quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

ENCANTADORAS DE SERPENTES

Não sei ao certo por quanto tempo dormi, mas quando acordei, ele já estava sobre mim.

Seu corpo suava, e tinha um cheiro estranho, de quem come muita carne.
Não sei bem o que estava fazendo, mas com o susto acabei empurrando-o contra um dos móveis da sala.

Ele caiu ao chão e algo muito pesado em cima do móvel balançou e caiu sobre sua cabeça.
Era um busto de gesso, e o sangue começou a escorrer da cabeça do padre aonde o busto se quebrou.
Apavorada, peguei a primeira coisa que vi, uma flamula pendurada em uma lança na parede, e bati mais ainda no padre que já estava agonizante.

O barulho chamou a atenção da freira gorda que abriu a porta de sopetão e ficou horrorizada com a cena.
Primeiro olhou para mim, que estava seminua, e abriu aquela boca enorme como se estivesse escandalizada.
Depois, viu o padre no chão, a cabeça desfigurada, o sangue formando uma poça no chão da sala.

Antes que ela pudesse dizer ou fazer alguma coisa, eu enfiei a ponta da lança em sua barriga, várias vezes. Ela deu pequenos gritos abafados, esganiçados; por causa da dor, da surpresa, do susto, e foi ao chão. A lança não parecia afiada, não sei dizer se ela havia morrido ou apenas desmaiou. Mas era ela ou eu...

Arranquei dela o hábito que ficou um pouco largo em mim, apesar de eu ser cheinha também.
Deu para ver em sua pele nua apenas alguns vergões onde a lança machucou.

Tranquei os dois na sala e saí por trás do palco do anfiteatro. Cenas da minha infância passaram rapidamente pela minha cabeça: as luzes do palco, a platéia animada, o anfiteatro cheio, as outras crianças rindo, eu arrumando minhas roupas de tule para dançar.
Mas aquele tempo para mim havia acabado, ninguém mais me veria dançar naquele anfiteatro, não dentro das instalações daquela paróquia enorme.

Saí por uma das portas e havia pessoas lá fora.
Tentei cobrir o rosto para que não me vissem, não me abordassem.
O portão estava a alguns metros á frente, precisava correr para que não me pegassem, mas não muito para que não estranhassem e me intercedessem.


Andar por aquele pátio enorme, de pedra; aquelas construções altas, o campanário, os chafarizes, me dava tonturas, vertigens, não sei explicar.
Quantas vezes eu havia brincado ali quando era criança, mas agora não era bem vinda.
Acho mesmo que me matariam se me descobrissem, era uma época de caça ás bruxas, e eu com certeza era uma delas.

Andei rapidamente até o portão, o coração quase saía pela boca, as pessoas pareciam chamar, então cobri o rosto mais ainda.
Não havia guardas na saída, então consegui sair daquele lugar sem problemas, o alívio era indescritível.

O padre, que fora um amigo de infância, havia me oferecido abrigo naquele lugar. Estava ali há alguns dias e não tinha tido uma crise sequer.
Sofro de narcolpesia moderada.
Ao que parece, ele era um tarado e estava tentando se aproveitar de uma das minhas crises.

Não tinha idéia de que ele fosse um pervertido, de que fosse capaz de se aproveitar assim de uma mulher.
Pensando bem, todos eles eram assim agora.

Não passamos de objetos para eles, pensam que podem fazer o que quiserem conosco. Mesmo ele, que era um padre, não teve escrúpulos ao me ver dormindo e totalmente indefesa.

Corri estrada afora, naquele chão seco e pedregoso, corri o mais que pude. Pude ouvir ao longe, á frente, o tropel de cavalos e vozes masculinas gritando, deviam ser caçadores de bruxas se aproximando.

Não tinha idéia de onde estava, mas antes que eles pudessem virar na curva mais ao longe na estrada e me ver, corri para o meio do mato.

Já estava anoitecendo e eu ainda não havia parado de correr. Tropecei e caí algumas vezes, rolei alguns barrancos abaixo, até que achei uma casa perdida no meio do nada.

Os muros eram tão altos que mais parecia uma fortaleza, enfiada ali no meio da floresta escura.

Tinha iluminação nos muros, postes do lado de dentro, a casa também era de pedra, com grandes janelas em vidro fumê, parecia a casa de algum mafioso.

Não tinha cerca elétrica, só aquele arame farpado enrolado no alto dos muros. Subi por uma árvore e consegui pular o muro, não sem rasgar parte do hábito na queda.

Apesar das luzes acesas, o lugar parecia abandonado, deserto.

É bem verdade que havia uma caminhonete enorme estacionada ao lado do portão, do lado de dentro, mas preferi arriscar.

Estava imunda, cansada, morrendo de fome, minha barriga chegava a doer de tanta fome.

Havia uma janela aberta na lateral, por onde deslizei para dentro da casa.
Parecia que tinha algumas pessoas lá dentro, mas estava tão silencioso, deviam estar em alguma parte distante da enorme casa.

Fui para a cozinha, e não pude deixar de observar cameras de segurança em cada canto.
Havia comida fresca sobre a mesa, pão, carne crua, algumas frutas, e bebida.

