quarta-feira, 26 de março de 2014

POEMETO PARA OCUPAR ESPAÇO II



Eu estava naquela sala
Sozinha
Com medo de falar com o
estrangeiro...
Levantei-me
E caminhei até ele.
Fitou-me os olhos,
E começou a chover.
Enquanto raios serpenteavam
por entre as nuvens...

Marie Jo

28/02/2001

domingo, 23 de março de 2014

Poesia - Lamento da Druida




Aqui era minha
floresta encantada...

As copas das árvores se encontravam
quando ventava.

Á noite, se via uma cobertura aveludada
e ruidosa sob a brisa, que acariciava
o refúgio de tantas brincadeiras
e superstições.

Lugar onde surpreendiam
fantasmas, gnomos, ilusões.

Onde se podia observar
o por do sol
com o melhor amigo ao lado,
e as rezas e o silêncio
com o vento rodopiavam.

Mas agora só o que resta
é esse barro,
amarelo de sordidez
e destruição.
Onde os cantos dos pássaros
relembram as lágrimas 
pela infância,
e a mágoa pelas
lembranças
perdidas.


Marie Jo

24 de Outubro de 2000

sexta-feira, 14 de março de 2014

POEM - CERRIDWEN




I can almost feel the sound of the wind touching her hair

The curls and the waves dancing in the air

Brown and black autumn leaves and feathers on the ground

Flying and flowing through the cold breeze around

Got chills hurting like small needles on my body and skin

Cerridwen, Cerridwen, can you hear me cry? 

Oh my dear, can you hear me?



Marie Jo
24/03/2013

link: http://arewebeautiful.blogspot.com.br/2013/03/poema-em-ingles.html

POEMA - CONSTELAÇÕES




Arroubos expansivos e inertes

Que se convertem

Em asperções

E profanações,

Por onde tolos esconjurados

Guiam-se através

De rotas e orações...

E dos astros se formam

Espelhos de honras

E castas admirações.

Quão vãs serão tais crostas

De estrelas impostas

Em suaves abnegações?

Que despertam em ira santa

Como fugazes

Aberrações.

Marie Jo
26/09/2000

quinta-feira, 13 de março de 2014

POESIA - BRUXA


BRUXA



Eu quero proibir

todas as rotações

dessas luas.

Eu quero coibir

todas as ações

de suas manias

nuas.

Eu vou extinguir

as melodias

que retocam

rotas tuas.

E perseguir esses trovões

que relampejam 

pelas ruas.

E assim te afogarás 

e não nascerás, 

porque te proíbo 

e te domino,

e com estas palavras, 

eu te enfeitiço.



Marie Jo

25/09/2000

POESIA - VAMPIRO



Nos elos de nossa refração
Remida de tua obsessão,
Em vermelho traduzo tua reação,
Retraída em gotas de canção.

E os pés tocam a água e nos embalam,
No vermelho de olhos que te abalam,
Fugindo de pálpebras que se fecharam.

E o calor da paixão agora subtraída,
Escravidão pela qual fui traída,
Em fuga de vermelho atraída.

Convergendo e escorrendo em taça de veneno,
Esclerose e inapetência de um corpo moreno,
Não mais imprópria que a sede de um romeno,
Por vermelhas divagações que contraem teu rosto ameno.

Marie Jo
Setembro de 2000

quarta-feira, 12 de março de 2014

POESIA - EXU



EXU

Sois um trovão!
Um estrondo,
Um sopro,
Um vento afoito.
Um furacão,
Que torna, destorna,
Entorna, entoa,
Uma canção.
E em brisa leve,
De pensamento,
Percorre sedento,
Um semblante nu.
Eu, tu e a solidão.
Procuro palavras sem vazão,
Volúpia sem perdão,
Perdendo o espaço,
O tempo e a razão.

Marie Jo
Setembro/2000

POESIA - CONFUSO



NÃO SOU EU QUEM TE REMENDO AS PALAVRAS TORTAS,

NEM SOU EU QUEM TE COSTURO OS PENSAMENTOS ROTOS.

MAS POR ENTRE VÃOS DE SUAS EMOÇÕES ENGANOSAS,

EU CAMINHO ANSIANDO POR PARADEIROS MORTOS.

E SE UM DIA VIERES A PROTESTAR,

QUE ME CALO CANDIDAMENTE QUANDO FALAS,

É PORQUE NADA QUERO DECLARAR,

AO TESTEMUNHAR SUAS PRESENÇAS FALHAS.

Marie Jo

Agosto/ 2000

terça-feira, 11 de março de 2014

POEMETO PARA OCUPAR ESPAÇO I



POEMETO PARA OCUPAR ESPAÇO - I

Ladeando as escarpas
Escuras e Profundas
E agonizantes...
O elfo cavaleiro
Sela seu pacto,
E finda sua queda
Com o beijo horrendo
Da morte...

28/02/2001

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO IX - FINAL




CAPÍTULO IX


Meus pais começaram a chorar, o rosto do meu pai foi bem difícil de encarar:

- Filha, se ao menos tivesse um jeito...

Mas ele melhor do que ninguém sabia que eu não poderia ficar ali. Ele que foi quem mais lutou pra proteger a todos, quando devia estar sendo protegido. Ninguém nem tentou argumentar mais, pois bastava olhar pra mim pra entender que eu não me encaixava naquele lugar. Eu lia em cada olhar e em cada respiração tensa que, apesar de não admitir, eles sabiam que eu tinha que ir embora. Mas se eu tivesse um coração que fosse capaz de sentir, ele seria despedaçado pelo olhar do meu filho. Era o único que parecia achar certo eu ficar. Acho que a minha cara não ajudava muito, pois se pudesse eu já estaria chorando copiosamente. Fiz vários sinais para que entendessem que era hora de eu partir. Que não poderia continuar ao lado deles daquela maneira. O meu corpo já estava morto, e eu estava pronta pra partir.

Não se preocupem, tentei gesticular, eu estou pronta. Não tenho mais medo de morrer.
Se eles fossem capazes de compreender aquilo, acho que ficariam mais tranqüilos. Porque eu estava tranqüila. Sempre encarei a morte dessa maneira. Como apenas uma porta que todos um dia irão atravessar. E eu sentia que a própria morte já estava nos meus calcanhares há tempos. Fiz vários gestos de despedida. Tentei impedir de todo modo que se aproximassem pra dizer adeus. Mesmo que tivessem a maior vontade de me abraçar, sei que não fariam, pois eu estava repugnante. E não os condeno por sentir nojo de mim. Eu mesma estava sentindo.

Gesticulei mais algumas vezes, com ambos os polegares pra cima, apontando pro meu próprio corpo indicando que estava ok, que precisava ir, quando meu marido se aproximou. E como não poderia jamais me dar um último beijo no estado em que eu estava, ele me deu algo melhor. Bem melhor. Uma pistola. Alcançou-me a arma por cima da porteira. Fiquei feliz por ele ter entendido e sugerir o que eu deveria fazer. Naquele momento, todos se calaram. Por um instante, pelo menos, se calaram para que a compreensão os invadisse. Minha mãe abraçou o meu filho com força, que ainda tentava vir em minha direção, e disse a ele:

- Não se preocupe, ela está pronta.

E quem sabe, pensei, a gente se encontre do outro lado, um dia. Era isso que me dava esperança, e tranqüilidade para morrer. Sentindo que não havia mais nada a ser feito, e que já haviam todos compreendido a nossa despedida, lancei um último olhar, tentando dar a impressão de que estava feliz. Ver o meu filho chorando por mim quase me matou de angústia. Mas reuni as últimas forças que tinha e dei as costas a eles. Um dia, quando tudo melhorasse, ele entenderia, pensei comigo. Ele veria o quanto a vida é bonita e o quanto eu destoava de tudo aquilo... e então parti, fazendo o caminho de volta. Virava a todo momento para abanar um tchau, como fazia com meu filho quando ele ficava em casa com minha mãe e eu corria para o porto de ônibus para ir para o trabalho,enquanto o cavalo me seguia. Nunca vou esquecer o olhar de todos eles. No fundo, eles também tinham a esperança de me encontrar um dia, mesmo se não acreditassem nessas coisas espirituais, pensei.

Meu filho me chamava, e eu só podia acenar um tchau. Joguei beijos a todos, e antes de virar a curva na estrada, juntei as duas mãos em concha, e joguei um beijo ao meu marido, que foi o amor da minha vida e ao meu filho, por quem eu tentei enganar a morte. Como já disse, não podia mais chorar, mas em minha mente, lágrimas escorriam aos borbotões de meu rosto. Já estava caminhando de novo quando o cavalo me cutucou nas costas. Virei pra ver o que ele apontava e vi meu filho ao longe pulando a porteira e correndo em nossa direção. Teria sido melhor se eles tivessem me dado um tiro. Doeu ver o rosto contorcido de dor do meu menino. Montei como pude, e o cavalo parecia ter entendido a urgência de nossa partida, pois me ajudou a montar, e cavalgamos velozmente como quem foge da cruz.

Atravessamos finalmente a barreira na estrada, e cavalgamos pra bem longe, até o pôr-do-sol. Achamos um lugar bonito pra cair, e não sentar, porque antes que o cavalo parasse, eu já tinha caído de cima dele. Ele voltou e deixou-se cair, também, ao chão. Estávamos perto da cidade, pelo barulho de sirenes e confusão que vinha de não muito longe. De onde estávamos, dava pra ver o sol se pondo, uma última vez.

Verifiquei a arma, havia duas balas. Bem conveniente, pensei. Uma pra mim, e outra pro cavalo. Pensei se teria coragem de matá-lo, pois ele havia sido tão bom pra mim naqueles momentos finais. O cavalo meneou a cabeça, e pousou-a próxima à minha perna. Parecia até ouvir os meus pensamentos. Afaguei-o, e ele fechou os olhos, soltando a última bufada de ar. O tiro ecoou várias vezes ao longe. Ele não se mexia mais. Vai com Deus, pensei.

