quarta-feira, 3 de agosto de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO III



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CAPÍTULO III

- E ele te deu uma piscada?

- Hahahahaha, deu sim! Eu não consegui agüentar e dei risada!

- Ué, mas por que? – quis saber Anabela.

- Sei lá, é que achei antiquado, mas engraçadinho! Ah, vá, ninguém mais pisca hoje em dia, você sabe!

- É, só em sinal de cumplicidade... – Anabela lembrou quando Davi piscou para ela antes de deixá-la sozinha pela primeira vez com a mãe dele.

- Tome, mais uma cerveja!

Cristina e Anabela estavam tomando cervejas e jogando baralho no cemitério desde as seis horas da tarde, pouco antes de o sol se por. Cristina, na verdade, já havia chegado ás cinco e estava lendo um livro de Jane Austen quando Anabela chegou. As duas ligaram o celular com música bem baixinho e começaram a conversar sobre os últimos eventos. Anabela contou como havia discutido com Davi ao telefone quando ele mencionou comprar alianças de compromisso, e Cristina contou sobre a manhã que passara com Mateus. Ser paquerada parece ter lhe dado mais confiança, e ela contou tudo a Anabela, nos mínimos detalhes.

- Nossa, você gostou mesmo dele, né?

- Ah, que nada! Mas ele foi bem legal, isso fez a diferença! – Cristina estava bem descontraída. Não se sabe se pela cerveja ou pela paquera matinal.

- Vai dizer que não gostou agora! Guria, você nunca conversa com ninguém, e foi logo tagarelando com ele de cara!

- Não foi bem de cara. A gente ficou consertando a casa por umas três horas antes de ir almoçar.

- Sabia que faz tempo que ele está de olho em você?

- Quanto tempo? – quis saber Cristina, incrédula.

- Desde que as aulas começaram, segundo ele me disse. Mas ele disse que te conhece de vista antes disso, porque ele lembra de sempre te ver sentada na varanda da casa, com o cachorro.

- Nossa, eu nunca reparei... – Cristina pensou por uns instantes e pareceu se irritar com a perspectiva. - Ah, então ele me espionava, né!

- Igual metade da cidade, porque sua casa fica bem no centro e você sempre ficava lá, olhando pro vazio, sentada naquela varanda. Até eu lembro de você! Eu e a Ju!

- E a sua amiga, não quis vir?

- Disse que estava com dor de cabeça, mas eu acho que é dor de cotovelo, porque nós não fazemos mais tanta coisa juntas.

- É cara a faculdade que ela paga?

- É Moda, então deve ser caro! Ela teve que ir morar com o pai pra poder fazer, e disse que ele que tá pagando, porque a mãe é professora aposentada, então só dá pra mandar uma ajudinha.

- Moda deve ser legal... – Cristina pensou alto. Quando ia dar mais um gole na cerveja, ela e Anabela ouviram um barulho vindo de algum lugar próximo de onde elas estavam, como se fosse um portão de ferro batendo.

As meninas se entreolharam, sem ter coragem de levantar a cabeça para tentar espiar. Cristina colocou a sua mão de cartas lentamente no chão. Afundou a sua touca chilena na cabeça e se levantou, seguida por Anabela.

- Você é louca? – sussurrou Anabela. – Acho melhor a gente se mandar.

- Não sou mais do que você! – Ponderou Cristina...

- Se tivermos sorte, serão só góticos...

- Se tivermos sorte, serão só gatos... – corrigiu Cristina.

Na verdade, as pessoas mais góticas da cidade eram elas mesmas. Cristina seguiu o barulho que parecia ter vindo de um dos mausoléus que ela mais gostava. Anabela seguia-a, já segurando a sua mão, tremendo. Aproximaram-se das três estátuas que foram postas em frente ao portão, feitas de um material que parecia ser cobre esmaltado. Era uma estátua pintada de vermelho, apontando com o dedo indicador para elas; a outra, ao meio, era verde escura com uma espada em punho, e a terceira era prateada e estava virada para o lado esquerdo, como se estivesse lendo um livro.

O portãozinho de ferro todo adornado que dava para o interior do mausoléu estava totalmente aberto. Dentro, haviam dois túmulos, e o mausoléu não era muito grande, de forma que só poderia entrar umas três ou quatro pessoas por vez. Não tinha flores nem nada, seu único adorno eram as estátuas do lado de fora, as lápides de mármore branco na parte de dentro, e as letras de cobre onde se lia “AQUI JAZ”, porém os nomes dos donos dos túmulos estavam faltando. Só se podiam ler as datas das mortes, uma de 1859 e a outra de 1876. As duas, vendo que estava vazio, entraram para ver mais de perto.

