domingo, 9 de março de 2014

ZUMBI Nº 1 - CAPÍTULO IV



CAPÍTULO IV


Eu estou viva!

Se eu conseguisse exclamar isso pra eles, será que faria algum sentido, dada a minha provável aparência naquele momento? Não sou muito íntima de cadáveres pra saber como ficam umas 24 horas após a morte, mas eu tinha idéia dado o número de zumbis de quem fugi na rua. E quando me olhei no reflexo do armário do hospital, eu já estava um horror, imagine então depois de rolar várias vezes na estrada e me arrastar no chão, escalar muros, etc. Pensei nisso observando minhas mãos, raladas e com sangue coagulado e seco pelos meus dedos. Eu precisava mostrar a eles que eu tinha plena consciência de meus atos, diferente dos zumbis normais. Ou pelo menos, da maioria.

Se existiu ou existisse mais alguém na mesma situação que a minha, com certeza já devia ter levado um tiro na cara antes de ser capaz de se comunicar. Quem sabe se eu ainda podia escrever? Apesar de meu corpo estar “parado” e nenhum órgão funcionar, parecia que todos os órgãos dos sentidos ainda estavam a todo vapor. Eu podia ver, e ouvir as coisas, a voz bem que tentava sair, e eu tinha força pra andar e escalar um muro. Só não tinha pleno controle, talvez o mesmo ocorresse se eu fosse escrever, mas tinha que tentar.

De repente me ocorreu que havia mais um motivo, além dos vírus pra que eu não me aproximasse demais de minha família. Se eu sentisse fome... Todos os zumbis catalogados na história do cinema, jogos, e depois que começou toda essa farra macabra, gostavam de comer carne, viva de preferência. Não dava pra dizer que gostassem só de carne humana, pois entre suas vítimas encontravam-se cães, galinhas e cavalos, atacados sem piedade.

Claro que eles não tinham nenhuma preferência especial por miolos ou tripas, conforme diz a lenda. Alias estas devem ser as partes menos apetitosas. Mas o que eu estava pensando? Afastei estes pensamentos rapidamente. Também não me era agradável pensar em um zumbi comendo os intestinos de alguém. Nos filmes, sempre mostravam isso, mas se eu fosse comer alguém, começava pelo braço ou pela coxa, que tem mais carne. Essa não, que tipo de pensamento era esse de novo???

Peguei um pedaço de telha fora do rancho e desci como pude pela escada em direção à casa. Fiz o maior barulho derrubando a barricada. Ouvi uma correria lá dentro, mas não podia parar de fazer o que estava fazendo. Seja rápida, pensei. Com sorte eles chegariam e não atirariam até que eu terminasse de escrever o que queria.

Escrevi como pude TO VIVA na parede branca de fora da casa. Ficou parecendo mais um monte de garranchos, pois a dificuldade em segurar o caco de telha e escrever ao mesmo tempo era grande. Eu tinha força nos dedos, mas quase nada de coordenação motora. Um dos meus irmãos enfiou o cano da doze pra fora e ficou espiando:

- Quem está aí... – falou o Elton com aquela voz autoritária.

Ele não podia ver meu rosto de onde estava, pois eu estava de costas, e eu achei melhor mesmo pois devia ter um susto horrível estampado na cara. Encolhi-me por causa da arma apontada pra mim, e me abaixei com os braços pra cima, igual uma vítima de assalto sendo feita refém, de costas pra ele. O caco de tijolo caiu no chão. Eu achei que não devia falar nada pois meu resmungo de zumbi resultaria em um tiro na minha cabeça. Mas mesmo assim, puxei o ar como pude e tentei:

- Mmmmanhiiaaanhhhhhhóóaaaa...

Até eu me assustei com o som lamuriante de minha garganta morta. O Elton deu um tiro no muro, e eu continuei abaixada feito refém, e então lembrei de apontar pra parede, pra que ele pudesse ler. Apontei devagar o dedo pra parede, mas nem bem terminei de executar o gesto, ouvi meu filho gritar pela janela da cozinha:

- Mãe!!!!

Nunca vou esquecer a exultação de alegria em sua voz. Havia amor, alívio, e êxtase naquele grito. Se eu pudesse, teria suspirado. Elton e Richard saíram pela porta ainda apontando a arma pra mim. Pareciam confusos, coçando a cabeça enquanto tentavam ler o que eu tinha escrito na parede.  Levantei devagar e virei de frente pra eles, e quase fui derrubada pelo Nicolas que veio correndo de lá de dentro e me agarrou num abraço na altura da cintura. Mas quando ele ergueu o rostinho pra mim, com lágrimas saindo dos olhos, meu Deus, naquela hora eu morri de novo. Ou quis morrer pra sempre.

Um esgar de horror e incredulidade se estampou devastadoramente no seu pequeno rosto. Eu vi o terror gritando de seus olhos azuis. E então ele se afastou, não sei se com medo ou com nojo. A mesma expressão, aterradora e cruel, se estampou na cara de meus irmãos, cada um com uma arma apontando para mim:

- Mariana?!? – Richard perguntou, incrédulo.

- Falamos com o hospital via rádio, pra pedir notícias suas. – Disse o Elton. – Disseram que você tinha morrido ontem.

Fiz que sim com a cabeça. Meus irmãos me olhavam ainda sem entender. Podia ler a confusão em seus olhos. Elton se virou de repente, com ânsia de vomito. Tentou se controlar e virou pra mim de novo, apontando a arma. Ergui os braços, um apontou para a parede e outro fez aquele sinal com a mão que diz: CALMA. Eles leram de novo a parede, desta vez o Nicolas também. Claro que não entenderam o que eu escrevi, mas olhavam nos meus olhos como se reconhecessem neles a lucidez e compreensão que faltava aos zumbis normais. E Deus, como eu estava com fome. Mas isso não era nada frente à dor. Eu juro que podia sentir uma dor física em meu coração que já nem batia. Como quando a gente leva o primeiro pé na bunda, ou quando tem uma decepção terrível, ou quando morre alguém que se ama muito, o que é infinitamente pior. Foi bem essa dor que eu senti.


CONTINUA...

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