terça-feira, 11 de março de 2014

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO VII

CAPÍTULO VII


Até aquele momento eu ainda não tinha noção do que meu novo corpo de zumbi era capaz. Caminhei na direção daquelas coisas. Aquela simples barra de ferro se tornou uma arma letal em minhas mãos. O primeiro veio, e já estava passando por mim quando o acertei com toda a força na cabeça. Nunca havia escutado o barulho de um crânio sendo estilhaçado. Eu podia andar desajeitadamente, mas era a coisa mais elegante espancando zumbis com aquela barra na mão. Me sentia como um samurai e a sua espada.

O outro zumbi era uma mulher, e era um pouco mais rápida. Deve ter sentido o cheiro de minha família, pensei. Fiquei com muita raiva dela. Não queria que aquelas coisas asquerosas se aproximassem da minha família. Senti tanta raiva e nojo que a minha força só parecia aumentar. Acertei uma porrada tão forte em suas costelas que ela caiu ao chão. Não conseguia se levantar, e eu bati de novo em suas costelas. Senti seus ossos esmigalhando. Era como marretar uma cestinha de vime, e sentir todas as varetinhas se quebrando. Diacho, eu estava me divertindo.

O próximo que veio era um cara bem gordo. Não obeso, só grande, massudo. Esse eu bati no tórax, e ele mal se mexeu. Caiu no chão, mas o golpe não parece ter impactado muito em toda sua massa corporal. Na verdade, eu que quase ricocheteei pra trás, como se tivesse batido contra uma enorme árvore achando que fosse lenha. Quando ele se levantou e se voltou pra mim, até achei que fosse um zumbi com consciência como eu. Mas eu vi os seus olhos vazios, e como sua cabeça se virou seguindo o aroma de carne fresca da minha família. Vagabundo, pensei comigo. Não ouse se aproximar da minha família! Andei na sua direção o mais rápido que pude e dei um golpe de cima pra baixo bem no meio da cabeça. Coitado, morreu de afundamento craniano.

Virei-me e vi que a minha família já estava se preparando para me seguir. Cada um arrumou sua mochila com o máximo de mantimentos possível. Seguia a alguns metros à frente deles, com a minha barra de ferro na mão, que devido à minha coordenação motora, eu arrastava a maior parte do tempo, fazendo barulho no asfalto. Os zumbis foram sendo atraídos pelo barulho, obviamente. Eu os acertava como se fossem bolas de beisebol. Cheguei até a chutá-los longe, e a barra de ferro se mostrou tão útil quanto uma bala de doze. Checava os carros acidentados à procura de mais munição. Achamos até uns carros da polícia e mais alguns veículos do exército numa fuzarca infernal, deve ter havido um terrível embate entre exército, polícia e zumbis, mas não sobrou ninguém vivo.

Decidimos seguir caminho pelo mato, até a casa da tia. Meu irmão falou com ela pelo rádio, avisando que demoraríamos um pouco. Mas ela já havia partido para o Lageado, onde nos esperaria. Não podemos culpá-la por ter ficado com medo. E nos embrenhamos na mata, que àquela altura era mais segura do que andar pelo asfalto. Como no mato a população de zumbis era menor, eu fiquei cuidando da retaguarda. Richard e John vigiavam as laterais e meu pai ia à frente. Ainda não havia amanhecido, e estava bastante escuro. Já havíamos andado por algumas horas, atravessado um ribeirão e seguíamos ladeando uma estradinha, quando avistamos o último bairro da cidade. Ele ficava bem na divisa com a estrada principal que leva até várias propriedades rurais e à localidade do Lageado.

Seria melhor não entrar nesse bairro, pensei comigo. Era outro amontoado de morros e vales, e ruas de terra batida, e alguns trechos de asfalto, mas no geral, parecia mais um labirinto apinhado de zumbis. Seria perigoso entrar ali àquela hora da noite, mesmo porque já estava mal iluminado devido aos vários postes apagados, á confusão geral e também porque o conhecíamos muito pouco.

Foi quando avistei a escola, e como falar não adiantava, fiquei apontando pra ela. Meu marido viu, e achou boa idéia. Era um prédio de dois andares, todo murado e cercado, poderia ser seguro. Pra entrar, eu tive que escalar o muro altíssimo. Mas com a minha força de zumbi, até que não foi difícil. As mãos esfoladas não doeriam, e eu acabei caindo pro outro lado. Não perdi nenhum membro, pensei aliviada quando me levantei e bati a poeira da roupa. Mas o meu pé tinha saído do lugar e tive que coloca-lo de volta. Ninguém gostou do barulho.

