segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

SOBRE A MORTE

Source: Pinterest.com


Corremos tão rápido
Em direção aos nossos objetivos,
Sempre lutando com os minutos
Que não tem piedade e não nos esperam.
Temos hora marcada para tudo,
Temos que respeitar os horários,
Os atrasados são sempre criticados,
Pessoas que não respeitam,
Que não tem organização.
Muitas vezes eu me pergunto
Se toda essa correria vale á pena.
Pois a morte não pede licença,
E não tem hora pra chegar.
Quando menos você esperar
Pode ser a sua vez de se deitar
Pra sempre
Embaixo da terra fria.
E aquela pessoa que você não pode beijar
Porque estava com pressa
Você nunca mais poderá tocar
Ou olhar nos olhos de novo.

Marie Jo
Dezembro de 2016

AS MÃOS DE SARAH

Foto de: Blog da Ritinha


A EXISTÊNCIA É UM PERPÉTUO EQUILIBRAR ENTRE A VIDA E A MORTE.

Guiga era um garoto normal de nove anos que ía á escola todos os dias acompanhado pela mãe, Sarah.

Ele era um excelente desenhista, porém muito tímido e reservado. E como a maioria das crianças tímidas, sofria bullying pelos mais variados motivos.

Eram coisas leves mas que ficavam na sua cabecinha de criança, martelando, incomodando, e ás vezes quando ele desabafava com a mãe, se sentia um pouco melhor.
Mas ele raramente o fazia.
Mesmo assim não carregava as tristezas que os coleguinhas lhe infligiam por muito tempo na sua cabeça despreocupada de criança.

Já a mãe de Guilherme, Sarah, não levava tudo muito na esportiva.

Ela tentava ensinar ao filho que o melhor de tudo era ficar frio e não dar muita atenção á idiotice alheia porém ás vezes o menino chorava e aquilo lhe fazia arder por dentro.

Sarah percebia que o filho gradativamente perdia o interesse por brincadeiras e que quando chegava na escola ficava um pouco mais isolado dos outros. Um dia ele chegou realmente aborrecido em casa porque, como estava ficando um pouco sedentário, os colegas estavam tirando sarro do corpo do garoto, inclusive apertando seu peito.

Eles ficaram falando: Tetinhas, tetinhas! Contou o garoto em meio a lágrimas.

Sarah decidiu que aquilo era demais! Iria á escola no dia seguinte falar com a professora, com a diretoria, com o apoio pedagógico.

Porém  saiu de lá com a certeza de que essas pessoas jamais protegeriam o seu filho como ela o faria.

Inclusive foi criticada por seu filho ser uma criança isolada, sedentária, pois a culpa era sua, claro. Não tinha nada a ver com a maneira como as outras crianças o tratavam. O sofrimento dele não era causado pelos outros colegas que eram na maioria cruéis e pouco se importavam com os sentimentos alheios.

Ela que era um mau exemplo e não estava educando o garoto direito, deixando ele ser preguiçoso e isolando-o dos demais com seus costumes estranhos e sua morbidade.

Sarah era conhecidamente uma cartomante, e as más línguas a acusavam de bruxaria e magia negra.
Na vida real não era nada disso. Sarah lia cartas sim, mas apenas para os conhecidos. E alimentava um blog dedicado á Tafofilia, para pessoas que gostavam de passear e admirar cemitérios.

Mas Sarah não se esforçava por abafar as fofocas porque sabia que as pessoas, a maioria delas pelo menos, eram falsas piedosas, e valorizavam muito mais os boatos do que a procura pela verdade.
Sarah era apenas uma estudante de esoterismo e se interessava por temas um pouco mais macabros, além de ser amante de filmes de terror.
No fundo, ela era muito zen, e tentava passar isso ao filho. Mas o que o menino herdou mesmo foi seu gosto pelo gótico e pelo terror.

Guiga desde cedo já sabia que a morte fazia parte da vida. E no fundo isso era um profundo sinal de sabedoria que Sarah admirava no garoto.