Comi uma banana e um pedaço de pão. Procurei e encontrei restos de peixe na geladeira, peixe assado, comi frio mesmo. Estava delicioso.

Passei por uma enorme e confortável sala de estar com lareira e tapete de pele de animal no chão, encontrei um banheiro enorme, e tive que usar o toalete.
Tomei um banho depois, de água gelada, chegou a doer no meu corpo que ainda estava muito quente da correria, mas eu precisava acordar. Precisava tentar me manter acordada, tinha medo de desmaiar de novo e dormir pos dois ou três dias.

Quando estava terminando meu banho, ouvi ruídos, vozes na cozinha, alguém estava denunciando minha presença na casa.

Tentei pegar uma toalha e desaparecer dali mas fui surpreendida, ainda nua e molhada, na saída do chuveiro, por um homem enorme, alto e jovem, com olhos muito azuis e felinos e barba por fazer. Parecia mais um deus nórdico do que uma pessoa normal. Num primeiro momento, fiquei apavorada e envergonhada pela minha nudez, normalmente não é assim que me sinto mas naquela hora eu fiquei pequena e vulnerável, diante daquele tipo de pessoa.

Porém, ele não disse uma palavra e me alcançou sua própria camiseta para que eu pudesse me cobrir. Não pude deixar de notar a perfeição de seu corpo.
E também seus olhos pousados sobre mim, mas não havia nada de malícia. Seu olhar parecia severo, estava obviamente zangado por eu ter invadido sua casa, mas de certa forma, ele me inspirava muita confiança.

Os outros vieram atrás dele, dois rapazes, e três moças, e estavam todos arredios, indignados por eu ter invadido a casa, incitando o rapaz a chamar a polícia, ou a me jogar pra fora do portão, me chamaram de porca imunda.

Ele pediu o telefone das mãos de uma das moças e disse que não chamariam a polícia. Estava com os olhos fixos em meus pulsos.
Levaram-me para a cozinha e começaram a me fazer perguntas, que eu não consegui responder num primeiro momento, pois eram perguntas idiotas. Xingavam-me, me chamavam de ladra, de sem vergonha, perguntaram o que eu estava fazendo ali.

O homem então puxou meu braço e examinou as tatuagens nos meus pulsos.

Ele parecia enorme perto de mim, eu era gordinha, mas ainda assim, me sentia pequena perto dele.

Podia sentir o seu hálito quente, seus olhos escrutiniando a tatuagem. Seu cabelo louro e comprido caía sobre seu rosto
Então ele tocou a minha testa, procurando pela marca. Estava meio apagada, mas ele pareceu ter percebido alguma coisa ali, pelo modo como seus dedos tateavam a minha testa e pararam bem no meio dela. Pude notar que relaxou e foi  até mais gentil comigo.

Pediu aos outros para me deixarem em paz, e deixou-me voltar ao chuveiro para me secar, e vestir algumas roupas que pediu ás garotas que me emprestassem.
Elas riram do pedido, pois obviamente nada do que vestiam poderia me servir, mas ele me levou ao banheiro pela mão e me emprestou uma bermuda e uma camiseta seca, dele mesmo.

Enquanto eu me secava no banheiro, pude ouvir a conversa deles na cozinha.
Se o celular de ao menos um deles funcionasse, já teriam chamado a polícia, mas ali naquela casa estavam fora da área de cobertura.
Ele proibiu aos outros de usarem o telefone via rádio, e disse que ele mesmo se encarregaria de tomar conta de mim.

Ao ser questionado sobre o porque de me proteger, ele respondeu que eu era uma das lendárias Encantadoras de Serpentes, dançarinas exóticas de uma arte muito antiga e sagrada.

Ele me deixaria ficar na casa naquela noite. Acho que os outros não gostaram muito. Ele me levou a um quarto, me ofereceu comida. Falei muito pouco com todos eles, pois estava desconfiada, naqueles tempos eu tinha que desconfiar até da própria sombra.

Mais tarde na noite, as moças bateram á porta do quarto e pediram se eu poderia dançar para eles na sala.
Eu disse que não poderia dançar se não tivesse as roupas apropriadas, então elas me arrumaram alguns lenços, um lençol fino.
Achei que aquela seria uma boa oportunidade de distraí-los, e quem sabe fugir.

Pedi que me deixassem a sós para pintar o rosto e o corpo, e arrumar o cabelo. Essa parte eu teria que fazer sozinha. Emprestaram-me alguma maquiagem e glitter para o corpo.
Elas saíram rindo, dizendo que já tinham ouvido falar nas Encantadoras mas nunca tiveram a chance de assistir a uma delas dançando.
Fingiam um certo respeito e curiosidade, mas eu sabia que as risadas eram de deboche.

O homem alto parecia contrariado. Veio falar comigo em particular, pedindo que não o fizesse se não tivesse vontade. Eu disse que tudo bem, que faria o que elas me pediam. No fundo, dançar para eles me envaideceria.

Ele mesmo colocou a música no aparelho de som, e sentou-se no sofá, enquanto eu ficava de frente para eles, e de costas para a lareira.
Qual não foi a minha surpresa ao ouvir os primeiros acordes de uma das músicas dos Ritos de Verão!

