terça-feira, 20 de maio de 2014

Poema - Asas Suaves



Asas suaves


Se me perguntas a respeito
Da beleza escondida em teus olhos,
Escuros e profundos,
Tão tristonhos.
Eu nada te respondo,
Mas te acolho
Em meu peito morno.
Que com recato, cubro
Com este alvo manto,
E com candura,
Te envolvo em minhas asas de fada.
E sussurro em teus ouvidos,
Esta melodia suave
Que é como o ópio
Que te enleva e vicia
Que te atrai para a doce armadilha
E encanta sem que entendas por que...



Marie Jo em 26 de Fevereiro de 2001.

Poema - As Cartas



As Cartas

Haviam cartas naquela mesa.
Que nunca foram lidas.
Ninguém as havia tocado até então.
Cobertas por uma sombra de dúvida,
Uma névoa de melancolia.
Pois todos sabiam que elas
Jamais chegariam ao seu destinatário.
Eu caminhei até a mesa e as toquei.
Abri-las seria um pecado, um sacrilégio.
E eu o fiz,
E ateei fogo
Nas cartas,
Na mesa,
No lugar
Onde eu estava.
E as labaredas lambiam minha face,
Revelando a crueza de minha alma.
Há coisas sem explicação
Que são ditas,
Palavras sem sentido,
Sentenças crápulas que são proferidas.
E que se em um momento nos abarrotam a vida,
Em outro já nem acalentam a si mesmas.
E são como aquelas cartas,
Longas cartas escritas e seladas,
Que nunca chegarão.
É tão sem sentido
Que eu continuo a fitá-las sem coragem
De dar o primeiro passo em sua direção.
Que tolice,
perder-me em tais devaneios!


Marie Jo em 26 de Janeiro de 2001.

Poema - Papel Picado



Papel Picado

Eu não necessito,
Não necessito delas.
As pessoas inúteis.
Com suas lábias fúteis,
Suas farsas volúveis,
E falhas indissolúveis.
Talvez nunca tenha necessitado,
E talvez nunca o tenha percebido,
Que de algum modo me tenham afetado.
De tal fato e jeito que já o é esquecido,
Pois todos se tornaram sem importância,
Sem concordância, sem instância
Nem aprumo.
Sonolentas
E entediantes,
Como esta poesia.


Marie Jo em 26 de Janeiro de 2001.

Poema - Libélula



Libélula

Gostaria de poder partir esta noite.
De descansar meu pranto e iluminar meu rosto.
E encontrar razões para sorrir de novo.
Mas apesar da força, sei que não posso.
Pois em meus pensamentos vejo teus olhos tristes e chorosos.
Por isso não posso partir.
Mesmo que para somente fugir.
Ao perceber que nosso amor é como uma libélula,
Que nasce para morrer no mesmo dia.
E isso é fato.
É destino.
É o olfato do que não se pode evitar.
Se eu partisse,
Queria te levar comigo.
Mas tenho receio pelo assassínio
E pelo castigo que virá depois.
É a dor que me toma pela impotência.
Pelo controle.
Uma jaula que me castiga.
Onde estou escondida.
Encolhida num canto.
Desejando partir para longe.
Longe dos olhos e das correntes.
Das desaprovações.
Tu sabes, meu bem,
Que o tempo é curto.
Perdoa-me por te fazer chorar.
Pois agora sou eu
Esta tal libélula.
Que ao cair da noite não irá mais voar.


Marie Jo em 03 de Janeiro de 2001.

Poema - Resignação



Resignação

Tento não caminhar
Sobre essas águas lodosas
E esses asilos refutados por assombrosos sacristãos.
Não me vislumbram temor na face.
Os ferimentos que me são chagados
São por inveja e profanação ao meu respeito.
E eles não tem o direito
De me insuflar tamanho sofrimento.
De me perjurar com dentes cerrados
E me perseguir qual herege de suas crenças.
Sou só um ser humano
Que não entende
Nem aceita
Esse sistema servil e submisso que me é imposto
Não sou eu a bruxa da história
A maldade,
em verdade,
É deles.


Marie Jo em 03 de Janeiro de 2001.

Poesia - TENAIM



Tenaim

Ás vezes queria explicar
Que é isso que tenho no peito
Estranho sentimento que guardo no coração.
Que de tão forte e vivo,
Já é um ser que em mim habita.
Ás vezes doce
Outras, selvagem.
Cheio de amor, e por vezes, ódio.
Envolvido, por momentos, em torpor sensual.
E em outras horas, por terna candura.
Virgem, e casto, e malicioso.
Sorriso ingênuo,
Puro e libidinoso.
Por vezes desejo não te ver,
Mas te quero tomar nos braços.
E possuir,
Sugar essa seiva de juventude,
Sorver este encanto carnal.
Como um peregrino a saciar sua sede na fonte,
E renascer mesmo sem nunca ter morrido.


Marie Jo em 03 de Janeiro de 2001.

Poesia - Incubus



Incubus

Viagens constantes
em um interior obsesso,
ortodoxas e errantes
por pensamento possesso.

De matizes e luzes
e diáfanas aparições
universos sombrios
e luxuriantes inversões.

De excitação se tomam
qual acácia exuberante
e o tolo particípio
já se prende consoante.

A poderosos ardis
qual estupenda carme
em melindres fanáticos
sublimação da carne.

Marie Jo em 26 de Outubro de 2000.

Poesia - O FIM


O fim

Ouço o rufar dos tambores
ao longe.
O carma da besta fera
que nos devora.
Em garras insanas
banhadas de púrpura.
A dor e o ódio
pungentes no peito.
De brados e receios
eu os acalento.
E ressalvo incólume
em meu ventre brando.
Suave recante
de um rebanho possuído.
Enquanto recaem sobre nós
amarguras e desgraças.

E então o escolhido
clamará aos céus.
E ao erguer suas mãos,
os anjos virão.
Fulgurantes e imersos,
em luzes e inocências.
E de todas paciências,
seus olhos brilharão.
E seu canto nos encherá o peito
de alegria e esperança.
E ao nosso sorriso
abençoará com bonança
E gritaremos salvação
e louvaremos.
E nossas lágrimas por amor,
a terra lavarão.
Ressucitando nossos fortes protegidos.

E aquele que antes
era o devorador.
Agora se perde
e de dor grita.
Pela mais suave brisa,
derrotado está.
E não mais acordará.
Pois o que antes era dor
agora é bênção.
E ressurge do fogo
e viaja com o vento.
Esse tesouro que quero derramar
sobre todas as almas e orações.


Marie Jo em 25 de Outubro de 2000.

Poesia - Desperato



Desperato

Vejo um lugar
Mórbido e fugaz
onde insetos sobrevoam
mórulas e zigotos
impedindo toda
fecundação e
renascimento.
E todas as etapas
desrespeitadas e carcomidas
por ferrugens de cadáveres
se arruínam e caem em
lagos incandescentes,
onde tórridas serpentes
em dança funesta
espreitam suas vítimas.
É uma festa fúnebre que se desenrola, completando
um ciclo de dores e torturas atrozes
violentando sorrisos
e arrombando olhares.
São somente bestas fétidas
e algozes
que nos devorarão.


Marie Jo em 24 de Outubro de 2000.