domingo, 15 de fevereiro de 2015

CARTAS PARA REGINA - CARTA I

 (Waverly Hills Sanatorium, USA)

CARTAS PARA REGINA - CARTA 1

21/01/1951

Regina, preciso lhe contar com urgência o que aconteceu comigo antes que pense que eu morri.
Não posso confiar em mais ninguém, nem sei o que fazer agora, faz uma semana que me pegaram de surpresa e me prenderam aqui dentro.
Não sei onde estão papai e mamãe...

Se tiver notícias, por favor me envie!
Estou muito preocupada, pois desde que me trouxeram pra cá não mais os vi.
Acredito que tudo seja obra de Martina, minha irmã.
Nós éramos tão amigas, e agora simplesmente não a suporto, não a suporto!

Você consegue imaginar Regina, o que é odiar tanto assim alguém que é sangue do teu sangue?
Desfrutar da companhia de alguém desde o seu nascimento, dividir o berço, e chegar ao ponto de não suportar ouvir a sua respiração?
Olhar-se no espelho, e odiar cada traço ali desenhado porque são os mesmos traços da víbora que tem tentado usurpar a sua própria vida, seus amigos, até mesmo a estima de teus pais...

Mas chega de falar dela, preciso mudar de assunto senão enlouqueço!
Só de pensar nela tenho ganas de roer minhas unhas a ponto de arrancar sangue dos dedos.

E nada posso fazer, nada posso fazer... Penso em como ela conseguiu arquitetar essa tramóia, que mentiras contou para conseguir me trancafiar aqui.

Não tenho certeza de que lugar é esse.

No primeiro dia foi muito estranho, acordei e já estava aqui... Acho que deram-me algo para me dopar em casa, acho que dormi o caminho todo para cá...
Quando acordei, já estava numa pequena sala, toda acolchoada, com uma luz escassa. A sala fedia, não sei nem explicar a que...

Acordei e fiquei quieta, desorientada, tentando imaginar onde estava. Meus braços e pernas estavam dormentes, parece que fiquei encolhida por muito tempo.

Abriram a porta de sopetão e me tiraram dali. O que parecia ser uma enfermeira enorme e grosseira me levou a um banheiro com muitos chuveiros. Tratou-me com violência e deu-me um banho rápido naquela água fria; aquele lugar todo fedia a mofo e ranço.

Depois trouxeram-me para um quarto, onde me deram dois comprimidos, e um copo d'água.
Não devia ter engolido, mas na hora não tive escolha, não sei se foi a tontura ou a fome que me fez engolir.
Em alguns minutos, acho que adormeci.

No dia seguinte, já estava sentada no lado da cama, esperando alguém entrar por aquela porta.
Não tinha ideia de que horas eram, mas estava zonza de fome. Parecia que o dia todo já havia passado.
Havia uma janela no quarto, com grades do lado de fora, de onde eu via um jardim mal cuidado, mas não aparecia ninguém para eu pedir socorro.

Fiquei encarando a porta, esperando ela abrir, mas ela não abria.
Encarei a porta com tanta força que ela pareceu amolecer, se entortar, escorrer pelo chão feito uma massa de tinta cinza e podridão.
Podre como o resto do quarto, empoeirado, bolorento...

De repente entrou um homem bonito, de jaleco branco, falando cortesmente comigo, perguntando como eu estava me sentindo. Seus olhos eram azuis e afiados como adagas.
Parecia medir cada movimento meu, e seu olhar me esmagava...

Disse a ele que estava ótima, e fiquei o tempo todo calma. Incrivelmente calma, e com fome, muita fome.
Ele pediu a uma enfermeira que me servisse no quarto.
Veio um prato de sopa, que apesar de insossa, comi vorazmente...
Trancaram-me novamente, não sem antes me dar duas pílulas, que engoli.
Dessa vez eu não dormi.

A semana passou quase toda assim. Eu ficava o tempo todo trancada no quarto, só saía para ir ao banho ou ao banheiro. Meus banhos eram sempre solitários, com aquela água fria e a enfermeira truculenta me olhando, e ás vezes ela me banhava. Tratava-me com violência, esfregando um pedaço de pano velho nas minhas costas e nas pernas e acho até que gostava de me tocar. Chamava-me de porca, dizia que eu não sabia nem me limpar direito.

As refeições, que eram três ao dia, eu recebia no quarto. A comida era insossa, de aspecto estranho. O pão geralmente estava duro, e a água tinha um gosto ruim, de água parada.

Eu sei que tem mais pessoas aqui, porque eu ouço os seus barulhos. Uns gritam, outros uivam.
Mas ainda não os vi.
Acho que essa semana o médico vai me liberar para tomar minhas refeições com os outros, no refeitório. Foi o que ele disse.
Ouvi ele falando com alguém do lado de fora da porta, ontem de tarde. Ouvi também um pouco de música, vinda de algum rádio em algum lugar lá fora.

Estou doida pra ouvir um pouco de música!
Regina, responda essa carta assim que a receber!

Preciso saber dos meus pais. Mas por favor, não conte a eles que escrevi a você. Não quero que Martina saiba por intermédio deles.
Tenho medo que ela dê algum jeito de fazer o médico bonito me proibir de escrever para você!

Até fiquei surpresa quando ele me trouxe papel e lápis.
Ele disse que o serviço de correio passa por aqui uma vez por semana, então posso te escrever toda semana.

Escreva-me logo. Será um bálsamo receber uma carta sua, pra me distrair desse tédio e podridão.

Um abraço de sua amiga,
Estella.

Um comentário:

ROSANE disse...

ESTE CONTO É DEMAIS, ESTOU CURIOSA PRA SABER A CONTINUAÇÃO!!! MUITO BOM MESMO!!!