terça-feira, 11 de março de 2014

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO VIII

CAPÍTULO VIII


E lá vinham eles. Uma cena realmente horripilante, pareciam os cavalos do apocalipse, mas sem os seus cavaleiros. Relinchavam de uma forma aterradora, o som tentando sair de suas gargantas e narinas infladas, faltando pedaços. Apareciam ossos e músculos poderosos aqui e ali onde a carne ou a pele haviam sido arrancadas. Eram cavalos zumbis. E corriam para nós. Fiz sinal para que minha família passasse por baixo das cercas de arame farpado. Meu filho e minha mãe passaram desesperados, com o pai dando cobertura. Meu marido pulou a cerca num salto só, pois ele era ágil, e os ajudou pois estavam se enchendo de arranhões. Meu pai, coitado, acabou se apoiando na cerca de qualquer jeito, e caiu do outro lado, todo arranhado. O cavalo que estava mais à frente tentou se jogar contra a cerca. Fiquei com medo que conseguissem pula-la.

Meu irmão Richard e meu marido John já estavam acima do monte de entulhos, cada qual atirando nos cavalos. Dois deles caíram. Não quis que o resto se aproximasse demais. Comecei a espanca-los com a enxada, mas não fazia muito estrago. Derrubei um deles, cravando a enxada bem no meio da testa, mas fui jogada longe devido ao movimento brusco. Eles empinavam, e tentavam agarrar as pernas de John e Richard. Tentei tira-los de perto, puxando pelo rabo, mas eu não era tão forte quanto queria ser. Um deles mordeu o meu braço, quase o arrancando, e teria doído se eu já não estivesse morta. Ele me jogou no chão com um movimento de cabeça e os outros acabaram me pisoteando.

Saí do meio daquele furdunço como pude. Meu marido sacou uma colt, e começou a atirar nos cavalos, que sucumbiram um a um. O resto da família já estava segura do outro lado da estrada, pensei comigo. Foi quando avistei, do alto da estrada, lá de onde tinham vindo os outros cavalos, o maior deles. Era realmente assustador, com patas mais grossas e poderosas. E ele nos encarava, cerceando as patas no chão. Levantei-me e o esperei. Ele tinha alguns nacos de couro faltando, e aqueles olhos vermelhos e irracionais aterradores, pousados sobre mim. Agarrei a enxada com as duas mãos, e minha família ficou me chamando para que eu subisse no monte de entulhos.

Mas eu estava já com o corpo tão cheio de estragos. Por sorte, da mordida não vazava fluido algum. Mas meu peito estava todo cheio de amassados onde os cascos afundaram. Por sorte eu estava com as faixas enroladas, e não tinha nada caindo pra fora. Mas fiquei com medo que também sentissem o cheiro de minha carne em putrefação, pois eu agora estava sentindo, misturado ao cheiro dos cavalos. Foi quando o alazão tomou impulso, e veio num cavalgar perfeito e possante na minha direção. Os segundos que ele levou para galgar a distancia que nos separava pareceram durar uma eternidade. Achei que era o meu fim. Na minha mente, vinham imagens da vida que tive com minha família, meu marido, meu precioso filho. Torci para que não estivesse olhando. Desejei mais do que tudo ser capaz de protege-lo. Desejei ser capaz de viver de novo.

Senti uma descarga percorrer os meus braços, e ergui a enxada para acertar a cabeça do cavalo morbidamente majestoso. Mas, contra todas as expectativas, ele parou de repente, bem na minha frente, resvalando um pouco nas pedras e levantando poeira. O sol da manhã já estava irradiando ás costas dele. E ele parecia a criatura mais medonha e gloriosa que eu já havia visto. Deus alguns passos pra trás, e me encarou com seus olhos de fogo.