Fiquei ainda alguns momentos apreciando as cores do poente. Acho que nunca tinha dado tanto valor à criação como naquele momento. Nunca tinha ficado tão grata a Deus, ou á Deusa, ou sei lá a Quem, como naquele momento. Fiquei pensando porque eu, dentre tantos zumbis, havia acordado naquele dia, morta, mas com consciência. Acho que era porque eu tinha uma motivação, uma razão pra continuar : precisava salvar minha família. Precisava deixar o meu filho, o que há de mais precioso pra mim, a salvo.

Acho que, quando não temos motivação na vida, morremos antes mesmo do nosso corpo. Viramos uma casca vazia, sem alma, sem alegria. Agradeci a Deus e á Deusa, sem conseguir me decidir de uma vez por todas, por tudo. E implorei que salvasse a minha família daquela maldição. Que salvasse todos eles. De alguma forma, tive certeza disso, de que ficariam todos bem, e de que podia partir em paz. Nunca imaginei que receberia a morte tão placidamente. Acho que nunca alguém se sentiu tão à vontade com a própria morte como eu naquele dia.

Bem, eu estava pronta, não é mesmo? E afinal, todo mundo morre um dia. Acabei rindo sozinha, com a minha risada obscena de zumbi, forçando o ar pra dentro e pra fora e através das minhas cordas vocais meio apodrecidas. Afinal, tinha acabado de lembrar que eu já tinha morrido a quase 4 dias. Respirei fundo, por reflexo, uma última vez. Já podia sentir o cheiro da morte vindo. E puxei o gatilho.

FIM


MARIE JO CANTUARIA
15/07/2013




ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO VIII

CAPÍTULO VIII


E lá vinham eles. Uma cena realmente horripilante, pareciam os cavalos do apocalipse, mas sem os seus cavaleiros. Relinchavam de uma forma aterradora, o som tentando sair de suas gargantas e narinas infladas, faltando pedaços. Apareciam ossos e músculos poderosos aqui e ali onde a carne ou a pele haviam sido arrancadas. Eram cavalos zumbis. E corriam para nós. Fiz sinal para que minha família passasse por baixo das cercas de arame farpado. Meu filho e minha mãe passaram desesperados, com o pai dando cobertura. Meu marido pulou a cerca num salto só, pois ele era ágil, e os ajudou pois estavam se enchendo de arranhões. Meu pai, coitado, acabou se apoiando na cerca de qualquer jeito, e caiu do outro lado, todo arranhado. O cavalo que estava mais à frente tentou se jogar contra a cerca. Fiquei com medo que conseguissem pula-la.

Meu irmão Richard e meu marido John já estavam acima do monte de entulhos, cada qual atirando nos cavalos. Dois deles caíram. Não quis que o resto se aproximasse demais. Comecei a espanca-los com a enxada, mas não fazia muito estrago. Derrubei um deles, cravando a enxada bem no meio da testa, mas fui jogada longe devido ao movimento brusco. Eles empinavam, e tentavam agarrar as pernas de John e Richard. Tentei tira-los de perto, puxando pelo rabo, mas eu não era tão forte quanto queria ser. Um deles mordeu o meu braço, quase o arrancando, e teria doído se eu já não estivesse morta. Ele me jogou no chão com um movimento de cabeça e os outros acabaram me pisoteando.

Saí do meio daquele furdunço como pude. Meu marido sacou uma colt, e começou a atirar nos cavalos, que sucumbiram um a um. O resto da família já estava segura do outro lado da estrada, pensei comigo. Foi quando avistei, do alto da estrada, lá de onde tinham vindo os outros cavalos, o maior deles. Era realmente assustador, com patas mais grossas e poderosas. E ele nos encarava, cerceando as patas no chão. Levantei-me e o esperei. Ele tinha alguns nacos de couro faltando, e aqueles olhos vermelhos e irracionais aterradores, pousados sobre mim. Agarrei a enxada com as duas mãos, e minha família ficou me chamando para que eu subisse no monte de entulhos.

Mas eu estava já com o corpo tão cheio de estragos. Por sorte, da mordida não vazava fluido algum. Mas meu peito estava todo cheio de amassados onde os cascos afundaram. Por sorte eu estava com as faixas enroladas, e não tinha nada caindo pra fora. Mas fiquei com medo que também sentissem o cheiro de minha carne em putrefação, pois eu agora estava sentindo, misturado ao cheiro dos cavalos. Foi quando o alazão tomou impulso, e veio num cavalgar perfeito e possante na minha direção. Os segundos que ele levou para galgar a distancia que nos separava pareceram durar uma eternidade. Achei que era o meu fim. Na minha mente, vinham imagens da vida que tive com minha família, meu marido, meu precioso filho. Torci para que não estivesse olhando. Desejei mais do que tudo ser capaz de protege-lo. Desejei ser capaz de viver de novo.

Senti uma descarga percorrer os meus braços, e ergui a enxada para acertar a cabeça do cavalo morbidamente majestoso. Mas, contra todas as expectativas, ele parou de repente, bem na minha frente, resvalando um pouco nas pedras e levantando poeira. O sol da manhã já estava irradiando ás costas dele. E ele parecia a criatura mais medonha e gloriosa que eu já havia visto. Deus alguns passos pra trás, e me encarou com seus olhos de fogo.

Eu quase chorei, ou mijei nas calças, naquela hora. Se isso fosse possível, acho que teria feito os dois. Eu pude ver, assim que o encarei de volta, a compreensão nos olhos do cavalo. Abaixei a enxada no mesmo instante. Meu irmão e meu marido recarregavam suas armas, pois haviam dados uns bons tiros sem ter acertado o cavalo, apenas a estrada em volta dele. Fiz sinal para que parassem. Meus pais e meu filho falavam angustiados do outro lado, perguntando o que estava acontecendo.

Com uma das mãos, apoiei a enxada no chão, e com a outra, tentei tocar na fronte do cavalo. Ele recuou um pouco, bufando um ar gelado que foi forçado pra dentro e pra fora de seus pulmões, mas então se entregou. E eu senti o seu pelo duro, e gelado. Ele era como eu, pensei. Eu o encarava, e ele me encarava de volta. Parecia ter tanto sentimento naquele olhar que ele me dirigia! Parecia estar pedindo para que eu o salvasse, para que o redimisse.

Resolvi tentar monta-lo. A despeito de minhas súbitas intenções fantasiosas de me tornar uma amazona gloriosa da morte, minha tentativa de monta-lo foi totalmente desajeitada. Afaguei-o, e resolvi deixa-lo, pois minha família me chamava para continuar. Escalei o monte de entulhos da estrada, e caí para o outro lado, de costas para o chão. Meu marido correu pra me ajudar mas fiz sinal que se afastasse. Não queria que me tocasse cheia de vírus como eu estava. Andamos alguns metros do que seria uma caminhada de quase 4 horas, quando escutamos um barulho e todos olhamos para trás surpresos. Era o cavalo, que tinha pulado o entulho e nos seguia. Minha família obviamente ficou com medo. Mas eu fiquei pra trás com ele, pois pra mim ele parecia se comportar como um cão fiel.

Fiquei cuidando da retaguarda, enquanto minha família ia à frente. O caminho estava tão vazio que logo relaxamos. Podíamos ouvir o canto dos pássaros, que pareciam estar todos saudáveis. E até mesmo um lagarto enorme e sadio cruzou o nosso caminho. Nunca havia ficado tão agradecida a Deus por alguma coisa. Milagrosamente, aquele trecho isolado da civilização estava a salvo da doença. Fiquei com medo de ser eu a macular aquele pedaço de terra com o vírus, mas bastava eu cuidar para não tocar em mais nada além do chão com a sola do meu sapato.

Demos algumas paradas para descansar, e achamos uma bica d’água para reabastecer as garrafas. O cavalo ficava sempre respeitosamente pra trás. Eu nunca havia achado um reflorestamento tão bonito na minha vida. Ou na minha morte, sei lá. Olhava a cada instante para meu filho, com carinho, e ele me sorria de volta. Meu marido tentava sorrir também, mas ele que nunca chorava, tinha uma lágrima persistente no canto do olho.

Chegamos finalmente ao portão do sítio. Minha tia, o marido e um dos filhos vieram nos receber. Ela me olhou apavorada e minha família fez de tudo para lhe explicar a minha situação. Acho até que ela entendeu e não a condeno por me olhar daquele jeito. Eu devia estar bem pior do que a última vez em que me vi no espelho. Todos esperaram que eu entrasse, mas eu não ousei cruzar a porteira.

Olhei em redor e sabia que minha família estaria 99,99 por cento segura naquele lugar. Até que aquela bagunça toda de zumbi acabasse, e o último se deitasse sobre a terra, sem movimento ou condições de se mexer, e o vírus se extinguisse, eu sabia que ali era o melhor lugar para eles se refugiarem. Olhei para o cavalo, e ele parecia saber daquilo também. Tentei explicar por sinais que aquele era o momento de nos separar. Meu filho fez menção de vir na minha direção me puxar, e todos falavam ao mesmo tempo, mas se calaram quanto eu puxei e fechei a porteira. Não queria sujar aquele pedaço de chão com a minha carcaça pestilenta. Era melhor eu seguir o meu caminho.


CONTINUA...

