segunda-feira, 22 de agosto de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO IV





CAPÍTULO IV

Cristina acordou um tanto nauseada no dia seguinte. Era domingo e como sempre, para Cristina, um dia sem maiores expectativas. Estava ensolarado mas havia um vento frio, furioso. Cristina colocou seu agasalho de domingo, o mesmo de sempre, preto, imitação da Adidas. Colocou mais uma jaqueta bem grossa e comprida por cima, cachecol vermelho e sua touca chilena, e depois do café, saiu para dar uma volta pela cidade com Tóbi.

Ele mijava a cada poste e árvore do caminho, e quando resolveu fazer o número dois, Cristina amaldiçoou a si mesma por ter esquecido do saco e da pazinha para ajuntar os dejetos do animal. O cachorro, após terminar o ato, virou a cabeçona para trás com um olhar de “desculpe” e deu um meio sorriso, continuando seu alegre passeio. A menina ficou mais uns dez minutos morrendo de vergonha, embora ninguém tenha presenciado seu pequeno crime.

Andaram por quase dois quilômetros, e na volta, Cristina resolveu passar pelo cemitério. Como Tóbi era um cachorro mais ou menos obediente e o local estivesse vazio a não ser por eles dois, ela soltou o cachorro da coleira e ficou a dar voltas no lugar enquanto ele corria feito louco, devido à alegria de ter sido solto da coleira. Um parque seria mais apropriado, foi o pensamento de ambos, mas Cristina estava ansiosa para chegar até o local onde o estranho da noite passada a observara, para ter uma idéia de qual a visão que ela ou ele tivera.

Cristina colocou-se na mesma posição do vulto e pode notar que ele tinha uma ampla visão de sua casa, realmente, à exceção da parte que ficava nos fundos. A casa ficava quase de frente para o cemitério, coisa que ela nunca havia notado, mas ficava a uma distância realmente grande. Parecia impossível que a criatura conseguisse enxergar, de fato, o rosto de Cristina. Por isso ela ficou mais aliviada, pois se fosse um maníaco ou algo assim a observá-la, e se ele estivesse ou chegasse ao local naquele momento, não teria como saber que ela e a moça da janela eram a mesma pessoa. A não ser que já a estivesse espionando há tempos, ideia que Cristina prontamente descartou. Era muito consciente dos olhares ao seu redor, e das pessoas; nunca havia notado ninguém a seguindo ou observando os seus passos, exceto por Mateus, na faculdade.

De repente, Cristina ouviu um barulho vindo de dentro do mausoléu das três estátuas, como de algo pesado sendo arrastado. Ela ouviu nitidamente pois estava muito próxima a ele, e decidiu aproximar-se mais, prendendo a respiração por alguns instantes para ouvir. O vento gelado fustigava o local e ao passar pelas janelas, portinholas e vidros quebrados dos mausoléus, uivava e se lamentava pelos mortos. Cristina percebeu que não podia ver ou ouvir Tóbi em nenhum lugar ali por perto. O cão simplesmente desaparecera de vista naquele momento, mas a curiosidade da menina era maior, e ela avançou até ficar encostada em uma das paredes de fora do mausoléu, atrás das três estátuas.

- Tem alguém aí? – perguntou, meio sussurrando, para dentro do mausoléu. Não sabia bem por que fazia aquilo. Uma voz interior lhe dizia que devia mesmo era sair correndo. - Tóbi?

Esperou alguns minutos até ouvir uma respiração pesada, ressonante. Seu corpo se retesou no mesmo instante, e ela não teve coragem de avançar. Viu apenas as pontas de um manto negro de um tecido que parecia ser lã ou algodão bem pesado esvoaçando para fora da portinhola, pela ação do vento.

- Olá...- respondeu a pessoa dentro do mausoléu, meio incerta.

A voz mais doce que Cristina já havia ouvido na vida; que parecia reconforta-la instantaneamente; navegou pelo ar em ondas sonoras como finíssimos fios de seda dourados, até os ouvidos dela. Era uma voz masculina. O vento então parou de fustigar, tornando-se apenas uma brisa morna, que carregou até as narinas da menina o mais doce perfume de flores.

- “É jasmin...” – pensou.

E saiu correndo feio louca. Tropeçou na escadaria da saída do cemitério e teria se estatelado no chão se não fosse rápida como um gato. Chegou em casa muito nervosa mas não subiu ainda para o quarto. Tóbi não a havia seguido, precisava voltar.

- Mas o que está acontecendo menina! Está branca como giz?!

Cristina olhou de canto para a avó enquanto apoiava as mãos nos joelhos recuperando o folego. Fez sinal para ela esperar até que conseguisse falar.

- Onde você foi, o que aconteceu? ? Quer matar uma velha de susto é?

- Calma vó, eu já explico... Ufa! Ufa!

Tóbi passou pelas duas que estavam na cozinha e se deitou no tapete, também meio resfolegante.

- Apostando corrida com o cachorro, né! – Disse a vó. – Já não bastava tentar me matar do coração cada vez, agora quer tentar matar o cachorro também!

- Não é isso, vó! – Cristina pensou em tentar contar o que havia acabado de acontecer mas pensou melhor.

- Nós dois somos velhos, temos o coração fraco! – Praguejou a avó enquanto ía para fora regar as folhagens.

“Melhor não falar nada.” – pensou. “Ela vai ficar preocupada pensando que eu ando por aí dando mole para estranhos.”

- É que eu tropecei na escada, e quase caí. Meu joelho que ficou doendo, só isso.

- Que bom, porque parecia que tinha visto a morte!

Cristina deu um sorriso amarelo e foi para seu quarto. Esgueirou para se esconder entre as cortinas e ficou olhando para o cemitério á procura do seu interlocutor de mais cedo. Com certeza era um homem, a voz era inconfundível. Pela fresta da cortina, conseguiu ver que ele ainda estava lá. Quase se jogou no chão pois parecia que ele a olhava de volta. 

CONTINUA...

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