sábado, 3 de janeiro de 2015

CAUSO - O LAGARTO DE OURO



O LAGARTO DE OURO


Meu avô, Sebastião Tauscheck, conta que é muito provável que ainda existam muitos “potes de ouro” para serem desenterrados em nossa região. Pois antigamente, quando da construção da linha férrea, circulavam muitas moedas de ouro e de prata trazidas pelos ingleses que construíram a ferrovia. Eles pagavam seus funcionários em libras esterlinas, mas era difícil conseguir comprar alguma coisa ou trocar essas moedas, então elas acabavam guardadas. Então estas moedas antigas de ouro e de prata passaram a valer pelo seu peso, muito mais do que o seu valor cunhado.

As pessoas de antigamente, que ainda tinham estas moedas, viviam com medo de ser saqueadas pelos rebeldes que andavam por aí, e as enterravam para que ficassem bem cuidadas. O problema é que iam sozinhas, pra que ninguém mais soubesse do paradeiro de seus tesouros e não pudesse contar aos rebeldes nem sob tortura. Então, estas pessoas, donas dos tesouros, acabavam morrendo de velhice, ou doença, sem nunca ter revelado a ninguém onde guardaram suas economias, ou a “poupança” da família.

Meu avô contou que certa feita uma moça que morava na região, viu um lagarto comendo os ovos das galinhas no galinheiro. Ela espantou o lagarto que correu para dentro de um buraco no mato. Ela foi para casa e voltou com uma pá, disposta a cavar e matar o lagarto para que não incomodasse mais. Qual não foi sua surpresa ao cavar e deparar com uma panelinha cheia de moedas!

Encantada, a moça guardou bem suas moedinhas, pois precisava de muitas coisas e ficou planejando como gastá-las. A primeira coisa que fez foi se arrumar e ir á cidade, na loja do Seo Joãozinho Sapateiro, que muitos devem recordar; pra comprar um sapato. Ela encomendou os sapatos, e pagou adiantado os trinta mil cruzeiros que custavam na época.

Ela contava as moedinhas, como se fossem trinta mil cruzeiros, mas o Seo Joãozinho Sapateiro, ao prestar atenção nas moedas da moça, quase não se conteve de emoção. A moça contava moedas de ouro inglês, libras, como se fossem cruzeiros! O Seo Joãozinho não perdeu tempo, e perguntou pra moça se ela tinha em casa mais moedas como aquelas. Ela, ingenuamente, disse que sim, e então eles combinaram de trocar as moedas da panelinha de ouro dela pela mesma quantidade em cruzeiros, assim a moça poderia comprar tudo o que precisava com moeda corrente, sem ter medo de não serem aceitas no comércio.

Seo Joãozinho Sapateiro que não era bobo nem nada, trocou as moedas, logrou a moça ingênua, e sumiu da cidade. Dizem que com aquelas moedas ele enriqueceu e foi morar em Curitiba. Por aqui, ele nunca mais foi visto. E nem o lagarto, que para surpresa minha, aparece em muitos outros casos de visagens da região.

Não foi o caso desse acontecido em especial, onde um lagarto comum entrou no mesmo buraco que para sorte de alguns, continha um tesouro.

Mas os antigos falavam muito no Lagarto de Ouro, que é uma espécie de visagem que se manifesta como um facho de luz rasteira. Dona Neuza*, que me contou muitas histórias, disse que o pai dela via muitos desses Lagartos de Ouro nos reflorestamentos em que trabalhava. Ele contava que muita gente seguia o caminho para onde essa luz chispava, e cavava no local onde ela desaparecia, achando os potes de ouro enterrados pelos antigos na época das guerras do Contestado, ou mesmo em épocas anteriores onde o dinheiro da família precisava ser protegido dos bandidos. Esse facho de luz é muito rápido, e parece de fato um lagarto correndo no mato. Se você um dia estiver no mato e avistar essa luz, corre que pode ser um pote de ouro á sua espera.


A história que meu avô me contou pode até não ser sobre o famoso Lagarto de Ouro. Mas pode ter certeza que para mim ela vale muito mais, pois é um conto e uma herança cultural inestimável que ele passou pra mim.

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