domingo, 9 de março de 2014

ZUMBI Nº 1 - CAPÍTULO I



ZUMBI Nº 1


CAPÍTULO I


Tudo começou com as doenças. Houve uma grande epidemia do que parecia ser tuberculose. Muita tosse persistente, e sangue. As pessoas foram vacinadas às pressas. Os exames dos infectados não apresentavam nenhum bacilo.

Depois, foi a fase da lepra. Na verdade, hanseníase. Era o que parecia, pelo menos.
Conseguiram isolar o vírus. Era um vírus ainda desconhecido, para o Brasil e para o mundo. Terrorismo biológico, era o que diziam. Como se o vírus tivesse sido produzido em laboratório. Mas falavam a mesma coisa da Aids e nunca foi provado nada. Claro que eu conto isso do ponto de vista leigo, não sou entendida no assunto.

Só o que sei é que de repente, esse vírus apareceu e acabou com a vida de todo mundo. Aqui, no sul do país, ficamos isolados e abandonados. As cidades foram bloqueadas, barreiras e barricadas erguidas, mas não adiantava. Pensou-se em levar os sobreviventes embora, fechar as cidades de vez. A polícia não dava conta do recado, ainda mais porque muitos policiais estavam sendo contaminados pelo vírus, que se espalhava rapidamente. Ajuda militar também foi enviada, em vão... Não conseguia-se isolar os sobreviventes dos infectados.

Não se havia determinado ainda se o vírus se espalhava por ar ou por fluidos corporais. Parecia que era pelos dois. Por isso o medo de levar os sobreviventes embora daqui. Porque muitos dos que fugiam sãos da cidade, apresentavam os sintomas em seu novo destino. Só sei que foi muito de repente. Fomos pegos de surpresa. Acordamos um dia e o caos já estava instalado. Fizemos de tudo para nos proteger, mas não adiantava. A doença não parecia ter cura, os doentes morriam, mas continuavam andando. Andando e comendo.

Não sei porque, mas esse sempre foi meu maior medo. Aliás até sei, fiquei muito impressionada quando assisti à refilmagem de Madrugada dos Mortos. Passei uma semana com medo de abrir a porta de manhã e dar de cara com um zumbi na minha varanda. E foi mais ou menos isso o que aconteceu. Só que a zumbi era eu.

Passei muito mal, fiquei mais ou menos duas semanas com febre e a tosse persistentes. Fui levada da minha família para o hospital local, que àquela altura já estava apinhado de gente. E incidentes aconteciam todos os dias, reduzindo cada vez mais o número de médicos e enfermeiros. O hospital já estava todo isolado, com aquelas tendas brancas por toda parte, mas como isolar os doentes do resto da cidade? De uma hora para outra era mais zumbi do que gente sã. Eu consegui me sair bem, evitando maiores danos, escapando das dentadas. Ligava todo dia para minha família, para saber de meu filho e meu marido. Estavam sãos, por sorte. Minha mãe e meu pai cuidavam deles muito bem. Conseguiram se isolar na casa que ficava no alto do morro. Comecei a me preocupar de verdade quando os celulares e telefones pararam de funcionar. Comida e água já estavam ficando escassas, e havia racionamento de energia.

Ao que parece, eu contraí a doença depois que o meu cachorro quase mordeu o meu nariz. Mais alguns parentes meus foram infectados. No total, 11 pessoas da família já haviam morrido quando eu cheguei à hora zero. Tive uma parada cardio-respiratória, e fui posta no necrotério. Como todos os outros, estava aguardando a autópsia. Acordei, meio grogue, e levantei. Encontrei uma ficha ao lado da cama. Tinha mais corpos comigo na sala, todos cobertos com um lençol. Eu também tinha o meu, e o enrolei no corpo. Caminhei até me deparar com um reflexo meu, na porta do armário. Estava toda encurvada sobre o próprio ventre, com a boca aberta, e aí me dei conta: havia me tornado uma zumbi. Por isso parecia tão difícil caminhar ou me manter em pé... acho que o cérebro perdeu parte do controle sobre o meu corpo. Mas a despeito do que eu mesma sempre acreditava, e as histórias de terror contavam, eu estava consciente.

