terça-feira, 11 de março de 2014

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO V



CAPÍTULO V


Richard se aproximou e colou a palma de sua mão contra a minha que estava fazendo o sinal de calma. Pareceu sentir o frio dela mas não recuou. Pegou meu pulso, e eu tentei puxar de volta com medo de infecta-lo. Mas ele segurou firmemente, dizendo que eu me acalmasse, e alcançou a arma para o Elton. Tentou medir o meu pulso. Obviamente, não sentiu nada. Tentou medir de novo. Chamou o Elton para que medisse. Nenhum dos dois sentia coisa alguma, apenas o frio da minha pele cadavérica. Elton se virou e acabou vomitando, e Richard pegou a arma da mão dele, mas parecia ter ficado meio zonzo. Nicolas apenas me encarava, meio assustado, e eu tentei falar com ele mas só conseguia resmungar e lamentar feito um zumbi. Richard me pegou pelo braço, sem medo apesar de eu ser um cadáver, e começou a me empurrar de volta escada acima:

- Vamos para o rancho, rápido, antes que eles voltem.

Entramos no rancho e ele me disse pra me esconder. Voltei pro canto onde tinha passado a noite, e escorreguei devagar até sentar no chão. Elton e Richard me encaravam gravemente. Nicolas meio que se escondia atrás dos dois.

- Você... (acho que o Richard sentia que perguntar se eu estava mesmo morta era meio ridículo àquela altura) você está bem?

- Nhóóoíiimmmm (não), resmunguei, mas o som parecia um daqueles murmúrios de zumbis que ouvíamos quase todos os dias.

Nicolas finalmente tomou coragem para se aproximar, meio com pena de mim, mas ergui o braço para impedi-lo de se aproximar. Richard interveio, pois Nicolas ficou visivelmente confuso:

- Melhor você ficar longe.

Elton corroborou:

- Ela está infectada.

Eu fiz que sim com a cabeça. Ficamos alguns minutos nos encarando. Uma infinidade de sentimentos diferentes se estampava no rosto de meu filho, a cada movimento meu. Eu apontava pro meu peito, pro meu coração morto, tentando gesticular um EU TE AMO pra que ele entendesse.

- Nicolas, vai lá embaixo buscar papel e caneta. – disse Elton.

Richard foi junto, por questão de segurança de meu filho. Elton então perguntou:

- Você fugiu?

Fiz que sim com a cabeça. Tentaria escrever, pois achei que assim seria melhor pra explicar o que estava acontecendo. Eu precisava pelo menos da confiança deles. Pra poder ficar por perto, cuidando, pelo menos era o que eu achava. Os dois que foram buscar papel e caneta voltaram em um instante, e eu escrevi o que pude:

Eu estou viva. Por favor confiem em mim, não tenham medo.
Vim pra ver se o Nicolas está bem. Não quero infectar. Cuidado.
MAS o meu corpo já morreu (Elton leia isso com cuidado)

Elton ficou olhando o papel por alguns minutos mas desistiu. Mostrou pro Richard aquele monte de riscos e furos do papel, que pra falar a verdade nem eu mesma entenderia. Minha mão não conseguia segurar o lápis direito e tudo o que consegui fazer foi amassar a arruinar o caderno. Mas pude perceber a compreensão invadindo os músculos de seu rosto. Ele ficou retesado por alguns instantes. Cochichou alguma coisa com o Elton, sobre mim. Nicolas quis saber o que era.

Acho que meus irmãos haviam compreendido que eu tinha mesmo me transformado numa daquelas coisas, mas que era inofensiva para eles. Ficaram cochichando e pude perceber que debatiam se Nicolas deveria saber que o que ele estava olhando era realmente um zumbi e não apenas sua imaginação. Meu filho começou a ficar nervoso e perguntar o que foi que estávamos cochichando, apesar de eu apenas estar movendo meus olhos e esboçando algumas expressões faciais, que àquela altura não passavam de caretas horripilantes.

Meus irmãos voltaram seus olhos suplicantes pra mim, e eu fiquei indecisa se Nicolas devia saber que eu tinha mesmo morrido. Até que ele gritou que já era bem grande e tinha o direito de saber o que estava acontecendo. Achei justo. Já que eu iria desaparecer mesmo dali a alguns dias, pois um corpo morto sempre apodrece, não dura pra sempre. Achei melhor que ele soubesse. Fiz um sinal com a cabeça e meu irmão Richard confirmou que eu era um zumbi. Nicolas se segurou pra não chorar. Vi que se controlava e se entregava um milhão de vezes em um minuto. Até que respirou fundo, e agiu como um homem adulto e sensato no corpo de um menino:

- Deixa eu pelo menos sentir o seu pulso. – Olhou pra mim com aqueles olhos azuis doces e suplicantes.

