terça-feira, 11 de março de 2014

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO VI

CAPÍTULO VI


Meu filho era quem mais ficava rondando as janelas, para me ver. Havia um misto de admiração e temor em seus olhos azuis penetrantes. Trouxeram-me algumas roupas minhas, e eu as vesti, tentando parecer mais digna. Pedi também um boné, para esconder o rosto, e quem sabe tentar entabular uma conversa com meu filho e meu marido, através de um caderno de desenho. Passamos a tarde encostados à janela, eles do lado de fora, e eu dentro. Tentei desenhar algumas coisas pra lhes mostrar meus sentimentos e me saí bem quando desenhei uma carinha feliz.

Foi então que comecei a pensar que eu já estava com o corpo em decomposição, e logo me tornaria um fardo ainda pior de ser carregado por eles. Pensei que na verdade, não foi tão bom assim ter acordado morta no hospital e que foi péssima idéia ter vindo pra casa para vê-los, mas eu só queria ter certeza de que ficariam bem.


Depois de um ataque de três zumbis às barricadas da rua, e de eu quase ter estourado os vidros protestando pra que meu marido e meu filho fossem pra dentro de casa, resolveram finalmente me obedecer, entrar e trancar as portas e reforçar as trancas. Ouvimos o jornal juntos, e eu até ganhei um rádio. Parecia que a população de zumbis aumentava com uma certa velocidade, e as autoridades estavam fazendo o que podiam.

De noite, alguns foram dormir enquanto outros ficavam vigiando a casa e a minha porta. Meus irmãos estavam tensos. Contaram-me sobre suas esposas, que estavam bem, refugiadas. A mulher do Richard estava grávida, bem longe e isolada dessa confusão, na casa da avó. Estava bem protegida mas não havia como chegar até lá devido às barreiras das estradas. A namorada do Elton estava com a famíla, segura em uma base militar porque o irmão era do exército. Fiquei triste ao saber que meus irmãos, meus pais, marido e filho haviam ficado aqui no meio dessa bagunça só por causa de mim. Meus irmãos não queriam abandonar nossos pais sozinhos, por isso tiveram que se separar das esposas momentaneamente. Tomara que ainda haja um dia em que todos possam se reunir. Porque pra mim, não havia mais esperanças.

Tentei dormir de novo, mas claro que não consegui. Tinha algumas sensações estranhas pelo corpo, e uma dor esquisita por dentro, mas fora isso, não sentia nada. A dor nem era muito grande, era mais como um mal estar, e fiquei com medo de logo começar a feder sem ser capaz de notar. A colocação da minha pele estava mudando também, de um amarelo cadavérico para um tom cinzento, com toques de verde e azul escuro aqui e ali. E o meu rosto também, como se houvesse sido devastado por sucessões de emoções violentas, surras e fome, muita fome. Não compreendia tudo o que estava acontecendo comigo, afinal nunca havia visto um corpo se decompor, só tinha certeza de que era isso que estava acontecendo. O tempo que levaria, era uma incerteza. E a fome, esta eu não saciaria, muito menos sobre a minha família. Só o que eu tinha certeza é de que tinha que protege-los e de que jamais os morderia, e jamais permitiria que outros o fizessem.

Não, eu estava ali por um motivo: proteger minha família. Fiquei tentando sintonizar o rádio em várias estações mas todas veiculavam as mesmas notícias. A gente ainda via zumbis nas ruas porque o exército e a polícia estavam com baixo contingente. Então a ordem geral era de que as pessoas ficassem trancadas em casa, sempre vigilantes; e só saíssem se precisassem de mantimentos ou de auxílio médico. Luz e água ainda funcionavam pois havia gente trabalhando, mas logo teríamos que fazer racionamento, e logo isto se estenderia à comida também.

