sábado, 1 de agosto de 2015

CARTAS PARA REGINA - CARTA IV



25/08/1951

 Regina Querida

Por que é que você não responde as minhas cartas?

Sabe, tenho gostado muito desse lugar. Apesar do barulho das abelhas, é um lugar interessante para se viver.

Quero muito dividir com você que fiz amizade com o jardineiro. Ava não ficou muito contente. Aliás depois quero te contar algo muito grave sobre Ava.

Mas voltando ao jardineiro, Ava e eu descobrimos em que ala ele dorme num passeio que fizemos pelo pavilhão norte. Os enfermeiros pareciam não se incomodar conosco dando voltas por aí e entramos em lugares que nem Ava conhecia. Acho que eles tem mais com que se preocupar.

Enfim, isso aqui é grande demais. Um dia estávamos naquela parte do sanatório onde ficam os mais dementes, aqueles que se desligaram do mundo, tomando sol na parte de trás dos dormitórios quando eu comecei a cantar por causa do calor que me animava.
Ava sorriu e me deu um beijo e logo o jardineiro apareceu na janela pedindo que eu continuasse com a cantoria.

Fiquei feliz de vê-lo, e nos apresentamos. Nas semanas seguintes visitei-o com frequência, e ele passou a me chamar de Passarinho, por causa da alegria que meu canto lhe causava. Um dia sentimos falta dele, pois não apareceu á janela, e nem no dia seguinte.

Procurei-o pelas manhãs no jardim em frente á minha janela, que por sinal estava cada vez mais bonito, mas ele também não apareceu por ali.

Ava percebeu que fiquei triste e decidiu me levar para a parte de trás do sanatório onde eu havia me perdido uma vez para ficarmos juntas na torre da capela. Ela disse que havia outros segredos para me mostrar se eu fosse paciente e obediente.

Qual não foi nossa surpresa ao encontrar o jardineiro ali, no alto da torre da capela. Mas ele não parecia nada feliz... Chorava muito, e mal conseguia falar. Eu não pude suportar aquele olhar e o abracei. Ele era bem maior do que eu, e apesar de magro e judiado, ainda era um homem muito forte.

Conversamos boa parte da tarde, e ele começou a acariciar a minha mão. Ava não gostou muito, ficou enciumada e mal falou comigo o resto da tarde. Mas gostei muito de conversar com o jardineiro. Ele é uma pessoa inteligente, tem uma conversa muito interessante. Contou-me coisas de sua vida, coisas sobre ter lutado em uma guerra, sobre ter viajado a outros países e coisas que não podia contar mas que preferia esquecer.

Quando dei por mim, estávamos sozinhos, Ava havia nos deixado a sós. Eu fiquei muito envergonhada, e resolvi voltar para a minha ala antes que alguma enfermeira aparecesse e nos surpreendesse sozinhos. Ele veio se despedir com um beijo no rosto e não sei por qual impulso eu virei repentinamente e o beijei na boca.

O perfume de mil rosas invadiu o meu peito, e fiquei até meio zonza, não sei se de vergonha, de emoção, ou medo, mas eu pedi desculpas rapidamente e corri tanto que entrei em meu quarto com o coração saindo pela boca. E feliz.

Encostei a porta e sentei-me em frente ao espelho e logo Ava apareceu. Meus cabelos em desordem constrastavam com os dela, muito lisos e muito negros. Eu voltava minha atenção ora para meu próprio rosto afogueado e vivo e para o rosto dela, de traços angulosos e pele muito alva. Ela tinha aquele olhar todo grave e meio que malicioso voltado para mim, e lembrei de que tinha ficado emburrada por eu ter dado mais atenção ao jardineiro do que a ela.

Num impulso, agarrei seu rosto e a beijei na boca. Fiquei muito surpresa, até chocada, após receber um tapa em cheio na bochecha. Está meio dolorida até agora. Achei que ela nunca faria isso, pois ela vive me beijando. Ás vezes até me acaricia de uma maneira que uma moça de família jamais deveria permitir, e eu só permito porque estamos todos perdidos nesse mundo estranho, mesmo.

Sabe, não sei mais se posso confiar em Ava. Acho até que vou me afastar dela. Acho que ela está aqui por causa dessas coisas que ela faz. Não é normal uma moça fazer o que ela faz comigo.

Regina, ás vezes eu fico confusa. Mas pensando bem, gosto daqui. Estou feliz aqui como nunca fui aí fora. Martina achou que me faria mal armando para que meus pais me trancassem aqui. Mas ela não sabe o bem que me faz.

Um abraço,
Estella.



MANIFESTO DADAÍSTA Nº II



MANIFESTO DADAÍSTA Nº II
OU
AS CRÔNICAS DADAÍSTAS CAPÍTULO I VERSÍCULO 34...

ERA UMA VEZ

LUIZA QUE ROLOU DE UM POÇO.

COM A PERNA MANCA,
ELA DESENHOU UM MAPA NA AREIA FOFA.

VIERAM AS GAIVOTAS E A DEVORARAM.
SUAS PEGADAS IMPRESSAS NO MAPA INDICARAM UM CAMINHO.

SEGUI POR ESTE CAMINHO POR TRÊS DIAS E TRÊS NOITES
E LÁ ENCONTREI LUIZA.
DEITADA NUMA PEDRA
FIQUEI ALIVIADO, POIS LUIZA NÃO MORRERA.
ELA ME DISSE: "ERGA A PEDRA"
E FIZ CONFORME HAVIA ME ORDENADO.
E LÁ ESTAVA DEITADO UM OUTRO EU DE MIM.

AQUELE OUTRO EU QUE VIAJA NOS MEUS SONHOS.