Estendi o pulso pra ele, e apesar das várias tentativas, ele nada sentia. Meus irmãos apenas olhavam com dó, até que ele se levantou e foi abraçar a cintura do tio Richard. Elton segurava mais uma ânsia de vomito, e Richard olhava sério pra mim, como se eu fosse um cão doente que ele teria que abater, até que Nicolas falou:

- É melhor ela ficar aqui, por enquanto. – Falou se dirigindo aos tios como se eu não pudesse compreende-lo. – Logo o pai, o vô e a vó chegam e vamos ter que contar pra eles.

Mal ele terminou de falar, e todos ouvimos o pai chamando lá de baixo. Meus irmãos acharam melhor todos descer e me deixaram sozinha no rancho. Demorou alguns longos minutos até que voltassem. Dessa vez veio a família toda pra ver a desgraça. Sei disso porque senti o cheiro de cada um ao forçar o ar pra dentro. Parece que meu olfato tinha melhorado em 200%. E aquela fome estranha me incomodou de novo. Era mais um instinto do que uma sensação. Minha mente ficava o tempo todo repetindo: carne, carne, carne.
Afastei aqueles pensamentos, ao me lembrar dos zumbis que vi arrancando carne de gente viva.

O primeiro rosto que vi foi o do pai. Colocou a cabeça pra dentro do rancho, todo desconfiado, mas eu pude ver a esperança nos olhos dele. E a cara de decepção quando viu do que se tratava. Na verdade, depois que ele fez aquela cara de desapontado, todos entraram quase ao mesmo tempo e eu pude ver o temor em seus rostos. E todos dirigindo aquela expressão cruel pra mim. Meu marido se aproximou um pouco mais entusiasmado mas se conteve:

- Mariana.... - Ele quase sussurrou engolindo as palavras.

- Afinal, ela está viva ou não? - Falou a mãe, caminhando na minha direção com a mão meio levantada, como para me tocar. Era como se eu fosse um cão raivoso que o dono estivesse tentando domar.

- Ela é um zumbi, vó.

- Mas com consciência – Completou Richard, com um tom de voz que deixava transparecer o quanto ele achava aquilo formidável.

Fiquei chocada com a frieza do Nicolas respondendo à pergunta da avó, mas lembrei que afinal ele já havia visto zumbis demais para uma criança de 8 anos. Eu tentei me levantar e todos recuaram assustados como se uma bombinha tivesse estourado à sua frente. Meus músculos estavam enrijecendo, pude notar. Mas eu não estava inchando como vi acontecer com outros zumbis, pois o corpo morto, andando ou não, inicia seu estado de putrefação. Coloquei-me de pé, tentando ficar ereta.

Meu marido tentou vir me acalentar e acho até que queria me abraçar, pois não nos víamos há dias, mas apesar de cortar meu coração, eu tive que detê-lo. Não queria que ninguém ficasse tocando em meu corpo envenenado, eu me sentia um saco cheio de vermes prestes a estourar. Morria de medo de que os vírus saíssem do meu corpo. Caminhei meio cambaleando até a luz para a minha atual aparencia pra quem ainda não tinha visto.

- Que horror, disse minha mãe

- Eu vim cuidar de vocês. - Era o que eu queria falar, mas cada vez que abria a boca minha garganta suplicava igual aos mortos vivos.

- O corpo dela morreu. - Disse minha mãe de novo, com os braços unidos sobre o peito como se estivesse rezando - Mas acho que seu espírito ainda não o abandonou.

Ficamos alguns minutos matutando o que fazer comigo. Eu sentia como se meu corpo estivesse reagindo a cada instante, às bactérias do ambiente. Eu estava apodrecendo, só não sabia em que velocidade e como aconteceria. Mas com certeza chegaria o momento em que eu nem poderia mais andar. Resolvemos que eu seria colocada em uma sala isolada dentro de casa. Todos concordaram que a infecção só ocorreria no caso de uma mordida, ou se alguém entrasse em contato com sangue ou saliva do infectado, como normalmente vinha acontecendo. No meu caso, eu estava morta, então nenhum desses fluidos estava vazando de meu corpo, por enquanto.

Quando saí do rancho, para a luz do dia, e tentei descer as escadas, me senti o próprio corcunda de Notre Dame. Minha família me olhava esquisito, então resolvi me endireitar, e caminhar o mais normal que podia. Acho que meus músculos acabaram se acostumando, pois logo eu já estava andando quase normalmente. Meu marido arriscou-se a pegar a minha mão para me guiar até o quarto, e lá eles me deixaram. Era o quarto que meu pai usava, e maldita a hora em que encontrei o espelho. Deus como eu estava horrível! Fiquei admirada pela coragem da minha família em me encarar e até ficar perto de mim. Com certeza à noite eles teriam pesadelos.


CONTINUA...

Nenhum comentário: