segunda-feira, 12 de setembro de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO V


CAPÍTULO V


Demorou uma semana ainda para ela falar sobre o acontecido para alguém. Quando resolveu contar para Anabela, a amiga não prestou muita atenção. Na verdade ficou histérica, achando que Cristina estava delirando, ou tinha quase esbarrado em algum tipo de maníaco. Anabela que gostava de passar um tempo no cemitério, ou cortar caminho por ali, instruiu a amiga a evitar aquele lugar.

Porém, Cristina não parava de pensar naquele ser estranho, e mesmo não mais tendo visto o sujeito, parecia que sua presença nas redondezas de casa ainda era constante. Um final de semana chegou em que ela estava tão encucada que cada movimento que fazia dentro ou fora de casa era pretexto para espiar na direção do cemitério para ver se o vislumbrava.

A avó chamou a atenção da menina naquele dia:

- Que isso menina, está enfeitiçada?

Cristina estava derramando água sobre a ração do cachorro. D. Ana tirou o regador da mão dela e terminou de servir o cachorro sozinha, pedindo á neta para ir até o mercado comprar ovos para a maionese, pois seus pais viriam visitá-la naquele dia.

Cristina saiu pelo portão e ficou ainda uns minutos olhando na direção do cemitério sem se decidir se passaria por ali ou não. Apesar de parecer sentir a presença da criatura estranha, não tinha mais o visto. Já estava para esquecer aquele incidente mesmo, pois era o que seus instintos básicos lhe diziam. Cristina era sempre muito prática, e um tanto cética. Mas sempre tinha aquela pontinha de intuição que ficava repetindo no fundo de sua mente que ela não estava inventando nada daquilo.

Na volta do supermercado, resolveu passar por dentro do local. Passou perto das três estátuas, e sentiu novamente o inconfundível perfume de jasmin. Ao olhar para dentro do mausoléu, o homem encapuzado; ou o que parecia ser um homem encapuzado; caminhou ameaçadoramente em sua direção. Cristina recuou assustada, tropeçando e caindo de bunda, derrubando a sacola com os ovos no chão.

Não conseguia tirar os olhos do sorriso estranho e cruel que aparecia por debaixo do capuz negro. Era um sorriso brilhante, uma boca maldita, que proferia palavras rápidas e assustadoras, ameaçando a menina, dizendo que ficasse fora do seu caminho. Cristina não ouviu uma palavra, e embora tentasse se lembrar do que o estranho lhe dissera, não conseguia se recordar de palavra alguma. Era mais como uma música, irresistível, lenta, entrando pelos seus ouvidos. Mas ela não entendia exatamente as palavras, apenas seu sentido. E o sentido que elas tinham era de perigo. Era como se dissessem que era melhor ela se afastar, mas o efeito que causavam em seu juízo era exatamente o contrário.

O estranho saiu do mausoléu e Cristina perdeu-o de vista entre as tumbas. Seus pais vieram almoçar com elas mas a menina não lhes deu muita atenção. Estava alheia a tudo. Á noite, a avó foi até o quarto conversar com ela. Mas foi inútil. Era como se o corpo de Cristina estivesse ali, mas seus pensamentos estivessem longe. A garota olhava para a avó falando com ela mas tudo o que conseguia ouvir era a música que saía dos lábios ou dos caninos brancos do sujeito do mausoléu das três estátuas.

No dia seguinte, Cristina foi trabalhar na loja de música e mal cumprimentou a chefe e as colegas. Vendeu alguns CDS, cuidou de algumas encomendas de instrumentos, e só não causou nenhum incidente porque já estava mais atenta lá pelo meio-dia. Sua chefe perguntou, preocupada, se ela estava se sentindo bem, e ela apenas a olhou indiferente e fez que sim com a cabeça.

Foi para casa almoçar e só então notou que havia esquecido o portão aberto e Tóbi estava fora do canil. Ele a aguardava, sentado na varanda, em pose de sentinela, todo retesado pela expectativa de que ela lhe desse permissão para sair e dar umas voltas:

- O que você andou aprontando? – Foi a frase que a dona lhe dirigiu, mal humorada e desconfiada. Pobre Tóbi, Cristina estava sendo injusta. Na verdade, ele notou o portão aberto, mas não arriscou a se aventurar pela cidade sem a permissão da dona. Passara a manhã toda na varanda aguardando até que ela chegasse em casa e lhe dissesse pra sair.

Ela abriu a porta ainda encarando o cachorro e ele, na mesma posição, acompanhou-a com a cabeça, devolvendo o olhar, para então entrar dentro de casa, com o rabo entre as pernas. Não seria daquela vez que ela lhe permitiria passear sozinho pela cidade. Da próxima vez, seria melhor fugir mesmo.

A avó parecia preocupada com a menina. Escondeu alguns papéis que estavam na mesa e afagou os cabelos ruivos da mesma quando ela sentou para almoçar. Coisa que não fazia com frequência. Cristina nem notou nada, absorta que estava com seu mundo interior.

À tarde, a tontura já havia passado, e Cristina estava sempre de olho no relógio, esperando que terminasse logo o expediente. Pensou em dar uma passada no cemitério antes de chegar em casa, para ver se encontrava de novo o seu “amigo”. Mas quando chegou a hora de ir para casa, uma dúvida cruel acabou a invadindo, e ela ficou se enrolando ainda uns dez minutos, tentando se decidir, antes de sair da loja. Um leve temor tomou conta de seus pensamentos, enquanto caminhava, misturado a um sentimento de ansiedade e leve excitação.

