amo no mundo?
E onde estará Martina? Porque ninguém vinha me visitar?

Comecei a chorar... e as lágrimas deixaram minha visão meio embaçada. Parecia ter uma cabana mais a frente com uma luz vinda de dentro. Mas quando entrei, não haviz luz nenhuma. Era apenas fogo, vindo de um fogão á lenha. E Ava estava ali me esperando.

Deus, como a amo! Nós nos abraçamos, e Ava como sempre estava radiante, e aliviada por eu ter finalmente chegado. Eu também estava aliviada, pois me dei conta de que me sentia muito sozinha sem ter ela por perto.

Como é horrível essa sensação de solidão irremediável... Essa sensação que ás vezes temos de não ter ninguém que se compare conosco, de não ter no mundo todo uma alma gêmea, alguém que compartilhe idéias com você, alguém que pense parecido, e que até mesmo te ensine e te corrija, que te faça melhor.

Ava me fazia ser uma versão melhor de mim mesma, ela me completava, porque ela era igual a mim.
Não sei se foi o calor do fogo, ou do corpo de Ava, mas eu fiquei embriagada pela alegria de tê-la encontrado bem, e acabei cedendo á sua lascívia.

No dia seguinte, ainda não havíamos comido nada, mas já tínhamos todos os nossos planos estabelecidos. Iríamos embora, pelo caminho que levava á ponte, depois dali, para a cidade vizinha, onde tentaríamos nos estabelecer e ser felizes. Ninguém saberia do nosso passado ali, disse ela... O que me fez indagar por um momento, em pensamento, o quão longe essa cidade poderia ser daqui...

Quando ela saiu para procurar alguma coisa para comer, eu fui tirar água de um poço que havia ao lado da cabana. Fiquei mexendo no fogão, tentando avivar o fogo que ela fez, mas a demora dela começou a me deixar inquieta. Para me distrair, fiquei mexendo nas coisas velhas e poeirentas que haviam espalhadas pela cabana. Parecia ter sido o lar de alguém...

Até que achei um baú. Estava fechado com um cadeado velho e enferrujado. Minha curiosidade era muito grande, e quando encontrei a machadinha, adeus cadeado! Eu nem sabia que tinha tanta habilidade com a machadinha! Uma lembrança terrível correu pela minha mente por um momento...

Havia muitas roupas dentro do baú. Comecei a tirá-las, e talvez até pudesse aproveitá-las. Não estavam assim tão velhas e puídas. Achei alguns casacos que eu e Ava poderíamos aproveitar... E alguns jalecos e roupas muito parecidos com os que alguns funcionários e internos do sanatório usavam.

Mas o que mais me chocou foi uma peça de roupa que estava quase no fundo do baú. Era um vestido florido, meio desbotado. Igual ao vestido que Ava estava usando aquela manhã, antes de sair procurar comida.
Eu o tirei do baú, e algo caiu. Era um espelho antigo, desses de toucador... Fiquei segurando o vestido na minha frente, pensando em como era engraçada essa coincidencia, quando vi o remendo. Um remendo, bem costurado, igual ao remendo que havia no vestido que Ava estava usando aquela manhã, antes de sair procurar comida. E sangue...

Corri para fora da cabana, e gritei por Ava em todas as direções. O quão estranho era aquilo! Abelhas começaram a zunir na minha cabeça, e eu já tinha as ouvido antes. Comecei a ficar tonta, corri para todas as direções que pude, sem me afastar muito da cabana, para não perdê-la de vista, e chamei por Ava.

Chamei e berrei, até ficar quase sem voz para falar. Comecei a chorar, e voltei para a cabana. O fogo havia acabado, e tentei reanimá-lo antes do anoitecer, sem sucesso. Estava muito frio, e fiquei pensando o tempo todo em Ava perdida lá fora, no frio e no escuro. Lembrei que não havíamos comido nada o dia todo, meu Deus, onde Ava está?

Eu me pergunto isso até hoje. Na manhã seguinte, Ava ainda não havia retornado. Fiquei dando voltas na floresta ao redor da cabana até que aqhei alguns mirtilos. Comi avidamente... E nem sinal de Ava.
Para me distrair, comecei a arrumar as coisas dentro do baú, não sem antes tirar o espelho que havia caído. Ao mirar meu reflexo nele, fiquei mais confusa ainda. Ava estava refletida nele! Eu juro, eu juro, eu juro, Regina! Eu via Ava no espelho!!!

Comecei a chorar novamente, e me lancei pela floresta, pelo caminho onde ela havia seguido, precisava encontrá-la. Não poderia jamais ficar sem Ava. O vento gelado cortava minhas pernas, pois esqueci de vestir as meias. A fome apertava meu estomago. Comecei a chamar por Ava, chorando e berrando o nome dela até ficar sem voz. O vento fazia as árvores baterem umas contra as outras no alto de suas copas, produzindo sons assustadores. Andei até cair de exaustão.

Não havia nem sinal de Ava. Em parte alguma. Deitada no chão, chorei convulsivamente. Não sei bem quanto tempo se passou, mas tomei coragem e fôlego e continuei andando. Precisava encontrá-la.
Avistei a ponte. Lá estava ela, em toda a sua imponência, no meio da floresta. Mas eu estava muito longe ainda, pois nem podia ouvir o barulho da água ainda...

Até que o vi... O casaco de Ava... Estava no chão, em meio á relva que naquela parte já havia ficado mais rala. Eu o ajuntei, e parecia estar ali há muito tempo pois suas fibras se fundiam com o mato. Ao levantá-lo, estava todo desgastado e cheio de poeira e furos, e manchas de algo que parecia ter sido sangue... Fiquei muito confusa, Regina, muito confusa.

Cambaleava, devido á tontura. Mas continuei, precisava chegar até a ponte. As abelhas em meus ouvidos zuniam com ferocidade. Minha visão ficou embaralhada, e então, tudo ficou escuro. Continuei cambaleando, mas minhas pernas travaram e caí no chão. Tentei me levantar e continuar me arrastando, rastejaria se fosse preciso, mas precisava encontrar Ava!

Caí de novo, e mal conseguia enxergar através da escuridão que caiu sobre meus olhos. Fiquei imóvel por alguns minutos, ouvindo as abelhas zunindo cada vez mais distantes.

Até que ouvi meu nome ecoando pela floresta. E latidos... Era o jardineiro. Olhei na direção de onde vinha a sua voz chamando gloriosamente pelo meu nome! Ele veio me ajudar! Tanto carinho e preocupação em sua voz! Mas só conseguia enxergar alguns vultos, que se aproximavam correndo.

Comecei a chorar, emocionada por saber que alguém além de Ava se preocupava comigo neste mundo, quando o jardineiro se ajoelhou, e tudo o que vi foram os olhos muito azuis e faiscantes do meu médico bonito...

Regina, estou muito confusa neste momento, você consegue entender a dimensão de tudo isso?

Preciso, necessito que você responda minha carta, por favor! Envie-me uma resposta, eu imploro!
Tenha piedade de mim, responda-me o mais breve. Estou começando a achar que você também não existe!

Sua sempre amiga,
Estella

10/04/1952