A gota d'água, porém, foi quando o garoto passou a ser ameaçado por uma coleguinha e seu irmão mais velho acerca de um desenho. Os dois viviam pedindo a Guiga para desenhá-los, mas o menino não se sentia á vontade quando era pressionado. E eles passaram a pressioná-lo mais ainda, inclusive ameaçando-o de levar uma surra no final da aula. Assim ele jamais conseguiria fazer um desenho sequer da dupla, pois estava sentindo medo e perdendo a confiança em seu dom. Desenhar era sua alegria, e eles estavam tirando essa alegria dele, bem como seu sossego.

Sarah decidiu que era hora de começar a dar o troco. Afinal, o mundo não sentiria falta de algumas pessoas idiotas. Estava saturado delas. E a vida era assim mesmo, um dia alguns nascem, no outro alguns morrem. Começou a estudar artes das quais a maioria das pessoas nunca ouviu falar. Artes ás quais ela tinha acesso graças aos contatos ao redor do mundo que ela conseguiu através de seu blog e suas pesquisas na internet.

Naquele dia Sarah levou seu filho á escola, e sentou-se com ele no muro antes da entrada. Tiraram da mochila um papel em branco e um lápis, e Sarah fazia movimentos estranhos com a mão segurando o papel e lápis enquanto murmurava algumas coisas que pareciam ser de uma língua muito antiga.

As crianças da sala de Guiga ficaram observando ao longe. Os adolescentes passavam encarando e dando risadinhas. Alguns falaram em voz alta: bruxa! Mas Sarah e o filho apenas trocaram um olhar de cumplicidade e um breve sorriso.

Quando Sarah, terminou, Guiga pegou o papel e lápis, beijou a mãe e sentou-se no alpendre da escola, começando a desenhar. Faltavam ainda dez minutos para bater o sinal e a mãe do menino ficou olhando do portão o que ele estava fazendo.
As crianças da sala dele se aproximaram e viram que ele desenhava os pombos que vez ou outra bicavam os restos de lanche no pátio..
O desenho era rápido mas estava ficando bem feito.
Mostrava alguns pombos no chão, e outros no telhado esperando o sinal bater para poderem descer ao pátio bicar restos de chips conforme sempre faziam. Conforme estava acontecendo naquele exato momento.

A menina que o ameaçava, Nataly, deu risada do desenho e Guiga o deu a ela de presente.

- Tome, o desenho que você me pediu.

- Mas eu não queria isso aqui! - Disse ela, meio grossa. - Eu queria que você desenhasse eu e meu irmão!

- Fica com esse, por enquanto.- Disse Guiga.


O sinal para a entrada bateu e Guiga lançou um aceno á sua mãe, de longe, e ela foi para casa.


Enquanto ainda estavam na fila para entrar na sala, seis pombos caíram mortos ao chão.

O fato causou um certo frenesi nas crianças, mas a aula prosseguiu normal até a hora do recreio.
Os meninos que beliscavam o peito de Guiga fizeram das suas de novo:

- E aí Tetinhas, tá ficando gordinho hein!

Um dos garotos era irmão de Nataly. Eles seguraram Guiga e o beliscaram no peito várias vezes.

- E você vai fazer o desenho que a Nataly pediu amanhã, senão eu te arrebento! - Falou o irmão de Nataly, prensando-o contra a parede.

Guiga tentou se proteger, mas sem sucesso. Porém, não soltou um gemido sequer. Em casa mostrou para a mãe as manchas roxas que chegaram a se formar onde fora beliscado.

Sarah conteve-se para não chorar. Não queria que o filho se sentisse vítima. Queria que ele aprendesse a não demonstrar sentimento, a ser forte, a reagir quando preciso fosse.

No dia seguinte, novamente a cena das mãos sobre o lápis e papel se repetiu. A maioria das pessoas adultas parecia nem perceber. Mas as crianças que observavam pareciam apreensivas. Elas se lembravam dos pombos e do desenho deles da manhã anterior.

As mãos de Sarah desenhavam formas estranhas no ar, ao redor do lápis e do papel. Desta vez porém Guiga os guardou até o recreio.
Ao final do recreio, Nataly foi até ele, no canto em que ele estava encolhido, debruçado sobre algo no degrau do alpendre.
Ele pareceu se assustar quando ela o tocou no ombro.