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO VII

CAPÍTULO VII


Até aquele momento eu ainda não tinha noção do que meu novo corpo de zumbi era capaz. Caminhei na direção daquelas coisas. Aquela simples barra de ferro se tornou uma arma letal em minhas mãos. O primeiro veio, e já estava passando por mim quando o acertei com toda a força na cabeça. Nunca havia escutado o barulho de um crânio sendo estilhaçado. Eu podia andar desajeitadamente, mas era a coisa mais elegante espancando zumbis com aquela barra na mão. Me sentia como um samurai e a sua espada.

O outro zumbi era uma mulher, e era um pouco mais rápida. Deve ter sentido o cheiro de minha família, pensei. Fiquei com muita raiva dela. Não queria que aquelas coisas asquerosas se aproximassem da minha família. Senti tanta raiva e nojo que a minha força só parecia aumentar. Acertei uma porrada tão forte em suas costelas que ela caiu ao chão. Não conseguia se levantar, e eu bati de novo em suas costelas. Senti seus ossos esmigalhando. Era como marretar uma cestinha de vime, e sentir todas as varetinhas se quebrando. Diacho, eu estava me divertindo.

O próximo que veio era um cara bem gordo. Não obeso, só grande, massudo. Esse eu bati no tórax, e ele mal se mexeu. Caiu no chão, mas o golpe não parece ter impactado muito em toda sua massa corporal. Na verdade, eu que quase ricocheteei pra trás, como se tivesse batido contra uma enorme árvore achando que fosse lenha. Quando ele se levantou e se voltou pra mim, até achei que fosse um zumbi com consciência como eu. Mas eu vi os seus olhos vazios, e como sua cabeça se virou seguindo o aroma de carne fresca da minha família. Vagabundo, pensei comigo. Não ouse se aproximar da minha família! Andei na sua direção o mais rápido que pude e dei um golpe de cima pra baixo bem no meio da cabeça. Coitado, morreu de afundamento craniano.

Virei-me e vi que a minha família já estava se preparando para me seguir. Cada um arrumou sua mochila com o máximo de mantimentos possível. Seguia a alguns metros à frente deles, com a minha barra de ferro na mão, que devido à minha coordenação motora, eu arrastava a maior parte do tempo, fazendo barulho no asfalto. Os zumbis foram sendo atraídos pelo barulho, obviamente. Eu os acertava como se fossem bolas de beisebol. Cheguei até a chutá-los longe, e a barra de ferro se mostrou tão útil quanto uma bala de doze. Checava os carros acidentados à procura de mais munição. Achamos até uns carros da polícia e mais alguns veículos do exército numa fuzarca infernal, deve ter havido um terrível embate entre exército, polícia e zumbis, mas não sobrou ninguém vivo.

Decidimos seguir caminho pelo mato, até a casa da tia. Meu irmão falou com ela pelo rádio, avisando que demoraríamos um pouco. Mas ela já havia partido para o Lageado, onde nos esperaria. Não podemos culpá-la por ter ficado com medo. E nos embrenhamos na mata, que àquela altura era mais segura do que andar pelo asfalto. Como no mato a população de zumbis era menor, eu fiquei cuidando da retaguarda. Richard e John vigiavam as laterais e meu pai ia à frente. Ainda não havia amanhecido, e estava bastante escuro. Já havíamos andado por algumas horas, atravessado um ribeirão e seguíamos ladeando uma estradinha, quando avistamos o último bairro da cidade. Ele ficava bem na divisa com a estrada principal que leva até várias propriedades rurais e à localidade do Lageado.

Seria melhor não entrar nesse bairro, pensei comigo. Era outro amontoado de morros e vales, e ruas de terra batida, e alguns trechos de asfalto, mas no geral, parecia mais um labirinto apinhado de zumbis. Seria perigoso entrar ali àquela hora da noite, mesmo porque já estava mal iluminado devido aos vários postes apagados, á confusão geral e também porque o conhecíamos muito pouco.

Foi quando avistei a escola, e como falar não adiantava, fiquei apontando pra ela. Meu marido viu, e achou boa idéia. Era um prédio de dois andares, todo murado e cercado, poderia ser seguro. Pra entrar, eu tive que escalar o muro altíssimo. Mas com a minha força de zumbi, até que não foi difícil. As mãos esfoladas não doeriam, e eu acabei caindo pro outro lado. Não perdi nenhum membro, pensei aliviada quando me levantei e bati a poeira da roupa. Mas o meu pé tinha saído do lugar e tive que coloca-lo de volta. Ninguém gostou do barulho.

Chequei e a escola estava vazia. Era uma construção muito bonita em U, com dois andares e um pátio interno, coberto. Bastante segura, com os varandões de cabo a rabo. Como tudo estivesse seguro, fui abrir o portão pra minha família. Passaram ali a noite, trancados em uma sala do segundo andar. Improvisaram camas com alguns colchonetes, almofadas e tapetes. E acho que todos dormiram bem. Não pude ver porque fiquei de guarda do lado de fora da porta. Lancei um olhar de boa noite com o máximo de carinho que pude ao meu filho e meu marido, e eles pareceram compreender. Eles até confiavam em mim para que eu ficasse ali junto com eles, mas eu não queria facilitar.

Minha mãe abriu a porta da sala a uma certa altura e veio falar comigo. Ainda chorava pelo Elton ter ido embora, mas compreendia que ele tinha ido ajudar a outra família. Disse que achava tudo aquilo muito estranho, mas me agradeceu por ter voltado. Disse que apesar de eu sempre ter sido a ovelha negra da família, e ela ter me dito isso muitas vezes, sabia que podia contar comigo. Então foi dormir com os outros, enquanto eu fiquei na escadaria bloqueando qualquer intruso que tentasse galgar as escadas.

Estava ainda com aquela sensação de fome. E pra piorar, senti que começava a feder. Meu olfato estava mais apurado, então quem sabe eles não sentissem o cheiro tão forte como eu sentia. E foi por causa do meu olfato que eu fui capaz de saciar um pouco daquela fome que sentia. Catei um gato que se aproximou de mim. Ele devia ser freqüentador da escola, pois não era arisco como deveria ser. Só que quando começou a se esfregar em mim, eu o agarrei e o mordi, arrancando um bom naco de carne cheia de pelos. Tentei engolir aquilo, mas não conseguia. Consegui tirar a carne que tinha ficado presa dentro da garganta, e bebi o seu sangue.

Ótimo, que bagunça, pensei eu. Tinha sangue escorrido pela boca, pescoço e pela blusa. Não queria que minha família visse aquilo, por isso fui procurar pela escola alguma roupa. Limpei também o sangue do gato do meu corpo.  Consegui uma bonita jaqueta preta de uniforme, e algumas faixas de ataduras na sala de materiais para educação física. Resolvi enrolar a faixa pelo tórax, apertando bem firme pra segurar melhor o inchaço em meu abdomem.

Antes que amanhecesse completamente, minha família já estava acordada. Talvez levássemos o dia todo caminhando, mas eu tinha certeza de que agüentaria, pois só queria manter minha família segura. Não conseguimos chegar á estrada do Lageado pelas ruas do bairro. Haviam zumbis aqui e ali e nós os estávamos atraindo. Os cães eram a pior parte. Tinha medo que logo acabasse a munição, por isso arrumei mais uma arma. Era uma enxada. Gostei dela. Era bem letal e fazia um serviço um pouco mais limpo do que a barra de ferro. Eu só cravava ela no crânio de um zumbi e o jogava para o lado, avançando para o próximo.

Resolvemos andar sempre por dentro da mata, para não nos deparar com ninguém na estrada. Não tanto se fosse um zumbi, mas se fosse uma pessoa sadia que talvez não fosse capaz de compreender o que minha família ainda estava fazendo comigo. Eu podia sentir a minha hora se aproximando. Não poderia ficar vagando pra sempre enquanto meu corpo apodrecia. Chegaria uma hora em que eu teria que dar fim àquilo. Já estava quase completando o terceiro dia morta. Logo, meus membros começariam a despedaçar e cair, uma perspectiva nada agradável do futuro. Depois pensei que isso poderia ser só mais uma bobagem aprendida com os filmes, acho que não era tão fácil assim.

Finalmente avistamos a estrada que seguiria para o Lageado. Verdade seja dita que existem muitas “zonas” por ali. Até demais pensei, tamanha era a quantidade de zumbis mulheres em trajes suspeitos que vagavam perto de onde estávamos. Não precisamos matar muitas, pois a maioria vagava pela estrada e nós a estávamos evitando. A parte ruim era que sempre precisávamos ficar pulando cercas e muros, até que chegamos em trechos mais isolados onde isso já não era mais necessário.

Vendo que tudo já estava mais tranqüilo, resolvemos finalmente seguir pela estrada. Estávamos próximos aos reflorestamentos e plantações, e não havia ninguém além da gente. Chegamos a uma parte onde haviam propriedades cercadas dos dois lados da rua. E uma barreira de galhos, troncos de árvores e carros bem no meio do caminho. Teríamos que passar por ali, pensamos. Estávamos ainda decidindo qual era a melhor maneira de seguir quando ouvimos o tropel de cavalos.


CONTINUA...

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO VI

CAPÍTULO VI


Meu filho era quem mais ficava rondando as janelas, para me ver. Havia um misto de admiração e temor em seus olhos azuis penetrantes. Trouxeram-me algumas roupas minhas, e eu as vesti, tentando parecer mais digna. Pedi também um boné, para esconder o rosto, e quem sabe tentar entabular uma conversa com meu filho e meu marido, através de um caderno de desenho. Passamos a tarde encostados à janela, eles do lado de fora, e eu dentro. Tentei desenhar algumas coisas pra lhes mostrar meus sentimentos e me saí bem quando desenhei uma carinha feliz.

Foi então que comecei a pensar que eu já estava com o corpo em decomposição, e logo me tornaria um fardo ainda pior de ser carregado por eles. Pensei que na verdade, não foi tão bom assim ter acordado morta no hospital e que foi péssima idéia ter vindo pra casa para vê-los, mas eu só queria ter certeza de que ficariam bem.