Chequei e a escola estava vazia. Era uma construção muito bonita em U, com dois andares e um pátio interno, coberto. Bastante segura, com os varandões de cabo a rabo. Como tudo estivesse seguro, fui abrir o portão pra minha família. Passaram ali a noite, trancados em uma sala do segundo andar. Improvisaram camas com alguns colchonetes, almofadas e tapetes. E acho que todos dormiram bem. Não pude ver porque fiquei de guarda do lado de fora da porta. Lancei um olhar de boa noite com o máximo de carinho que pude ao meu filho e meu marido, e eles pareceram compreender. Eles até confiavam em mim para que eu ficasse ali junto com eles, mas eu não queria facilitar.

Minha mãe abriu a porta da sala a uma certa altura e veio falar comigo. Ainda chorava pelo Elton ter ido embora, mas compreendia que ele tinha ido ajudar a outra família. Disse que achava tudo aquilo muito estranho, mas me agradeceu por ter voltado. Disse que apesar de eu sempre ter sido a ovelha negra da família, e ela ter me dito isso muitas vezes, sabia que podia contar comigo. Então foi dormir com os outros, enquanto eu fiquei na escadaria bloqueando qualquer intruso que tentasse galgar as escadas.

Estava ainda com aquela sensação de fome. E pra piorar, senti que começava a feder. Meu olfato estava mais apurado, então quem sabe eles não sentissem o cheiro tão forte como eu sentia. E foi por causa do meu olfato que eu fui capaz de saciar um pouco daquela fome que sentia. Catei um gato que se aproximou de mim. Ele devia ser freqüentador da escola, pois não era arisco como deveria ser. Só que quando começou a se esfregar em mim, eu o agarrei e o mordi, arrancando um bom naco de carne cheia de pelos. Tentei engolir aquilo, mas não conseguia. Consegui tirar a carne que tinha ficado presa dentro da garganta, e bebi o seu sangue.

Ótimo, que bagunça, pensei eu. Tinha sangue escorrido pela boca, pescoço e pela blusa. Não queria que minha família visse aquilo, por isso fui procurar pela escola alguma roupa. Limpei também o sangue do gato do meu corpo.  Consegui uma bonita jaqueta preta de uniforme, e algumas faixas de ataduras na sala de materiais para educação física. Resolvi enrolar a faixa pelo tórax, apertando bem firme pra segurar melhor o inchaço em meu abdomem.

Antes que amanhecesse completamente, minha família já estava acordada. Talvez levássemos o dia todo caminhando, mas eu tinha certeza de que agüentaria, pois só queria manter minha família segura. Não conseguimos chegar á estrada do Lageado pelas ruas do bairro. Haviam zumbis aqui e ali e nós os estávamos atraindo. Os cães eram a pior parte. Tinha medo que logo acabasse a munição, por isso arrumei mais uma arma. Era uma enxada. Gostei dela. Era bem letal e fazia um serviço um pouco mais limpo do que a barra de ferro. Eu só cravava ela no crânio de um zumbi e o jogava para o lado, avançando para o próximo.

Resolvemos andar sempre por dentro da mata, para não nos deparar com ninguém na estrada. Não tanto se fosse um zumbi, mas se fosse uma pessoa sadia que talvez não fosse capaz de compreender o que minha família ainda estava fazendo comigo. Eu podia sentir a minha hora se aproximando. Não poderia ficar vagando pra sempre enquanto meu corpo apodrecia. Chegaria uma hora em que eu teria que dar fim àquilo. Já estava quase completando o terceiro dia morta. Logo, meus membros começariam a despedaçar e cair, uma perspectiva nada agradável do futuro. Depois pensei que isso poderia ser só mais uma bobagem aprendida com os filmes, acho que não era tão fácil assim.

Finalmente avistamos a estrada que seguiria para o Lageado. Verdade seja dita que existem muitas “zonas” por ali. Até demais pensei, tamanha era a quantidade de zumbis mulheres em trajes suspeitos que vagavam perto de onde estávamos. Não precisamos matar muitas, pois a maioria vagava pela estrada e nós a estávamos evitando. A parte ruim era que sempre precisávamos ficar pulando cercas e muros, até que chegamos em trechos mais isolados onde isso já não era mais necessário.

Vendo que tudo já estava mais tranqüilo, resolvemos finalmente seguir pela estrada. Estávamos próximos aos reflorestamentos e plantações, e não havia ninguém além da gente. Chegamos a uma parte onde haviam propriedades cercadas dos dois lados da rua. E uma barreira de galhos, troncos de árvores e carros bem no meio do caminho. Teríamos que passar por ali, pensamos. Estávamos ainda decidindo qual era a melhor maneira de seguir quando ouvimos o tropel de cavalos.


CONTINUA...

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