Recompondo-se, Guiga terminou o que fazia, e entregou um pedaço de papel á menina:

- Toma, o desenho que seu irmão pediu. O seu eu faço amanhã.

Era uma caricatura mal feita dos cinco garotos que o ameaçaram e molestaram recentemente. Eram mais velhos, de outra classe. Adolescentes barulhentos e desrespeitosos na maioria das vezes. Nataly entregou o desenho a eles, que caíram na gargalhada. Dessa vez não tocaram Guiga, apenas acenaram de longe com o dedo do meio, em meio a gargalhadas.

Ao final da aula, um deles foi atropelado ao correr de sopetão sobre a faixa de pedestres. Apesar de ser uma saída de escola, o motorista foi pego desprevenido, e o baque foi forte. Chamaram a ambulância, e levaram o garoto inconsciente para o hospital.

No dia seguinte, as crianças pareciam um pouco mais caladas do que de costume. Algumas andavam de olhinhos arregalados, apreensivas.

Dessa vez não houve a cena do encantamento do papel entre Sarah e Guiga.

Corria pelos corredores da escola os rumores dos últimos acontecimentos: o atropelamento do garoto no dia anterior, que bateu a cabeça muito forte e estava em coma. As meninas da sala choravam.
Um grupo veio correndo contar que mais dois deles não haviam vindo á escola e os pais haviam informado á direção que os garotos estavam desaparecidos desde o dia anterior.
A diretoria esteve na sala de aula deles e conversou com a turma procurando por informações.

Guiga observava a movimentação ao longe, no recreio. Sentado no palco do alpendre, as pernas balançando, comendo seu lanche calmamente. Nataly chegou-se devagar e sentou-se ao lado dele. Não disse uma palavra. Era chata e barulhenta com ele. Ás vezes lhe batia só por pirraça, para ele dividir o lanche. Levava coisas de seu material escolar para casa. Era uma amiga inimiga, parecia sentir gosto em importuná-lo, e ele nunca reagia.

Guiga nem dirigiu seu olhar para ela. O irmão de Nataly e o amigo que sobrou vinham se aproximando. Guiga sentiu um frio na barriga mas esperou paciente. Não se moveria dali. Eles o deixariam em paz. Os dois mal tiveram tempo de atravessar o alpendre e o amigo do irmão de Nataly se agarrou nele com uma mão e com a outra segurou com força a camiseta contra o estomago. Correu para o banheiro mal tendo tempo de segurar o vomito que subia. O irmão de Nataly correu atrás do amigo e logo o sinal para entrar na sala soou.

Guiga levantou-se e deixou Nataly observando a cena, atônita. Uma comoção pareceu abalar a escola no final da aula mas Guiga nem percebeu. Foi distraído para casa, como sempre fazia, brincando na calçada, mexendo com as plantas, conversando com a mãe.

No dia seguinte, Nataly parecia bastante assustada. Ela viu ao longe Guiga vindo com a mãe. Ele segurava um pedaço de papel e um lápis e ela fazia movimentos com as mãos como nos outros dias.

Nataly correu e se escondeu no banheiro até o sino para a entrada soar. Na fila, ela tentou desviar de Guiga mas ele logo se virou ao notar sua presença.

- Esqueci de te dar o teu desenho ontem. - Ele disse, com um meio sorriso.

- Não precisa! - Nataly arregalou os olhos.

- Eu faço depois. - O sorriso de Guiga se intensificou.

A manhã se arrastou para Nataly. Ela observava Guiga o tempo todo e parecia mais branca que de costume. Cada barulhinho lhe dava sobressaltos e ela suava frio. A escola parecia bem menos barulhenta naquele dia.

O sino para o final da aula soou e todos guardaram os materiais menos Guiga. Ele olhou para Nataly sorrindo, com um olhar malicioso e cruel, enquanto começava um desenho com aquele lápis e aquele papel em branco.

A menina saiu correndo e gritando da sala, para nunca mais ser vista.