QUE SE CONFORMA COM O QUE ME DEIXA AVILTADO.

E QUE SE ENFURECE COM O QUE NÃO ME ABORRECE.

UM EU DE FOGO QUE ME ENCHE DE CANDURA.
EU O LEVANTEI DO CHÃO E JUNTOS FOMOS TOMAR UMA CERVEJA NA TAVERNA ALÉM DA VILA.
BONS TEMPOS AQUELES!
LI PARA ELE MEU CADERNO DE POESIAS, AS LIDAS E AS NÃO DITAS.
SEUS OLHOS ARDIAM EM LÁGRIMAS.
DEI-LHE DOIS BEIJOS NA FRONTE E O COLOQUEI PARA DORMIR SOBRE OS SACOS DE FARINHA.
E HÁ QUEM DIGA UM DIA QUE ESTAS PALAVRAS FORAM PROFECIAS.
COMPLICADÍSSIMAS E INTRÍNSECAS MENSAGENS DECIDINDO O FUTURO DAS NAÇÕES.
UM DIA EU SEREI O MENSAGEIRO INDECIFRÁVEL DO FIM DO MUNDO.
O MEU OUTRO EU ACORDOU E SAIU PORTA AFORA CORRENDO COMO LOUCO.
MAS LOUCO DE FATO ERA, ENTÃO SERÁ QUE SAIU COMO SÃO?
CORRENDO ATÉ DAR A VOLTA NA CASA DO OVO.
TÃO TOLO E TÃO VIL QUE ME CAUSOU ESPASMO.
COMO AS FLORES DO CAMPO SOB OS PÉS DE LUIZA.

MARIE JO

24/08/2014.

OBS: SEGUIR ESTRITAMENTE AS INSTRUÇÕES CONTIDAS.

A MOÇA QUE SOPRAVA BOLHAS DE SABÃO



Ela era a moça

Que soprava bolhas de sabão.

Sentada na calçada de casa,

Na varanda,

Ou em frente ao portão.

A senhora, a criança, a donzela.

Com os primeiros cabelos brancos,

E as primeiras rugas a sorrir.

Naquele dia ela estava triste,

E soprou uma bolha enorme,

Enchendo-a de pensamentos tristes.

A outra bolha, ela encheu com seus sonhos não realizados.

E vendo que isto era bom, continuou a soprar,

Enchendo as bolhas de ar, e o céu de bolhas coloridas,

Que subiam e subiam, levando cada uma, um pedacinho da mulher.

E ela sorriu, soprando bolhas de expectativas frustradas,

E mais outras, com pedidos de desculpas e piadas mal contadas.

Obrigados e por favores,

Que ela nunca ouviu.

Mais uma bolha subiu,

Cheia de uma canção de amor.

Na outra uma poesia, e mais uma com uma carta enorme de indignação.

E como sorria essa menina, que envelhecia a cada dia...

Soprou mais um suspiro mal contido,

Um encontro marcado, um dia de sol,

Um sorriso azedo, e outra piada sem graça.

Todo o rancor, e toda a mágoa.

Soprou uma bolha bem grande que voou desajeitada,

Cheia de promessas de felicidade,

Como roupa nova que fica guardada,

Esperando o dia certo de estreá-la, que nunca chega.

Soprou um beijo, e mais dois, soprou um toque,

O da mão de uma criança,

Que pegou na sua com confiança

Esperando para atravessar a rua.

E eram sonhos, e lágrimas, e mais música que a senhorinha colocava em cada bolha, inspirando cada uma delas,

Sem perceber que mudava,

Que encolhia.

E logo a dama das bolhas de sabão já não mais existia.

Pois soprou para dentro de cada bolha,

Pedaços de sua própria vida,

Que subiam devagar até o céu,

Reluzindo coloridas sob o sol.

Marie

Maio, 2015



MANIFESTO DADAÍSTA



DO MANIFESTO DADAÍSTA OU AS CRÔNICAS DADAÍSTAS

Porque o Dadaísmo é o que há...

Na confusão de um Prometeu açucarado

Lampejante como a manhã trigueira

Subimos aos morros verdejantes

Dardejando jatos de cólera estupefata

Não pense, nem guie...

Flutue como borboletas da primavera

Dentro de bolhas de sabão sedosas

E espere que tudo exploda

Em milhões de partículas suicidas

De purpurina tocando os tambores

Decore pílulas que encobrem o terror

E engula favos de mel de estupor

O amor, a segunda vista, a pipoca estrangeira

Na hora mais derradeira

Liberando o flato que nos aprisiona.

Marie Jo,
Março 2015

OS BARDOS



O mundo sempre vai precisar dos contadores de histórias.

Já aprendi que o contador de histórias é aquele que anda no limiar da imaginação,

Muitas vezes mistura a ficção com a realidade, a ponto de se machucar, de ferir seu próprio coração,

Vivendo em sua cabeça histórias que nunca poderá saborear,

Beijando lábios cujo calor jamais poderá sentir,

Amando heróis que jamais existirão.

Apenas em sua maravilhosa imaginação...

O mundo sempre precisou dos bardos, dos contadores de histórias, dos poetas...

São eles quem irão perpetuar as histórias de glória e sonhos da humanidade!

São eles quem levarão esperança ao coração dos medíocres...

São eles quem reavivarão o fogo da existência,

Trazendo alento aos descrentes e desesperados.

Os escritores são os novos bardos...

E os bardos sempre irão passar adiante as histórias

De sangue, de amor, e de lutas

Que um dia fizeram os olhos brilharem

E os corações palpitarem.

E todos darão vivas e louvor aos heróis

Que nunca teriam existido

Se não fosse o ardor e o amor dos bardos.

Marie Jo

Agosto 2015