O problema de se trancar em casa é que às vezes justo a pessoa que cuidava da segurança da casa acabava infectada. E como todo o resto da família estivesse ali junto e trancado, acabaria virando zumbi também. O vírus parecia estar evoluindo e matando cada vez mais rápido. O governo não estava nada otimista, pois o número de infectados e mortos aumentava proporcionalmente a cada dia. E a doença parecia se espalhar para outros cantos do Brasil. Mas aposto como a situação no sul estava mais do que periclitante. Pois segundo estávamos sabendo, todas as rodovias de acesso ao nosso estado estavam bloqueadas. Só gente do exército e do governo passava. Estados Unidos e mais alguns países da Europa estavam enviando ajuda. Se essa confusão se espalhasse pelo mundo todo, estaríamos perdidos. Nem quis pensar muito no assunto, pois se houvesse uma pandemia mundial, como é que eu iria fazer pra manter a minha família a salvo, se não haveria terra neste mundo que fosse livre de zumbis??

De repente, sintonizei em uma rádio onde estava passando música. Finalmente, pensei comigo mesma. Só que pra variar, a música foi interrompida pra uma notícia de última hora. Foi então que o radialista identificou aquela como sendo uma rádio pirata, e falou alto e em bom tom que o governo estava tramando para fazer uma limpa geral na região infectada. Disse pra não confiar no exército e na polícia, e pra quem pudesse, tentar se esconder até em buraco de gambá, porque o governo faria uma limpa e ninguém escaparia. Não demorou para que eu entendesse o que ele estava querendo dizer. Já tinha ouvido falar dos “campos de concentração” pra onde enviavam a maioria dos doentes. Só que agora, recolheriam os sobreviventes e os levariam para esses campos. Ele disse que dariam a impressão de estar cuidando de nós, mas na verdade, levariam todos, sãos ou doentes, para o crematório. Depois começou a falar umas esquisitisses como nova ordem mundial e armagedon e finalizou com um thrash metal bem pesado.

Fiquei assim com o rádio ligado naquela música e mensagem loucas, e comecei a bater na porta. Dali a alguns minutos ouvi a voz do meu irmão, Richard. Eu resmungava e batia na porta e ele só ficava mais confuso, até que gritou comigo. Então a notícia da rádio se repetiu. Acho que ele ficou escutando, pois depois de um longo silencio, abriu a porta pra mim. O pai também veio, e fizemos uma reunião em família. Eles estavam ouvindo a estação do exército e escutaram que no dia seguinte os sobreviventes deveriam pegar seus documentos de identidade e se dirigir para a base mais próxima pois o governo ordenou a evacuação das cidades infectadas. Todos estavam ao redor da mesa, menos eu obviamente. Ficaram discutindo sobre o que fazer, seguir as ordens do governo ou acreditar no que dizia a rádio pirata? Sintonizamos novamente na rádio pirata, que não parava de veicular a notícia desta vez.

O radialista estava falando ao vivo, clamando para que as pessoas que estivessem na escuta se salvassem, quando foi interrompido por barulhos e estampidos. Ouvimos gritos, tiros, e a rádio saiu do ar. Meu irmão deduziu sabiamente que a transmissão pirata só poderia ter partido de dentro de alguma das bases instaladas, pois os civis não tinham mais estações de transmissão. E que aquele radialista amigo fora silenciado.

Resolveram que era hora de parar de se esconder naquela casa. Começaram a preparar roupas, agasalhos, mochilas. Procuraram por comida, lanternas, pilhas, garrafas com água. Depois de tudo pronto, descemos à garagem. Fugiríamos de carro, para os limites da cidade. Para o interior, para os sítios, para onde quase não havia gente, para áreas livres da presença de zumbis. Ficaríamos escondidos até tudo voltar ao normal. Estas áreas eram fáceis de achar em Rio Negrinho. A cidade ficava concentrada em um ponto só e havia extensa área rural. Um dos pontos de segurança também era a represa. Tentaríamos as duas localidades mais distantes da cidade. Se não desse certo, tentaríamos passar das barreiras e sair dessa região pra outros estados. Tinha que haver algum lugar seguro.

