domingo, 29 de março de 2015

CARTAS PARA REGINA - CARTA III

22/06/1951


Prezada Regina

Ás vezes eu sinto a tristeza vindo. E não faço nada para me defender.
Acho que isso deve acontecer com todos, não é? Uma hora ou outra, pela vida afora.

Eu a vejo vindo como uma grande massa negra, um corvo enorme que pousa nos meus ombros e se apodera de mim com as suas asas. Ele pesa, e machuca, mas eu não consigo fazer nada para tirá-lo dali.

Alguns momentos passam por mim como sonhos bons, outros como pesadelos morosos, e a minha vida se resume a isso, a esses breves momentos onde eu consigo me importar com a alguma coisa. Na maior parte das vezes, quando estou acordada só por força de Ava; pois eu queria mesmo era estar dormindo; estou sendo arrastada por aí por ela, reagindo com um sorriso ou um levantar de sobrancelhas, a tudo que me dizem, que me perguntam, que me forçam goela abaixo.

Já te disse que a comida aqui é horrível... E como se não bastasse, sou forçada a comer aquilo, pois estou ficando muito magra, segundo o médico. A enfermeira truculenta é quem faz o serviço. Ela sempre me ameaça, diz que vai me dar uma lição, se eu não comer.

Há dias em que nem reajo... E lembro de tudo que se passa ao redor de mim como breves espocares de luz...

De todo esse tempo que estou aqui, lembro-me de apenas um dia em que tudo parecia ter acontecido mais claramente. Era como se meus olhos de repente houvessem enxergado com mais claridade do que de costume. Quando lembro, meu coração bate mais rápido.

Ava levou-me a passear em um jardim diferente naquele dia. Havia sol, com poucas nuvens, e o calor em minha pele parecia despertar o pouco de vida a que eu podia me permitir.

Sentamos sob as árvores, Ava colocou flores em meu cabelo. E me beijou. Foi estranho, mas foi bom... Não sabia se podia deixar, nem sabia se queria, mas eu não conseguia reagir. Senti como se algo houvesse acordado em meu íntimo. Como se Ava tivesse derramado o mais precioso dos manjares em minha boca.

Senti meu coração acelerar e um calor gostoso subir pelas minhas entranhas. E era como se  aquele dia de sol tivesse tomado conta de mim. Como se eu pudesse me fundir na brisa morna naquele instante, e dar impulso ás asas das borboletas no jardim.
Eu cheguei mesmo a pegar uma delas que pousou na minha blusa. Eu a observei bem, e a esmaguei.

Ava se aproximou, e ficou olhando para a borboleta morta, penalizada. Achei que ela iria chorar, pois tinha a alma muito sensível. No entanto, ela sorriu...

Mas foi um sorriso estranho, um sorriso torto. Havia algo de maldito naqueles caninos brancos se mostrando para mim. O sorriso dela me lembrava o de Martina. De repente um mal estar tomou conta de mim, e eu corri de volta para nossa ala. Ao menos eu tentei, porque quando parei de correr, me dei conta de que não conhecia aquele lugar em que estávamos.

Havia esse pátio enorme, com as lajotas soltas. E uma igreja antiga, mal cuidada. Fiquei paralisada por uns instantes, decidindo para onde correria, pois estava perdida.

Parecia mais que eu havia entrado em um portal, para outro mundo, pois o pátio era enorme, espaçoso, e a igreja tão alta que me dava vertigens.

Caí ao chão, aos prantos, não sabia o que fazer. Chorei tanto que hoje quando lembro, era como se estivesse chovendo sobre minha cabeça. No entanto, o sol e as nuvens ainda estavam ali, radiantes.

Você também tem lembranças assim, Regina? Confusas, distorcidas... Como se do lado de fora de si estivesse tudo incólume, radioso... Mas quando você se lembra daquele momento específico, parece que há nuvens negras e tão pesadas que poderiam esmagar a sua cabeça.

Ava me encontrou, e me levou de volta.

Ainda tenho dificuldades em me lembrar por que caminhos passamos para voltar ao nosso quarto.
Ela me colocou na cama e cuidou de mim até que eu dormisse... Eu lembro da luz do sol correndo pelas paredes do quarto enquanto o dia passava... Ava não saiu do meu lado, cantarolou e conversou comigo o tempo todo... Mas quando tento lembrar do que ela disse, só consigo ver as várias tonalidades de dourado percorrendo cada centímetro da parede, lendo as horas no aparente vazio da tinta impregnada de bolor.

E ainda assim, penso naquele dia como se estivesse chovendo.

Senti muito frio naquela noite, e se não fosse por Ava, penso até que teria morrido congelada.
Ela achou melhor eu parar de tomar os remédios, mas eu teria que fazer disso um segredo.

Não tenho certeza ainda do que farei, se farei como ela me diz. Ela garante que passarei a me sentir melhor se o fizer. Que se eu fizer como ela, ficarei forte como ela.

Não sei se quero ser como Ava... Ela ás vezes me parece diabólica. No entanto, ainda assim a estimo.

Regina, vou terminando esta carta por aqui. O jantar será servido em breve e eu estou com muita fome.

Abraços,
Estella.

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