FIM

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO V


CAPÍTULO V


Demorou uma semana ainda para ela falar sobre o acontecido para alguém. Quando resolveu contar para Anabela, a amiga não prestou muita atenção. Na verdade ficou histérica, achando que Cristina estava delirando, ou tinha quase esbarrado em algum tipo de maníaco. Anabela que gostava de passar um tempo no cemitério, ou cortar caminho por ali, instruiu a amiga a evitar aquele lugar.

Porém, Cristina não parava de pensar naquele ser estranho, e mesmo não mais tendo visto o sujeito, parecia que sua presença nas redondezas de casa ainda era constante. Um final de semana chegou em que ela estava tão encucada que cada movimento que fazia dentro ou fora de casa era pretexto para espiar na direção do cemitério para ver se o vislumbrava.

A avó chamou a atenção da menina naquele dia:

- Que isso menina, está enfeitiçada?

Cristina estava derramando água sobre a ração do cachorro. D. Ana tirou o regador da mão dela e terminou de servir o cachorro sozinha, pedindo á neta para ir até o mercado comprar ovos para a maionese, pois seus pais viriam visitá-la naquele dia.

Cristina saiu pelo portão e ficou ainda uns minutos olhando na direção do cemitério sem se decidir se passaria por ali ou não. Apesar de parecer sentir a presença da criatura estranha, não tinha mais o visto. Já estava para esquecer aquele incidente mesmo, pois era o que seus instintos básicos lhe diziam. Cristina era sempre muito prática, e um tanto cética. Mas sempre tinha aquela pontinha de intuição que ficava repetindo no fundo de sua mente que ela não estava inventando nada daquilo.

Na volta do supermercado, resolveu passar por dentro do local. Passou perto das três estátuas, e sentiu novamente o inconfundível perfume de jasmin. Ao olhar para dentro do mausoléu, o homem encapuzado; ou o que parecia ser um homem encapuzado; caminhou ameaçadoramente em sua direção. Cristina recuou assustada, tropeçando e caindo de bunda, derrubando a sacola com os ovos no chão.

Não conseguia tirar os olhos do sorriso estranho e cruel que aparecia por debaixo do capuz negro. Era um sorriso brilhante, uma boca maldita, que proferia palavras rápidas e assustadoras, ameaçando a menina, dizendo que ficasse fora do seu caminho. Cristina não ouviu uma palavra, e embora tentasse se lembrar do que o estranho lhe dissera, não conseguia se recordar de palavra alguma. Era mais como uma música, irresistível, lenta, entrando pelos seus ouvidos. Mas ela não entendia exatamente as palavras, apenas seu sentido. E o sentido que elas tinham era de perigo. Era como se dissessem que era melhor ela se afastar, mas o efeito que causavam em seu juízo era exatamente o contrário.

O estranho saiu do mausoléu e Cristina perdeu-o de vista entre as tumbas. Seus pais vieram almoçar com elas mas a menina não lhes deu muita atenção. Estava alheia a tudo. Á noite, a avó foi até o quarto conversar com ela. Mas foi inútil. Era como se o corpo de Cristina estivesse ali, mas seus pensamentos estivessem longe. A garota olhava para a avó falando com ela mas tudo o que conseguia ouvir era a música que saía dos lábios ou dos caninos brancos do sujeito do mausoléu das três estátuas.

No dia seguinte, Cristina foi trabalhar na loja de música e mal cumprimentou a chefe e as colegas. Vendeu alguns CDS, cuidou de algumas encomendas de instrumentos, e só não causou nenhum incidente porque já estava mais atenta lá pelo meio-dia. Sua chefe perguntou, preocupada, se ela estava se sentindo bem, e ela apenas a olhou indiferente e fez que sim com a cabeça.

Foi para casa almoçar e só então notou que havia esquecido o portão aberto e Tóbi estava fora do canil. Ele a aguardava, sentado na varanda, em pose de sentinela, todo retesado pela expectativa de que ela lhe desse permissão para sair e dar umas voltas:

- O que você andou aprontando? – Foi a frase que a dona lhe dirigiu, mal humorada e desconfiada. Pobre Tóbi, Cristina estava sendo injusta. Na verdade, ele notou o portão aberto, mas não arriscou a se aventurar pela cidade sem a permissão da dona. Passara a manhã toda na varanda aguardando até que ela chegasse em casa e lhe dissesse pra sair.

