segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

CARTAS PARA REGINA - CARTA V



29\12\1951

Querida Regina

Você não tem noção do desespero em que me encontro...
Eu tentei me afastar de Ava, mas temo agora que ela seja a única coisa que me conecta a este mundo, a minha última salvadora...


Quando soube que eu estava evitando ela por causa do jardineiro, ela veio contra mim furiosa como um touro. Ava me bateu, e me contou que sabe o motivo pelo qual estou aqui.
Disse que eu estava histérica, que tive um ataque e que investi contra os meus pais...
Que eu os acusei de me molestarem, de abusarem de mim, contou coisas podres, tão nojentas, que no momento em que ela proferia os detalhes eu preferia ter morrido.

Naquele dia, no dia da verdade, eu até passei mal e vomitei.

O médico bonito passou a noite cuidando de mim na enfermaria, e sempre me perguntava se eu realmente não lembrava de nada... Eu disse que não, pois essa era a verdade.

Mas as palavras de Ava vinham até a mim como pequenos demônios sussurrando em meus sonhos, e o que me pareciam lembranças há muito enterradas começaram a tomar forma em minha mente...

Será mesmo que não há limites para a perversão humana?

Depois daquele dia, em que ela gritou as verdades na minha cara, passo quase o dia todo encarando a parede, tentando ver, lembrar da minha vida nos últimos quatorze anos...

Eu tive uma irmã mais velha que morreu antes de eu nascer. Temos poucos retratos dela em casa, mas ela era muito bonita, tinha um rosto angelical. Lembrei então que ela havia morrido porque se matou, enforcada em uma árvore no quintal. Angelina era o nome dela... Lembro de tê-la visto quase todos os dias me encarando do topo da escadaria quando eu era muito pequena ainda. Mas pode muito bem ter sido uma ilusão, pois era onde ficava seu retrato grande, toda sua graciosidade retratada a óleo num quadro grande de moldura dourada.

Ela sempre sorria pra mim... Não sei porque quando lembro dela, a vejo sorrindo pra mim e então se virando, descendo as escadas, deixando seus cachos cor de mel serem levados pelo impulso, seu perfume se espalhando pelo ar.

Lembrei-me então de uma coisa que Martina me disse um dia: que aquela era nossa mãe.
Nós tínhamos quinze anos. Eu fiquei muito assustada. Ela disse que soube de tudo pela velha Rita, um dia em que se escondeu de mim na cozinha e a ouviu segredando á governanta.

Pensando bem agora, muita coisa faz sentido. Porque sempre pensei que nossa mãe nos odiasse, e acho que ela reamente nos odiava. Era como se sentisse nojo. Mas então ao lembrar dela, lembro-me do nosso pai, tão distinto e heróico cavalheiro... E as coisas que ele fazia... Não consigo descrever, Regina, sinto que meu peito vai explodir em prantos!

Quando lembrei da primeira vez em que aquele pesadelo começou, chorei convulsivamente... Eu era muito criança para entender, mas desde já eu sabia o quanto era errado! Era tão errado!!!

Eu estou perdida Regina... Eu tentei matar meus pais e a minha irmã, e só agora é que começo a lembrar o porquê... Mas estou tão confusa...
O médico bonito me disse que são apenas fantasias criadas pela minha mente para tentar me proteger... Que uma pessoa como meu pai jamais cometeria atrocidades as quais Martina me descreveu...

Deus, como a odeio! Sera possível que ela plantou essas histórias na minha cabeça?
E afinal, por que ela não está aqui comigo, por que sequer vem me visitar?
O que eu fiz de fato Regina, eu ainda não sei.
Mas me pergunto como é que Ava sabe de tudo.

Escreva-me, estou esperando.

Estella

POEMA - THE ERRANT WIND


http://www.landscapehdwalls.com/wind-blown-tree-on-the-cliff-6196/

I've been a stranger
In the strangest world
I have died
A millions words before
I have cursed
My own wings to fly
Forever erased
From a distant time
I have wandered
So errant
In a desert sky
So many times that I wanted to die
Will I ever get a cure
For my bloody thoughts and my irrelevant traits...
A cure for my sins, and my shame
I, the one who was betrayed
I, the one who was thrown away
Will have the strenght
Yes, I'll have the strenght
To punish the ones who ask for it
The sword of a thousand flames
I'll never feel guilty, and filthy again
I'm the one who will rise
From dust or the moonlight!

Marie Jo in 01/25/16