segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

CAUSO - OS DOIS CÃES NEGROS

Fonte: http://www.worth1000.com/entries/27682/ghost-dog

OS DOIS CÃES NEGROS


Contado por Mercedes Duleba Cantuaria (in memorian)

Certa vez fiquei com a minha avó nas férias de verão enquanto minha família foi à praia, pois eu estava fazendo um curso profissionalizante. Normalmente teria ficado zangada com a minha situação, pois eu era adolescente. Como assim toda a família iria à praia menos eu?

Porém, naquela época, eu estava mesmo contente de fazer o curso e passar umas férias diferentes. Aproveitei que estava em casa com a minha avó Mercedes, e comecei a perguntar sobre coisas do passado. Queria saber como ela conheceu o meu avô, como era quando eram jovens. Ela disse que conheceu meu avô na antiga Móveis Cimo. Ambos trabalhavam próximos, mas nunca haviam se falado até que um dia minha avó cortou a mão em uma serra, e meu avô, Sr. Lucas Cantuaria, correu até ela com um lenço vermelho para estancar o sangue. A partir dali, começaram a conversar, e meu avô mostrou-se interessado em namorar a D. Mercedes.

Um dia ela o questionou porque ele namoraria com ela, que era tão simples, uma gata borralheira, ao invés das irmãs dela, que eram mulheres mais exuberantes, sempre bem vestidas e arrumadas, algumas com faiscantes olhos azuis. Meu avô respondeu que gostava dela justamente por ela ser uma pessoa simples e humilde, e por isso para ele, era a mais bela de todas.

O pai de D. Mercedes, o Sr. Estefano Duleba, era um homem muito severo. Era bravo mesmo, e muitos senhores da cidade devem se lembrar dele, de quando eram crianças e entravam no estabelecimento de meu bisavô, e eram enxotados por ele que não gostava de moleques fazendo bagunça. Um senhor a alguns anos reconheceu o Estefano nos traços de meu irmão mais novo, e confessou que tinha muito medo dele, o velho Duleba.

Mas voltando à história que minha avó contou, um dia o Sr. Lucas Cantuaria deu a ela de presente um relógio muito bonito em um estojo. Foi o que bastou para exaltar a ira do Sr. Estefano, que pensou que o presente significava que havia acontecido algo a mais do que o namoro recatado que minha avó tinha com meu avô, e os obrigou a casar imediatamente.

Os dois casaram, e foram morar em uma casinha improvisada perto de onde minha família mora atualmente, pois devido á pressa do Sr. Estefano, foi o que puderam arranjar. Minha avó conta que na noite de núpcias, estava o casal dormindo, quando dois cães começaram a uivar perto da casa. Ela levantou e abriu a janela para os enxotar, e viu os dois cães negros sentados logo abaixo. Ela ralhou para que eles fossem embora, mas os cães insistiam e resolveram passar o primeiro dia de casados de meus avós uivando e incomodando debaixo da janela.

Minha avó nunca mais os viu, mas acreditava, mesmo que secretamente, que eles eram mau presságio. Pois a primeira filha que teve com meu avô, que foi batizada de Maria Eudócia, morreu algumas semanas depois de nascer. E logo, quando meu pai ainda era muito pequeno, meu avô Lucas se foi, vítima de tuberculose.


E minha avó se perguntava, ainda, depois de mais de 50 anos, se aqueles dois cães negros eram uma visagem que viera lhe avisar que em breve perderia duas pessoas amadas, de sua família recém formada. “Deus comunica-se conosco de maneiras misteriosas...”

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