sábado, 1 de agosto de 2015

CARTAS PARA REGINA - CARTA IV



25/08/1951

 Regina Querida

Por que é que você não responde as minhas cartas?

Sabe, tenho gostado muito desse lugar. Apesar do barulho das abelhas, é um lugar interessante para se viver.

Quero muito dividir com você que fiz amizade com o jardineiro. Ava não ficou muito contente. Aliás depois quero te contar algo muito grave sobre Ava.

Mas voltando ao jardineiro, Ava e eu descobrimos em que ala ele dorme num passeio que fizemos pelo pavilhão norte. Os enfermeiros pareciam não se incomodar conosco dando voltas por aí e entramos em lugares que nem Ava conhecia. Acho que eles tem mais com que se preocupar.

Enfim, isso aqui é grande demais. Um dia estávamos naquela parte do sanatório onde ficam os mais dementes, aqueles que se desligaram do mundo, tomando sol na parte de trás dos dormitórios quando eu comecei a cantar por causa do calor que me animava.
Ava sorriu e me deu um beijo e logo o jardineiro apareceu na janela pedindo que eu continuasse com a cantoria.

Fiquei feliz de vê-lo, e nos apresentamos. Nas semanas seguintes visitei-o com frequência, e ele passou a me chamar de Passarinho, por causa da alegria que meu canto lhe causava. Um dia sentimos falta dele, pois não apareceu á janela, e nem no dia seguinte.

Procurei-o pelas manhãs no jardim em frente á minha janela, que por sinal estava cada vez mais bonito, mas ele também não apareceu por ali.

Ava percebeu que fiquei triste e decidiu me levar para a parte de trás do sanatório onde eu havia me perdido uma vez para ficarmos juntas na torre da capela. Ela disse que havia outros segredos para me mostrar se eu fosse paciente e obediente.

Qual não foi nossa surpresa ao encontrar o jardineiro ali, no alto da torre da capela. Mas ele não parecia nada feliz... Chorava muito, e mal conseguia falar. Eu não pude suportar aquele olhar e o abracei. Ele era bem maior do que eu, e apesar de magro e judiado, ainda era um homem muito forte.

Conversamos boa parte da tarde, e ele começou a acariciar a minha mão. Ava não gostou muito, ficou enciumada e mal falou comigo o resto da tarde. Mas gostei muito de conversar com o jardineiro. Ele é uma pessoa inteligente, tem uma conversa muito interessante. Contou-me coisas de sua vida, coisas sobre ter lutado em uma guerra, sobre ter viajado a outros países e coisas que não podia contar mas que preferia esquecer.

Quando dei por mim, estávamos sozinhos, Ava havia nos deixado a sós. Eu fiquei muito envergonhada, e resolvi voltar para a minha ala antes que alguma enfermeira aparecesse e nos surpreendesse sozinhos. Ele veio se despedir com um beijo no rosto e não sei por qual impulso eu virei repentinamente e o beijei na boca.

O perfume de mil rosas invadiu o meu peito, e fiquei até meio zonza, não sei se de vergonha, de emoção, ou medo, mas eu pedi desculpas rapidamente e corri tanto que entrei em meu quarto com o coração saindo pela boca. E feliz.

Encostei a porta e sentei-me em frente ao espelho e logo Ava apareceu. Meus cabelos em desordem constrastavam com os dela, muito lisos e muito negros. Eu voltava minha atenção ora para meu próprio rosto afogueado e vivo e para o rosto dela, de traços angulosos e pele muito alva. Ela tinha aquele olhar todo grave e meio que malicioso voltado para mim, e lembrei de que tinha ficado emburrada por eu ter dado mais atenção ao jardineiro do que a ela.

Num impulso, agarrei seu rosto e a beijei na boca. Fiquei muito surpresa, até chocada, após receber um tapa em cheio na bochecha. Está meio dolorida até agora. Achei que ela nunca faria isso, pois ela vive me beijando. Ás vezes até me acaricia de uma maneira que uma moça de família jamais deveria permitir, e eu só permito porque estamos todos perdidos nesse mundo estranho, mesmo.

Sabe, não sei mais se posso confiar em Ava. Acho até que vou me afastar dela. Acho que ela está aqui por causa dessas coisas que ela faz. Não é normal uma moça fazer o que ela faz comigo.

Regina, ás vezes eu fico confusa. Mas pensando bem, gosto daqui. Estou feliz aqui como nunca fui aí fora. Martina achou que me faria mal armando para que meus pais me trancassem aqui. Mas ela não sabe o bem que me faz.

Um abraço,
Estella.



MANIFESTO DADAÍSTA Nº II



MANIFESTO DADAÍSTA Nº II
OU
AS CRÔNICAS DADAÍSTAS CAPÍTULO I VERSÍCULO 34...

ERA UMA VEZ

LUIZA QUE ROLOU DE UM POÇO.

COM A PERNA MANCA,
ELA DESENHOU UM MAPA NA AREIA FOFA.

VIERAM AS GAIVOTAS E A DEVORARAM.
SUAS PEGADAS IMPRESSAS NO MAPA INDICARAM UM CAMINHO.

SEGUI POR ESTE CAMINHO POR TRÊS DIAS E TRÊS NOITES
E LÁ ENCONTREI LUIZA.
DEITADA NUMA PEDRA
FIQUEI ALIVIADO, POIS LUIZA NÃO MORRERA.
ELA ME DISSE: "ERGA A PEDRA"
E FIZ CONFORME HAVIA ME ORDENADO.
E LÁ ESTAVA DEITADO UM OUTRO EU DE MIM.

AQUELE OUTRO EU QUE VIAJA NOS MEUS SONHOS.

QUE SE CONFORMA COM O QUE ME DEIXA AVILTADO.

E QUE SE ENFURECE COM O QUE NÃO ME ABORRECE.

