terça-feira, 30 de dezembro de 2014

CAUSO - O CACHORRINHO BRANCO

Fonte: http://shibashindig.blogspot.com.br/p/ghost-of-buddha.html


O CACHORRINHO BRANCO

Contado por Neuza*

Mesmo depois de idoso, meu pai afirmava que o que tinha acontecido aquele dia em Tingui era a mais pura verdade. Ele nunca foi de contar mentiras ou lorotas, e mesmo depois de certa idade, ele ainda tinha esse caso vívido na memória.

Nossa família morou muitos anos na localidade de Tingui, perto de Mafra. Meu pai trabalhava todo dia na lavoura, com sua carroça e seus cavalos. Voltava invariavelmente tarde para casa, pois gostava de passar algumas horas com os amigos no bar que ficava no caminho de casa.

Uma noite, ele ficou neste bar até tarde. Era quase meia-noite e ele ainda estava a uns quatro quilômetros de casa, em uma reta na estrada de Tingui, quando avistou ao longe, tanto quanto podia ver no escuro, um cachorrinho branco deitado na estrada.

Um dos cavalos ficou muito arredio com a presença do cachorrinho, e não quis passar por aquele trecho de jeito nenhum. Meu pai insistiu com os animais para continuar, enquanto o cachorrinho os observava ao longe.

Foi quando o cachorrinho se levantou da estrada e veio na direção deles. Meu pai não sentiu medo, pois era só um cachorrinho branco, mas aquele cavalo em particular dava pinotes e todos pareciam estar amendrontados.

O cachorrinho chegou perto deles e começou a brincar à sua maneira. Puxava os arreios por baixo daquele cavalo mais assustado, tentando arrancá-los. Meu pai fazia de tudo para segurar o cavalo antes que virasse a carroça, e tentou também várias vezes agarrar o cachorrinho para que parasse. Porém, cada vez que ele colocava suas mãos no cachorrinho branco, elas o atravessavam como se nada houvesse ali.

Meu pai desta vez ficou meio confuso. Apesar de ter estado em um bar, ele não estava realmente bêbado para ver coisas que não existiam. O cachorrinho estava de fato ali, fazendo a maior bagunça, mas era como se fosse feito de fumaça, pois não se podia agarra-lo. O cachorro puxou e puxou as cordas de couro do cavalo apavorado, até que soltou os arreios que caíram ao chão. O cavalo fugiu galopando o mais depressa que pôde na direção contrária, até que meu pai lembrou-se de um saco de bolachas que sempre carregava junto consigo, e jogou algumas para distrair o cachorrinho.

Só teve tempo de subir na carroça e atiçar os cavalos que sobraram, e correu depressa pra casa, transtornado. Mal ele chegou em casa, e o cavalo que havia se soltado dos arreios retornou também. A mãe o espiava pela janela e eu e minhas irmãs fingíamos dormir no quarto, mas na verdade estávamos ouvindo tudo.

O pai entrou pela porta branco igual um vulto, e contou o sucedido à mãe, que ralhou com ele pela hora que chegou em casa e por ter bebido:

-        Só pode estar vendo coisas mesmo, depois de beber umas no bar! – disse ela.

Mas o pai jurou que estava bem são, e que podia provar que o cachorrinho o atacara pois os arreios que ele mordeu ficaram pela estrada. No outro dia, fomos buscar os tais arreios, e lá estavam eles, no mesmo lugar em que o cachorrinho branco os havia deixado.


*Nome alterado para proteger a identidade.

CAUSO: IREI TE VISITAR

Fonte: http://www.bizarrebytes.com/the-scariest-and-most-famous-female-ghosts/#sthash.nOLeId0B.dpbs

IREI TE VISITAR

Contado por Neuza*

Quando minha mãe era recém-casada, ela morava em uma casa lá em Avencal do Meio. Havia uma vizinha muito idosa, que era afeiçoada à minha mãe, e sentiu quando minha mãe foi morar mais longe da casa dela. A vizinha, ao se despedir de minha mãe no dia de mudança, abraçou-a, e fez uma promessa:

-        Não se preocupe, irei te visitar.

