sábado, 1 de agosto de 2015

A MOÇA QUE SOPRAVA BOLHAS DE SABÃO



Ela era a moça

Que soprava bolhas de sabão.

Sentada na calçada de casa,

Na varanda,

Ou em frente ao portão.

A senhora, a criança, a donzela.

Com os primeiros cabelos brancos,

E as primeiras rugas a sorrir.

Naquele dia ela estava triste,

E soprou uma bolha enorme,

Enchendo-a de pensamentos tristes.

A outra bolha, ela encheu com seus sonhos não realizados.

E vendo que isto era bom, continuou a soprar,

Enchendo as bolhas de ar, e o céu de bolhas coloridas,

Que subiam e subiam, levando cada uma, um pedacinho da mulher.

E ela sorriu, soprando bolhas de expectativas frustradas,

E mais outras, com pedidos de desculpas e piadas mal contadas.

Obrigados e por favores,

Que ela nunca ouviu.

Mais uma bolha subiu,

Cheia de uma canção de amor.

Na outra uma poesia, e mais uma com uma carta enorme de indignação.

E como sorria essa menina, que envelhecia a cada dia...

Soprou mais um suspiro mal contido,

Um encontro marcado, um dia de sol,

Um sorriso azedo, e outra piada sem graça.

Todo o rancor, e toda a mágoa.

Soprou uma bolha bem grande que voou desajeitada,

Cheia de promessas de felicidade,

Como roupa nova que fica guardada,

Esperando o dia certo de estreá-la, que nunca chega.

Soprou um beijo, e mais dois, soprou um toque,

O da mão de uma criança,

Que pegou na sua com confiança

Esperando para atravessar a rua.

E eram sonhos, e lágrimas, e mais música que a senhorinha colocava em cada bolha, inspirando cada uma delas,

Sem perceber que mudava,

Que encolhia.

E logo a dama das bolhas de sabão já não mais existia.

Pois soprou para dentro de cada bolha,

Pedaços de sua própria vida,

Que subiam devagar até o céu,

Reluzindo coloridas sob o sol.

Marie

Maio, 2015



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