quarta-feira, 3 de agosto de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO II


CAPÍTULO II

Cristina passou o sábado de manhã fazendo faxinas e reparos pela casa. Obviamente não era muito boa nisso, e estava do lado de fora praguejando contra uma veneziana que havia caído da dobradiça enferrujada, quando Mateus, que passava por ali, teve sua atenção despertada pelas injúrias de Cristina contra o pedaço de madeira.

Ele abriu o portão, e Cristina foi surpreendida pelo barulho, pois poucas vezes ela ouvia o portão ranger á entrada de alguém num sábado de manhã. Bem, o portão sempre rangia, mas geralmente só Cristina entrava e saía por ele, além do carteiro, e do entregador do supermercado, ou a avó, quando saía para a Missa. Mateus viu a cara de surpresa, ou estupefação com que ela o olhou, e foi logo se oferecendo pra quebrar o gelo:

- Quer ajuda?

Cristina largou a veneziana no chão, e esta caiu de ponta, com um estalido seco. Cristina largou-a não porque fosse pesada, mas porque realmente ficou sem saber o que fazer com a aproximação do rapaz. Ele nunca tinha feito isso, ido á casa dela sem ser convidado. Mateus ficou meio alarmado com a cara que ela fazia, como se ele fosse algum bárbaro invadindo as terras dela.

- Você... precisa de ajuda?

Cristina avermelhou e saiu daquele estado de transe:

- Não... eu... não, eu acho que não.

Mateus se aproximou mais e ajuntou a veneziana do chão.

- Sempre achei a sua casa o máximo.

- É... – Cristina deu uma olhada na casa, que, apesar do charme e da arquitetura antiga darem-lhe uma certa imponência, precisava urgente de uma pintura e algumas reformas. No mesmo instante, seu rosto passou do tom avermelhado para o roxo, pois ela ficou com vergonha da casa caindo aos pedaços. – Só precisa de uma pintura... hehehe

- Pois é, se você precisar de ajuda, estamos aí! – Mateus, que já conhecia o suficiente de Cristina, se odiou por ter dito algo tão evasivo, pois poderia ser uma deixa para a garota cortar o assunto e fugir, e foi o que ela tentou fazer.

- Ah, imagina. Não precisa... – ela tentava articular as palavras de forma a parecer descontraída. – Eu vou deixar isso pro verão.

Mateus passava a mão pela veneziana e quando algo fisgou seu dedo:

- Nossa, - ele realmente estava surpreso – essa dobradiça está bem enferrujada!

Cristina se sentiu culpada no mesmo instante:

- Puxa vida! Me desculpe! – ela disse atônita, já tirando a veneziana da mão dele, e olhando o dedo machucado. Mas não havia machucado algum:

- Não, não chegou a cortar, - disse o rapaz, simpático. – Se cortasse, seria melhor me levar pro pronto-socorro pra tomar uma antitetânica, né? – e terminou a frase com uma piscada para a menina.

Cristina nunca tinha ganhado uma piscada de um paquera, e achou aquilo tão antiquado, mas engraçado, que acabou rindo feito uma estúpida:

- Hihihihihi – e abaixou a cabeça ao se sentir mais ridícula do que já se sentia.

- Nossa, que sorriso lindo que você tem... – no mesmo instante Cristina ficou séria, olhando pro chão e Mateus achou melhor falar coisas menos galanteadoras. Que estúpido, pensou consigo mesmo. Desse jeito só vai espantar a garota.

- Você precisa de ajuda com isso aqui – disse ele, ficando sério de repente. Quer que eu vá comprar umas dobradiças novas e venha te ajudar a colocar de volta?

- Não... – Cristina já ia começar a recuar... Achou um absurdo ele se oferecer para comprar coisas pra casa dela.

- Eu insisto Cristina. – disse Mateus, meio sério, autoritário. – Você tem que contar com os outros de vez em quando! – E ao dizer isso, Cristina levantou o rosto para fitá-lo, mas sem parecer surpresa. Apenas o olhou nos olhos, como que concordando. Ele lhe devolveu um sorriso mais relaxado, confiante. – Vou lá na loja comprar umas dobradiças, precisa de mais alguma coisa?

- Eu tenho dobradiças novas lá dentro... – disse ela, já um pouco menos arredia.

Cristina virou-se e foi para dentro de casa. Cada passo que dava fazia barulho no piso, como sempre acontece em casas antigas, de piso de madeira:

- Adoro esse tipo de piso, me faz lembrar da casa da minha avó! – disse Mateus, que resolveu seguir Cristina já que ela não o convidara a entrar.

Cristina segurou a respiração ao perceber que ele estava muito próximo.

- Espere aqui, vou lá fora no rancho.

Mateus ficou olhando ela sair pela porta da cozinha, para uma espécie de alpendre nos fundos, que dava para um rancho de alvenaria que deve ter sido o defumador em tempos antigos. Tinha até um forno de tijolo, e dava pra ver uma banheira de cobre.

- Isso aí foi o defumador ou banheiro da sua avó? – Mateus falou mais alto para que ela o ouvisse.