UM EU DE FOGO QUE ME ENCHE DE CANDURA.
EU O LEVANTEI DO CHÃO E JUNTOS FOMOS TOMAR UMA CERVEJA NA TAVERNA ALÉM DA VILA.
BONS TEMPOS AQUELES!
LI PARA ELE MEU CADERNO DE POESIAS, AS LIDAS E AS NÃO DITAS.
SEUS OLHOS ARDIAM EM LÁGRIMAS.
DEI-LHE DOIS BEIJOS NA FRONTE E O COLOQUEI PARA DORMIR SOBRE OS SACOS DE FARINHA.
E HÁ QUEM DIGA UM DIA QUE ESTAS PALAVRAS FORAM PROFECIAS.
COMPLICADÍSSIMAS E INTRÍNSECAS MENSAGENS DECIDINDO O FUTURO DAS NAÇÕES.
UM DIA EU SEREI O MENSAGEIRO INDECIFRÁVEL DO FIM DO MUNDO.
O MEU OUTRO EU ACORDOU E SAIU PORTA AFORA CORRENDO COMO LOUCO.
MAS LOUCO DE FATO ERA, ENTÃO SERÁ QUE SAIU COMO SÃO?
CORRENDO ATÉ DAR A VOLTA NA CASA DO OVO.
TÃO TOLO E TÃO VIL QUE ME CAUSOU ESPASMO.
COMO AS FLORES DO CAMPO SOB OS PÉS DE LUIZA.

MARIE JO

24/08/2014.

OBS: SEGUIR ESTRITAMENTE AS INSTRUÇÕES CONTIDAS.

A MOÇA QUE SOPRAVA BOLHAS DE SABÃO



Ela era a moça

Que soprava bolhas de sabão.

Sentada na calçada de casa,

Na varanda,

Ou em frente ao portão.

A senhora, a criança, a donzela.

Com os primeiros cabelos brancos,

E as primeiras rugas a sorrir.

Naquele dia ela estava triste,

E soprou uma bolha enorme,

Enchendo-a de pensamentos tristes.

A outra bolha, ela encheu com seus sonhos não realizados.

E vendo que isto era bom, continuou a soprar,

Enchendo as bolhas de ar, e o céu de bolhas coloridas,

Que subiam e subiam, levando cada uma, um pedacinho da mulher.

E ela sorriu, soprando bolhas de expectativas frustradas,

E mais outras, com pedidos de desculpas e piadas mal contadas.

Obrigados e por favores,

Que ela nunca ouviu.

Mais uma bolha subiu,

Cheia de uma canção de amor.

Na outra uma poesia, e mais uma com uma carta enorme de indignação.

E como sorria essa menina, que envelhecia a cada dia...

Soprou mais um suspiro mal contido,

Um encontro marcado, um dia de sol,

Um sorriso azedo, e outra piada sem graça.

Todo o rancor, e toda a mágoa.

Soprou uma bolha bem grande que voou desajeitada,

Cheia de promessas de felicidade,

Como roupa nova que fica guardada,

Esperando o dia certo de estreá-la, que nunca chega.

Soprou um beijo, e mais dois, soprou um toque,

O da mão de uma criança,

Que pegou na sua com confiança

Esperando para atravessar a rua.

E eram sonhos, e lágrimas, e mais música que a senhorinha colocava em cada bolha, inspirando cada uma delas,

Sem perceber que mudava,

Que encolhia.

E logo a dama das bolhas de sabão já não mais existia.

Pois soprou para dentro de cada bolha,

Pedaços de sua própria vida,

Que subiam devagar até o céu,

Reluzindo coloridas sob o sol.

Marie

Maio, 2015



MANIFESTO DADAÍSTA



DO MANIFESTO DADAÍSTA OU AS CRÔNICAS DADAÍSTAS

Porque o Dadaísmo é o que há...

Na confusão de um Prometeu açucarado

Lampejante como a manhã trigueira

Subimos aos morros verdejantes

Dardejando jatos de cólera estupefata

Não pense, nem guie...

Flutue como borboletas da primavera

Dentro de bolhas de sabão sedosas

E espere que tudo exploda

Em milhões de partículas suicidas

De purpurina tocando os tambores

Decore pílulas que encobrem o terror

E engula favos de mel de estupor

O amor, a segunda vista, a pipoca estrangeira

Na hora mais derradeira

Liberando o flato que nos aprisiona.

Marie Jo,
Março 2015

OS BARDOS



O mundo sempre vai precisar dos contadores de histórias.

Já aprendi que o contador de histórias é aquele que anda no limiar da imaginação,

Muitas vezes mistura a ficção com a realidade, a ponto de se machucar, de ferir seu próprio coração,

Vivendo em sua cabeça histórias que nunca poderá saborear,

Beijando lábios cujo calor jamais poderá sentir,

Amando heróis que jamais existirão.

Apenas em sua maravilhosa imaginação...

O mundo sempre precisou dos bardos, dos contadores de histórias, dos poetas...

São eles quem irão perpetuar as histórias de glória e sonhos da humanidade!

São eles quem levarão esperança ao coração dos medíocres...

São eles quem reavivarão o fogo da existência,

Trazendo alento aos descrentes e desesperados.

Os escritores são os novos bardos...

E os bardos sempre irão passar adiante as histórias

De sangue, de amor, e de lutas

Que um dia fizeram os olhos brilharem

E os corações palpitarem.

E todos darão vivas e louvor aos heróis

Que nunca teriam existido

Se não fosse o ardor e o amor dos bardos.

Marie Jo

Agosto 2015

domingo, 3 de maio de 2015

LIBERDADE


É DIFÍCIL E DOLOROSO

O ESTADO DA LOUCURA...

COMO CHEGAMOS AQUI TÃO RÁPIDO?

O BAIXO VIBRA FAZENDO MINHAS VEIAS PULSAREM...

REVERBERANDO POR UMA RENDIÇÃO.

DEVO ABRI-LAS E DEIXAR QUE AS AVES RUBRAS SE VOEM PARA A LIBERDADE!

POSSO OUVI-LAS CHAMAR, CLAMAR PELA LIBERDADE SELVAGEM!

A FELICIDADE SUPREMA...

VOAR, ESTAR LIVRE!

PARTÍCULAS DE VENTO TOCANDO E SOPRANDO E ERGUENDO CADA CÉLULA AO CÉU.

QUERO SER PÓ, QUERO SER VENTO!

QUERO DERRETER NA CHUVA...

VOEM PÁSSAROS VERMELHOS!

MARIE JO
MAIO 2014

PENSAMENTOS DA CHUVA DE MAIO



O QUE TODOS QUEREM?
O QUE EU QUERO?
QUAL MEU OBJETIVO, QUAL MINHA MISSÃO?
QUEM NUNCA SE PERGUNTOU ALGUMA VEZ NA VIDA,
OU MILHARES DE VEZES AO LONGO DA VIDA...

É SER FELIZ?
É SER ALGUÉM?
É SER FELIZ SENDO VOCÊ MESMO, ODIANDO AQUELA IMAGEM QUE TE ENCARA DO OUTRO LADO DO ESPELHO...
SERÁ O MUNDO DELA MELHOR DO QUE O MEU?
SERÃO OS DIAS MAIS ENSOLARADOS, E AS PESSOAS BENEVOLENTES?
SE SER FELIZ É SER CONTENTE COM CADA PEQUENO MOMENTO, POR QUE É QUE ESTOU SEMPRE DESCONTENTE?
PORQUE A TRISTEZA É UMA MENDIGA QUE VEM SEMPRE BATER Á PORTA E TUDO O QUE ELA QUER É COMPANHIA...

MARIE

MAIO 2014

IRMÃ LUA


HOJE CONVERSEI COM A IRMÃ LUA
QUE ÍA SE ENCOLHENDO
EM PLENO CÉU AZUL
ESCONDENDO O ROSTO ALVO
DA CONTEMPLAÇÃO DOS HOMENS.

AINDA HÁ UMA ESPERANÇA, IRMÃ?
AINDA TEMOS UMA CHANCE,
OU É TUDO EM VÃO?
NASCEMOS E CRESCEMOS
E MORREMOS...
ESTAMOS ESQUECIDOS,
OU ISTO É O DESIGNADO?

CUMPRIMOS APENAS NOSSO DESTINO,
OU EXISTE ALGO A MAIS...
IREMOS UM DIA FULGURAR EM ESPLENDOR...
OU FOMOS FEITOS PARA DEVAGAR DESVANECER...

IRMÃ, EXISTE MESMO ALGUÉM OLHANDO POR NÓS?
E PENSANDO BEM, POR QUE ALGUÉM OLHARIA?

MARIE JO
MAIO 2014

domingo, 29 de março de 2015

CARTAS PARA REGINA - CARTA III

22/06/1951


Prezada Regina

Ás vezes eu sinto a tristeza vindo. E não faço nada para me defender.
Acho que isso deve acontecer com todos, não é? Uma hora ou outra, pela vida afora.

Eu a vejo vindo como uma grande massa negra, um corvo enorme que pousa nos meus ombros e se apodera de mim com as suas asas. Ele pesa, e machuca, mas eu não consigo fazer nada para tirá-lo dali.

Alguns momentos passam por mim como sonhos bons, outros como pesadelos morosos, e a minha vida se resume a isso, a esses breves momentos onde eu consigo me importar com a alguma coisa. Na maior parte das vezes, quando estou acordada só por força de Ava; pois eu queria mesmo era estar dormindo; estou sendo arrastada por aí por ela, reagindo com um sorriso ou um levantar de sobrancelhas, a tudo que me dizem, que me perguntam, que me forçam goela abaixo.

Já te disse que a comida aqui é horrível... E como se não bastasse, sou forçada a comer aquilo, pois estou ficando muito magra, segundo o médico. A enfermeira truculenta é quem faz o serviço. Ela sempre me ameaça, diz que vai me dar uma lição, se eu não comer.

Há dias em que nem reajo... E lembro de tudo que se passa ao redor de mim como breves espocares de luz...

De todo esse tempo que estou aqui, lembro-me de apenas um dia em que tudo parecia ter acontecido mais claramente. Era como se meus olhos de repente houvessem enxergado com mais claridade do que de costume. Quando lembro, meu coração bate mais rápido.

Ava levou-me a passear em um jardim diferente naquele dia. Havia sol, com poucas nuvens, e o calor em minha pele parecia despertar o pouco de vida a que eu podia me permitir.

Sentamos sob as árvores, Ava colocou flores em meu cabelo. E me beijou. Foi estranho, mas foi bom... Não sabia se podia deixar, nem sabia se queria, mas eu não conseguia reagir. Senti como se algo houvesse acordado em meu íntimo. Como se Ava tivesse derramado o mais precioso dos manjares em minha boca.

Senti meu coração acelerar e um calor gostoso subir pelas minhas entranhas. E era como se  aquele dia de sol tivesse tomado conta de mim. Como se eu pudesse me fundir na brisa morna naquele instante, e dar impulso ás asas das borboletas no jardim.
Eu cheguei mesmo a pegar uma delas que pousou na minha blusa. Eu a observei bem, e a esmaguei.

Ava se aproximou, e ficou olhando para a borboleta morta, penalizada. Achei que ela iria chorar, pois tinha a alma muito sensível. No entanto, ela sorriu...

Mas foi um sorriso estranho, um sorriso torto. Havia algo de maldito naqueles caninos brancos se mostrando para mim. O sorriso dela me lembrava o de Martina. De repente um mal estar tomou conta de mim, e eu corri de volta para nossa ala. Ao menos eu tentei, porque quando parei de correr, me dei conta de que não conhecia aquele lugar em que estávamos.