Acontece que depois que minha mãe se mudou, as duas não se viram mais. Pois moravam um pouco longe, e minha mãe estava sempre muito ocupada com seus afazeres domésticos. A vizinha era velhinha, e acabou falecendo, sem ter cumprido sua promessa. Ainda...

Minha mãe conta que, certa noite, alguns meses após o falecimento da vizinha, ela acordou sobressaltada com um barulho vindo da cozinha. Ela sentou na cama e ficou escutando os passos de uma pessoa que andava de um lado para outro e veio para a frente de sua cama, mas a mãe não conseguia ver nada.

Minha mãe acordou meu pai, que também ficou escutando mas nada viram. Aquele barulho, à noite, se repetiu por dias. Vinha de fora, atravessava a varanda, entrava dentro de casa e parecia andar de um lado para outro.

Até que minha mãe finalmente recordou que tipo de barulho aquilo era. Era um arrastar de chinelos. Então ela se lembrou da vizinha que havia prometido vir para visitá-la. O mesmo barulho que ela fazia, andando tranqüilamente arrastando seus chinelinhos, minha mãe podia ouvir dentro de sua casa.

A vizinha cumprira sua promessa.


*Nome alterado para proteger a privacidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

CAUSO - OS DOIS CÃES NEGROS

Fonte: http://www.worth1000.com/entries/27682/ghost-dog

OS DOIS CÃES NEGROS


Contado por Mercedes Duleba Cantuaria (in memorian)

Certa vez fiquei com a minha avó nas férias de verão enquanto minha família foi à praia, pois eu estava fazendo um curso profissionalizante. Normalmente teria ficado zangada com a minha situação, pois eu era adolescente. Como assim toda a família iria à praia menos eu?

Porém, naquela época, eu estava mesmo contente de fazer o curso e passar umas férias diferentes. Aproveitei que estava em casa com a minha avó Mercedes, e comecei a perguntar sobre coisas do passado. Queria saber como ela conheceu o meu avô, como era quando eram jovens. Ela disse que conheceu meu avô na antiga Móveis Cimo. Ambos trabalhavam próximos, mas nunca haviam se falado até que um dia minha avó cortou a mão em uma serra, e meu avô, Sr. Lucas Cantuaria, correu até ela com um lenço vermelho para estancar o sangue. A partir dali, começaram a conversar, e meu avô mostrou-se interessado em namorar a D. Mercedes.

Um dia ela o questionou porque ele namoraria com ela, que era tão simples, uma gata borralheira, ao invés das irmãs dela, que eram mulheres mais exuberantes, sempre bem vestidas e arrumadas, algumas com faiscantes olhos azuis. Meu avô respondeu que gostava dela justamente por ela ser uma pessoa simples e humilde, e por isso para ele, era a mais bela de todas.

O pai de D. Mercedes, o Sr. Estefano Duleba, era um homem muito severo. Era bravo mesmo, e muitos senhores da cidade devem se lembrar dele, de quando eram crianças e entravam no estabelecimento de meu bisavô, e eram enxotados por ele que não gostava de moleques fazendo bagunça. Um senhor a alguns anos reconheceu o Estefano nos traços de meu irmão mais novo, e confessou que tinha muito medo dele, o velho Duleba.

Mas voltando à história que minha avó contou, um dia o Sr. Lucas Cantuaria deu a ela de presente um relógio muito bonito em um estojo. Foi o que bastou para exaltar a ira do Sr. Estefano, que pensou que o presente significava que havia acontecido algo a mais do que o namoro recatado que minha avó tinha com meu avô, e os obrigou a casar imediatamente.

Os dois casaram, e foram morar em uma casinha improvisada perto de onde minha família mora atualmente, pois devido á pressa do Sr. Estefano, foi o que puderam arranjar. Minha avó conta que na noite de núpcias, estava o casal dormindo, quando dois cães começaram a uivar perto da casa. Ela levantou e abriu a janela para os enxotar, e viu os dois cães negros sentados logo abaixo. Ela ralhou para que eles fossem embora, mas os cães insistiam e resolveram passar o primeiro dia de casados de meus avós uivando e incomodando debaixo da janela.