Depois de um ataque de três zumbis às barricadas da rua, e de eu quase ter estourado os vidros protestando pra que meu marido e meu filho fossem pra dentro de casa, resolveram finalmente me obedecer, entrar e trancar as portas e reforçar as trancas. Ouvimos o jornal juntos, e eu até ganhei um rádio. Parecia que a população de zumbis aumentava com uma certa velocidade, e as autoridades estavam fazendo o que podiam.

De noite, alguns foram dormir enquanto outros ficavam vigiando a casa e a minha porta. Meus irmãos estavam tensos. Contaram-me sobre suas esposas, que estavam bem, refugiadas. A mulher do Richard estava grávida, bem longe e isolada dessa confusão, na casa da avó. Estava bem protegida mas não havia como chegar até lá devido às barreiras das estradas. A namorada do Elton estava com a famíla, segura em uma base militar porque o irmão era do exército. Fiquei triste ao saber que meus irmãos, meus pais, marido e filho haviam ficado aqui no meio dessa bagunça só por causa de mim. Meus irmãos não queriam abandonar nossos pais sozinhos, por isso tiveram que se separar das esposas momentaneamente. Tomara que ainda haja um dia em que todos possam se reunir. Porque pra mim, não havia mais esperanças.

Tentei dormir de novo, mas claro que não consegui. Tinha algumas sensações estranhas pelo corpo, e uma dor esquisita por dentro, mas fora isso, não sentia nada. A dor nem era muito grande, era mais como um mal estar, e fiquei com medo de logo começar a feder sem ser capaz de notar. A colocação da minha pele estava mudando também, de um amarelo cadavérico para um tom cinzento, com toques de verde e azul escuro aqui e ali. E o meu rosto também, como se houvesse sido devastado por sucessões de emoções violentas, surras e fome, muita fome. Não compreendia tudo o que estava acontecendo comigo, afinal nunca havia visto um corpo se decompor, só tinha certeza de que era isso que estava acontecendo. O tempo que levaria, era uma incerteza. E a fome, esta eu não saciaria, muito menos sobre a minha família. Só o que eu tinha certeza é de que tinha que protege-los e de que jamais os morderia, e jamais permitiria que outros o fizessem.

Não, eu estava ali por um motivo: proteger minha família. Fiquei tentando sintonizar o rádio em várias estações mas todas veiculavam as mesmas notícias. A gente ainda via zumbis nas ruas porque o exército e a polícia estavam com baixo contingente. Então a ordem geral era de que as pessoas ficassem trancadas em casa, sempre vigilantes; e só saíssem se precisassem de mantimentos ou de auxílio médico. Luz e água ainda funcionavam pois havia gente trabalhando, mas logo teríamos que fazer racionamento, e logo isto se estenderia à comida também.

O problema de se trancar em casa é que às vezes justo a pessoa que cuidava da segurança da casa acabava infectada. E como todo o resto da família estivesse ali junto e trancado, acabaria virando zumbi também. O vírus parecia estar evoluindo e matando cada vez mais rápido. O governo não estava nada otimista, pois o número de infectados e mortos aumentava proporcionalmente a cada dia. E a doença parecia se espalhar para outros cantos do Brasil. Mas aposto como a situação no sul estava mais do que periclitante. Pois segundo estávamos sabendo, todas as rodovias de acesso ao nosso estado estavam bloqueadas. Só gente do exército e do governo passava. Estados Unidos e mais alguns países da Europa estavam enviando ajuda. Se essa confusão se espalhasse pelo mundo todo, estaríamos perdidos. Nem quis pensar muito no assunto, pois se houvesse uma pandemia mundial, como é que eu iria fazer pra manter a minha família a salvo, se não haveria terra neste mundo que fosse livre de zumbis??

De repente, sintonizei em uma rádio onde estava passando música. Finalmente, pensei comigo mesma. Só que pra variar, a música foi interrompida pra uma notícia de última hora. Foi então que o radialista identificou aquela como sendo uma rádio pirata, e falou alto e em bom tom que o governo estava tramando para fazer uma limpa geral na região infectada. Disse pra não confiar no exército e na polícia, e pra quem pudesse, tentar se esconder até em buraco de gambá, porque o governo faria uma limpa e ninguém escaparia. Não demorou para que eu entendesse o que ele estava querendo dizer. Já tinha ouvido falar dos “campos de concentração” pra onde enviavam a maioria dos doentes. Só que agora, recolheriam os sobreviventes e os levariam para esses campos. Ele disse que dariam a impressão de estar cuidando de nós, mas na verdade, levariam todos, sãos ou doentes, para o crematório. Depois começou a falar umas esquisitisses como nova ordem mundial e armagedon e finalizou com um thrash metal bem pesado.

Fiquei assim com o rádio ligado naquela música e mensagem loucas, e comecei a bater na porta. Dali a alguns minutos ouvi a voz do meu irmão, Richard. Eu resmungava e batia na porta e ele só ficava mais confuso, até que gritou comigo. Então a notícia da rádio se repetiu. Acho que ele ficou escutando, pois depois de um longo silencio, abriu a porta pra mim. O pai também veio, e fizemos uma reunião em família. Eles estavam ouvindo a estação do exército e escutaram que no dia seguinte os sobreviventes deveriam pegar seus documentos de identidade e se dirigir para a base mais próxima pois o governo ordenou a evacuação das cidades infectadas. Todos estavam ao redor da mesa, menos eu obviamente. Ficaram discutindo sobre o que fazer, seguir as ordens do governo ou acreditar no que dizia a rádio pirata? Sintonizamos novamente na rádio pirata, que não parava de veicular a notícia desta vez.

O radialista estava falando ao vivo, clamando para que as pessoas que estivessem na escuta se salvassem, quando foi interrompido por barulhos e estampidos. Ouvimos gritos, tiros, e a rádio saiu do ar. Meu irmão deduziu sabiamente que a transmissão pirata só poderia ter partido de dentro de alguma das bases instaladas, pois os civis não tinham mais estações de transmissão. E que aquele radialista amigo fora silenciado.

Resolveram que era hora de parar de se esconder naquela casa. Começaram a preparar roupas, agasalhos, mochilas. Procuraram por comida, lanternas, pilhas, garrafas com água. Depois de tudo pronto, descemos à garagem. Fugiríamos de carro, para os limites da cidade. Para o interior, para os sítios, para onde quase não havia gente, para áreas livres da presença de zumbis. Ficaríamos escondidos até tudo voltar ao normal. Estas áreas eram fáceis de achar em Rio Negrinho. A cidade ficava concentrada em um ponto só e havia extensa área rural. Um dos pontos de segurança também era a represa. Tentaríamos as duas localidades mais distantes da cidade. Se não desse certo, tentaríamos passar das barreiras e sair dessa região pra outros estados. Tinha que haver algum lugar seguro.

Já estavam há horas discutindo sobre o melhor lugar para ir. Foi quando uma tia minha ligou pelo rádio. Eles também tinham ouvido o que se passara na rádio pirata. Resolveram que tentariam o antigo sítio do nosso avô, no Lageado. O sítio fora quase todo loteado e vendido, mas ainda restava a antiga casa, o rancho e o paiol, uma extensa área de terra plantada. Tinha várias bicas de água e ficava próximo a um imenso rio cheio de peixes. E o melhor, quase totalmente isolado no meio do mato, no meio do nada. De um lado havia quilômetros de mato e áreas de reflorestamento e preservação, e do outro o Rio Negro. O paraíso para sobreviventes.

Combinamos então de nos encontrar com eles próximo á sua casa e seguir para lá de carro. O problema foi chegar até lá. As ruas estavam entulhadas de zumbis, lixo, carros abandonados. Mas teríamos que dar um jeito. Vários outros parentes e amigos foram avisados para se dirigir para lá. Elton se separaria da gente, pois tinha resgatar a namorada e a família da base, antes de se dirigir pra lá. Minha mãe tentou convence-lo a não se arriscar, mas ele estava irredutível. Se comunicaria via rádio assim que pudesse. Eu estava parada junto à porta da cozinha, assistindo a tudo. Na verdade, se eu fosse um armário ou uma cadeira, não faria diferença. As únicas pessoas que olhavam pra mim enquanto os outros discutiam eram meu marido e meu filho. Minha mãe chorou muito, e meu pai também, mas enfim deixaram que Elton partisse.

Ele se despediu de todos e até deu uns tapinhas no meu ombro, recomendando, daquele jeito autoritário dele, que eu cuidasse do pessoal. E então partiu, com uma lágrima pendurada no canto do olho, prometendo nos encontrar no Lageado assim que resgatasse a namorada da base. Ficamos um tempo olhando seu carro partindo, enquanto o Richard falava ao rádio com a família da esposa, contando nossa próxima manobra. Acho que ele não quis mencionar, por enquanto, o que tinha acontecido comigo, pois vi que olhou pra mim e respondeu ao rádio:

- Ela... está bem.

Levamos todas as nossas coisas para o carro. Eu ficava sempre na retaguarda, vigiando os zumbis que pareciam me ignorar. Meu irmão atirava contra eles, tiros certeiros na cabeça. Resolveram que eu deveria ficar no porta-malas. Seguimos pela cidade, desviando de zumbis doidos e carros pegando fogo. De onde eu estava parecia um passeio tranqüilo. Senti alguns baques e pulos do carro, acho que o meu irmão atropelou alguém, pensei comigo. Meu filho bateu na tampa do porta-malas perguntando se eu estava bem. É lógico, pensei. Não tem como eu ficar pior fisicamente.