Havia esse pátio enorme, com as lajotas soltas. E uma igreja antiga, mal cuidada. Fiquei paralisada por uns instantes, decidindo para onde correria, pois estava perdida.

Parecia mais que eu havia entrado em um portal, para outro mundo, pois o pátio era enorme, espaçoso, e a igreja tão alta que me dava vertigens.

Caí ao chão, aos prantos, não sabia o que fazer. Chorei tanto que hoje quando lembro, era como se estivesse chovendo sobre minha cabeça. No entanto, o sol e as nuvens ainda estavam ali, radiantes.

Você também tem lembranças assim, Regina? Confusas, distorcidas... Como se do lado de fora de si estivesse tudo incólume, radioso... Mas quando você se lembra daquele momento específico, parece que há nuvens negras e tão pesadas que poderiam esmagar a sua cabeça.

Ava me encontrou, e me levou de volta.

Ainda tenho dificuldades em me lembrar por que caminhos passamos para voltar ao nosso quarto.
Ela me colocou na cama e cuidou de mim até que eu dormisse... Eu lembro da luz do sol correndo pelas paredes do quarto enquanto o dia passava... Ava não saiu do meu lado, cantarolou e conversou comigo o tempo todo... Mas quando tento lembrar do que ela disse, só consigo ver as várias tonalidades de dourado percorrendo cada centímetro da parede, lendo as horas no aparente vazio da tinta impregnada de bolor.

E ainda assim, penso naquele dia como se estivesse chovendo.

Senti muito frio naquela noite, e se não fosse por Ava, penso até que teria morrido congelada.
Ela achou melhor eu parar de tomar os remédios, mas eu teria que fazer disso um segredo.

Não tenho certeza ainda do que farei, se farei como ela me diz. Ela garante que passarei a me sentir melhor se o fizer. Que se eu fizer como ela, ficarei forte como ela.

Não sei se quero ser como Ava... Ela ás vezes me parece diabólica. No entanto, ainda assim a estimo.

Regina, vou terminando esta carta por aqui. O jantar será servido em breve e eu estou com muita fome.

Abraços,
Estella.

domingo, 1 de março de 2015

CARTAS PARA REGINA - CARTA II

(Grunwald Sanatorium - Sokolowsko)

CARTAS PARA REGINA - CARTA II

26/05/1951

Olá Regina

Fiquei esperando sua carta, por que não me escreveu?

Fiquei preocupada... Já que não me respondeu, estou te mandando outra carta para contar as novidades.

Há um interno novo por aqui... Quer dizer, eu acho que é um interno, já que usa roupas como as minhas... Ás vezes eu o vejo trabalhando no jardim em frente ao meu quarto.

Tem correntes nos pés, que é pra não fugir correndo. Acho que ele não seria tolo o bastante pra fazer isso, já que um dos guardas fica o tempo todo vigiando-o, com um rifle a tiracolo. Ele deve ter sido um homem bonito um dia... Quer dizer, sua aparencia não é das piores agora, só é de dar pena.

Agora já me deixam sair para fora do quarto, embora não me deixem andar pelas outras alas livremente. Dizem que é sempre bom manter-nos separados.

Isso aqui parece ser um lugar enorme. Já saí dar um passeio pensando em contornar o prédio, mas existe uma parte onde não nos é permitida a entrada, e a parte da frente onde tem o jardim e o pátio onde os carros estacionam é isolada do restante do prédio por cercas de ferro muito altas.


Um dia estava em meu quarto, penteando-me no espelho enorme que ganhei do médico bonito. Ele disse que me ajudaria a exercer e melhorar a minha auto-estima. Não havia nem percebido que a porta do quarto não era mais trancada, quando uma menina entrou de sopetão. Fiquei olhando seu reflexo no espelho, assustada.

Ela tinha o cabelo curto, e negro, como o seu, a franja a quase lhe cobrir os olhos. Ela disse que se chamava Ava, e foi logo sentando ao meu lado e pegando a minha mão.

Desde então temos sido melhores amigas. Ás vezes a gente foge da vista das supervisoras, e ficamos a passear pelas outras alas. Vamos até onde é possível, onde os portões não ficam trancados. Ava prometeu que me levaria á parte de trás do prédio, onde existe uma capela antiga, com uma torre muito alta. Disse que de lá se consegue ver todo o hospital onde estamos, e a estrada que leva á cidade.

Ela já está aqui a mais tempo do que eu. Foi removida de ala por bom comportamento. Desde que parou de atacar as pessoas, ganhou o direito de ter uma colega de quarto, e o médico bonito disse que achou que eu seria a pessoa ideal, por ser mais calma e recatada.

Ava tem um problema do qual nunca ouvi falar... Tem a ver com ninfas, eu não entendi direito. Ela é bastante alegre, ás vezes agitada. Na primeira semana ficava me encarando antes de pegar no sono. Eu via seus olhos brilhando no escuro, seu rosto contornado pela luz escassa que vinha de fora. Era um pouco assustador, no começo.

Então uma de nós pegava no sono, antes de acharmos algum assunto para conversar. Agora já consigo conversar com ela, e já lhe contei bastante da minha vida. Depois de um tempo, ela começou a pedir para dormir na minha cama. Eu não deixei, no começo. Mas gosto do perfume do seu cabelo.

Agora que já nos deixam passear lá fora, estamos invariavelmente nos jardins, ou no grande pátio com o carvalho. Ela gosta de cantar, e tem deixado meus dias mais alegres.

Eu realmente não sei o que é essa tristeza que me devora. Ela vem de repente como uma sombra, e se instala devagar até tomar conta de mim inteiramente. Só sinto vontade de dormir, ou de chorar. Ás vezes, nem comer eu consigo. O médico bonito disse que eu tenho emagrecido.
Ele me olha com aqueles olhos azuis, e eu juro que parece que vão sair faíscas. Ele é muito grave, o tempo todo, mas me trata com carinho.

