domingo, 9 de março de 2014

ZUMBI Nº 1 - CAPÍTULO III


CAPÍTULO III


Ao contrário do que se pensa, zumbis não sabem quebrar janelas. Pelo menos não os normais. Os normais só reagem se enxergam algum movimento do outro lado da janela. E isso costuma acontecer à noite, em casas sem aquelas cortinas blecaute. Como já tinha dito, eles são lentos, e também bem burros. Se eles vêem alguma coisa se movendo do outro lado de uma janela, por exemplo, levantam os braços para agarrar e tentar comer, mas só quebram o vidro se estiver frouxo ou se insistirem bastante. Ou então se mais de um estiver tentando atravessar a janela. Aí não há janela que agüente. Mas se o seu campo de visão for obstruído, eles logo desistem. Por isso é importante ter um blecaute em casa. Você não se incomoda vendo zumbis na janela e eles não vêem você. É bom pra evitar que assaltantes estudem os seus hábitos, também.
Notei que o pai ainda não tinha posto tábuas nas janelas, com certeza não tinha necessitado. Desci as escadas e as barricadas que bloqueavam a passagem para o quintal estavam postas abaixo. Zumbis sozinhos também não são bons pra transpor barricadas, só em grande número. Cuidei pra espiar a janela da cozinha sem ser vista. Lá estava ele. Meu filho, de 8 anos. Sempre tão esperto, e tão lindo, são e salvo. Se pudesse, tinha respirado fundo de alívio. Estavam todos à mesa: meu marido, minha mãe, meus irmãos. Meu pai, um sobrevivente, de 12 na mão. Ele tinha escapado vivo de duas cirurgias contra um câncer, recentemente. Estavam todos com cara de abatidos. Senti falta das cunhadas.

Meu pai guardou as armas bem em cima do armário, e instruiu meu filho a pegar aquilo só em caso de emergência. Emergência nada, pensei. Se depender de mim, ele nunca precisará tocar naquela porcaria assassina. Quase chorei ao ver minha família unida, mas então um som gutural e mórbido ameaçou escapar da minha garganta. Encolhi-me, e subi as escadas para o quintal. Àquela hora um cochilo no rancho já não era má idéia. Pelo menos seria seguro, já que meu pai e irmãos não sairiam de novo fazer uma busca, pois pareceram se dar por satisfeitos. Só que nem dormir eu consegui. Fiquei em um estado de vigília, onde minha mente parecia tentar sair o tempo todo de meu corpo, como quando temos vertigens.

Vi o dia amanhecer. Ouvi tiros e gritos ao longe. Barulho de carros, freadas bruscas. Da porta do rancho, dava pra ver boa parte do bairro, também formado por vales e morros, morros e vales. Algumas casas pegando fogo, outras já com fogo apagado. Barricadas onde antes não havia. Remendos de muros e muros remendados. Parecia uma guerra, mas algo me diz que uma guerra seria bem pior do que aquilo. Porque na guerra você ainda pode ter esperança que um dia acabe, mas e isso? Esse maldito vírus. E eu nem poderia me aproximar muito da minha família, pois havia acabado de me ocorrer que meu corpo poderia estar cheio deles, os vírus. Talvez eles não se espalhem pelo ar, pensei. Pois uma coisa que não podíamos fazer era respirar, para que o vírus saísse de nosso corpo na respiração, então a outra opção seria o sangue ou saliva como veículo. Ou um contato pele a pele. Abraços, nem pensar. Doeu pensar que não poderia mais abraçar ninguém da minha família.

De repente, ouvi a porta lá embaixo abrindo. Meu filho subiu correndo as escadas e veio pro quintal. Chorava e gritava com a minha mãe. Pedia só que o deixassem um minuto em paz. Ele sempre foi bem genioso. Meu marido tentou falar com ele, mas acabou deixando-o sozinho um pouco. Ele ainda estava no alto da escada quando meu menino veio na direção do rancho. Me encolhi o mais que pude atrás de uns móveis e tv velhos, e o Nicolas entrou. Sentou á porta do rancho, que sempre ficava aberta, e colocou a cabeça entre as mãos pra chorar.

- Você não vai descer? – Nicholas perguntou, zangado,  para alguém lá fora.

Ouvi a voz do meu marido, John:

- Vamos descer e tentar ouvir mais alguma coisa, filho... ela está só na lista de desaparecidos...

Estavam falando de mim, provavelmente. Mas como souberam tão rápido? Fiquei matutando e observando meu filho por uns instantes. A tentação de me aproximar era grande, mas lembrava do vírus a cada momento. Ainda bem que já não salivava nem vomitava como fazia alguns dias antes de morrer. Também percebi que não soltava mais fluidos corporais, pois já estava morta há algumas horas. E deve ter sido esse o motivo pelo meu filho estar chorando. Eles já sabiam que eu estava morta. De alguma forma, receberam a notícia de que eu havia morrido. O hospital ainda tentava seguir os protocolos, pensei...

O rádio, eles ouviram algo pelo rádio do exército! Pelo menos ainda tínhamos algum meio de comunicação, pensei. O estalo dessa idéia em minha mente fez-me executar um movimento involuntário com a perna e o barulho atraiu a atenção do meu filho. Ele encarou o escuro do rancho por uns instantes e resolveu descer o quintal, mas sem maior alarde.

Ainda bem que ele não tinha me visto. Iria levar um susto tremendo, e eu quem sabe levaria um tiro na cabeça. Mas eu precisava que soubessem o que tinha acontecido comigo, precisava informa-los que estava consciente, apesar de zumbi, e da melhor forma. Mas como fazer isso, se falar eu não conseguia?

Aparecer então e dizer oi, ou “nhoi”, que é mais como soaria, com a minha nova voz de cadáver, seria uma péssima idéia. Eu já teria uma bala na cabeça antes de terminar o cumprimento, e meu cérebro estaria apagado pra sempre.


CONTINUA...

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