Mas pegamos a rodovia para chegar à casa da minha tia, que ficava longe, e sofremos um acidente logo na entrada. Um carro bateu contra a gente. Ele vinha na direção contrária, completamente desgovernado. O motorista morreu de traumatismo craniano, mas pela aparência, eu poderia dizer que ele já era um zumbi quando estava dirigindo, e o acidente só o apagou. Ouvi meu irmão abrindo a porta, atirar em alguma coisa e vir abrir o porta-malas pra mim.

Quando vi o acidente, fiquei preocupada mas minha família estava bem. Somente a frente do carro ficou esmagada, e todos tinham colocado o cinto. Meu filho desatava o cinto ainda quando olhou preocupado para algo além de mim. Virei-me e vi zumbis se aproximando. Da rua de onde viéramos também, não eram muitos, mas pareciam formigas vindo pra cima de um monte de açúcar.

Meu pai, John e o Richard já haviam saído do carro e atiravam. Minha mãe e o Nicolas se protegiam como podiam nas portas abertas do carro. Meu filho ajuntou uma barra de ferro e seguiu fazendo pose de ataque. Nada disso, pensei, não queria que ele tivesse o menor contato com aquelas criaturas nojentas. Peguei na barra de ferro e ele se virou pra mim com os olhos numa indagação muda. Meneei a cabeça e tirei a barra de ferro da mão dele. Meu marido e meu irmão viraram-se e começaram a cobrir a retaguarda. Meu filho correu para a minha mãe e eu avancei para os zumbis à nossa frente, começando o serviço.


CONTINUA...

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO V



CAPÍTULO V


Richard se aproximou e colou a palma de sua mão contra a minha que estava fazendo o sinal de calma. Pareceu sentir o frio dela mas não recuou. Pegou meu pulso, e eu tentei puxar de volta com medo de infecta-lo. Mas ele segurou firmemente, dizendo que eu me acalmasse, e alcançou a arma para o Elton. Tentou medir o meu pulso. Obviamente, não sentiu nada. Tentou medir de novo. Chamou o Elton para que medisse. Nenhum dos dois sentia coisa alguma, apenas o frio da minha pele cadavérica. Elton se virou e acabou vomitando, e Richard pegou a arma da mão dele, mas parecia ter ficado meio zonzo. Nicolas apenas me encarava, meio assustado, e eu tentei falar com ele mas só conseguia resmungar e lamentar feito um zumbi. Richard me pegou pelo braço, sem medo apesar de eu ser um cadáver, e começou a me empurrar de volta escada acima:

- Vamos para o rancho, rápido, antes que eles voltem.

Entramos no rancho e ele me disse pra me esconder. Voltei pro canto onde tinha passado a noite, e escorreguei devagar até sentar no chão. Elton e Richard me encaravam gravemente. Nicolas meio que se escondia atrás dos dois.

- Você... (acho que o Richard sentia que perguntar se eu estava mesmo morta era meio ridículo àquela altura) você está bem?

- Nhóóoíiimmmm (não), resmunguei, mas o som parecia um daqueles murmúrios de zumbis que ouvíamos quase todos os dias.

Nicolas finalmente tomou coragem para se aproximar, meio com pena de mim, mas ergui o braço para impedi-lo de se aproximar. Richard interveio, pois Nicolas ficou visivelmente confuso:

- Melhor você ficar longe.

Elton corroborou:

- Ela está infectada.

Eu fiz que sim com a cabeça. Ficamos alguns minutos nos encarando. Uma infinidade de sentimentos diferentes se estampava no rosto de meu filho, a cada movimento meu. Eu apontava pro meu peito, pro meu coração morto, tentando gesticular um EU TE AMO pra que ele entendesse.

- Nicolas, vai lá embaixo buscar papel e caneta. – disse Elton.

Richard foi junto, por questão de segurança de meu filho. Elton então perguntou:

- Você fugiu?

Fiz que sim com a cabeça. Tentaria escrever, pois achei que assim seria melhor pra explicar o que estava acontecendo. Eu precisava pelo menos da confiança deles. Pra poder ficar por perto, cuidando, pelo menos era o que eu achava. Os dois que foram buscar papel e caneta voltaram em um instante, e eu escrevi o que pude:

Eu estou viva. Por favor confiem em mim, não tenham medo.
Vim pra ver se o Nicolas está bem. Não quero infectar. Cuidado.
MAS o meu corpo já morreu (Elton leia isso com cuidado)

Elton ficou olhando o papel por alguns minutos mas desistiu. Mostrou pro Richard aquele monte de riscos e furos do papel, que pra falar a verdade nem eu mesma entenderia. Minha mão não conseguia segurar o lápis direito e tudo o que consegui fazer foi amassar a arruinar o caderno. Mas pude perceber a compreensão invadindo os músculos de seu rosto. Ele ficou retesado por alguns instantes. Cochichou alguma coisa com o Elton, sobre mim. Nicolas quis saber o que era.

Acho que meus irmãos haviam compreendido que eu tinha mesmo me transformado numa daquelas coisas, mas que era inofensiva para eles. Ficaram cochichando e pude perceber que debatiam se Nicolas deveria saber que o que ele estava olhando era realmente um zumbi e não apenas sua imaginação. Meu filho começou a ficar nervoso e perguntar o que foi que estávamos cochichando, apesar de eu apenas estar movendo meus olhos e esboçando algumas expressões faciais, que àquela altura não passavam de caretas horripilantes.

Meus irmãos voltaram seus olhos suplicantes pra mim, e eu fiquei indecisa se Nicolas devia saber que eu tinha mesmo morrido. Até que ele gritou que já era bem grande e tinha o direito de saber o que estava acontecendo. Achei justo. Já que eu iria desaparecer mesmo dali a alguns dias, pois um corpo morto sempre apodrece, não dura pra sempre. Achei melhor que ele soubesse. Fiz um sinal com a cabeça e meu irmão Richard confirmou que eu era um zumbi. Nicolas se segurou pra não chorar. Vi que se controlava e se entregava um milhão de vezes em um minuto. Até que respirou fundo, e agiu como um homem adulto e sensato no corpo de um menino:

- Deixa eu pelo menos sentir o seu pulso. – Olhou pra mim com aqueles olhos azuis doces e suplicantes.

Estendi o pulso pra ele, e apesar das várias tentativas, ele nada sentia. Meus irmãos apenas olhavam com dó, até que ele se levantou e foi abraçar a cintura do tio Richard. Elton segurava mais uma ânsia de vomito, e Richard olhava sério pra mim, como se eu fosse um cão doente que ele teria que abater, até que Nicolas falou:

- É melhor ela ficar aqui, por enquanto. – Falou se dirigindo aos tios como se eu não pudesse compreende-lo. – Logo o pai, o vô e a vó chegam e vamos ter que contar pra eles.

Mal ele terminou de falar, e todos ouvimos o pai chamando lá de baixo. Meus irmãos acharam melhor todos descer e me deixaram sozinha no rancho. Demorou alguns longos minutos até que voltassem. Dessa vez veio a família toda pra ver a desgraça. Sei disso porque senti o cheiro de cada um ao forçar o ar pra dentro. Parece que meu olfato tinha melhorado em 200%. E aquela fome estranha me incomodou de novo. Era mais um instinto do que uma sensação. Minha mente ficava o tempo todo repetindo: carne, carne, carne.
Afastei aqueles pensamentos, ao me lembrar dos zumbis que vi arrancando carne de gente viva.

O primeiro rosto que vi foi o do pai. Colocou a cabeça pra dentro do rancho, todo desconfiado, mas eu pude ver a esperança nos olhos dele. E a cara de decepção quando viu do que se tratava. Na verdade, depois que ele fez aquela cara de desapontado, todos entraram quase ao mesmo tempo e eu pude ver o temor em seus rostos. E todos dirigindo aquela expressão cruel pra mim. Meu marido se aproximou um pouco mais entusiasmado mas se conteve:

- Mariana.... - Ele quase sussurrou engolindo as palavras.

- Afinal, ela está viva ou não? - Falou a mãe, caminhando na minha direção com a mão meio levantada, como para me tocar. Era como se eu fosse um cão raivoso que o dono estivesse tentando domar.

- Ela é um zumbi, vó.

- Mas com consciência – Completou Richard, com um tom de voz que deixava transparecer o quanto ele achava aquilo formidável.

Fiquei chocada com a frieza do Nicolas respondendo à pergunta da avó, mas lembrei que afinal ele já havia visto zumbis demais para uma criança de 8 anos. Eu tentei me levantar e todos recuaram assustados como se uma bombinha tivesse estourado à sua frente. Meus músculos estavam enrijecendo, pude notar. Mas eu não estava inchando como vi acontecer com outros zumbis, pois o corpo morto, andando ou não, inicia seu estado de putrefação. Coloquei-me de pé, tentando ficar ereta.

Meu marido tentou vir me acalentar e acho até que queria me abraçar, pois não nos víamos há dias, mas apesar de cortar meu coração, eu tive que detê-lo. Não queria que ninguém ficasse tocando em meu corpo envenenado, eu me sentia um saco cheio de vermes prestes a estourar. Morria de medo de que os vírus saíssem do meu corpo. Caminhei meio cambaleando até a luz para a minha atual aparencia pra quem ainda não tinha visto.

- Que horror, disse minha mãe

- Eu vim cuidar de vocês. - Era o que eu queria falar, mas cada vez que abria a boca minha garganta suplicava igual aos mortos vivos.

- O corpo dela morreu. - Disse minha mãe de novo, com os braços unidos sobre o peito como se estivesse rezando - Mas acho que seu espírito ainda não o abandonou.