Você sabe, não daquele jeito todo formal que se espera de um médico. Ás vezes ele segura meu queixo e fica me olhando bem no fundo dos olhos um tempão. Eu não consigo encarar por muito tempo sem morrer de vergonha. Acabo desviando os olhos. Ou então acaricia as minhas costas, como se eu fosse algum animal de estimação.

Quando contei a Ava sobre isso, ela deu umas risadinhas estranhas e me chamou de boba. Ela sempre age como se fosse uma sabichona e eu uma tola ingenua. Ela disse que tem alguns segredos sobre a vida que eu não conheço e que um dia irá me ensinar.

Acho que ela me faz bem. Se não fosse pela amizade dela, eu nem levantaria da cama de manhã. Sequer pentearia o meu cabelo. Ela quem sempre me puxa pra fora da escuridão.

Ainda não entendi o que eu estou fazendo aqui. O médico bonito só me deu algumas pistas, tem a ver com algo que fiz contra meus pais. Não sei o que possa ter sido. Sempre foram anjos para mim, e eu sempre fui uma filha obediente.

Por isso que eu acho que a Martina aprontou alguma coisa pra me colocar aqui. Ela que sempre foi a ovelha negra da família. Sempre mereceu as surras que levou, e não foram poucas.

Regina, vou terminando esta carta por aqui. Tem muito mais coisas que quero lhe contar, e contarei a tempo. Agora devo parar de escrever porque os corvos já estão se aproximando.

Um beijo,
Estella

domingo, 15 de fevereiro de 2015

CARTAS PARA REGINA - CARTA I

 (Waverly Hills Sanatorium, USA)

CARTAS PARA REGINA - CARTA 1

21/01/1951

Regina, preciso lhe contar com urgência o que aconteceu comigo antes que pense que eu morri.
Não posso confiar em mais ninguém, nem sei o que fazer agora, faz uma semana que me pegaram de surpresa e me prenderam aqui dentro.
Não sei onde estão papai e mamãe...

Se tiver notícias, por favor me envie!
Estou muito preocupada, pois desde que me trouxeram pra cá não mais os vi.
Acredito que tudo seja obra de Martina, minha irmã.
Nós éramos tão amigas, e agora simplesmente não a suporto, não a suporto!

Você consegue imaginar Regina, o que é odiar tanto assim alguém que é sangue do teu sangue?
Desfrutar da companhia de alguém desde o seu nascimento, dividir o berço, e chegar ao ponto de não suportar ouvir a sua respiração?
Olhar-se no espelho, e odiar cada traço ali desenhado porque são os mesmos traços da víbora que tem tentado usurpar a sua própria vida, seus amigos, até mesmo a estima de teus pais...

Mas chega de falar dela, preciso mudar de assunto senão enlouqueço!
Só de pensar nela tenho ganas de roer minhas unhas a ponto de arrancar sangue dos dedos.

E nada posso fazer, nada posso fazer... Penso em como ela conseguiu arquitetar essa tramóia, que mentiras contou para conseguir me trancafiar aqui.

Não tenho certeza de que lugar é esse.

No primeiro dia foi muito estranho, acordei e já estava aqui... Acho que deram-me algo para me dopar em casa, acho que dormi o caminho todo para cá...
Quando acordei, já estava numa pequena sala, toda acolchoada, com uma luz escassa. A sala fedia, não sei nem explicar a que...

Acordei e fiquei quieta, desorientada, tentando imaginar onde estava. Meus braços e pernas estavam dormentes, parece que fiquei encolhida por muito tempo.

Abriram a porta de sopetão e me tiraram dali. O que parecia ser uma enfermeira enorme e grosseira me levou a um banheiro com muitos chuveiros. Tratou-me com violência e deu-me um banho rápido naquela água fria; aquele lugar todo fedia a mofo e ranço.

Depois trouxeram-me para um quarto, onde me deram dois comprimidos, e um copo d'água.
Não devia ter engolido, mas na hora não tive escolha, não sei se foi a tontura ou a fome que me fez engolir.
Em alguns minutos, acho que adormeci.

No dia seguinte, já estava sentada no lado da cama, esperando alguém entrar por aquela porta.
Não tinha ideia de que horas eram, mas estava zonza de fome. Parecia que o dia todo já havia passado.
Havia uma janela no quarto, com grades do lado de fora, de onde eu via um jardim mal cuidado, mas não aparecia ninguém para eu pedir socorro.

Fiquei encarando a porta, esperando ela abrir, mas ela não abria.
Encarei a porta com tanta força que ela pareceu amolecer, se entortar, escorrer pelo chão feito uma massa de tinta cinza e podridão.
Podre como o resto do quarto, empoeirado, bolorento...

De repente entrou um homem bonito, de jaleco branco, falando cortesmente comigo, perguntando como eu estava me sentindo. Seus olhos eram azuis e afiados como adagas.
Parecia medir cada movimento meu, e seu olhar me esmagava...

Disse a ele que estava ótima, e fiquei o tempo todo calma. Incrivelmente calma, e com fome, muita fome.
Ele pediu a uma enfermeira que me servisse no quarto.
Veio um prato de sopa, que apesar de insossa, comi vorazmente...
Trancaram-me novamente, não sem antes me dar duas pílulas, que engoli.
Dessa vez eu não dormi.

A semana passou quase toda assim. Eu ficava o tempo todo trancada no quarto, só saía para ir ao banho ou ao banheiro. Meus banhos eram sempre solitários, com aquela água fria e a enfermeira truculenta me olhando, e ás vezes ela me banhava. Tratava-me com violência, esfregando um pedaço de pano velho nas minhas costas e nas pernas e acho até que gostava de me tocar. Chamava-me de porca, dizia que eu não sabia nem me limpar direito.