Eu quase chorei, ou mijei nas calças, naquela hora. Se isso fosse possível, acho que teria feito os dois. Eu pude ver, assim que o encarei de volta, a compreensão nos olhos do cavalo. Abaixei a enxada no mesmo instante. Meu irmão e meu marido recarregavam suas armas, pois haviam dados uns bons tiros sem ter acertado o cavalo, apenas a estrada em volta dele. Fiz sinal para que parassem. Meus pais e meu filho falavam angustiados do outro lado, perguntando o que estava acontecendo.

Com uma das mãos, apoiei a enxada no chão, e com a outra, tentei tocar na fronte do cavalo. Ele recuou um pouco, bufando um ar gelado que foi forçado pra dentro e pra fora de seus pulmões, mas então se entregou. E eu senti o seu pelo duro, e gelado. Ele era como eu, pensei. Eu o encarava, e ele me encarava de volta. Parecia ter tanto sentimento naquele olhar que ele me dirigia! Parecia estar pedindo para que eu o salvasse, para que o redimisse.

Resolvi tentar monta-lo. A despeito de minhas súbitas intenções fantasiosas de me tornar uma amazona gloriosa da morte, minha tentativa de monta-lo foi totalmente desajeitada. Afaguei-o, e resolvi deixa-lo, pois minha família me chamava para continuar. Escalei o monte de entulhos da estrada, e caí para o outro lado, de costas para o chão. Meu marido correu pra me ajudar mas fiz sinal que se afastasse. Não queria que me tocasse cheia de vírus como eu estava. Andamos alguns metros do que seria uma caminhada de quase 4 horas, quando escutamos um barulho e todos olhamos para trás surpresos. Era o cavalo, que tinha pulado o entulho e nos seguia. Minha família obviamente ficou com medo. Mas eu fiquei pra trás com ele, pois pra mim ele parecia se comportar como um cão fiel.

Fiquei cuidando da retaguarda, enquanto minha família ia à frente. O caminho estava tão vazio que logo relaxamos. Podíamos ouvir o canto dos pássaros, que pareciam estar todos saudáveis. E até mesmo um lagarto enorme e sadio cruzou o nosso caminho. Nunca havia ficado tão agradecida a Deus por alguma coisa. Milagrosamente, aquele trecho isolado da civilização estava a salvo da doença. Fiquei com medo de ser eu a macular aquele pedaço de terra com o vírus, mas bastava eu cuidar para não tocar em mais nada além do chão com a sola do meu sapato.

Demos algumas paradas para descansar, e achamos uma bica d’água para reabastecer as garrafas. O cavalo ficava sempre respeitosamente pra trás. Eu nunca havia achado um reflorestamento tão bonito na minha vida. Ou na minha morte, sei lá. Olhava a cada instante para meu filho, com carinho, e ele me sorria de volta. Meu marido tentava sorrir também, mas ele que nunca chorava, tinha uma lágrima persistente no canto do olho.

Chegamos finalmente ao portão do sítio. Minha tia, o marido e um dos filhos vieram nos receber. Ela me olhou apavorada e minha família fez de tudo para lhe explicar a minha situação. Acho até que ela entendeu e não a condeno por me olhar daquele jeito. Eu devia estar bem pior do que a última vez em que me vi no espelho. Todos esperaram que eu entrasse, mas eu não ousei cruzar a porteira.

Olhei em redor e sabia que minha família estaria 99,99 por cento segura naquele lugar. Até que aquela bagunça toda de zumbi acabasse, e o último se deitasse sobre a terra, sem movimento ou condições de se mexer, e o vírus se extinguisse, eu sabia que ali era o melhor lugar para eles se refugiarem. Olhei para o cavalo, e ele parecia saber daquilo também. Tentei explicar por sinais que aquele era o momento de nos separar. Meu filho fez menção de vir na minha direção me puxar, e todos falavam ao mesmo tempo, mas se calaram quanto eu puxei e fechei a porteira. Não queria sujar aquele pedaço de chão com a minha carcaça pestilenta. Era melhor eu seguir o meu caminho.


CONTINUA...

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