Meu olhar se encontrou com o dele, e ele parecia rir-se por dentro da minha cara de surpresa. Tudo bem, pensei comigo mesma. Ele vai ter o que está pedindo!

Comecei então a me movimentar de acordo, deixando que os sons e as batidas levassem o meu corpo, embalassem minha aura, preenchessem os meus membros, o meu ventre e minha coroa com a luz, aquela luz que eu conseguia enxergar quando fechava os olhos.

Não era eu quem dançava naquela hora, mas a música que me comandava, languidamente, vagarosamente, enquanto os olhos da platéia; num primeiro momento debochados frente á minha silhueta rechonchuda; foram ficando cada vez mais absortos, compenetrados em meus movimentos.

O corpo, os olhos pintados, o glitter refulgia frente ao fogo da lareira.
Eu via a platéia, e via a mim mesma dançando como se estivesse agora fora do meu corpo.
O transe começava, tanto meu, quanto das pessoas que me assistiam.

Os olhos do estranho que havia me ajudado pareciam arder em cada pedaço do meu corpo. Os olhares de todos agora estavam presos em cada partícula do meu ser.
Os lenços esvoaçavam, mas parecia que era o fogo que se refestelava sobre meus braços e pernas. As fagulhas brilhantes volitavam, volteavam ao redor de mim, meus braços pareciam abrigos acolhedores em dado momento; em outro, pareciam asas.

Meu ventre, meus seios brilhando á luz do fogo, eram convidativos, eram abrasadores, eram desnorteadores.

Meu olhar era selvagem; ora sensual, ora suave. Cruzava, atravessava a mente de cada um dos espectadores, e eu já sabia: estavam sendo hipnotizados.
Eu os dominava cada vez mais com cada olhar, com cada volta, com cada movimento do ventre e dos braços.

Meus olhos muito negros e brilhantes dardejavam armadilhas que os prendiam cada vez mais a mim, e eu percebia a fome de seus corpos crescer, encher a sala com seu perfume.
Eles acompanhavam cada movimento meu, inebriados, um desejo obscuro crescendo dentro do peito. Sentiam borboletas na boca do estomago, o famoso frio na barriga, pela espera, pela ansiedade...

Cada passo das minhas pernas poderosas no chão os levava cada vez mais fundo ao transe. Sentia que cada poro da minha pele sugava uma energia que rodopiava ao redor de nós todos. Sugava e emanava, uma energia quente, transcedental, sensual, algo fora da humanidade, algo que ninguém jamais poderia explicar, apenas sentir. Todos nós pulsávamos com a mesma onda de energia que fora despertada pela dança.


O homem louro que me ajudou também me encarava. Parecia mais belo ainda, encantado daquele jeito. Possuía um olhar que em qualquer outro momento teria me intimidado, fazendo-me corar e olhar ao chão.
Mas naquele momento, era eu quem comandava a todos, eu era a dona da brincadeira.
Senti-me poderosa, e deixei essa força fluir pelos meus membros, pelo meu cabelo, pela minha nuca, meu ventre, meu sexo.

Eu era filha da Estrela da Manhã, naquele momento. Eu era Ishtar, eu tinha poderes sobre eles, e sabia que depois da dança, fariam qualquer coisa que eu pedisse. Estavam na minha mão agora.

Eu poderia terminar os últimos acordes da música e desaparecer, ou então com um movimento suave ordenar que me dessem tudo o que precisava para fugir em segurança: um carro, dinheiro, comida, roupas, tudo o que quisesse.

A música terminou e eu mantive a pose final ainda por alguns segundos, o corpo brilhando, pelo glitter e pelo suor, ardendo como o fogo da lareira. Ninguém se movia, alguns arfavam, ansiosos.

Porém o homem louro, sem tirar os olhos de mim, veio em minha direção e antes que eu pudesse dizer uma palavra, ele me agarrou e me arrastou para o quarto. Fiquei com medo de sua força, ele me abraçava forte e eu não conseguia me livrar. Beijou-me no pescoço e na orelha até que me jogou na cama, e fechou a porta.

Fiquei com medo do que pudesse fazer, de que quisesse fazer algo á força, não esperava aquela reação, nunca havia acontecido antes.
Fiquei com mais medo ainda de ele tentar me obrigar a algo e eu acabar cedendo...
Nunca fora subjugada pela beleza de um homem, como filha de Ishtar nunca me deixei enganar. Mas aquele rapaz possuía algo que me desarmava, e eu não sabia dizer o que era.

Mas ele me colocou sentada na cama, meio sem jeito, e se ajoelhou segurando e beijando a minha mão.
Chamou-me de Deusa e disse que estava a meu serviço.

Fiquei estupefata!
Ele me mostrou a tatuagem em sua nuca. Usava o cabelo mais comprido para cobri-la. Ele era um de nós! Um filho da Deusa!
Explicou que os outros não eram como ele, e que era perigoso estarmos no meio deles, pois ele não sabia que reação poderiam ter ao saber que eu era uma bruxa.

Segurei seu rosto com as mãos e beijei o alto de sua testa, agradecendo á Deusa por ter me enviado um protetor.
Eu poderia retornar ás nossas terras sagradas sozinha, ilesa, se não fosse meu problema com narcolepsia que havia me colocado em muitas confusões até agora.