- Esse túmulo é bem antigo né...

- Deve ser de um dos pioneiros da cidade. – disse Anabela.

- Olha, a tampa está meio aberta...

Cristina passou os dedos pela abertura na lápide, como se tivesse sido movida para o lado.

- As letras de cobre já tinham sido tiradas faz tempo, mas a tampa sempre estava fechada.

- Será que estavam tentando saquear alguma coisa de dentro do túmulo?

- Parece que sim, é melhor a gente ir embora. Se forem ladrões, ainda estão por aí.

As duas amigas foram apressadas para o local onde estavam conversando antes, e resolveram terminar o jogo de cartas na casa de Cristina, que não era muito longe dali. Cristina não resistiu à vontade de dar uma última olhada no Mausoléu enquanto Anabela fazia a volta com a BIZ para irem para a casa dela, e desta vez ela viu mesmo um vulto escuro a observar as duas, da porta do mausoléu das três estátuas.

Cristina desceu da BIZ e abriu o portão para a amiga colocar a moto dentro da garagem.

- Nossa, sua casa é mesmo o máximo. – observou Anabela enquanto elas entravam.

- Você acha? Todo mundo acha meio caída...

- Todo mundo quem, cara pálida?

- Meus parentes, o entregador do supermercado, o carteiro... e sua amiga Juliana.

- Não liga pra o que ela diz... Ela só não te conhece direito, por isso tem um pouco de ciúmes...

- Acho que ela não vai com a minha cara.

- Já é um milagre ela ir com a minha... – riu-se Anabela. Depois suspirou. - Você podia dar uma festa aqui algum dia.

- Quer dizer, no Halloween??? – sugeriu Cristina, fazendo mofa com a amiga, pois a casa parecia um cenário perfeito. Mas então se pegou perguntando quem mais ela convidaria para a festa, já que não tinha mais amigos...

- Claro! Podemos fazer uma festa para a nossa sala da faculdade! Afinal, eles vivem indo no sítio do Ricardo, e eu não agüento mais aquele sítio.

- Só tiveram duas festas até hoje e você não agüenta mais? – ironizou Cristina.

- Você fala porque não foi naquele sítio lamacento ainda...

Cristina ia retomar o assunto do cemitério, para contar para Anabela sobre o vulto, quando o celular da amiga tocou. Era Davi, que viria buscá-la em cinco minutos, pois já eram nove horas.

- Estou na casa da Cristina, aqui em frente á escola de informática. Não, na subida. OK. Beijo, tchau!

- Era seu namorado?

- Era, ele já está vindo. Tem certeza que não quer ir na festa? – Anabela seria capaz de implorar se preciso fosse, pois não queria ter muito tempo sozinha com Davi naquela noite. Ele a estava pressionando para usarem alianças de compromisso.

- Tenho, deixa pra outra hora. Eu nem me arrumei nem nada... – Cristina estava insensível à ansiedade da amiga, pois nem imaginava o que se passava entre ela e o namorado, já que uma não conversava explicitamente sobre assuntos pessoais com a outra.

Cristina também pensou se contaria ou não sobre o vulto, mas achou melhor não assustar a amiga antes de ela ir para a festa. Poderia ser só um fantasma, ou coisa pior, algum ladrão ou maníaco.

- Então tá, eu vou sozinha... – disse Anabela e Cristina achou muito estranha a maneira de ela falar, resignada, afinal, estava indo a uma festa, e com o namorado. Mas Anabela continuou: - ... e acho melhor a gente ir no cemitério passear só de dia, por enquanto.

- Beleza. Vamos ver se tem algo pra comer?

- Bom, eu... pode ser, não queria comer, mas não sei se na festa vai ter alguma coisa.

As duas foram para a cozinha, onde a avó de Cristina assistia a TV antiga, pois não tinha televisão na sala, só uma na cozinha, que era da sua avó, e uma de tela plana no quarto. Tóbi, seu velho cão, já se enrodilhara em frente ao fogão à lenha que a avó havia acendido.

- Eu sei fazer umas panquecas com queijo que são uma delícia! – disse Cristina enquanto já reunia os ingredientes em cima da mesa.