Acabou se atrasando para a faculdade, e não obteve sucesso em seu passeio no cemitério. Precisava desabafar com alguém sobre o acontecido, e mal Anabela se aproximou e cumprimentou-a, Cristina, sem dizer palavra, puxou a amiga pelo braço e foram sentar em uns bancos mais afastados até que o sinal fosse dado para entrarem na sala.

- Preciso te contar uma coisa... – disse Cristina, meio sussurrando.

- Nossa, que foi? – respondeu Anabela, pescando a tensão no ar.

- Você não acredita, fui ontem no cemitério, de manhã, e vi de novo aquele vulto.

- Sério? – Anabela estava mais incrédula do que excitada, ao contrário da amiga.

- Sim, e ele é estranho... – Sua expressão de excitamento se alterou repentinamente para uma tensão bastante aparente.

- Hum? Estranho? E quem é ele? – quis saber Anabela, meio desconfiada pela excentridade da amiga naquele momento. - Será que você viu então um fantasma, pela primeira vez?

- Será? – Cristina encarou Anabela, desconfiada. A hipótese não poderia ser descartada. O modo como as duas cochichavam acabou chamando a atenção de Mateus que passava por ali. Pensou que na certa estariam falando dele, e resolveu cumprimentar de longe, jogando charme, mas mal foi notado por Cristina.

- Oi Mateus. – disse Anabela.

Cristina foi desperta de seu devaneio sobre o estranho do cemitério e acabou só acenando para Mateus com a cabeça, que só não ficou frustrado porque estava muito distraído fazendo charme, e nem percebeu que quase não fora notado pela sua preferida.

- E o Mateus, hein?

- Que tem ele? – perguntou rapidamente Cristina.

- Achei que estivesse interessada nele. – disse Anabela.

- Ah, não sei... – respondeu Cristina, pois estava realmente incerta sobre ele. – Você sabe, nunca achei nada nele...

- Ta brincando que não acha ele um fofo!?! – respondeu Anabela surpresa.

- Até acho... – Cristina expirou o ar de seus pulmões, confessando: - Acho ele fofo sim, adorei toda a atenção que ele me deu... mas é que não sei... se ele me conhecesse melhor, perderia o interesse rapidinho.

- Ai, guria, você é pior do que eu no quesito auto-estima hein!!

Anabela então se calou repentinamente, observando Cristina olhando para os próprios pés, sentada sobre as mãos, com aquela touca estranha enfiada na cabeça. Na verdade estava aborrecida e queria desabafar com a amiga, por isso, estava procurando uma brecha na conversa. Porém, o sinal para entrada dos estudantes bateu, e elas tiveram que ir para a sala, evitando conversar assuntos muito pessoais que pudessem virar fofoca na sala de aula.

A semana toda passou e Cristina passava todos os dias em frente ao cemitério, ao meio-dia e à tarde, para tentar ter ao menos um vislumbre de seu estranho novo amigo. Não chegava a entrar, por medo ou prudência, embora o desejo de vê-lo fosse maior.

Estava no quarto, assistindo TV, na Sexta-feira á noite, quando o vento bateu mais forte nas persianas do quarto. A avó já havia dormido cedo.

O uivo do vento na janela surpreendeu-a, e ela ficou arrepiada no mesmo instante. Havia ficado em casa apesar do convite insistente de Anabela para que saíssem juntas para dançar, já que Anabela havia tido uma briga feia com o namorado e estavam dando um tempo.

- Foi a nossa primeira briga. – dissera Anabela.

- Acho que se vocês se gostam, não deveriam brigar... – respondeu a experiente Cristina.

- Ah, Cris, mas todo mundo tem uma briga de vez em quando.

Cristina sorrira consigo mesma, pensando que se fosse com ela, jamais teria uma briga ou discussão com o ser amado. Levantou da cama devido ao vento insistente na janela, achou que valia á pena dar uma espiada para ver se o vulto estranho estaria lá no mesmo lugar. Ao abrir a janela, o vento quase lhe arrancou os cabelos para entrar na casa. Ela segurou as janelas com força e procurou na escuridão do cemitério pelo seu vulto conhecido. E não se decepcionou, pois lá estava ele a encará-la de volta.

Cristina nem fechou a janela e correu pegar um casaco no armário, quase rolando escada abaixo porque Tóbi resolvera se esparramar pelo meio do caminho. Correu para fora da casa, fechando a porta desajeitadamente, e o vento lhe fustigou as faces e os cabelos enquanto ela se dirigia feito uma insana para o cemitério.

A jaqueta preta de nylon quase voava e o pijama fino ficava grudado ao corpo enquanto ela andava, com pressa. Quando a avó a viu no corredor saindo daquela forma, correu pegar um casaco e foi atrás da garota.

- Mas que disparate! – D. Ana gritou. – Cristina sua louca! Volte aqui!

Cristina já estava atravessando a rua. A avó continuou seguindo a menina, seguida por Tóbi, que agora latia feito louco. Cristina estava indiferente a tudo, como se estivesse hipnotizada.

Tudo o que ela via era o vulto negro, e estava com tanto medo que seu estomago se contorcia, era como se borboletas geladas pipocassem dentro de si.

CONTINUA...

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