Ele me deu novamente algumas roupas para vestir e me enrolou em uma manta. Disse que era melhor que agíssemos rápido e saíssemos dali. Pegamos algumas provisões na cozinha, todos os telefones, cobertores, e até algumas armas. No pátio havia mais um carro pequeno, mas optamos pela caminhonete que aguentaria o tranco daquelas estradas poeirentas e difíceis.

Ao sairmos, as três garotas já estavam beijando os dois rapazes restantes. O transe os levaria a ter uma noite inesquecível. E eu nem precisei ordenar-lhes que fizessem nada...

Meu novo amigo nem pareceu se importar, apesar de eu ter certeza que uma delas era sua namorada.
Olhou apenas pelo canto do olho, num total desapego por aquelas pessoas.
Parecia determinado...

No carro, já na estrada, a lua cheia iluminava o nosso caminho.
A missão parecia ser bastante simples, tanto para ele quanto para mim: voltar pra casa, para Heiderghal.

Mas nesses tempos loucos, de caça ás bruxas, de Inquisição, de heresias, e considerando a minha narcolepsia, aquela poderia ser uma viagem bastante conturbada.
Eu era uma bruxa bastante fácil de ser reconhecida, pelas tatuagens espalhadas pelo corpo.

Começamos a discutir sobre como atravessar a Argentina e chegar a Pichilemu, no Chile, para tentar fazer a travessia.
A voz grave e profunda dele, o jeito protetor, aquele olhar que parecia me derreter, o que estava acontecendo comigo afinal?
Justo eu, justo agora, a perder o foco...

Precisava fugir, precisava me proteger, precisava retornar viva a Heiderghal e a única garantia que tinha de que ele poderia me ajudar era a tatuagem na nuca, que eu nem tinha certeza se era verdadeira.
Precisava averiguar, precisava ter certeza, ele poderia muito bem ser um inquisidor disfarçado.

Muitas de nós, Encantadoras de Serpentes, já estavam mortas. A Arte poderia se perder para sempre.
Muitas outras filhas de Ishtar estavam sendo silenciadas, mortas, ardendo em fogueiras. Algumas eram torturadas, usadas, tratadas como algo que valesse menos que um trapo, para depois arderem... Quantas irmãs eu perdi!

Todas precisávamos voltar para casa antes que as brumas, novamente, não pudessem mais ser chamadas, e os caminhos se fechassem por mais uma era.

Ele me explicou que haviam mais como ele procurando por nós para nos enviar para casa.
Eu tive que explicar sobre meu problema com narcolepsia.
Estava quase pegando no sono com aquela voz inebriante em meus ouvidos.

No fundo, preferia nem dormir, tinha medo de que ele desaparecesse, ou de acordar novamente dentro de mais uma armadilha.
Mas, apesar de eu lutar com todas as forças, chegando a me estapear na cara, acabei pegando no sono, embalada por aquela voz celestial.
Antes de adormecer, pude vislumbrar ainda o olhar e o sorriso compadecido do meu anjo protetor.




CONTINUA...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

OS GUIAS DE DANIELA

Daniela era uma jovem mãe solteira beirando os trinta anos de idade.

Era bonita, sem dúvida, apesar de não pensar assim sempre que se olhava no espelho.

Naquele dia em especial, ela estava se sentindo horrível.

Fazia semanas que não dormia direito, e mesmo assim, despejou todo o conteúdo dos blisters de diazepan na privada e deu a descarga.
Faziam-na se sentir pior do que já estava.

Seu filhinho, Eduardo, de quatro anos, também havia trocado o dia pela noite, e estava com ela deitado no sofá da sala assistindo desenhos na televisão, enquanto ela tentava faze-lo dormir mais cedo, sem sucesso.

Já eram quase duas horas da madrugada. Se conseguissem dormir, teriam que acordar dali a quatro horas: ele para ir á escolinha, e ela para ir ao trabalho em um escritório de advocacia.
Por enquanto era apenas a secretária executiva, mas esperava, em breve, poder se tornar advogada.
Estava estudando para isso, lutando para isso.

Sacrificava o tempo que poderia passar com o filho estudando para conseguir o diploma.
Sentia muita falta do pequeno, que nessas horas em que ela ía á faculdade, ficava com a mãe de Daniela.

Daniela inclusive emprestava o carro da mãe para ir á faculdade todas as noites. E moravam na mesma casa, da mãe de Daniela.

Daniela não gostava muito dessa situação, mas era o que podia fazer por enquanto.

Ás vezes se pegava pensando nos passos errados que dera até ali para estar ainda naquela situação enquanto todas as suas amigas estavam conquistando coisas na vida, comprando casa, carro, casando-se... E ela ali, mãe solteira, morando na casa da mãe, usando o carro da mãe, ás vezes tendo que aguentar o mau humor da mãe.