As refeições, que eram três ao dia, eu recebia no quarto. A comida era insossa, de aspecto estranho. O pão geralmente estava duro, e a água tinha um gosto ruim, de água parada.

Eu sei que tem mais pessoas aqui, porque eu ouço os seus barulhos. Uns gritam, outros uivam.
Mas ainda não os vi.
Acho que essa semana o médico vai me liberar para tomar minhas refeições com os outros, no refeitório. Foi o que ele disse.
Ouvi ele falando com alguém do lado de fora da porta, ontem de tarde. Ouvi também um pouco de música, vinda de algum rádio em algum lugar lá fora.

Estou doida pra ouvir um pouco de música!
Regina, responda essa carta assim que a receber!

Preciso saber dos meus pais. Mas por favor, não conte a eles que escrevi a você. Não quero que Martina saiba por intermédio deles.
Tenho medo que ela dê algum jeito de fazer o médico bonito me proibir de escrever para você!

Até fiquei surpresa quando ele me trouxe papel e lápis.
Ele disse que o serviço de correio passa por aqui uma vez por semana, então posso te escrever toda semana.

Escreva-me logo. Será um bálsamo receber uma carta sua, pra me distrair desse tédio e podridão.

Um abraço de sua amiga,
Estella.

POEMA - SUSSURROS


SUSSURROS

Gostaria de poder
Falar mais contigo,
Mas não tenho
Muito tempo.
Temos que ir
Aos campos,
Fazer a colheita
Da cevada.
E eu pressinto
Que vem chegando
Alguém.
Temo que o povo
Do vilarejo
Vá a me julgar
Louca,
Pois não acreditam
Em fadas.

Amanhã voltarei
Quando o sol
Estiver morno.

Marie Jo em 28/02/2001

POEMA - ERRANTE


Como poderá essa tempestade
Ajudar-me agora?
Envolvendo-me em seu abraço molhado
E gelado
Sinto-a em minha pele
Tal qual um manto
De cacos de vidro.
Cortante em meu coração
E dilacerante em minha alma
E se eu choro
As lágrimas sequer podem
Transfigurar sua beleza
E escorrem frustradas
Pela minha face
Como poderá essa ventania me ajudar agora?
Se não possui força
O bastante
Para me levar embora?
Por favor,
Leva-me daqui...

Marie Jo 11/06/2001.


POEMA - AGONIA


Ferros retorcidos tocam
O lado negro da alma
Acordando seu mais profundo instinto
Enlouquece até a pessoa
Mais calma.

Eu grito, mas ninguém me escuta.
Grito novamente para sair do transe
Sozinho cá estou,
Furioso, com medo sem que alguém me alcance.

O que nos torna tão diferentes...
Se nos fere, não sangramos
Resistir já não adianta mais,
Não no mundo em que vivemos...



  • Ainda estou em dúvida se este poema foi escrito por mim, ou meu irmão Ritchie, em 28/02/2001.

POEMA - MALABARES


Intangíveis sopros
Pérfidos,
Servis canastras
De apetite voraz.
Temem que nos tomem
Perfilados e exaustos,
Da batalha
Ao travar
Da meia-noite.
Rompem os sinos
Prescrutando
Paisagens nuas,
De neve e areia
Secas como a boca
Que ansia por respirar
Um último fôlego
Que te atormenta.
E já não posso figurar
Os vazios pés
Ao tocar a majestade
Dos ossos podres
E intrépidos,
Sem que a cólera
Entenda as raízes.
Superficial é
Mas cobre de matizes
E cones, abraços
Castiçais da córnea
Atrevida.
Já era uma vez
No inacabado ventre
Despertando embaraços
Homéricos,
Sem que sinta
As iniqüidades da ilusão
E das leis que regem
Teu padecimento.
Compadece-te de ti mesmo.
Ó pobre aurora,
Foste uma vez
Celestial...
E agora comes
O pó que para si própria
Retalhas.
Sem regeneração
Ou astúcia
Da palavra,
Que de tão mórbida
Lhe fere os olhos
E os ouvidos.
Ao esvaziar tais sombras
Em profusão de caminhos,
Que se passa em sua
Mente.
Para que não
Entendas
As verdades
Destas árvores,
Que brotam flores
Malcheirosas e
Insandecidas?
Não passas de um ébrio
Excomungado
E mal vivido,
Deixado de lado
Pelo abraço
Da razão,
Cujas correntes
Enferrujadas
Açoitam nossas faces demoníacas,
E nos purificam
Qual anjo celestial
Porém incompreendido.


Marie Jo em 28/02/2001.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

POEMA ESPIRITUAL


Foto: http://getasword.com/blog/391-celtic-gods-list-of-celtic-gods-and-goddesses/


POEMA ESPIRITUAL

Quando pousaste
Tua mão branda
Sobre meu ombro
E me acolheste
Num abraço morno,
Pude sentir teu coração
Bater em compassos
Harmoniosos
Em pulsares universais
Radiosos e magníficos,
Tal qual tua infinita glória
Senhora,
Que emotiva e alimenta
Essa minha alma
Pacífica e silenciosa.


Marie Jo em 27/02/2001

domingo, 1 de fevereiro de 2015

POEMETO PARA OCUPAR ESPAÇO IV

Foto: https://www.pinterest.com/belindadaubneye/ink-pots-quills/

POEMETO PARA OCUPAR ESPAÇO IV

Sem ter mais o que fazer
A artista pousa a pena
Sobre a mesa de formas barrocas,
Despe-se de seu pincenê
E vai para seu leito
Sonhar...


