domingo, 9 de março de 2014

ZUMBI Nº 1 - CAPÍTULO II


CAPÍTULO II

Outra coisa que já mostraram nos filmes, foram zumbis saindo debaixo da terra, de pessoas que já haviam morrido a tempos e foram ressuscitadas pelo vírus. Posso dizer que isso era apenas um recurso dramático, pois na vida real isso seria impossível de acontecer. O vírus não poderia se reproduzir em um corpo que já estivesse decomposto, mas se isso fosse possível, os mortos não teriam forças para quebrar o caixão e ainda a laje de cimento que era colocada por cima. Sei disso porque meu marido trabalhava com essas coisas, e uma coisa que eles sempre faziam era cimentar muito bem os túmulos. E também, eu acho que a primeira coisa a ser comida debaixo da terra são os olhos e o cérebro, então, sem cérebro, o zumbi não vive, não é?

Consegui fazer o caminho todo até à casa da minha mãe. Cambaleava mais do que uma bêbada e me deparei com vários zumbis pela rua, mas eles pareciam ignorar a minha presença. Tinha gente sendo devorada também. E outros tantos correndo feito loucos, sem nenhum policial armado ou soldado pra ajudar.

Cheguei em casa em menos de quinze minutos. Fiquei surpresa de como era fácil entrar nas barricadas. Mas pensando bem, apesar de cambaleante, eu ainda estava bem mais ágil do que a maioria dos zumbis que já havia encarado. Nunca havia tentado matar nenhum deles, isso era serviço para policiais ou militares, apesar de os zumbis sempre se levantarem após alguns minutos. Aí é que as autoridades se lembravam dos filmes e jogos de vídeo game, e atiravam na cabeça. Eu nunca vi tanto miolo mole, literalmente.

Com o passar das semanas, depois que começaram as primeiras infecções e ataques, fui perdendo o medo dos zumbis. Eles eram muito lentos, pra falar bem a verdade, e o perigo real só existia à noite se tivéssemos que sair de casa por alguma razão, pois eles pareciam aflorar de cada canto. O risco também era grande para crianças que não estivessem sob a supervisão de um adulto, mesmo elas sendo bem mais ágeis que os adultos. Por isso crianças ficaram proibidas de andar sozinhas pelas ruas em qualquer horário. O mais triste foi que várias vezes, quando eu saía buscar mantimentos nas bases, encontrei crianças zumbis. Elas pareciam todas iguais. Eu tinha pesadelos em que meu filho era um deles. Não queria viver pra ver isso, juro. E que ironia hein, justo eu que tanto os temia, agora era uma deles. Estava me esforçando ao máximo pra não desabar e chorar. Será que um zumbi consegue chorar?

Já estava parada na frente da porta há uns 5 minutos. Que droga, mas quem estava atirando? Ouvi um estalo na parede depois de algo zunir em meu ouvido. Sim, ainda ouvia muito bem. Alguém às minhas costas atirou. Tive que me jogar pro lado e corri rastejando, se é que isso era possível, pra parte de trás da casa. Também estava bloqueada pra subir no quintal, achei melhor eu não me apresentar daquele jeito, mas precisava me esconder pois já escutava o burburinho lá na frente.
Meu pai berrando com a vizinha, pra saber porque diabos ela atirou contra a casa. Por causa de mim, é claro. Tive um flashback engraçado. Lembrei da vez que eu era adolescente e cheguei tarde em casa. Fiquei parada em frente à porta pensando se batia pra entrar ou não. O medo, claro. Só que daquela vez ninguém atirou em mim. Não podia deixar que me vissem assim.

Escalei o muro como pude e corri pro rancho no quintal, Como já tinha dito, a cidade em que morava era cheia de morros e minha casa, lógico, tinha que ser em cima de um. Por isso era mais fácil de isolar, pois era toda cercada, e ficava mais ou menos na base do morro, mas ainda precisávamos subir uma escada de uns 30 degraus pra chegar nela. Na parte de trás da casa, tinha mais um muro de mais de 2,50 metro de altura e uma escada que levava para o quintal, que era bem íngreme. Não se podia fazer muito nele além de plantar milho e ter alguns ranchos. Não dava pra brincar de correr porque poderíamos escorregar a qualquer momento e descer o quintal rolando até cair do muro para a calçada. Minha mãe caiu desse muro uma vez. Quebrou o tornozelo. Não foi fratura exposta, mas ficou bem feio. O pé saiu do eixo, como aquele zumbi que arrastava o machado em Resident Evil, o primeiro filme. Bela hora pra lembrar disso, ás vezes a minha imaginação me irrita.

Pensei em entrar no rancho, mas se meu pai fizesse uma busca, seria o primeiro lugar em que procuraria, e eles estavam se aproximando. Fui pro meio do milharal. Àquela altura, a única coisa que eu queria era certificar que meu filho ficaria bem, depois que toda essa confusão acabasse. Se é que um dia acabaria. Não poderia me dar ao luxo de mais nada, pois logo poderia me certificar pessoalmente se os zumbis entram em decomposição ou não. Talvez eu fosse um caso à parte, pois de todos os que já vi e que já foram estudados e mostrados na TV (quando ainda havia TV) nenhum parecia ter consciência. Ou será que tinham e a gente que não sabia?? Não queria nem tentar responder a isso... Porque se eu pensasse muito nisso, começaria a lembrar de todos os que vi tendo seus miolos estourados e aquela não era a hora de entrar em parafuso.

Eles estavam se aproximando, e eu só torcia pra estar bem escondida, mesmo. Não queria assusta-los afinal, e entraria em pânico se eles fugissem de medo e nojo de mim. Mas onde é que meu pai arrumou uma 12? Virgem Maria, o que era aquilo!!! Meu pai e meu irmão Richard, armados??? Um deles com uma 12 e o outro com uma carabina. Eu já vi uma cabeça estourada por uma 12, isso não era coisa pra mim, não queria ficar daquele jeito.

Eles subiram cautelosos as escadas e o restinho do morro, no carreiro que levava até o rancho. Com cuidado, vasculharam o interior do rancho com as armas engatilhadas e apontadas à frente. Deram uma olhada pelo quintal, e graças a Deus, não me viram dentro do milharal. Só vi que desceram e ainda pude ouvir o estalar das trancas sendo fechadas por dentro da porta. Mentira, eu só imaginei que fizeram isso, pois não estou ouvindo melhor por ser zumbi. Fiquei ali, só eu e o vento, com a maior vontade de chorar, esperando alguns minutos passarem para poder espiá-los pelas janelas.


CONTINUA...

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