E pra piorar, sozinha, sem nem ter um namorado.
Já estava no terceiro biscoito de chocolate quando se lembrou de que havia engordado quase dez quilos nos últimos seis meses e começou a chorar silenciosamente, para Dudu não ver.
Cada vez que se olhava no espelho se achava gorda demais, caída demais, descabelada.
Chegou ao cúmulo de se entupir de comida e vomitar tudo depois.
Era tudo culpa da ansiedade, pensava.
Já tinha se matriculado na yoga para ver se conseguia dar um jeito no corpo e na ansiedade, mas só podia ir ás aulas no sábado de manhã, por isso, quase nem praticava.
Já estava frequentando a yoga há dois meses mas ainda não havia percebido diferença.

Resolveu que iria tomar um banho e deixar Dudu um pouco sozinho na sala, assim quem sabe ele relaxasse melhor sem ela se remexendo ao seu lado e conseguisse pegar no sono. E quem sabe um banho morno a fizesse relaxar também para pensar um pouco menos em comida.

Durante o banho, resolveu juntar as mãos no alto da cabeça e fazer a posição da árvore, mesmo que desajeitadamente.
Havia lido num livro que ao juntarmos as mãos para rezar, o gesto forma uma antena com a qual nos conectamos aos planos superiores.

Daniela começou então a rezar naquela posição de árvore a meio caminho, pois ela ainda não conseguia realizar o movimento todo, e as mãos formando sua "antena" no alto da cabeça, e enquanto tentava se equilibrar, tentava também organizar os pensamentos.

Pensou primeiro em para quem direcionar aquela oração, já que rezar mesmo não era o seu forte. Não conseguia se concentrar.
Não sabia nem que oração fazer, então começou a falar com Deus como sempre fazia. Com Deus, com os anjos de luz, com os espíritos de luz, com os seres iluminados, com os anjos da guarda, no final das contas, era tudo a mesma coisa.

Começou a pedir por dias melhores, por dias menos sofridos, para que Deus lhe abrisse as portas que estavam trancadas, para que pelo menos lhe mandasse alguma ajuda, um alô, sei lá, pensou.

Não conseguia sequer orar porque pensava e se preocupava com tudo ao mesmo tempo: as contas pra pagar, o chefe que enche o saco, o filho que não dorme, a mãe que vive impaciente, o salário que é tão pouco, a solidão da vida, os quilos extras, as rugas aparecendo, sua pele era um desastre, o cabelo espigado, a falta de sono, e lembrou de quando leu na internet que privação de sono pode causar problemas graves pois é inclusive usada como forma de tortura; as notas nas provas da faculdade, o trabalho pra entregar, a mensalidade atrasada, a abstinência sexual, a celulite, a abstinência do sono, a cara inchada de manhã.  Deus, como se odiava, como se achava horrível!

Talvez tivesse que começar a melhorar a partir de um único ponto: a auto-estima. Começou então a mentalizar: esta água abençoada por Deus é sagrada, e ela há de me curar. Esta água é sagrada e nela tem beleza, e onde ela toca há beleza, este braço é bonito, esta barriga é bonita, essa perna é bonita. Sou bonita porque fui criada por Deus e por isso sou divina! Essa água divina há de curar a minha ansiedade! O Anjo da guarda há de curar minha ansiedade! Santo Antonio cura minha ansiedade... pra quem mais eu peço, meu Deus?

Depois lembrou-se de uma conversa com uma amiga que lhe contou que já havia encontrado com seu guia espiritual, e como os pensamentos na cabeça de Daniela vinham e voavam feito vento, da oração pedindo ajuda que virou um mantra ela logo começou a pensar: Puxa, que legal seria se eu também pudesse conhecer o meu guia espiritual!
Acabou terminando sua oração maluca com um pedaço do responso a Santo Antonio, perdeu finalmente o equilíbrio, pediu mais um pouco pra se livrar daquela ansiedade toda, e decidiu desligar o chuveiro.

Pegou a toalha, enxugou-se, vestiu-se rapidamente e voltando para a sala, lá estava Dudu mais acordado do que nunca. Resolveu pegar o colchão do quarto e estender na sala, dormiriam ali mesmo se fosse o caso, contanto que conseguissem dormir. Já eram quase três horas da madrugada quando Dudu finalmente dormiu. Daniela desligou a televisão e procurou nem pensar que teriam apenas três horas de sono até a hora de acordar e começar a correr de novo. Mas ficou pensando, e pensou em outras coisas, e se preocupou sem necessidade, até que conseguiu dormir, e já eram quatro horas da madrugada.

Então ela começou a sonhar.
E sonhar com coisas estranhas, muito estranhas.
Daniela tinha esquecido a luz da cozinha acesa, e num estado de dormencia, ou de torpor, com os olhos semiabertos, não se sabe, ela viu quatro sombras deslizando da cozinha para a sala onde ela estava dormindo com Dudu.
Uma das sombras se aproximou de Daniela, quase encostando o rosto no dela, e ela já ía gritar de horror, quando aquela cabeçona de olhos enormes e muito negros do homenzinho cinza disse, sem mover os lábios finos: NÃO TENHA MEDO, NÃO PRECISA GRITAR, NÃO VAMOS TE MACHUCAR.



Ele parecia inclusive sorrir, mas Daniela não viu seu rosto mudar de expressão de verdade...
Daniela fechou os olhos novamente, completamente; e relaxou todo o corpo.