Minha avó nunca mais os viu, mas acreditava, mesmo que secretamente, que eles eram mau presságio. Pois a primeira filha que teve com meu avô, que foi batizada de Maria Eudócia, morreu algumas semanas depois de nascer. E logo, quando meu pai ainda era muito pequeno, meu avô Lucas se foi, vítima de tuberculose.


E minha avó se perguntava, ainda, depois de mais de 50 anos, se aqueles dois cães negros eram uma visagem que viera lhe avisar que em breve perderia duas pessoas amadas, de sua família recém formada. “Deus comunica-se conosco de maneiras misteriosas...”

CAUSOS - A VISAGEM

Fonte: http://above-the-norm.blogspot.com.br/2010/10/haunted-houses-in-arizona.html

A VISAGEM

Contado por Neuza*

Um tipo de “causo” ou conto muito comum aqui no sul do Brasil fala sobre as visagens. Uma visagem é um fantasma que aparece para uma pessoa em especial, e que pretende revelar o local onde enterrou um tesouro em vida, para que somente esta pessoa tenha acesso e possa usufruir dele.

Existem algumas histórias sobre visagens com mensagens bem mais fatalistas. Dizem que a pessoa que enterrou o tesouro em vida, o fez conjurando demônios e espíritos para protegê-lo. Por isso, desenterrar tesouro de visagem pode levar á loucura e até à morte. Caso a pessoa que pretende desenterrar o tesouro não levar consigo um feiticeiro experiente, ela pode ver demônios e vários bichos estranhos saindo do local em que estiver cavando, ou ser enganada pelo próprio feiticeiro que ficará com o dinheiro ou as jóias. Pior ainda se levar alguém para ajudar, pois o tesouro pode despertar uma ganância feroz, fazendo com que até irmãos briguem e matem por ele.

Aqui em nossa região, dizem que só a pessoa que viu a visagem é que pode desenterrar o tesouro. Se alguém mais souber dessa visagem, e tentar desenterrar o mesmo, jamais encontrará nada. Foi o que aconteceu com a família da Dona Neuza.

Um dia, seu pai chegou novamente tarde da roça, todo molhado por causa da chuva.
A mãe havia estado no rancho (que era um anexo da casa onde faziam fogo para defumação) algumas horas antes com as crianças, com o fogo aceso, mas desistiram de esperar pelo pai e foram para dentro de casa.

A mãe ficou esperando na cozinha e as crianças foram para os quartos fingir que dormiam. A mãe estava novamente espiando pela janela quando o pai chegou, foi guardar seus fiéis cavalos e entrou no rancho para se secar e se aquecer com o fogo que ainda ardia.

            Ele estava distraído olhando para o fogo quando do nada, à sua frente, surgiu a figura esbranquiçada de uma mulher, alta e magra, que havia falecido alguns anos antes. Os parentes dela haviam vendido ao pai de D. Neuza alguns acres de terra que herdaram da falecida. E ela disse para ele:

-        Nas terras que foram minhas, que tu compraste, estão os meus tesouros enterrados, no meio de dois pés de palmito bem próximos.

O pai tentou responder à mulher mas a imagem dela já estava se desvanecendo na parede. Ele correu pra casa todo esbaforido onde a esposa já o aguardava, e contou à ela que havia visto a visagem da velha e falecida vizinha lhe contando sobre um tesouro enterrado. A mãe ficou brava e ralhou com ele de novo, pois devia estar vendo coisas novamente depois de passar no bar. E além do mais, a velha era pobre, a única coisa de valor que possuíra na vida eram as terras que deixara para os parentes.

O pai ficou aborrecido, mas ele também sabia que a senhora fora pobre em vida. Os anos passaram, e ele não tentou procurar nem desenterrar o tesouro, e não tocou mais no assunto. Uma pessoa da família ainda procurou com um aparelho pra encontrar metal em volta dos palmitos que a velha indicara, mas nada foi constatado. Mesmo idoso, ele ainda contava todas estas histórias de fantasmas, tão vividamente e tão verdadeiramente que era impossível não acreditar que coisas do outro mundo realmente existissem.

Depois de muitos anos a Dona Neuza herdou justamente a terra em que os pés de palmito estavam plantados.  E os pés de palmito morreram e secaram com o passar dos anos, ficando somente grama em seu lugar. Ou, conforme o povo conta, devido às magias conjuradas para proteger o tesouro que a velha destinara ao seu pai. Ninguém tentou de verdade cavar no local indicado, seja por falta de medo, ou por falta de fé...

