domingo, 1 de março de 2015

CARTAS PARA REGINA - CARTA II

(Grunwald Sanatorium - Sokolowsko)

CARTAS PARA REGINA - CARTA II

26/05/1951

Olá Regina

Fiquei esperando sua carta, por que não me escreveu?

Fiquei preocupada... Já que não me respondeu, estou te mandando outra carta para contar as novidades.

Há um interno novo por aqui... Quer dizer, eu acho que é um interno, já que usa roupas como as minhas... Ás vezes eu o vejo trabalhando no jardim em frente ao meu quarto.

Tem correntes nos pés, que é pra não fugir correndo. Acho que ele não seria tolo o bastante pra fazer isso, já que um dos guardas fica o tempo todo vigiando-o, com um rifle a tiracolo. Ele deve ter sido um homem bonito um dia... Quer dizer, sua aparencia não é das piores agora, só é de dar pena.

Agora já me deixam sair para fora do quarto, embora não me deixem andar pelas outras alas livremente. Dizem que é sempre bom manter-nos separados.

Isso aqui parece ser um lugar enorme. Já saí dar um passeio pensando em contornar o prédio, mas existe uma parte onde não nos é permitida a entrada, e a parte da frente onde tem o jardim e o pátio onde os carros estacionam é isolada do restante do prédio por cercas de ferro muito altas.


Um dia estava em meu quarto, penteando-me no espelho enorme que ganhei do médico bonito. Ele disse que me ajudaria a exercer e melhorar a minha auto-estima. Não havia nem percebido que a porta do quarto não era mais trancada, quando uma menina entrou de sopetão. Fiquei olhando seu reflexo no espelho, assustada.

Ela tinha o cabelo curto, e negro, como o seu, a franja a quase lhe cobrir os olhos. Ela disse que se chamava Ava, e foi logo sentando ao meu lado e pegando a minha mão.

Desde então temos sido melhores amigas. Ás vezes a gente foge da vista das supervisoras, e ficamos a passear pelas outras alas. Vamos até onde é possível, onde os portões não ficam trancados. Ava prometeu que me levaria á parte de trás do prédio, onde existe uma capela antiga, com uma torre muito alta. Disse que de lá se consegue ver todo o hospital onde estamos, e a estrada que leva á cidade.

Ela já está aqui a mais tempo do que eu. Foi removida de ala por bom comportamento. Desde que parou de atacar as pessoas, ganhou o direito de ter uma colega de quarto, e o médico bonito disse que achou que eu seria a pessoa ideal, por ser mais calma e recatada.

Ava tem um problema do qual nunca ouvi falar... Tem a ver com ninfas, eu não entendi direito. Ela é bastante alegre, ás vezes agitada. Na primeira semana ficava me encarando antes de pegar no sono. Eu via seus olhos brilhando no escuro, seu rosto contornado pela luz escassa que vinha de fora. Era um pouco assustador, no começo.

Então uma de nós pegava no sono, antes de acharmos algum assunto para conversar. Agora já consigo conversar com ela, e já lhe contei bastante da minha vida. Depois de um tempo, ela começou a pedir para dormir na minha cama. Eu não deixei, no começo. Mas gosto do perfume do seu cabelo.

Agora que já nos deixam passear lá fora, estamos invariavelmente nos jardins, ou no grande pátio com o carvalho. Ela gosta de cantar, e tem deixado meus dias mais alegres.

Eu realmente não sei o que é essa tristeza que me devora. Ela vem de repente como uma sombra, e se instala devagar até tomar conta de mim inteiramente. Só sinto vontade de dormir, ou de chorar. Ás vezes, nem comer eu consigo. O médico bonito disse que eu tenho emagrecido.
Ele me olha com aqueles olhos azuis, e eu juro que parece que vão sair faíscas. Ele é muito grave, o tempo todo, mas me trata com carinho.

Você sabe, não daquele jeito todo formal que se espera de um médico. Ás vezes ele segura meu queixo e fica me olhando bem no fundo dos olhos um tempão. Eu não consigo encarar por muito tempo sem morrer de vergonha. Acabo desviando os olhos. Ou então acaricia as minhas costas, como se eu fosse algum animal de estimação.

Quando contei a Ava sobre isso, ela deu umas risadinhas estranhas e me chamou de boba. Ela sempre age como se fosse uma sabichona e eu uma tola ingenua. Ela disse que tem alguns segredos sobre a vida que eu não conheço e que um dia irá me ensinar.

Acho que ela me faz bem. Se não fosse pela amizade dela, eu nem levantaria da cama de manhã. Sequer pentearia o meu cabelo. Ela quem sempre me puxa pra fora da escuridão.

Ainda não entendi o que eu estou fazendo aqui. O médico bonito só me deu algumas pistas, tem a ver com algo que fiz contra meus pais. Não sei o que possa ter sido. Sempre foram anjos para mim, e eu sempre fui uma filha obediente.

Por isso que eu acho que a Martina aprontou alguma coisa pra me colocar aqui. Ela que sempre foi a ovelha negra da família. Sempre mereceu as surras que levou, e não foram poucas.

Regina, vou terminando esta carta por aqui. Tem muito mais coisas que quero lhe contar, e contarei a tempo. Agora devo parar de escrever porque os corvos já estão se aproximando.

Um beijo,
Estella

Um comentário:

ROSANE disse...

ANSIOSA PELA CONTINUAÇÃO!, MUITO BOM ESTE CONTO AMIGA!!!