De repente, ela se viu de cima, como se estivesse flutuando sobre o próprio corpo. Mas como isso era possível??
Ela viu seu próprio corpo no colchão, em posição fetal, do mesmo jeito que havia pegado no sono, a cabeça quase caindo no chão... e Dudu ao seu lado, de barriguinha pra baixo, a cabeça virada pro outro lado, em sono profundo.
E aqueles quatro seres pequenos, cabeçudos, com aqueles dedos compridos, mexendo-os sem parar, se aproximando de seu corpo.
Mas ela não sentiu medo, muito pelo contrário. Sentiu uma paz maravilhosa.
E enquanto flutuava de volta para seu corpo, ouvia em seus pensamentos, aquela voz, ou as quatro vozes, muito calmas, gentis e muito doces, lhe dizendo assim, enquanto mostravam com os dedos tocando as orelhas de Daniela: VOCÊ DEVE FAZER ISSO, ISSO E ISSO, PARA SE LIVRAR DA ANSIEDADE.

Daniela acordou com o despertador do celular tocando, avisando que eram seis horas da manhã.
Havia dormido apenas duas horas, mas sentia-se incrivelmente descansada e bem disposta.
Lembrou-se do sonho esquisito, da sensação estranha de ter visto algo com os olhos semicerrados, do que os "aliens" estavam tentando lhe ensinar.
Onde foi que eles tocaram mesmo? Que pontos da orelha era pra ela tocar?
O que foi aquilo afinal, uma espécie de acupuntura?
Pena que ela já havia esquecido, quem sabe os pontos onde lhe tocaram na orelha fossem mesmo para acalmar a ansiedade, como se faz na acupuntura.

Deu algum trabalho para acordar Dudu, mas Daniela conseguiu deixá-lo tranquila na escolinha sabendo que depois do almoço ele teria a hora do soninho.
Tirou um tempo para pesquisar na internet e descobriu que possivelmente o sonho estava lhe mostrando algo sobre auriculoterapia.

No final do dia, já estava rindo sozinha de seu sonho maluco. De fato, alguns pontos para controle da ansiedade coincidiam com os que ela lembrava que seus amigos "aliens" haviam tocado em sua orelha. Será que a "antena" que ela fez durante o banho chamou aquela gente? Será que acabou indo parar no lugar errado?



Ela riu... Quem diria, ela que estava justamente pensando em conhecer seu guia espiritual, foi logo conhecendo quatro, e naquela forma, de homenzinhos cinza! Já havia ouvido falar de gente que vê seu anjo da guarda, ou um espírito, ou uma pomba gira, mas aliens? Pensando bem, no final das contas, era tudo a mesma coisa!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A PINHA SAGRADA


A inauguração da casa de decorações foi um sucesso!

Todos estavam se divertindo e a minha família toda estava lá. Meu filho corria pelas escadarias com os seus amiguinhos, meus próprios amigos conversavam e sorriam, com roupas elegantes e as indefectíveis taças de champanhe nas mãos.

Eu tinha que rir sozinha dos dedinhos levantados de alguns deles. Meus pais se abraçavam para as fotos a pedido da imprensa e me olhavam embevecidos. Eu era uma decoradora de sucesso. Levava uma vida de luxo e badalação, nosso nome agora era conhecido até no exterior. Estava dando a eles não apenas orgulho, mas uma vida mais confortável.

Mas eu sequer tinha talento para decorar minha própria casa. Na verdade, outra pessoa fazia isso para mim. Aquilo tudo era só fachada. Meu telefone tocou e eu tive que atender trancada dentro do banheiro. Sabia que era apenas uma mensagem de texto, mas não podia arriscar.

No dia seguinte, lá estava eu calçando meias de arrastão e botas de salto grosso, meia pata, brancas. A saia de couro envernizado era branca também, e a blusa cor de rosa me fazia parecer a penélope. Era uma cafonice sem fim, e para arrematar, uma peruca loura vagabunda. Dentro do jipe, ainda antes de o sol nascer recebi as coordenadas enquanto seguia pela estrada sem asfalto pelo interior do município, pelo meio do mato, para algum local ermo indicado pela chefia, que é como a chamamos.

Já dentro do bar, desses de beira de estrada, a proprietária e sua filha faziam de tudo para atender aos clientes e despistar os interessados. O tempo, esse trabalho sujo e a pobreza as deixaram acabadas. A menina não devia ter uns vinte anos e já tinha muitas rugas, ou talvez estivesse apenas marcada e manchada pelo sol, os cabelos de um ruivo desbotado, a pele que um dia fora branca e delicada estava arruinada.

Eu permaneci por algum tempo lá, do lado do balcão, com a minha roupa cafona e o perfume barato. O engraçado é que apesar de aquilo ser um puteiro, e eu estar vestida de puta, os homens me ignoravam, eu parecia invisível para eles. Fiquei impressionada como alguns era sujos, velhos, grosseiros, e ainda assim, respeitavam-me como se eu fosse um bibelô muito delicado que poderia quebrar com um simples olhar. Sabe-se lá o que a proprietária lhes dizia para conseguir a proeza de mante-los afastados.