*O nome foi alterado para proteger a privacidade de minha amiga que me contou esse causo

domingo, 7 de dezembro de 2014

CRÔNICAS SOBRE O DESTINO


Como é que se pode
Como é possível
Saber o que será escrito por outrem
Muito antes de a caneta tocar o papel?

O que foram aqueles sonhos
Que me trouxeram até aqui
Muito antes de meus pés tocarem este solo?

Vagueei perdida por uma cidade onde haviam estas igrejas, tão altas
Oh, tão bonitas

E agora estando aqui, já achei três delas
Com suas torres altas guiando como faróis
As pessoas perdidas

O que são estes sonhos
E que faculdade dos sentidos é esta
De captar muito antes que aconteça a primeira brisa,
Todo o estrondo de um furacão
No mundo dos sonhos?

Será então que é assim que acontece...
Cada germe de intenção
Cada breve inclinação
Ou átimo de pensamento
Um dia irá nos levar a grandes coisas,
A grandes mudanças...

O que é isto de ser capaz de captar no ar
Ou na movimentação de ondas de energia
Nas cordas Universais
E antever o que irá acontecer muito antes que se tenha formulado na mente a primeira idéia que levará a um acontecimento?

Como é possível então
Em sonhos viajar até mesmo a um lugar que jamais se tenha estado,
Ou ouvido falar...
E estando nele finalmente, reconhecer os prédios que se viu em sonhos com detalhes e precisão assombrosos?

Há alguém escrevendo mesmo nosso destino?
Que será essa criatura que dita cada passo que damos
E ri-se por trás de cada página, de cada palavra?

Estamos mesmo fatalmente enredados pelo destino?
E podemos mesmo, através dos sonhos, vislumbrar o que não nos é dado a conhecer?

Marie Jo

JUNHO/ 2014

CONTO: CAROLINA


Fonte: http://www.pinterest.com/saluzzo/weird-strange/

CAROLINA

Carolina era pequena
Alva, que nem cera de vela
Tinha flores, rendas, laços
Por todo o vestido dela

Seu cabelo era dourado
Caindo em cachos pelos ombros
Mas seus olhos eram negros
Pareciam dois assombros

Carregava uma cesta
Pendurada em seu bracinho
E batia de porta em porta:
- TOC, TOC, quer um docinho?

Com seus sapatinhos pretos
Pelas ruas saltitava
E todo o povo já sabia
Era Carolina que chegava

- TOC, TOC, quer um docinho?
E a pessoa abria a porta
Tanta coisa pra escolher!
Chocolate, pé-de-moça e torta!

Cocada, brigadeiro
Paçoca de amendoim
- Puxa vida, que delícia!
- Tudo isso é pra mim?

Carolina abria a boca
Num esgar torto e cruel
Mas ninguém nem percebia
Distraídos com o mel

Cada um se deleitava
Com os doces da cestinha
E lá vinha Seo Cachorro
Receber sua comidinha...

Seo Cachorro?

Seo Cachorro era um verme
Que Carolina criava
Para onde ela ía
Seo Cachorro acompanhava

Seo Cachorro era enorme
Branco, fofo e rechonchudo
Tinha as patas bem pequenas
Tantas, nem consigo contar tudo

De cachorro, não tinha nada
Mas foi o nome que ela deu
Melhor do que se chamar
Filigranas Prometeu

E se você algum dia
Ouvir falar nesse nome
Avise toda a vizinhança
Tranque a casa, esconde ou corre

Porque lá vem Carolina
E Seo Cachorro logo atrás
Bater nas portas, oferecer doces
Do jeito que ela sempre faz

Minha avó já me dizia:
"Não abra a porta pra gente estranha!"
E sabe que ela tem razão
Obedeça e não seja tacanha

Porque Carolina é fofa
E de longe parece um anjinho
Mas se você abrir a porta
E comer só um docinho

Vai ficar paralisado
E o Seo Cachorro tem fome
Cada pessoa que pega um doce
Seo Cachorro vai e come!

Marie Jo

Abril/ 2014