- Olá D. Ana. – Disse Anabela abraçando a velha senhora, que retribuiu com um beijo na bochecha.

Anabela observou o ambiente bucólico ao seu redor, aquela casa antiga e enorme, com o cheiro de casa de avó: ervas e temperos de cozinha, perfume da madeira das paredes e talco. O teto era alto ao estilo das casas germânicas; as janelas estreitas e também alcançavam quase até o teto... e sentiu uma enorme simpatia pela amiga, que passava a maior parte do tempo com aquela senhorinha fofa. Só achava estranho porque Cristina parecia tão fria com ela.

- Tem certeza de que não quer mesmo ir à festa? Você pode se arrumar rapidinho e eu te ajudo a se maquiar.

- Não, obrigada. Preciso passar mais tempo com a vó, e o Tóbi...

O cachorro ergueu a cabeça ao ouvir o seu nome, e encarou a dona por alguns segundos, para depois, repousar novamente a cabeça sobre as patas, morrendo de preguiça. Ele já estava um pouco velho e na verdade não se importava em passar grande parte do tempo sozinho.

- Bobagem... – Praguejou D. Ana. – Por mim você pode ir pra onde você quiser. Melhor aproveitar a vida, senão depois casa e aí já era... – Disse a senhorinha, levantando-se e tirando a colher da mão da neta que estava empelotando a massa de panqueca.

- Ai, vó...

- Menina, pega o queijo e deixa a massa comigo...

As meninas comeram suas panquecas, e quando já iam terminando, ouviram uma buzina em frente à casa de Cristina. Era Davi, que viera buscar Anabela.

- Tchau Cris. – Anabela deu um beijinho na bochecha da amiga e da avó dela e saiu. – Obrigada pelas panquecas, D. Ana!

Cristina ainda acenou para Davi e esperou até o carro sumir de vista antes de fechar a porta da varanda. Apagou a luz da mesma, trancou toda a casa e se certificou duas vezes. A avó já havia ido dormir nesse meio tempo, deixando a pia de louça para ela lavar de manhã cedo. Tomou um banho, deu um pouco de ração para Tóbi que vivia enfastiado e subiu para o quarto, com uma xícara de chá de cidreira na mão.

Resolveu observar a noite da janela do quarto. Não havia lua mas o céu estava limpo e estrelado. Sentou-se no parapeito sorvendo o seu chá quente, e só então pode reparar que dava para ver o cemitério da janela de seu quarto. Não lembrou de já ter reparado nisso antes, pois sentar-se à janela do quarto no segundo andar era um costume bastante antigo seu, dava pra ver boa parte da cidade já que a janela era bem alta e ela morava em uma subida.

Talvez alguém tivesse podado suas árvores recentemente, ela pensou, desobstruindo a vista. Tentou localizar o local onde antes estivera com a amiga Anabela, quando deparou com aquele mesmo sujeito que vira antes, lá dentro do cemitério. Ele parecia vestir uma túnica ou casaco bem comprido, preto, e seu rosto parecia oculto pela sombra do capuz sobre sua cabeça. Cristina se sentiu bastante incomodada ao perceber que o sujeito misterioso parecia fitá-la de volta. Mesmo com a grande distancia entre eles, o sujeito do cemitério estava voltado para ela, sem se mover, e a sensação de estar sendo observada por aquele ser estranho fez Cristina sentir ondas de calafrios pelo corpo.

Fechou a janela, terminou o chá e se deitou. Logo, Tóbi entrou no quarto e se deitou também, só que sobre o tapete. Cristina ligou a TV e colocou um filme no aparelho de DVD, mas nem quinze minutos do filme se passaram e ela já estava em sono profundo, ressonando com a boca aberta e o controle do DVD quase caindo de sua mão.

O homem, ou criatura de manto negro no cemitério permanecia lá, estático, observando a janela do quarto de Cristina. Ao que parecia, a garota havia percebido sua presença, mais de uma vez, e isso o deixara intrigado. Não era algo muito comum de acontecer e ele então resolveu observar o que se passava do lado de dentro do quarto, e sorriu ao ver a ruiva dormindo de qualquer jeito na cama. Cristina adormecera na metade do filme, ainda com o controle na mão, que acabou escorregando e caiu com um estalido sobre o assoalho de madeira, assustando o cachorro que acordou de um salto e correu para dormir sobre o tapete da cozinha, onde as últimas brasas do que antes fora um fogo abundante ardiam.


CONTINUA...

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