Ficamos alguns minutos matutando o que fazer comigo. Eu sentia como se meu corpo estivesse reagindo a cada instante, às bactérias do ambiente. Eu estava apodrecendo, só não sabia em que velocidade e como aconteceria. Mas com certeza chegaria o momento em que eu nem poderia mais andar. Resolvemos que eu seria colocada em uma sala isolada dentro de casa. Todos concordaram que a infecção só ocorreria no caso de uma mordida, ou se alguém entrasse em contato com sangue ou saliva do infectado, como normalmente vinha acontecendo. No meu caso, eu estava morta, então nenhum desses fluidos estava vazando de meu corpo, por enquanto.

Quando saí do rancho, para a luz do dia, e tentei descer as escadas, me senti o próprio corcunda de Notre Dame. Minha família me olhava esquisito, então resolvi me endireitar, e caminhar o mais normal que podia. Acho que meus músculos acabaram se acostumando, pois logo eu já estava andando quase normalmente. Meu marido arriscou-se a pegar a minha mão para me guiar até o quarto, e lá eles me deixaram. Era o quarto que meu pai usava, e maldita a hora em que encontrei o espelho. Deus como eu estava horrível! Fiquei admirada pela coragem da minha família em me encarar e até ficar perto de mim. Com certeza à noite eles teriam pesadelos.


CONTINUA...

POEMA: FRANCISCO


FRANCISCO

Quando abro tuas portas,
Manilhas tortas
Subterfúgio do Poeta.
Lascivo toque,
Languido, torpe...
Demonio das sensações.
Num beijo roubado,
Um olhar vingado,
Afago tuas tentações.
E em brumas de sonhos,
Sorrisos tristonhos,
Distancias perdidas,
Máximas percorridas.
Na linha te espera
Neblina etérea
Descortina minha posse
Desarma e desvenda
Minha sede e fome
Meus desejos, minha luxúria
Me entrego na penúria
Da espera, sempre, eterna
De invadir seu templo proibido.
E em fuga, num rompante
Me acalmo, meu semblante
transfigura um amante,
me vislumbra, interrompe,
e em devaneios
me corrompe.

AGOSTO/2000

domingo, 9 de março de 2014

ZUMBI Nº 1 - CAPÍTULO IV



CAPÍTULO IV


Eu estou viva!

Se eu conseguisse exclamar isso pra eles, será que faria algum sentido, dada a minha provável aparência naquele momento? Não sou muito íntima de cadáveres pra saber como ficam umas 24 horas após a morte, mas eu tinha idéia dado o número de zumbis de quem fugi na rua. E quando me olhei no reflexo do armário do hospital, eu já estava um horror, imagine então depois de rolar várias vezes na estrada e me arrastar no chão, escalar muros, etc. Pensei nisso observando minhas mãos, raladas e com sangue coagulado e seco pelos meus dedos. Eu precisava mostrar a eles que eu tinha plena consciência de meus atos, diferente dos zumbis normais. Ou pelo menos, da maioria.

Se existiu ou existisse mais alguém na mesma situação que a minha, com certeza já devia ter levado um tiro na cara antes de ser capaz de se comunicar. Quem sabe se eu ainda podia escrever? Apesar de meu corpo estar “parado” e nenhum órgão funcionar, parecia que todos os órgãos dos sentidos ainda estavam a todo vapor. Eu podia ver, e ouvir as coisas, a voz bem que tentava sair, e eu tinha força pra andar e escalar um muro. Só não tinha pleno controle, talvez o mesmo ocorresse se eu fosse escrever, mas tinha que tentar.

De repente me ocorreu que havia mais um motivo, além dos vírus pra que eu não me aproximasse demais de minha família. Se eu sentisse fome... Todos os zumbis catalogados na história do cinema, jogos, e depois que começou toda essa farra macabra, gostavam de comer carne, viva de preferência. Não dava pra dizer que gostassem só de carne humana, pois entre suas vítimas encontravam-se cães, galinhas e cavalos, atacados sem piedade.

Claro que eles não tinham nenhuma preferência especial por miolos ou tripas, conforme diz a lenda. Alias estas devem ser as partes menos apetitosas. Mas o que eu estava pensando? Afastei estes pensamentos rapidamente. Também não me era agradável pensar em um zumbi comendo os intestinos de alguém. Nos filmes, sempre mostravam isso, mas se eu fosse comer alguém, começava pelo braço ou pela coxa, que tem mais carne. Essa não, que tipo de pensamento era esse de novo???

Peguei um pedaço de telha fora do rancho e desci como pude pela escada em direção à casa. Fiz o maior barulho derrubando a barricada. Ouvi uma correria lá dentro, mas não podia parar de fazer o que estava fazendo. Seja rápida, pensei. Com sorte eles chegariam e não atirariam até que eu terminasse de escrever o que queria.

Escrevi como pude TO VIVA na parede branca de fora da casa. Ficou parecendo mais um monte de garranchos, pois a dificuldade em segurar o caco de telha e escrever ao mesmo tempo era grande. Eu tinha força nos dedos, mas quase nada de coordenação motora. Um dos meus irmãos enfiou o cano da doze pra fora e ficou espiando:

- Quem está aí... – falou o Elton com aquela voz autoritária.

Ele não podia ver meu rosto de onde estava, pois eu estava de costas, e eu achei melhor mesmo pois devia ter um susto horrível estampado na cara. Encolhi-me por causa da arma apontada pra mim, e me abaixei com os braços pra cima, igual uma vítima de assalto sendo feita refém, de costas pra ele. O caco de tijolo caiu no chão. Eu achei que não devia falar nada pois meu resmungo de zumbi resultaria em um tiro na minha cabeça. Mas mesmo assim, puxei o ar como pude e tentei:

- Mmmmanhiiaaanhhhhhhóóaaaa...

Até eu me assustei com o som lamuriante de minha garganta morta. O Elton deu um tiro no muro, e eu continuei abaixada feito refém, e então lembrei de apontar pra parede, pra que ele pudesse ler. Apontei devagar o dedo pra parede, mas nem bem terminei de executar o gesto, ouvi meu filho gritar pela janela da cozinha:

- Mãe!!!!

Nunca vou esquecer a exultação de alegria em sua voz. Havia amor, alívio, e êxtase naquele grito. Se eu pudesse, teria suspirado. Elton e Richard saíram pela porta ainda apontando a arma pra mim. Pareciam confusos, coçando a cabeça enquanto tentavam ler o que eu tinha escrito na parede.  Levantei devagar e virei de frente pra eles, e quase fui derrubada pelo Nicolas que veio correndo de lá de dentro e me agarrou num abraço na altura da cintura. Mas quando ele ergueu o rostinho pra mim, com lágrimas saindo dos olhos, meu Deus, naquela hora eu morri de novo. Ou quis morrer pra sempre.

Um esgar de horror e incredulidade se estampou devastadoramente no seu pequeno rosto. Eu vi o terror gritando de seus olhos azuis. E então ele se afastou, não sei se com medo ou com nojo. A mesma expressão, aterradora e cruel, se estampou na cara de meus irmãos, cada um com uma arma apontando para mim:

- Mariana?!? – Richard perguntou, incrédulo.

- Falamos com o hospital via rádio, pra pedir notícias suas. – Disse o Elton. – Disseram que você tinha morrido ontem.

Fiz que sim com a cabeça. Meus irmãos me olhavam ainda sem entender. Podia ler a confusão em seus olhos. Elton se virou de repente, com ânsia de vomito. Tentou se controlar e virou pra mim de novo, apontando a arma. Ergui os braços, um apontou para a parede e outro fez aquele sinal com a mão que diz: CALMA. Eles leram de novo a parede, desta vez o Nicolas também. Claro que não entenderam o que eu escrevi, mas olhavam nos meus olhos como se reconhecessem neles a lucidez e compreensão que faltava aos zumbis normais. E Deus, como eu estava com fome. Mas isso não era nada frente à dor. Eu juro que podia sentir uma dor física em meu coração que já nem batia. Como quando a gente leva o primeiro pé na bunda, ou quando tem uma decepção terrível, ou quando morre alguém que se ama muito, o que é infinitamente pior. Foi bem essa dor que eu senti.


CONTINUA...

ZUMBI Nº 1 - CAPÍTULO III


CAPÍTULO III


Ao contrário do que se pensa, zumbis não sabem quebrar janelas. Pelo menos não os normais. Os normais só reagem se enxergam algum movimento do outro lado da janela. E isso costuma acontecer à noite, em casas sem aquelas cortinas blecaute. Como já tinha dito, eles são lentos, e também bem burros. Se eles vêem alguma coisa se movendo do outro lado de uma janela, por exemplo, levantam os braços para agarrar e tentar comer, mas só quebram o vidro se estiver frouxo ou se insistirem bastante. Ou então se mais de um estiver tentando atravessar a janela. Aí não há janela que agüente. Mas se o seu campo de visão for obstruído, eles logo desistem. Por isso é importante ter um blecaute em casa. Você não se incomoda vendo zumbis na janela e eles não vêem você. É bom pra evitar que assaltantes estudem os seus hábitos, também.
Notei que o pai ainda não tinha posto tábuas nas janelas, com certeza não tinha necessitado. Desci as escadas e as barricadas que bloqueavam a passagem para o quintal estavam postas abaixo. Zumbis sozinhos também não são bons pra transpor barricadas, só em grande número. Cuidei pra espiar a janela da cozinha sem ser vista. Lá estava ele. Meu filho, de 8 anos. Sempre tão esperto, e tão lindo, são e salvo. Se pudesse, tinha respirado fundo de alívio. Estavam todos à mesa: meu marido, minha mãe, meus irmãos. Meu pai, um sobrevivente, de 12 na mão. Ele tinha escapado vivo de duas cirurgias contra um câncer, recentemente. Estavam todos com cara de abatidos. Senti falta das cunhadas.