Marie Jo em 26/02/2001

POEMA - CANÇÃO DE NINAR

Foto: http://imgarcade.com/1/creepy-dolls-wallpaper/

CANÇÃO DE NINAR

A garotinha chorava copiosamente
Sobre a laje de formas toscas
Enquanto corvos a espreitavam
Através da penumbra.
Com seus olhos de ébano
Refletindo a maldade arcaica
Inerente á sua natureza de rapina,
E moldada pela condição sombria
A qual lhes era imposta á alma.
E a garotinha
Ao avistar aquela revoada
Fugiu desesperadamente através da floresta escura e fria.
E ao tropeçar em seus próprios sapatinhos rústicos
Deixou-se cair sobre as folhas,
Esperando que as mãos rústicas da morte
Afagassem-lhe os cabelos


Marie Jo em 26/02/2001

POEMA - DEPOIS DE AMANHÃ

Foto: https://www.flickr.com/photos/tocamelfrigopie/14373342484/?rb=1

DEPOIS DE AMANHÃ

Hoje acordei com vontade
De ser melodramática,
De cantar alto e desafinado
E errar o tom de propósito.
De andar com preguiça
E postura murcha,
Relaxada e desleixada
Como um chinelo velho e macio.
Devagar e devagar,
E olhar com desdém através dos tolos
Que hoje para mim,
Não valem mais do que o pó que encarde
Meus pés descalços.
Pois hoje é dia de viver sem motivo.


Marie Jo em 26/02/2001

sábado, 3 de janeiro de 2015

CAUSO - EU CAIO!



EU CAIO

Esta história contada pela Dona Maria*, parece ser bastante conhecida na região.
Conta-se que há muitos anos, os viajantes e bandeirantes costumavam parar para pouso nesta velha casa abandonada, não se sabe exatamente a sua localização entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul.

Esses tropeiros, como eram mais conhecidos, levavam e traziam mercadorias de vilarejo em vilarejo no lombo dos cavalos e nas carroças. Percorriam longas distâncias, abrindo muitas vezes novas picadas pelo mato, ou fazendo das pequenas estradas de chão batido as rotas por onde hoje em dia passam as nossas estradas e rodovias principais; e o que eram vilarejos, se tornariam as nossas cidades.

A casa era conhecida, por ser grande e imponente, apesar de velha e caindo aos pedaços. E dava arrepios, muito menos pela aparência de assombrada e mais pelas coisas que realmente aconteciam nela.

Conta-se que vários cavaleiros já viram e ouviram a visagem que gritava, do segundo andar: EU CAIO!

Era sempre assim que acontecia: os rapazes estavam ao redor do tacho de fogo, tarde da noite, fazendo a janta ou tomando um café xucro ou chimarrão, quando uma voz grave gritava do andar de cima: EU CAIO!

Todos se entreolhavam espantados, tentando contar entre os presentes se havia alguém faltando, que pudesse estar tentando lhes pregar uma peça. Como não dessem pela falta de ninguém, e sabendo que a casa não era habitada há anos, os rapazes ficavam muito assustados.

Invariavelmente respondiam: CAIA! Para ter uma surpresa desagradável. Pois assim que respondiam ao “fantasma” do andar de cima, um pedaço de corpo em estado de putrefação despencava por um buraco no forro.

E o fantasma repetia a pergunta: EU CAIO?

Os mais corajosos respondiam ainda algumas vezes, vendo braços, pernas, pés, caindo e se amontoando no meio da sala. Mas ninguém nunca ficou tempo o bastante para ver o resto do defunto cair. Geralmente juntavam as coisas às pressas e iam achar outro canto para pernoitar.

Somente um bravo foi forte o bastante para responder o fantasma até o final.

Ele ameaçava: EU CAIO! E o bravo respondia: CAIA!

Os pedaços do corpo iam caindo aos poucos, até que o defunto ficou inteiro, e se “remontou” como o antigo dono da casa que indicou a este bravo um pote de ouro que estava escondido sob uma goteira.

            Esse causo deve ter sido muito conhecido e divulgado nas rodas de chimarrão e acampamentos de nossa região, entre os tropeiros, os antigos ou entre as crianças quando chegava a hora de assustar umas ás outras nas brincadeiras. Lembro de ter ouvido quando eu era criança, á noite, depois que nos cansamos de brincar de pique esconde. Espero que não desapareça como o resto de nossa herança cultural.

*D. Maria, in memorian, só poderá ser identificada com autorização de sua família.


CAUSO - O TESOURO DA AMEIXEIRA E O BODE QUE ANDA DE RÉ


O TESOURO DA AMEIXEIRA E O BODE QUE ANDA DE RÉ


Existia no Rio do Salto uma história muito conhecida, de um tesouro enterrado sob um pé de ameixa, a qual saía de dentro de uma tapera em ruínas. As pessoas conheciam a história, pois a visagem apareceu uma vez a um incauto que nunca teve coragem de desenterrar seu tesouro.

Acontece que as pessoas passaram a cobiçá-lo, mas ninguém tinha coragem de desenterrar temendo as provações pelas quais passaria. Pois conta-se que mesmo que a pessoa seja aquela para quem a visagem revelou o tesouro, se ela for desenterrá-lo, verá, ouvirá, e sentirá as mais diversas aberrações e criaturas tentando impedi-la de realizar seu intento.

Dona Maria*, que me contou essa história, disse que uma vez, seu marido resolveu desenterrar o dito tesouro.

Dirigiu-se à tapera com pás e picaretas e começou a cavar no local indicado, sob o pé de ameixa, e estava ficando cada vez mais tranqüilo, pois o tempo passava e nenhuma criatura aparecera até aquele momento para incomodá-lo.

Já estava relaxado e feliz, visualizando mentalmente o que faria com as moedas de ouro que encontraria, quando uma das menores criaturas apareceu para incomodá-lo.
Era uma pequena abelhinha, que parecia inofensiva, e ele se livrou dela facilmente.
Até que apareceu mais uma, e mais uma, e logo um enxame vindo não se sabe de onde começou a importuná-lo e pior, a picá-lo, e o sofrimento com as abelhas foi tanto que logo ele desistiu de desenterrar o tesouro para nunca mais voltar.