Cristina gritou do rancho:

- Defumador e forno à lenha. Eu que coloquei a banheira.

- Nossa, sozinha?

- Não, meu pai me ajudou.

- Ah, boa idéia. Você acende o forno à lenha no inverno e já aproveita pra assar um pão enquanto toma um banho quentinho e demorado... né?

Cristina teve que sorrir:

- E já aproveita pra do outro lado defumar umas lingüiças. – ela completou.

Mateus deu risada e ficou contente por estarem se entrosando, e Cristina nem percebeu que já estava fazendo piadinhas.

- Seu pai está em casa? – lembrou Mateus, já que tinha visto Cristina fazendo reparos na casa, algo que em sua cabeça, era coisa para o homem da casa fazer.

Seus pensamentos começavam já a tomar formas e voar animados pela sua cabeça ao imaginar que estava a sós com Cristina em casa quando uma lufada de vento passou pela parte de trás de sua camiseta, e ao se virar deu de cara com uma senhorinha de cabelos brancos, cheirando a alfazema e comida com alho:

- Olá garoto.

Mateus estremeceu de susto, e se fosse um gato teria ficado todo arrepiado. Simplesmente nem havia percebido a avó de Cristina se aproximar, e ela falava perto demais dele.

- Olá... – Disse o rapaz, meio incerto, se afastando lentamente, com todo o cuidado.

- Não. – respondeu Cristina, nesse meio tempo. – Eu moro só com a minha avó.  – Cristina voltou do rancho com uma maleta de ferramentas de metal numa mão, e deu uma outra de plástico para ele.

Mateus ficou olhando para a garota, mudo, enquanto ela passava por ele. Quando resolveu se mexer, ela já estava quase do outro lado da casa. - Não vai me apresentar a sua avó?

- Não vai me apresentar seu namorado?  - Perguntou a avó por sua vez. – Meu nome é Ana. – e D. Ana apertou a mão do rapaz com os dedinhos macios e gelados.

- Ele não é meu namorado. – disse Cristina, já não tão pateta quanto antes.

- Não liga pra ela. – Disse D. Ana. – Ela é meio carrancuda. – E saiu nos seus passinhos de pantufa para o quintal.

Mateus interrompeu a menina quando ela ia começar a desparafusar a dobradiça enferrujada, e fez quase todo o trabalho sozinho. Trocaram mais umas seis persianas com defeito e algumas ripas que estavam soltas foram fixadas no lugar, nas venezianas e ao redor da casa. Cristina ficou só de ajudante mesmo, como tinha que ser, na opinião de Mateus, que teria assumido a reforma da casa toda se ela deixasse.

- Não sei pra que ficar arrumando essa casa velha... - Comentou D. Ana em voz alta quando eles passaram pela janela da cozinha.

- Eu gosto dela, vó...

Cristina acabou se queixando de fome, e Mateus a convidou para almoçarem juntos no centro da cidade.

- Sabe, era isso mesmo que eu vim fazer aqui hoje de manhã.

- O que ? – quis saber Cristina.
- Convidar você pra almoçar. Eu já tinha pensado de vir almoçar no centro e como fica perto da sua casa, pensei em te convidar pra ir também.

- E se eu me recusasse a almoçar fora com você?

- Eu teria que entender né... Mas eu levei sorte hoje, por causa da veneziana que caiu!

Cristina sorriu, e os dois foram lavar as mãos. Quando já íam saindo, com as roupas meio sujas mesmo, foram interrompidos pela avó de Cristina.

- Aonde pensam que vão?

- Almoçar no centro, vó.

- Nessa sujeira? - A avó pareceu surpresa.

- Não exagera... - Falou a garota.

- Não senhora, eu já estou fazendo almoço pra três.

Mateus nem reclamou já que seu estomago estava realmente roncando. Cristina não gostou muito da ideia com medo de a avó constrange-la na frente do rapaz, mas acabaram conversando e almoçaram animados. Cristina mostrou-se mais tagarela do que ele poderia imaginar, falando, às vezes, com a boca cheia de comida. Mateus ria consigo mesmo, e só não a convidou para uma festa que teria à noite porque sabia que ela já tinha combinado algo com Anabela.

Com certa relutância, se despediu de Cristina, e da D. Ana. Cristina disse que tinha que se arrumar para encontrar com Anabela dali a algumas horas, não sem antes levar o cachorro, que ainda estava no canil, para dar umas voltas. Ele ia se oferecer para ir junto, mas achou melhor não ficar dando muito em cima, ou ela poderia enjoar dele e começar a recuar novamente.

Deram dois beijinhos no rosto, e ele ainda lhe lançou uma piscadela, o que a fez rir baixinho de novo. E assim cada um seguiu o seu caminho: ele contente mas intrigado pensando o que ela tinha achado de tão engraçado, e ela tentando segurar o riso a cada vez que lembrava do Mateus piscando.

- Que fofo... – Disse D. Ana, meio distraída olhando o rapaz indo embora. E saiu com seus passinhos curtos na pantufa, dando risadinhas, enquanto Cristina revirava os olhos e ria consigo mesma a caminho do canil.

CONTINUA...

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