Na hora marcada, eu vi a carroça passar do lado de fora. Era o sinal para eu sair. Coloquei um sobretudo de jeans, carreguei a arma e outros equipamentos que estavam no jipe e segui a carroça, a pé.

Aquele lugar poeirento parecia ter sido esquecido no tempo. Parecia mais uma comunidade de colonos alemães de 1950. Aquela bota branca estúpida me fazia levantar mais poeira do que as rodas da carroça.

As ruas parecia desertas. Havia uma casa aqui, uma acolá, e eu seguia a pé a carroça que subia um leve morro para chegar ao seu destino. Num casebre que parecia ter sido pintado de azul recentemente, pois o seu frescor contrastava com a poeira e a decadência de algumas casas vizinhas. Uma pessoa repuxou as cortinas como que para evitar que eu a visse, ou para não ter de encarar a minha pouca vergonha.

Logo chegamos á igrejinha. Era uma igreja de madeira, não muito grande, precisando de uma pintura urgente. Deve ter sido marrom, ou cor de tijolo, um dia. Os painéis das portas de entrada pareciam meio frouxos, e um enorme pé de chorão derrubava sua sombra em boa parte da fachada. A maioria das igrejas de cidades do interior possui uma enorme cruz em um pequeno jardim de entrada. Essa aqui tinha uma coluna não muito alta, adornada e pintada na cor dourada, com uma pinha maciça na ponta.

O que será que significava aquilo? Dei a volta na igreja, acompanhando para onde a carroça devia ter seguido, e me deparei com uma visão ao mesmo tempo espetacular e assustadora. Aos fundos da igrejinha, ocultos pela mesma e por uma espessa vegetação de uma pequena floresta de pinheiros altos e mata nativa, encontrava-se a igreja de pedra. Eu não acreditaria se não estivesse vendo com meus próprios olhos. Era colossal, e ainda assim, parecia uma miragem.

Estava em um ponto relativamente alto da cidade, então como não poderia ser vista de lugar algum? Mas era exatamente essa impressão que eu tinha agora. Dei uma boa observada no local enquanto estava tirando fotos da pinha dourada na parte da frente. Seria quase impossível essa igreja de pedra estar ali sem ter sido notada antes. Mas esse era o caso.

Aproximei-me melhor e toquei em sua fachada. Era feita de uma espécie de barro, ou cimento amarelo, semelhante a um tipo de pedra de cascalho. Aquele mesmo tipo de solo seco e quebradiço, variando em nuances escuras e amareladas, era como se a Igreja tivesse sido entalhada no próprio barranco. Mas naquele tipo de solo, extremamente frágil e quebradiço, isso seria impossível! Meus dedos percorreram a fachada e então percebi que toda ela era adornada com pequenas flores, pássaros, folhas, e rostos de pessoas. Eram pequeninos rostos olhando para o céu, com a boca aberta, cantando, ou gritando?

Afastei-me para observar melhor e pude notar que haviam outros rostos entalhados, tão pequenos que passaram despercebidos por pouco. Aquele paredão todo, com todas aquelas colunas e torres que pareciam terminar em uma altura espetacular na mais fina ponta, foram todos entalhados á mão. E no meio daquela beleza de pássaros e flores, jaziam aqueles rostos gritando, aquelas caras contorcidas, aquelas mãos em riste, suplicantes. Alguns de olhos esbugalhados, outros de olhos fechados, sofrendo em silencio, mas estavam todos lá. De repente o que parecia tão fantástico, estava ficando mais lúgrube e macabro.

Ao dar a volta em uma das torres, percebi que poderia ter acesso a um pequeno altar escondido por uma espécie de gazebo mais á esquerda da igreja, mas ainda esculpido na rocha. Havia pequenos bancos voltados para o altar, um altar sem mesa, com apenas uma escultura de um Cristo crucificado em uma espécie de cruz de malta, com muitas flores aos seus pés e uma quantidade sem fim de velas derretidas.

De onde eu estava, pude avistar em uma das laterais da igreja uma espécie de janela que dava para um corredor que seguia para dentro do paredão, onde ardia a luz de tochas. Mas antes que pudesse sacar a máquina fotográfica para registrar tudo aquilo, um padre muito alto e robusto colocou a cabeça pela janela e disse para que eu parasse. Ele saiu depressa e nem pude ver por onde, e veio pegando pelo meu braço e me tirando dali com a maior pressa e rudeza.

Fingi ser uma turista e pedi se podia tirar fotos da sua Igreja, o que ele me negou. Sem dar maiores explicações, disse que a Igreja era muito delicada e que era melhor eu sair dali o mais depressa possível se não quisesse me machucar, e arrancou a máquina fotográfica da minha mão. Já estávamos saindo da pequena floresta quando ouvi ruídos vindos da parte da frente da Igreja, e vi que eram homens chegando a cavalo. Não quis insistir e disse que sairia dali como ele queria, mas que não era assim que se tratava uma turista. Como tenho dedos ágeis de ladra, peguei a máquina fotográfica de volta. Ele apenas deu um gemido de surpresa. Passei por três homens carrancudos que apenas me encararam e já estava descendo o morro quando eles conseguiram chegar ao padre. Vi que enquanto conversavam, alguns fiéis vinham saindo de uma porta lateral da pequena igreja de madeira em frente á floresta.