Claro que não recebi a notícia muito bem. Caí sentada com o que parecia uma falta de ar, e era mesmo considerando que meu pulmão já não funcionava. Eu puxava e soltava o ar por reflexo apenas, mas percebi que se não o fizesse, não faria diferença. O coração também não batia, e eu estava de uma cor amarelo cadavérica que não ajudava em nada a me convencer de que eu pudesse estar somente em estado de choque. A seguir, pensei na minha família. Será que já tinham sido avisados da minha morte? Eu não estava delirando gente. Sabia que o que estava acontecendo comigo não era normal. Como já disse, sou leiga no assunto e do vírus e da epidemia eu sabia muito pouco. Ouvi dizer que era até uma pandemia. O que será que isso quer dizer...

Acho que a falta de informação sobre o assunto foi um problema geral, os jornais e as autoridades nunca falavam nada claramente. Isso ajudou bastante a aumentar o número de vítimas. Quando estourou a gripe suína, foi contida mais facilmente pois todo mundo era informado todos os dias sobre como se proteger. Sobre essa doença que levantava os mortos, os civis sabiam bem pouco. Lembrei-me de todos os zumbis que encontrava nas ruas, em nossas fugas desesperadas. Dou graças a Deus por ter sido forte o bastante para ter deixado meu filho em segurança antes de adoecer.
Mas será que ainda estava seguro? Isso eu tinha que verificar.

Só percebi que meu estado era realmente deplorável quando tentei sair do hospital. Foi uma correria danada, só quem não corria era eu. Meu andar estava mais para um cambalear de bêbado, mas eu segurei as pontas bem até conseguir me esconder em um dos quartos do hospital. Estava cheio de pessoas convalescentes do mesmo mal que outrora me afligiu. Mas nada de médicos ou enfermeiras. Provavelmente estavam pelos corredores lutando para não ser mordidos.

Havia seis pessoas no total dentro do quarto, duas delas apenas acordadas, mas não tiveram forças pra gritar quando me viram. Assaltei um dos armários com as roupas de um dos doentes e me cobri o máximo que pude. Eles me olhavam estupefatos e eu bem que tentei dizer alguma coisa mas era como se as minhas cordas vocais estivessem costuradas também. Puxei e soltei o ar diversas vezes, mas não saía nada direito, apenas um resmungo, uma lamentação fantasmagórica do meu arremedo de voz.
Pensei comigo: Que horror!

E eles devem ter pensado também. Me vesti o mais rápido que pude, coloquei até um pano na cabeça à guisa de xale. Fiquei parecendo uma cortadora de cana. Uma enfermeira entrou porque um dos doentes lembrou de apertar a campainha. Pensei rápido: banheiro ou saída? Fingi que estava chorando muito, porque era só o que conseguiria fazer com a qualidade de voz disponível. Ela veio desconfiada na minha direção, e eu me virei e bati com toda força na cabeça dela usando uma bandeja que havia sobre a mesinha. Com a força que usei pra nocauteá-la, acabei caindo por cima dela. Força eu ainda tinha, só precisava controlar mais os meus movimentos. Levantei e saí cambaleando, ouvindo os gritos dos doentes atrás de mim. Devo ter matado a coitada, pensei.

Saí novamente pelo corredor do hospital, procurando pela saída. Era ignorada por médicos, enfermeiras, soldados e zumbis mortos de fome. O milagre é que eu consegui sair pela porta da frente. Quer dizer, da frente daquela face do hospital, que tem o formato de um octógono com vários braços. Apesar de todo o aparato militar estar instalado ali e o Hospital ser mais uma área isolada em uma cidade isolada, saí por uma das portas principais quase desapercebida, devido ao caos que já se instalara. Eu disse quase porque ouvi um guarda dizendo “Ei!”, e tentei acelerar o passo até alcançar a borda do morro, e caí no barranco.

Então, eu sumi de repente do campo de visão dele, e pela primeira vez em minha vida (vida?) eu fiquei grata por ter saído de um Hospital localizado no alto de um morro em uma cidadela cheia de morros. Fiquei quietinha, escondida no meio do mato, até que ele desistiu de procurar. Foi se ocupar de mais um bando de mortos vivos.

Corri para a estrada. Que pra variar um pouco, era uma ladeira sem asfalto e cheia de pedras soltas, que não foram devidamente assentadas pela patrola ou pela ambulância. Rolei duas vezes. O outro acesso ao hospital era asfaltado, então provavelmente o motorista da ambulância e outros motoristas em geral preferissem aquele caminho. Eu, logicamente, nem pensei em passar por ali, pois ia na direção contrária à casa da minha mãe. E também porque passava em frente ao cemitério, e isso pra mim áquela altura significava mau agouro.
Sabe-se lá se não haveria um enterro acontecendo bem naquela hora? Bobagem, pensei. Áquela altura já se recomendava queimar os corpos.


CONTINUA...

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