Já estavam há horas discutindo sobre o melhor lugar para ir. Foi quando uma tia minha ligou pelo rádio. Eles também tinham ouvido o que se passara na rádio pirata. Resolveram que tentariam o antigo sítio do nosso avô, no Lageado. O sítio fora quase todo loteado e vendido, mas ainda restava a antiga casa, o rancho e o paiol, uma extensa área de terra plantada. Tinha várias bicas de água e ficava próximo a um imenso rio cheio de peixes. E o melhor, quase totalmente isolado no meio do mato, no meio do nada. De um lado havia quilômetros de mato e áreas de reflorestamento e preservação, e do outro o Rio Negro. O paraíso para sobreviventes.

Combinamos então de nos encontrar com eles próximo á sua casa e seguir para lá de carro. O problema foi chegar até lá. As ruas estavam entulhadas de zumbis, lixo, carros abandonados. Mas teríamos que dar um jeito. Vários outros parentes e amigos foram avisados para se dirigir para lá. Elton se separaria da gente, pois tinha resgatar a namorada e a família da base, antes de se dirigir pra lá. Minha mãe tentou convence-lo a não se arriscar, mas ele estava irredutível. Se comunicaria via rádio assim que pudesse. Eu estava parada junto à porta da cozinha, assistindo a tudo. Na verdade, se eu fosse um armário ou uma cadeira, não faria diferença. As únicas pessoas que olhavam pra mim enquanto os outros discutiam eram meu marido e meu filho. Minha mãe chorou muito, e meu pai também, mas enfim deixaram que Elton partisse.

Ele se despediu de todos e até deu uns tapinhas no meu ombro, recomendando, daquele jeito autoritário dele, que eu cuidasse do pessoal. E então partiu, com uma lágrima pendurada no canto do olho, prometendo nos encontrar no Lageado assim que resgatasse a namorada da base. Ficamos um tempo olhando seu carro partindo, enquanto o Richard falava ao rádio com a família da esposa, contando nossa próxima manobra. Acho que ele não quis mencionar, por enquanto, o que tinha acontecido comigo, pois vi que olhou pra mim e respondeu ao rádio:

- Ela... está bem.

Levamos todas as nossas coisas para o carro. Eu ficava sempre na retaguarda, vigiando os zumbis que pareciam me ignorar. Meu irmão atirava contra eles, tiros certeiros na cabeça. Resolveram que eu deveria ficar no porta-malas. Seguimos pela cidade, desviando de zumbis doidos e carros pegando fogo. De onde eu estava parecia um passeio tranqüilo. Senti alguns baques e pulos do carro, acho que o meu irmão atropelou alguém, pensei comigo. Meu filho bateu na tampa do porta-malas perguntando se eu estava bem. É lógico, pensei. Não tem como eu ficar pior fisicamente.

Mas pegamos a rodovia para chegar à casa da minha tia, que ficava longe, e sofremos um acidente logo na entrada. Um carro bateu contra a gente. Ele vinha na direção contrária, completamente desgovernado. O motorista morreu de traumatismo craniano, mas pela aparência, eu poderia dizer que ele já era um zumbi quando estava dirigindo, e o acidente só o apagou. Ouvi meu irmão abrindo a porta, atirar em alguma coisa e vir abrir o porta-malas pra mim.

Quando vi o acidente, fiquei preocupada mas minha família estava bem. Somente a frente do carro ficou esmagada, e todos tinham colocado o cinto. Meu filho desatava o cinto ainda quando olhou preocupado para algo além de mim. Virei-me e vi zumbis se aproximando. Da rua de onde viéramos também, não eram muitos, mas pareciam formigas vindo pra cima de um monte de açúcar.

Meu pai, John e o Richard já haviam saído do carro e atiravam. Minha mãe e o Nicolas se protegiam como podiam nas portas abertas do carro. Meu filho ajuntou uma barra de ferro e seguiu fazendo pose de ataque. Nada disso, pensei, não queria que ele tivesse o menor contato com aquelas criaturas nojentas. Peguei na barra de ferro e ele se virou pra mim com os olhos numa indagação muda. Meneei a cabeça e tirei a barra de ferro da mão dele. Meu marido e meu irmão viraram-se e começaram a cobrir a retaguarda. Meu filho correu para a minha mãe e eu avancei para os zumbis à nossa frente, começando o serviço.


CONTINUA...

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