Meu pai guardou as armas bem em cima do armário, e instruiu meu filho a pegar aquilo só em caso de emergência. Emergência nada, pensei. Se depender de mim, ele nunca precisará tocar naquela porcaria assassina. Quase chorei ao ver minha família unida, mas então um som gutural e mórbido ameaçou escapar da minha garganta. Encolhi-me, e subi as escadas para o quintal. Àquela hora um cochilo no rancho já não era má idéia. Pelo menos seria seguro, já que meu pai e irmãos não sairiam de novo fazer uma busca, pois pareceram se dar por satisfeitos. Só que nem dormir eu consegui. Fiquei em um estado de vigília, onde minha mente parecia tentar sair o tempo todo de meu corpo, como quando temos vertigens.

Vi o dia amanhecer. Ouvi tiros e gritos ao longe. Barulho de carros, freadas bruscas. Da porta do rancho, dava pra ver boa parte do bairro, também formado por vales e morros, morros e vales. Algumas casas pegando fogo, outras já com fogo apagado. Barricadas onde antes não havia. Remendos de muros e muros remendados. Parecia uma guerra, mas algo me diz que uma guerra seria bem pior do que aquilo. Porque na guerra você ainda pode ter esperança que um dia acabe, mas e isso? Esse maldito vírus. E eu nem poderia me aproximar muito da minha família, pois havia acabado de me ocorrer que meu corpo poderia estar cheio deles, os vírus. Talvez eles não se espalhem pelo ar, pensei. Pois uma coisa que não podíamos fazer era respirar, para que o vírus saísse de nosso corpo na respiração, então a outra opção seria o sangue ou saliva como veículo. Ou um contato pele a pele. Abraços, nem pensar. Doeu pensar que não poderia mais abraçar ninguém da minha família.

De repente, ouvi a porta lá embaixo abrindo. Meu filho subiu correndo as escadas e veio pro quintal. Chorava e gritava com a minha mãe. Pedia só que o deixassem um minuto em paz. Ele sempre foi bem genioso. Meu marido tentou falar com ele, mas acabou deixando-o sozinho um pouco. Ele ainda estava no alto da escada quando meu menino veio na direção do rancho. Me encolhi o mais que pude atrás de uns móveis e tv velhos, e o Nicolas entrou. Sentou á porta do rancho, que sempre ficava aberta, e colocou a cabeça entre as mãos pra chorar.

- Você não vai descer? – Nicholas perguntou, zangado,  para alguém lá fora.

Ouvi a voz do meu marido, John:

- Vamos descer e tentar ouvir mais alguma coisa, filho... ela está só na lista de desaparecidos...

Estavam falando de mim, provavelmente. Mas como souberam tão rápido? Fiquei matutando e observando meu filho por uns instantes. A tentação de me aproximar era grande, mas lembrava do vírus a cada momento. Ainda bem que já não salivava nem vomitava como fazia alguns dias antes de morrer. Também percebi que não soltava mais fluidos corporais, pois já estava morta há algumas horas. E deve ter sido esse o motivo pelo meu filho estar chorando. Eles já sabiam que eu estava morta. De alguma forma, receberam a notícia de que eu havia morrido. O hospital ainda tentava seguir os protocolos, pensei...

O rádio, eles ouviram algo pelo rádio do exército! Pelo menos ainda tínhamos algum meio de comunicação, pensei. O estalo dessa idéia em minha mente fez-me executar um movimento involuntário com a perna e o barulho atraiu a atenção do meu filho. Ele encarou o escuro do rancho por uns instantes e resolveu descer o quintal, mas sem maior alarde.

Ainda bem que ele não tinha me visto. Iria levar um susto tremendo, e eu quem sabe levaria um tiro na cabeça. Mas eu precisava que soubessem o que tinha acontecido comigo, precisava informa-los que estava consciente, apesar de zumbi, e da melhor forma. Mas como fazer isso, se falar eu não conseguia?

Aparecer então e dizer oi, ou “nhoi”, que é mais como soaria, com a minha nova voz de cadáver, seria uma péssima idéia. Eu já teria uma bala na cabeça antes de terminar o cumprimento, e meu cérebro estaria apagado pra sempre.


CONTINUA...

ZUMBI Nº 1 - CAPÍTULO II


CAPÍTULO II

Outra coisa que já mostraram nos filmes, foram zumbis saindo debaixo da terra, de pessoas que já haviam morrido a tempos e foram ressuscitadas pelo vírus. Posso dizer que isso era apenas um recurso dramático, pois na vida real isso seria impossível de acontecer. O vírus não poderia se reproduzir em um corpo que já estivesse decomposto, mas se isso fosse possível, os mortos não teriam forças para quebrar o caixão e ainda a laje de cimento que era colocada por cima. Sei disso porque meu marido trabalhava com essas coisas, e uma coisa que eles sempre faziam era cimentar muito bem os túmulos. E também, eu acho que a primeira coisa a ser comida debaixo da terra são os olhos e o cérebro, então, sem cérebro, o zumbi não vive, não é?

Consegui fazer o caminho todo até à casa da minha mãe. Cambaleava mais do que uma bêbada e me deparei com vários zumbis pela rua, mas eles pareciam ignorar a minha presença. Tinha gente sendo devorada também. E outros tantos correndo feito loucos, sem nenhum policial armado ou soldado pra ajudar.

Cheguei em casa em menos de quinze minutos. Fiquei surpresa de como era fácil entrar nas barricadas. Mas pensando bem, apesar de cambaleante, eu ainda estava bem mais ágil do que a maioria dos zumbis que já havia encarado. Nunca havia tentado matar nenhum deles, isso era serviço para policiais ou militares, apesar de os zumbis sempre se levantarem após alguns minutos. Aí é que as autoridades se lembravam dos filmes e jogos de vídeo game, e atiravam na cabeça. Eu nunca vi tanto miolo mole, literalmente.

Com o passar das semanas, depois que começaram as primeiras infecções e ataques, fui perdendo o medo dos zumbis. Eles eram muito lentos, pra falar bem a verdade, e o perigo real só existia à noite se tivéssemos que sair de casa por alguma razão, pois eles pareciam aflorar de cada canto. O risco também era grande para crianças que não estivessem sob a supervisão de um adulto, mesmo elas sendo bem mais ágeis que os adultos. Por isso crianças ficaram proibidas de andar sozinhas pelas ruas em qualquer horário. O mais triste foi que várias vezes, quando eu saía buscar mantimentos nas bases, encontrei crianças zumbis. Elas pareciam todas iguais. Eu tinha pesadelos em que meu filho era um deles. Não queria viver pra ver isso, juro. E que ironia hein, justo eu que tanto os temia, agora era uma deles. Estava me esforçando ao máximo pra não desabar e chorar. Será que um zumbi consegue chorar?

Já estava parada na frente da porta há uns 5 minutos. Que droga, mas quem estava atirando? Ouvi um estalo na parede depois de algo zunir em meu ouvido. Sim, ainda ouvia muito bem. Alguém às minhas costas atirou. Tive que me jogar pro lado e corri rastejando, se é que isso era possível, pra parte de trás da casa. Também estava bloqueada pra subir no quintal, achei melhor eu não me apresentar daquele jeito, mas precisava me esconder pois já escutava o burburinho lá na frente.
Meu pai berrando com a vizinha, pra saber porque diabos ela atirou contra a casa. Por causa de mim, é claro. Tive um flashback engraçado. Lembrei da vez que eu era adolescente e cheguei tarde em casa. Fiquei parada em frente à porta pensando se batia pra entrar ou não. O medo, claro. Só que daquela vez ninguém atirou em mim. Não podia deixar que me vissem assim.

Escalei o muro como pude e corri pro rancho no quintal, Como já tinha dito, a cidade em que morava era cheia de morros e minha casa, lógico, tinha que ser em cima de um. Por isso era mais fácil de isolar, pois era toda cercada, e ficava mais ou menos na base do morro, mas ainda precisávamos subir uma escada de uns 30 degraus pra chegar nela. Na parte de trás da casa, tinha mais um muro de mais de 2,50 metro de altura e uma escada que levava para o quintal, que era bem íngreme. Não se podia fazer muito nele além de plantar milho e ter alguns ranchos. Não dava pra brincar de correr porque poderíamos escorregar a qualquer momento e descer o quintal rolando até cair do muro para a calçada. Minha mãe caiu desse muro uma vez. Quebrou o tornozelo. Não foi fratura exposta, mas ficou bem feio. O pé saiu do eixo, como aquele zumbi que arrastava o machado em Resident Evil, o primeiro filme. Bela hora pra lembrar disso, ás vezes a minha imaginação me irrita.

Pensei em entrar no rancho, mas se meu pai fizesse uma busca, seria o primeiro lugar em que procuraria, e eles estavam se aproximando. Fui pro meio do milharal. Àquela altura, a única coisa que eu queria era certificar que meu filho ficaria bem, depois que toda essa confusão acabasse. Se é que um dia acabaria. Não poderia me dar ao luxo de mais nada, pois logo poderia me certificar pessoalmente se os zumbis entram em decomposição ou não. Talvez eu fosse um caso à parte, pois de todos os que já vi e que já foram estudados e mostrados na TV (quando ainda havia TV) nenhum parecia ter consciência. Ou será que tinham e a gente que não sabia?? Não queria nem tentar responder a isso... Porque se eu pensasse muito nisso, começaria a lembrar de todos os que vi tendo seus miolos estourados e aquela não era a hora de entrar em parafuso.

Eles estavam se aproximando, e eu só torcia pra estar bem escondida, mesmo. Não queria assusta-los afinal, e entraria em pânico se eles fugissem de medo e nojo de mim. Mas onde é que meu pai arrumou uma 12? Virgem Maria, o que era aquilo!!! Meu pai e meu irmão Richard, armados??? Um deles com uma 12 e o outro com uma carabina. Eu já vi uma cabeça estourada por uma 12, isso não era coisa pra mim, não queria ficar daquele jeito.