E depois disso, quem quer que fosse que ali cavasse, era expulso pelo enxame de abelhas ferozes. Por isso, o pote de outro permanece na tapera, enterrado.

Não está bem certo se foi neste mesmo local ou em outro, em que um tesouro também estava enterrado debaixo das raízes de uma árvore, como era o costume. O senhor que o enterrou, deixou escapar em uma conversa, que quem quisesse desenterrar o tesouro, teria que levar um cabrito de ré até o local, debaixo da árvore.

Essa conversa foi ouvida por umas crianças que espiavam o velhinho, com intuito de tirar dele este segredo, e contaram esta mesma história  para um adulto conhecido delas. Este homem logo se achou o felizardo por ficar sabendo do tesouro, e com planos de desenterra-lo, levou um cabrito de ré até o local indicado. Mal sabia ele que estava sendo usado.

As crianças ficaram de tocaia na copa da árvore, esperando o homem realizar o seu intento de levar o cabrito andando de ré até à árvore, coisa que não era fácil.  Mal conseguiam segurar as risadas enquanto observavam o pobre homem lutando com o cabrito, tentando faze-lo chegar até a árvore do tesouro andando de trás pra frente.

Acontece que o homem finalmente conseguiu terminar o percurso, e já estava cavando quando uma cobra apareceu para atrapalhar. Os animais realmente respeitam os pactos feitos com as visagens. O homem fugiu assustado com a cobra, que logo desapareceu no mato, e as crianças desceram da árvore e pegaram as moedas de ouro que ele cavara, e gastaram tudo, dizem, com guloseimas.


*Esses causos foram contados pela D. Maria, que só poderá ser identificada com autorização da família.

CAUSO - O LAGARTO DE OURO



O LAGARTO DE OURO


Meu avô, Sebastião Tauscheck, conta que é muito provável que ainda existam muitos “potes de ouro” para serem desenterrados em nossa região. Pois antigamente, quando da construção da linha férrea, circulavam muitas moedas de ouro e de prata trazidas pelos ingleses que construíram a ferrovia. Eles pagavam seus funcionários em libras esterlinas, mas era difícil conseguir comprar alguma coisa ou trocar essas moedas, então elas acabavam guardadas. Então estas moedas antigas de ouro e de prata passaram a valer pelo seu peso, muito mais do que o seu valor cunhado.

As pessoas de antigamente, que ainda tinham estas moedas, viviam com medo de ser saqueadas pelos rebeldes que andavam por aí, e as enterravam para que ficassem bem cuidadas. O problema é que iam sozinhas, pra que ninguém mais soubesse do paradeiro de seus tesouros e não pudesse contar aos rebeldes nem sob tortura. Então, estas pessoas, donas dos tesouros, acabavam morrendo de velhice, ou doença, sem nunca ter revelado a ninguém onde guardaram suas economias, ou a “poupança” da família.

Meu avô contou que certa feita uma moça que morava na região, viu um lagarto comendo os ovos das galinhas no galinheiro. Ela espantou o lagarto que correu para dentro de um buraco no mato. Ela foi para casa e voltou com uma pá, disposta a cavar e matar o lagarto para que não incomodasse mais. Qual não foi sua surpresa ao cavar e deparar com uma panelinha cheia de moedas!

Encantada, a moça guardou bem suas moedinhas, pois precisava de muitas coisas e ficou planejando como gastá-las. A primeira coisa que fez foi se arrumar e ir á cidade, na loja do Seo Joãozinho Sapateiro, que muitos devem recordar; pra comprar um sapato. Ela encomendou os sapatos, e pagou adiantado os trinta mil cruzeiros que custavam na época.

Ela contava as moedinhas, como se fossem trinta mil cruzeiros, mas o Seo Joãozinho Sapateiro, ao prestar atenção nas moedas da moça, quase não se conteve de emoção. A moça contava moedas de ouro inglês, libras, como se fossem cruzeiros! O Seo Joãozinho não perdeu tempo, e perguntou pra moça se ela tinha em casa mais moedas como aquelas. Ela, ingenuamente, disse que sim, e então eles combinaram de trocar as moedas da panelinha de ouro dela pela mesma quantidade em cruzeiros, assim a moça poderia comprar tudo o que precisava com moeda corrente, sem ter medo de não serem aceitas no comércio.

Seo Joãozinho Sapateiro que não era bobo nem nada, trocou as moedas, logrou a moça ingênua, e sumiu da cidade. Dizem que com aquelas moedas ele enriqueceu e foi morar em Curitiba. Por aqui, ele nunca mais foi visto. E nem o lagarto, que para surpresa minha, aparece em muitos outros casos de visagens da região.

Não foi o caso desse acontecido em especial, onde um lagarto comum entrou no mesmo buraco que para sorte de alguns, continha um tesouro.

Mas os antigos falavam muito no Lagarto de Ouro, que é uma espécie de visagem que se manifesta como um facho de luz rasteira. Dona Neuza*, que me contou muitas histórias, disse que o pai dela via muitos desses Lagartos de Ouro nos reflorestamentos em que trabalhava. Ele contava que muita gente seguia o caminho para onde essa luz chispava, e cavava no local onde ela desaparecia, achando os potes de ouro enterrados pelos antigos na época das guerras do Contestado, ou mesmo em épocas anteriores onde o dinheiro da família precisava ser protegido dos bandidos. Esse facho de luz é muito rápido, e parece de fato um lagarto correndo no mato. Se você um dia estiver no mato e avistar essa luz, corre que pode ser um pote de ouro á sua espera.


A história que meu avô me contou pode até não ser sobre o famoso Lagarto de Ouro. Mas pode ter certeza que para mim ela vale muito mais, pois é um conto e uma herança cultural inestimável que ele passou pra mim.