sábado, 3 de janeiro de 2015

CAUSO - O TESOURO DA AMEIXEIRA E O BODE QUE ANDA DE RÉ


O TESOURO DA AMEIXEIRA E O BODE QUE ANDA DE RÉ


Existia no Rio do Salto uma história muito conhecida, de um tesouro enterrado sob um pé de ameixa, a qual saía de dentro de uma tapera em ruínas. As pessoas conheciam a história, pois a visagem apareceu uma vez a um incauto que nunca teve coragem de desenterrar seu tesouro.

Acontece que as pessoas passaram a cobiçá-lo, mas ninguém tinha coragem de desenterrar temendo as provações pelas quais passaria. Pois conta-se que mesmo que a pessoa seja aquela para quem a visagem revelou o tesouro, se ela for desenterrá-lo, verá, ouvirá, e sentirá as mais diversas aberrações e criaturas tentando impedi-la de realizar seu intento.

Dona Maria*, que me contou essa história, disse que uma vez, seu marido resolveu desenterrar o dito tesouro.

Dirigiu-se à tapera com pás e picaretas e começou a cavar no local indicado, sob o pé de ameixa, e estava ficando cada vez mais tranqüilo, pois o tempo passava e nenhuma criatura aparecera até aquele momento para incomodá-lo.

Já estava relaxado e feliz, visualizando mentalmente o que faria com as moedas de ouro que encontraria, quando uma das menores criaturas apareceu para incomodá-lo.
Era uma pequena abelhinha, que parecia inofensiva, e ele se livrou dela facilmente.
Até que apareceu mais uma, e mais uma, e logo um enxame vindo não se sabe de onde começou a importuná-lo e pior, a picá-lo, e o sofrimento com as abelhas foi tanto que logo ele desistiu de desenterrar o tesouro para nunca mais voltar.

E depois disso, quem quer que fosse que ali cavasse, era expulso pelo enxame de abelhas ferozes. Por isso, o pote de outro permanece na tapera, enterrado.

Não está bem certo se foi neste mesmo local ou em outro, em que um tesouro também estava enterrado debaixo das raízes de uma árvore, como era o costume. O senhor que o enterrou, deixou escapar em uma conversa, que quem quisesse desenterrar o tesouro, teria que levar um cabrito de ré até o local, debaixo da árvore.

Essa conversa foi ouvida por umas crianças que espiavam o velhinho, com intuito de tirar dele este segredo, e contaram esta mesma história  para um adulto conhecido delas. Este homem logo se achou o felizardo por ficar sabendo do tesouro, e com planos de desenterra-lo, levou um cabrito de ré até o local indicado. Mal sabia ele que estava sendo usado.

As crianças ficaram de tocaia na copa da árvore, esperando o homem realizar o seu intento de levar o cabrito andando de ré até à árvore, coisa que não era fácil.  Mal conseguiam segurar as risadas enquanto observavam o pobre homem lutando com o cabrito, tentando faze-lo chegar até a árvore do tesouro andando de trás pra frente.

Acontece que o homem finalmente conseguiu terminar o percurso, e já estava cavando quando uma cobra apareceu para atrapalhar. Os animais realmente respeitam os pactos feitos com as visagens. O homem fugiu assustado com a cobra, que logo desapareceu no mato, e as crianças desceram da árvore e pegaram as moedas de ouro que ele cavara, e gastaram tudo, dizem, com guloseimas.


*Esses causos foram contados pela D. Maria, que só poderá ser identificada com autorização da família.

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