sábado, 3 de janeiro de 2015

CAUSO - EU CAIO!



EU CAIO

Esta história contada pela Dona Maria*, parece ser bastante conhecida na região.
Conta-se que há muitos anos, os viajantes e bandeirantes costumavam parar para pouso nesta velha casa abandonada, não se sabe exatamente a sua localização entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul.

Esses tropeiros, como eram mais conhecidos, levavam e traziam mercadorias de vilarejo em vilarejo no lombo dos cavalos e nas carroças. Percorriam longas distâncias, abrindo muitas vezes novas picadas pelo mato, ou fazendo das pequenas estradas de chão batido as rotas por onde hoje em dia passam as nossas estradas e rodovias principais; e o que eram vilarejos, se tornariam as nossas cidades.

A casa era conhecida, por ser grande e imponente, apesar de velha e caindo aos pedaços. E dava arrepios, muito menos pela aparência de assombrada e mais pelas coisas que realmente aconteciam nela.

Conta-se que vários cavaleiros já viram e ouviram a visagem que gritava, do segundo andar: EU CAIO!

Era sempre assim que acontecia: os rapazes estavam ao redor do tacho de fogo, tarde da noite, fazendo a janta ou tomando um café xucro ou chimarrão, quando uma voz grave gritava do andar de cima: EU CAIO!

Todos se entreolhavam espantados, tentando contar entre os presentes se havia alguém faltando, que pudesse estar tentando lhes pregar uma peça. Como não dessem pela falta de ninguém, e sabendo que a casa não era habitada há anos, os rapazes ficavam muito assustados.

Invariavelmente respondiam: CAIA! Para ter uma surpresa desagradável. Pois assim que respondiam ao “fantasma” do andar de cima, um pedaço de corpo em estado de putrefação despencava por um buraco no forro.

E o fantasma repetia a pergunta: EU CAIO?

Os mais corajosos respondiam ainda algumas vezes, vendo braços, pernas, pés, caindo e se amontoando no meio da sala. Mas ninguém nunca ficou tempo o bastante para ver o resto do defunto cair. Geralmente juntavam as coisas às pressas e iam achar outro canto para pernoitar.

Somente um bravo foi forte o bastante para responder o fantasma até o final.

Ele ameaçava: EU CAIO! E o bravo respondia: CAIA!

Os pedaços do corpo iam caindo aos poucos, até que o defunto ficou inteiro, e se “remontou” como o antigo dono da casa que indicou a este bravo um pote de ouro que estava escondido sob uma goteira.

            Esse causo deve ter sido muito conhecido e divulgado nas rodas de chimarrão e acampamentos de nossa região, entre os tropeiros, os antigos ou entre as crianças quando chegava a hora de assustar umas ás outras nas brincadeiras. Lembro de ter ouvido quando eu era criança, á noite, depois que nos cansamos de brincar de pique esconde. Espero que não desapareça como o resto de nossa herança cultural.

*D. Maria, in memorian, só poderá ser identificada com autorização de sua família.


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