Eles subiram cautelosos as escadas e o restinho do morro, no carreiro que levava até o rancho. Com cuidado, vasculharam o interior do rancho com as armas engatilhadas e apontadas à frente. Deram uma olhada pelo quintal, e graças a Deus, não me viram dentro do milharal. Só vi que desceram e ainda pude ouvir o estalar das trancas sendo fechadas por dentro da porta. Mentira, eu só imaginei que fizeram isso, pois não estou ouvindo melhor por ser zumbi. Fiquei ali, só eu e o vento, com a maior vontade de chorar, esperando alguns minutos passarem para poder espiá-los pelas janelas.


CONTINUA...

ZUMBI Nº 1 - CAPÍTULO I



ZUMBI Nº 1


CAPÍTULO I


Tudo começou com as doenças. Houve uma grande epidemia do que parecia ser tuberculose. Muita tosse persistente, e sangue. As pessoas foram vacinadas às pressas. Os exames dos infectados não apresentavam nenhum bacilo.

Depois, foi a fase da lepra. Na verdade, hanseníase. Era o que parecia, pelo menos.
Conseguiram isolar o vírus. Era um vírus ainda desconhecido, para o Brasil e para o mundo. Terrorismo biológico, era o que diziam. Como se o vírus tivesse sido produzido em laboratório. Mas falavam a mesma coisa da Aids e nunca foi provado nada. Claro que eu conto isso do ponto de vista leigo, não sou entendida no assunto.

Só o que sei é que de repente, esse vírus apareceu e acabou com a vida de todo mundo. Aqui, no sul do país, ficamos isolados e abandonados. As cidades foram bloqueadas, barreiras e barricadas erguidas, mas não adiantava. Pensou-se em levar os sobreviventes embora, fechar as cidades de vez. A polícia não dava conta do recado, ainda mais porque muitos policiais estavam sendo contaminados pelo vírus, que se espalhava rapidamente. Ajuda militar também foi enviada, em vão... Não conseguia-se isolar os sobreviventes dos infectados.

Não se havia determinado ainda se o vírus se espalhava por ar ou por fluidos corporais. Parecia que era pelos dois. Por isso o medo de levar os sobreviventes embora daqui. Porque muitos dos que fugiam sãos da cidade, apresentavam os sintomas em seu novo destino. Só sei que foi muito de repente. Fomos pegos de surpresa. Acordamos um dia e o caos já estava instalado. Fizemos de tudo para nos proteger, mas não adiantava. A doença não parecia ter cura, os doentes morriam, mas continuavam andando. Andando e comendo.

Não sei porque, mas esse sempre foi meu maior medo. Aliás até sei, fiquei muito impressionada quando assisti à refilmagem de Madrugada dos Mortos. Passei uma semana com medo de abrir a porta de manhã e dar de cara com um zumbi na minha varanda. E foi mais ou menos isso o que aconteceu. Só que a zumbi era eu.

Passei muito mal, fiquei mais ou menos duas semanas com febre e a tosse persistentes. Fui levada da minha família para o hospital local, que àquela altura já estava apinhado de gente. E incidentes aconteciam todos os dias, reduzindo cada vez mais o número de médicos e enfermeiros. O hospital já estava todo isolado, com aquelas tendas brancas por toda parte, mas como isolar os doentes do resto da cidade? De uma hora para outra era mais zumbi do que gente sã. Eu consegui me sair bem, evitando maiores danos, escapando das dentadas. Ligava todo dia para minha família, para saber de meu filho e meu marido. Estavam sãos, por sorte. Minha mãe e meu pai cuidavam deles muito bem. Conseguiram se isolar na casa que ficava no alto do morro. Comecei a me preocupar de verdade quando os celulares e telefones pararam de funcionar. Comida e água já estavam ficando escassas, e havia racionamento de energia.

Ao que parece, eu contraí a doença depois que o meu cachorro quase mordeu o meu nariz. Mais alguns parentes meus foram infectados. No total, 11 pessoas da família já haviam morrido quando eu cheguei à hora zero. Tive uma parada cardio-respiratória, e fui posta no necrotério. Como todos os outros, estava aguardando a autópsia. Acordei, meio grogue, e levantei. Encontrei uma ficha ao lado da cama. Tinha mais corpos comigo na sala, todos cobertos com um lençol. Eu também tinha o meu, e o enrolei no corpo. Caminhei até me deparar com um reflexo meu, na porta do armário. Estava toda encurvada sobre o próprio ventre, com a boca aberta, e aí me dei conta: havia me tornado uma zumbi. Por isso parecia tão difícil caminhar ou me manter em pé... acho que o cérebro perdeu parte do controle sobre o meu corpo. Mas a despeito do que eu mesma sempre acreditava, e as histórias de terror contavam, eu estava consciente.

Claro que não recebi a notícia muito bem. Caí sentada com o que parecia uma falta de ar, e era mesmo considerando que meu pulmão já não funcionava. Eu puxava e soltava o ar por reflexo apenas, mas percebi que se não o fizesse, não faria diferença. O coração também não batia, e eu estava de uma cor amarelo cadavérica que não ajudava em nada a me convencer de que eu pudesse estar somente em estado de choque. A seguir, pensei na minha família. Será que já tinham sido avisados da minha morte? Eu não estava delirando gente. Sabia que o que estava acontecendo comigo não era normal. Como já disse, sou leiga no assunto e do vírus e da epidemia eu sabia muito pouco. Ouvi dizer que era até uma pandemia. O que será que isso quer dizer...

Acho que a falta de informação sobre o assunto foi um problema geral, os jornais e as autoridades nunca falavam nada claramente. Isso ajudou bastante a aumentar o número de vítimas. Quando estourou a gripe suína, foi contida mais facilmente pois todo mundo era informado todos os dias sobre como se proteger. Sobre essa doença que levantava os mortos, os civis sabiam bem pouco. Lembrei-me de todos os zumbis que encontrava nas ruas, em nossas fugas desesperadas. Dou graças a Deus por ter sido forte o bastante para ter deixado meu filho em segurança antes de adoecer.
Mas será que ainda estava seguro? Isso eu tinha que verificar.

Só percebi que meu estado era realmente deplorável quando tentei sair do hospital. Foi uma correria danada, só quem não corria era eu. Meu andar estava mais para um cambalear de bêbado, mas eu segurei as pontas bem até conseguir me esconder em um dos quartos do hospital. Estava cheio de pessoas convalescentes do mesmo mal que outrora me afligiu. Mas nada de médicos ou enfermeiras. Provavelmente estavam pelos corredores lutando para não ser mordidos.

Havia seis pessoas no total dentro do quarto, duas delas apenas acordadas, mas não tiveram forças pra gritar quando me viram. Assaltei um dos armários com as roupas de um dos doentes e me cobri o máximo que pude. Eles me olhavam estupefatos e eu bem que tentei dizer alguma coisa mas era como se as minhas cordas vocais estivessem costuradas também. Puxei e soltei o ar diversas vezes, mas não saía nada direito, apenas um resmungo, uma lamentação fantasmagórica do meu arremedo de voz.
Pensei comigo: Que horror!

E eles devem ter pensado também. Me vesti o mais rápido que pude, coloquei até um pano na cabeça à guisa de xale. Fiquei parecendo uma cortadora de cana. Uma enfermeira entrou porque um dos doentes lembrou de apertar a campainha. Pensei rápido: banheiro ou saída? Fingi que estava chorando muito, porque era só o que conseguiria fazer com a qualidade de voz disponível. Ela veio desconfiada na minha direção, e eu me virei e bati com toda força na cabeça dela usando uma bandeja que havia sobre a mesinha. Com a força que usei pra nocauteá-la, acabei caindo por cima dela. Força eu ainda tinha, só precisava controlar mais os meus movimentos. Levantei e saí cambaleando, ouvindo os gritos dos doentes atrás de mim. Devo ter matado a coitada, pensei.

Saí novamente pelo corredor do hospital, procurando pela saída. Era ignorada por médicos, enfermeiras, soldados e zumbis mortos de fome. O milagre é que eu consegui sair pela porta da frente. Quer dizer, da frente daquela face do hospital, que tem o formato de um octógono com vários braços. Apesar de todo o aparato militar estar instalado ali e o Hospital ser mais uma área isolada em uma cidade isolada, saí por uma das portas principais quase desapercebida, devido ao caos que já se instalara. Eu disse quase porque ouvi um guarda dizendo “Ei!”, e tentei acelerar o passo até alcançar a borda do morro, e caí no barranco.

Então, eu sumi de repente do campo de visão dele, e pela primeira vez em minha vida (vida?) eu fiquei grata por ter saído de um Hospital localizado no alto de um morro em uma cidadela cheia de morros. Fiquei quietinha, escondida no meio do mato, até que ele desistiu de procurar. Foi se ocupar de mais um bando de mortos vivos.

Corri para a estrada. Que pra variar um pouco, era uma ladeira sem asfalto e cheia de pedras soltas, que não foram devidamente assentadas pela patrola ou pela ambulância. Rolei duas vezes. O outro acesso ao hospital era asfaltado, então provavelmente o motorista da ambulância e outros motoristas em geral preferissem aquele caminho. Eu, logicamente, nem pensei em passar por ali, pois ia na direção contrária à casa da minha mãe. E também porque passava em frente ao cemitério, e isso pra mim áquela altura significava mau agouro.
Sabe-se lá se não haveria um enterro acontecendo bem naquela hora? Bobagem, pensei. Áquela altura já se recomendava queimar os corpos.


CONTINUA...