Seus olhares na minha direção eram os mais hostis. Comecei a correr, cheguei ao jipe e dei a partida o mais rápido que pude. Paguei a dona do bar como combinado, peguei o que mais pudesse ter deixado pra trás em seu quartinho, e saí dali o mais breve possível. Ela ainda me perguntou se eu iria voltar. Disse que com certeza voltaria muito em breve, pois não sou de deixar serviço inacabado, e aquele ali eu mal tinha começado.

Mas a abordagem teria que ser diferente. Algo de muito terrível estava acontecendo dentro daquela Igreja, algo verdadeiramente maligno e sem precedentes. E eu não poderia permitir que continuassem. Sou uma caçadora de anomalias, meu dever é combater o Mal onde quer que permitam que ele entre neste mundo.

Eu trabalho combatendo e eliminando heresias. Sou uma Inquisidora.

domingo, 12 de janeiro de 2014

NEVE VERMELHA


São doze horas e um minuto.
Eu ainda estou tentando ligar o computador.

Não acreditei quando recebi a notícia da morte do meu amigo.
Era como se eu já tivesse visto tudo aquilo antes, e mesmo assim, fiquei surpreso, estupefato.
Voltei pra casa no horário do almoço, não quis ficar no trabalho.

Estava muito chocado e as pessoas não paravam de exigir coisas de mim, em um momento em que eu não mais podia pensar. Minha cabeça parecia girar e girar, eu não consegui sequer almoçar.

Finalmente o computador ligou e eu conectei a internet, entrei no site que me indicaram.
Lá havia um vídeo onde eu poderia entender tudo melhor, pois filmaram o acidente.

Peter foi para o Canadá para esquiar com a namorada Mina.
O vídeo começava com aquela algazarra toda dos jovens quando viajam, quando se divertem.
E eu não conseguia parar de pensar no sonho que tive.

Peter mal sabia esquiar, mas nas filmagens eles estavam todos subindo a colina, ou morro, não sei como chamam aquilo, só sei que era alto pra caramba.
Tinha algumas árvores aqui e acolá, no meu sonho eram pinus e cedros.

Peter subiu e desceu algumas vezes, caiu outras tantas, mas parecia sempre seguir devagar.
Mina ria muito, estava muito feliz. Tinha neve por todo lado, eles estavam com aquelas roupas de nylon estufadas e coloridas. Mina estava linda com seu sorriso de lábios carnudos e vermelhos naquela paisagem branca.
Vermelho...

No meu sonho as coisas aconteceram um pouco diferente.
Peter descia os morros em alta velocidade até que se chocou contra um pinus e rolou tres vezes sobre o próprio corpo. Deve ter se machucado com os esquis mas continou brincando, enquanto meu desespero aumentava.
Não conseguia conter as lágrimas que rolavam quentes sobre meu rosto, á medida que os minutos passavam e eu via que Peter não checava aquela mancha que começou a aparecer em sua roupa de esqui. Também pudera, a roupa era vermelha.
Será que o frio amortecia a dor?

Peter continuou com as estripulias na neve, caindo e levantando, esquiando, subindo mais alto, descendo veloz a montanha, voando baixo. Parecia tão emocionante e irresistível.
Ele caiu mais algumas vezes até que o sangue começou a manchar a neve.

Ao invés de procurar ajuda, ele começou a dançar e fazer palhaçadas.
Eu gritava e chamava pelo seu nome mas ele não me ouvia. Parecia bebado, ou chapado com ecstasy...

Ninguém mais estava vendo aquilo?
Em um momento eu estava lá, prestes a agarrá-lo e colocá-lo ao chão, para poder chamar ajuda, para poder ao menos tentar estancar o sangue que jorrava de seus joelhos, mas quando piscava, e bastava piscar, tudo mudava e eu estava do outro lado da tela, tocando-a, soluçando alto, pedindo ajuda, impotente.

Isso estava acontecendo ou já tinha acontecido?
Eu estava quase me afogando em minhas próprias lágrimas.
Peter brincava e girava, manchando a neve com seu sangue vermelho e quente, derretendo-a, fazendo-a escorrer montanha abaixo.
Eu comecei a pedir por socorro, comecei a gritar e chorar alto mas ninguém me ouvia, eu estava do outro lado de uma tela, eu estava apenas assistindo um vídeo muito cruel que registrava a tragédia que já havia acontecido. Minha garganta doía de desespero.

Mas Peter não sentia dor, e ninguém que estava com ele sentia a gravidade daquela situação. Ninguém fez nada para ajudá-lo. Ninguém sequer estava entendendo.
Peter dançou sobre seu próprio sangue na neve até que caiu exausto, rindo.

Mas de repente ele parou de respirar, e eu também prendi a respiração.
Ele parecia cansado, e fechou os olhos, parecia dormir.
Só que não mais acordou, enquanto a neve derretida com seu sangue quente escorria morro abaixo sujando todo o seu rosto.

No vídeo do acidente, aconteceu um pouco diferente. Ele teve uma hemorragia interna.
Mas eu devia tê-lo avisado, devia tê-lo avisado...
Eu vi tudo antes de ter acontecido.