terça-feira, 11 de março de 2014

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO IX - FINAL




CAPÍTULO IX


Meus pais começaram a chorar, o rosto do meu pai foi bem difícil de encarar:

- Filha, se ao menos tivesse um jeito...

Mas ele melhor do que ninguém sabia que eu não poderia ficar ali. Ele que foi quem mais lutou pra proteger a todos, quando devia estar sendo protegido. Ninguém nem tentou argumentar mais, pois bastava olhar pra mim pra entender que eu não me encaixava naquele lugar. Eu lia em cada olhar e em cada respiração tensa que, apesar de não admitir, eles sabiam que eu tinha que ir embora. Mas se eu tivesse um coração que fosse capaz de sentir, ele seria despedaçado pelo olhar do meu filho. Era o único que parecia achar certo eu ficar. Acho que a minha cara não ajudava muito, pois se pudesse eu já estaria chorando copiosamente. Fiz vários sinais para que entendessem que era hora de eu partir. Que não poderia continuar ao lado deles daquela maneira. O meu corpo já estava morto, e eu estava pronta pra partir.

Não se preocupem, tentei gesticular, eu estou pronta. Não tenho mais medo de morrer.
Se eles fossem capazes de compreender aquilo, acho que ficariam mais tranqüilos. Porque eu estava tranqüila. Sempre encarei a morte dessa maneira. Como apenas uma porta que todos um dia irão atravessar. E eu sentia que a própria morte já estava nos meus calcanhares há tempos. Fiz vários gestos de despedida. Tentei impedir de todo modo que se aproximassem pra dizer adeus. Mesmo que tivessem a maior vontade de me abraçar, sei que não fariam, pois eu estava repugnante. E não os condeno por sentir nojo de mim. Eu mesma estava sentindo.

Gesticulei mais algumas vezes, com ambos os polegares pra cima, apontando pro meu próprio corpo indicando que estava ok, que precisava ir, quando meu marido se aproximou. E como não poderia jamais me dar um último beijo no estado em que eu estava, ele me deu algo melhor. Bem melhor. Uma pistola. Alcançou-me a arma por cima da porteira. Fiquei feliz por ele ter entendido e sugerir o que eu deveria fazer. Naquele momento, todos se calaram. Por um instante, pelo menos, se calaram para que a compreensão os invadisse. Minha mãe abraçou o meu filho com força, que ainda tentava vir em minha direção, e disse a ele:

- Não se preocupe, ela está pronta.

E quem sabe, pensei, a gente se encontre do outro lado, um dia. Era isso que me dava esperança, e tranqüilidade para morrer. Sentindo que não havia mais nada a ser feito, e que já haviam todos compreendido a nossa despedida, lancei um último olhar, tentando dar a impressão de que estava feliz. Ver o meu filho chorando por mim quase me matou de angústia. Mas reuni as últimas forças que tinha e dei as costas a eles. Um dia, quando tudo melhorasse, ele entenderia, pensei comigo. Ele veria o quanto a vida é bonita e o quanto eu destoava de tudo aquilo... e então parti, fazendo o caminho de volta. Virava a todo momento para abanar um tchau, como fazia com meu filho quando ele ficava em casa com minha mãe e eu corria para o porto de ônibus para ir para o trabalho,enquanto o cavalo me seguia. Nunca vou esquecer o olhar de todos eles. No fundo, eles também tinham a esperança de me encontrar um dia, mesmo se não acreditassem nessas coisas espirituais, pensei.

Meu filho me chamava, e eu só podia acenar um tchau. Joguei beijos a todos, e antes de virar a curva na estrada, juntei as duas mãos em concha, e joguei um beijo ao meu marido, que foi o amor da minha vida e ao meu filho, por quem eu tentei enganar a morte. Como já disse, não podia mais chorar, mas em minha mente, lágrimas escorriam aos borbotões de meu rosto. Já estava caminhando de novo quando o cavalo me cutucou nas costas. Virei pra ver o que ele apontava e vi meu filho ao longe pulando a porteira e correndo em nossa direção. Teria sido melhor se eles tivessem me dado um tiro. Doeu ver o rosto contorcido de dor do meu menino. Montei como pude, e o cavalo parecia ter entendido a urgência de nossa partida, pois me ajudou a montar, e cavalgamos velozmente como quem foge da cruz.

Atravessamos finalmente a barreira na estrada, e cavalgamos pra bem longe, até o pôr-do-sol. Achamos um lugar bonito pra cair, e não sentar, porque antes que o cavalo parasse, eu já tinha caído de cima dele. Ele voltou e deixou-se cair, também, ao chão. Estávamos perto da cidade, pelo barulho de sirenes e confusão que vinha de não muito longe. De onde estávamos, dava pra ver o sol se pondo, uma última vez.

Verifiquei a arma, havia duas balas. Bem conveniente, pensei. Uma pra mim, e outra pro cavalo. Pensei se teria coragem de matá-lo, pois ele havia sido tão bom pra mim naqueles momentos finais. O cavalo meneou a cabeça, e pousou-a próxima à minha perna. Parecia até ouvir os meus pensamentos. Afaguei-o, e ele fechou os olhos, soltando a última bufada de ar. O tiro ecoou várias vezes ao longe. Ele não se mexia mais. Vai com Deus, pensei.

Fiquei ainda alguns momentos apreciando as cores do poente. Acho que nunca tinha dado tanto valor à criação como naquele momento. Nunca tinha ficado tão grata a Deus, ou á Deusa, ou sei lá a Quem, como naquele momento. Fiquei pensando porque eu, dentre tantos zumbis, havia acordado naquele dia, morta, mas com consciência. Acho que era porque eu tinha uma motivação, uma razão pra continuar : precisava salvar minha família. Precisava deixar o meu filho, o que há de mais precioso pra mim, a salvo.

Acho que, quando não temos motivação na vida, morremos antes mesmo do nosso corpo. Viramos uma casca vazia, sem alma, sem alegria. Agradeci a Deus e á Deusa, sem conseguir me decidir de uma vez por todas, por tudo. E implorei que salvasse a minha família daquela maldição. Que salvasse todos eles. De alguma forma, tive certeza disso, de que ficariam todos bem, e de que podia partir em paz. Nunca imaginei que receberia a morte tão placidamente. Acho que nunca alguém se sentiu tão à vontade com a própria morte como eu naquele dia.

Bem, eu estava pronta, não é mesmo? E afinal, todo mundo morre um dia. Acabei rindo sozinha, com a minha risada obscena de zumbi, forçando o ar pra dentro e pra fora e através das minhas cordas vocais meio apodrecidas. Afinal, tinha acabado de lembrar que eu já tinha morrido a quase 4 dias. Respirei fundo, por reflexo, uma última vez. Já podia sentir o cheiro da morte vindo. E puxei o gatilho.

FIM


MARIE JO CANTUARIA
15/07/2013




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