Ela abriu a porta ainda encarando o cachorro e ele, na mesma posição, acompanhou-a com a cabeça, devolvendo o olhar, para então entrar dentro de casa, com o rabo entre as pernas. Não seria daquela vez que ela lhe permitiria passear sozinho pela cidade. Da próxima vez, seria melhor fugir mesmo.

A avó parecia preocupada com a menina. Escondeu alguns papéis que estavam na mesa e afagou os cabelos ruivos da mesma quando ela sentou para almoçar. Coisa que não fazia com frequência. Cristina nem notou nada, absorta que estava com seu mundo interior.

À tarde, a tontura já havia passado, e Cristina estava sempre de olho no relógio, esperando que terminasse logo o expediente. Pensou em dar uma passada no cemitério antes de chegar em casa, para ver se encontrava de novo o seu “amigo”. Mas quando chegou a hora de ir para casa, uma dúvida cruel acabou a invadindo, e ela ficou se enrolando ainda uns dez minutos, tentando se decidir, antes de sair da loja. Um leve temor tomou conta de seus pensamentos, enquanto caminhava, misturado a um sentimento de ansiedade e leve excitação.

Acabou se atrasando para a faculdade, e não obteve sucesso em seu passeio no cemitério. Precisava desabafar com alguém sobre o acontecido, e mal Anabela se aproximou e cumprimentou-a, Cristina, sem dizer palavra, puxou a amiga pelo braço e foram sentar em uns bancos mais afastados até que o sinal fosse dado para entrarem na sala.

- Preciso te contar uma coisa... – disse Cristina, meio sussurrando.

- Nossa, que foi? – respondeu Anabela, pescando a tensão no ar.

- Você não acredita, fui ontem no cemitério, de manhã, e vi de novo aquele vulto.

- Sério? – Anabela estava mais incrédula do que excitada, ao contrário da amiga.

- Sim, e ele é estranho... – Sua expressão de excitamento se alterou repentinamente para uma tensão bastante aparente.

- Hum? Estranho? E quem é ele? – quis saber Anabela, meio desconfiada pela excentridade da amiga naquele momento. - Será que você viu então um fantasma, pela primeira vez?

- Será? – Cristina encarou Anabela, desconfiada. A hipótese não poderia ser descartada. O modo como as duas cochichavam acabou chamando a atenção de Mateus que passava por ali. Pensou que na certa estariam falando dele, e resolveu cumprimentar de longe, jogando charme, mas mal foi notado por Cristina.

- Oi Mateus. – disse Anabela.

Cristina foi desperta de seu devaneio sobre o estranho do cemitério e acabou só acenando para Mateus com a cabeça, que só não ficou frustrado porque estava muito distraído fazendo charme, e nem percebeu que quase não fora notado pela sua preferida.

- E o Mateus, hein?

- Que tem ele? – perguntou rapidamente Cristina.

- Achei que estivesse interessada nele. – disse Anabela.

- Ah, não sei... – respondeu Cristina, pois estava realmente incerta sobre ele. – Você sabe, nunca achei nada nele...

- Ta brincando que não acha ele um fofo!?! – respondeu Anabela surpresa.

- Até acho... – Cristina expirou o ar de seus pulmões, confessando: - Acho ele fofo sim, adorei toda a atenção que ele me deu... mas é que não sei... se ele me conhecesse melhor, perderia o interesse rapidinho.

- Ai, guria, você é pior do que eu no quesito auto-estima hein!!

Anabela então se calou repentinamente, observando Cristina olhando para os próprios pés, sentada sobre as mãos, com aquela touca estranha enfiada na cabeça. Na verdade estava aborrecida e queria desabafar com a amiga, por isso, estava procurando uma brecha na conversa. Porém, o sinal para entrada dos estudantes bateu, e elas tiveram que ir para a sala, evitando conversar assuntos muito pessoais que pudessem virar fofoca na sala de aula.

A semana toda passou e Cristina passava todos os dias em frente ao cemitério, ao meio-dia e à tarde, para tentar ter ao menos um vislumbre de seu estranho novo amigo. Não chegava a entrar, por medo ou prudência, embora o desejo de vê-lo fosse maior.

Estava no quarto, assistindo TV, na Sexta-feira á noite, quando o vento bateu mais forte nas persianas do quarto. A avó já havia dormido cedo.

O uivo do vento na janela surpreendeu-a, e ela ficou arrepiada no mesmo instante. Havia ficado em casa apesar do convite insistente de Anabela para que saíssem juntas para dançar, já que Anabela havia tido uma briga feia com o namorado e estavam dando um tempo.

- Foi a nossa primeira briga. – dissera Anabela.

- Acho que se vocês se gostam, não deveriam brigar... – respondeu a experiente Cristina.

- Ah, Cris, mas todo mundo tem uma briga de vez em quando.

Cristina sorrira consigo mesma, pensando que se fosse com ela, jamais teria uma briga ou discussão com o ser amado. Levantou da cama devido ao vento insistente na janela, achou que valia á pena dar uma espiada para ver se o vulto estranho estaria lá no mesmo lugar. Ao abrir a janela, o vento quase lhe arrancou os cabelos para entrar na casa. Ela segurou as janelas com força e procurou na escuridão do cemitério pelo seu vulto conhecido. E não se decepcionou, pois lá estava ele a encará-la de volta.

Cristina nem fechou a janela e correu pegar um casaco no armário, quase rolando escada abaixo porque Tóbi resolvera se esparramar pelo meio do caminho. Correu para fora da casa, fechando a porta desajeitadamente, e o vento lhe fustigou as faces e os cabelos enquanto ela se dirigia feito uma insana para o cemitério.

A jaqueta preta de nylon quase voava e o pijama fino ficava grudado ao corpo enquanto ela andava, com pressa. Quando a avó a viu no corredor saindo daquela forma, correu pegar um casaco e foi atrás da garota.

- Mas que disparate! – D. Ana gritou. – Cristina sua louca! Volte aqui!

Cristina já estava atravessando a rua. A avó continuou seguindo a menina, seguida por Tóbi, que agora latia feito louco. Cristina estava indiferente a tudo, como se estivesse hipnotizada.

Tudo o que ela via era o vulto negro, e estava com tanto medo que seu estomago se contorcia, era como se borboletas geladas pipocassem dentro de si.

CONTINUA...

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO IV





CAPÍTULO IV

Cristina acordou um tanto nauseada no dia seguinte. Era domingo e como sempre, para Cristina, um dia sem maiores expectativas. Estava ensolarado mas havia um vento frio, furioso. Cristina colocou seu agasalho de domingo, o mesmo de sempre, preto, imitação da Adidas. Colocou mais uma jaqueta bem grossa e comprida por cima, cachecol vermelho e sua touca chilena, e depois do café, saiu para dar uma volta pela cidade com Tóbi.

Ele mijava a cada poste e árvore do caminho, e quando resolveu fazer o número dois, Cristina amaldiçoou a si mesma por ter esquecido do saco e da pazinha para ajuntar os dejetos do animal. O cachorro, após terminar o ato, virou a cabeçona para trás com um olhar de “desculpe” e deu um meio sorriso, continuando seu alegre passeio. A menina ficou mais uns dez minutos morrendo de vergonha, embora ninguém tenha presenciado seu pequeno crime.

Andaram por quase dois quilômetros, e na volta, Cristina resolveu passar pelo cemitério. Como Tóbi era um cachorro mais ou menos obediente e o local estivesse vazio a não ser por eles dois, ela soltou o cachorro da coleira e ficou a dar voltas no lugar enquanto ele corria feito louco, devido à alegria de ter sido solto da coleira. Um parque seria mais apropriado, foi o pensamento de ambos, mas Cristina estava ansiosa para chegar até o local onde o estranho da noite passada a observara, para ter uma idéia de qual a visão que ela ou ele tivera.

Cristina colocou-se na mesma posição do vulto e pode notar que ele tinha uma ampla visão de sua casa, realmente, à exceção da parte que ficava nos fundos. A casa ficava quase de frente para o cemitério, coisa que ela nunca havia notado, mas ficava a uma distância realmente grande. Parecia impossível que a criatura conseguisse enxergar, de fato, o rosto de Cristina. Por isso ela ficou mais aliviada, pois se fosse um maníaco ou algo assim a observá-la, e se ele estivesse ou chegasse ao local naquele momento, não teria como saber que ela e a moça da janela eram a mesma pessoa. A não ser que já a estivesse espionando há tempos, ideia que Cristina prontamente descartou. Era muito consciente dos olhares ao seu redor, e das pessoas; nunca havia notado ninguém a seguindo ou observando os seus passos, exceto por Mateus, na faculdade.

De repente, Cristina ouviu um barulho vindo de dentro do mausoléu das três estátuas, como de algo pesado sendo arrastado. Ela ouviu nitidamente pois estava muito próxima a ele, e decidiu aproximar-se mais, prendendo a respiração por alguns instantes para ouvir. O vento gelado fustigava o local e ao passar pelas janelas, portinholas e vidros quebrados dos mausoléus, uivava e se lamentava pelos mortos. Cristina percebeu que não podia ver ou ouvir Tóbi em nenhum lugar ali por perto. O cão simplesmente desaparecera de vista naquele momento, mas a curiosidade da menina era maior, e ela avançou até ficar encostada em uma das paredes de fora do mausoléu, atrás das três estátuas.

- Tem alguém aí? – perguntou, meio sussurrando, para dentro do mausoléu. Não sabia bem por que fazia aquilo. Uma voz interior lhe dizia que devia mesmo era sair correndo. - Tóbi?

Esperou alguns minutos até ouvir uma respiração pesada, ressonante. Seu corpo se retesou no mesmo instante, e ela não teve coragem de avançar. Viu apenas as pontas de um manto negro de um tecido que parecia ser lã ou algodão bem pesado esvoaçando para fora da portinhola, pela ação do vento.

- Olá...- respondeu a pessoa dentro do mausoléu, meio incerta.

A voz mais doce que Cristina já havia ouvido na vida; que parecia reconforta-la instantaneamente; navegou pelo ar em ondas sonoras como finíssimos fios de seda dourados, até os ouvidos dela. Era uma voz masculina. O vento então parou de fustigar, tornando-se apenas uma brisa morna, que carregou até as narinas da menina o mais doce perfume de flores.

- “É jasmin...” – pensou.

E saiu correndo feio louca. Tropeçou na escadaria da saída do cemitério e teria se estatelado no chão se não fosse rápida como um gato. Chegou em casa muito nervosa mas não subiu ainda para o quarto. Tóbi não a havia seguido, precisava voltar.

- Mas o que está acontecendo menina! Está branca como giz?!

Cristina olhou de canto para a avó enquanto apoiava as mãos nos joelhos recuperando o folego. Fez sinal para ela esperar até que conseguisse falar.

- Onde você foi, o que aconteceu? ? Quer matar uma velha de susto é?

- Calma vó, eu já explico... Ufa! Ufa!

Tóbi passou pelas duas que estavam na cozinha e se deitou no tapete, também meio resfolegante.

- Apostando corrida com o cachorro, né! – Disse a vó. – Já não bastava tentar me matar do coração cada vez, agora quer tentar matar o cachorro também!

- Não é isso, vó! – Cristina pensou em tentar contar o que havia acabado de acontecer mas pensou melhor.

- Nós dois somos velhos, temos o coração fraco! – Praguejou a avó enquanto ía para fora regar as folhagens.

“Melhor não falar nada.” – pensou. “Ela vai ficar preocupada pensando que eu ando por aí dando mole para estranhos.”

- É que eu tropecei na escada, e quase caí. Meu joelho que ficou doendo, só isso.

- Que bom, porque parecia que tinha visto a morte!

Cristina deu um sorriso amarelo e foi para seu quarto. Esgueirou para se esconder entre as cortinas e ficou olhando para o cemitério á procura do seu interlocutor de mais cedo. Com certeza era um homem, a voz era inconfundível. Pela fresta da cortina, conseguiu ver que ele ainda estava lá. Quase se jogou no chão pois parecia que ele a olhava de volta. 

CONTINUA...