segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

OS GUIAS DE DANIELA

Daniela era uma jovem mãe solteira beirando os trinta anos de idade.

Era bonita, sem dúvida, apesar de não pensar assim sempre que se olhava no espelho.

Naquele dia em especial, ela estava se sentindo horrível.

Fazia semanas que não dormia direito, e mesmo assim, despejou todo o conteúdo dos blisters de diazepan na privada e deu a descarga.
Faziam-na se sentir pior do que já estava.

Seu filhinho, Eduardo, de quatro anos, também havia trocado o dia pela noite, e estava com ela deitado no sofá da sala assistindo desenhos na televisão, enquanto ela tentava faze-lo dormir mais cedo, sem sucesso.

Já eram quase duas horas da madrugada. Se conseguissem dormir, teriam que acordar dali a quatro horas: ele para ir á escolinha, e ela para ir ao trabalho em um escritório de advocacia.
Por enquanto era apenas a secretária executiva, mas esperava, em breve, poder se tornar advogada.
Estava estudando para isso, lutando para isso.

Sacrificava o tempo que poderia passar com o filho estudando para conseguir o diploma.
Sentia muita falta do pequeno, que nessas horas em que ela ía á faculdade, ficava com a mãe de Daniela.

Daniela inclusive emprestava o carro da mãe para ir á faculdade todas as noites. E moravam na mesma casa, da mãe de Daniela.

Daniela não gostava muito dessa situação, mas era o que podia fazer por enquanto.

Ás vezes se pegava pensando nos passos errados que dera até ali para estar ainda naquela situação enquanto todas as suas amigas estavam conquistando coisas na vida, comprando casa, carro, casando-se... E ela ali, mãe solteira, morando na casa da mãe, usando o carro da mãe, ás vezes tendo que aguentar o mau humor da mãe.

E pra piorar, sozinha, sem nem ter um namorado.
Já estava no terceiro biscoito de chocolate quando se lembrou de que havia engordado quase dez quilos nos últimos seis meses e começou a chorar silenciosamente, para Dudu não ver.
Cada vez que se olhava no espelho se achava gorda demais, caída demais, descabelada.
Chegou ao cúmulo de se entupir de comida e vomitar tudo depois.
Era tudo culpa da ansiedade, pensava.
Já tinha se matriculado na yoga para ver se conseguia dar um jeito no corpo e na ansiedade, mas só podia ir ás aulas no sábado de manhã, por isso, quase nem praticava.
Já estava frequentando a yoga há dois meses mas ainda não havia percebido diferença.

Resolveu que iria tomar um banho e deixar Dudu um pouco sozinho na sala, assim quem sabe ele relaxasse melhor sem ela se remexendo ao seu lado e conseguisse pegar no sono. E quem sabe um banho morno a fizesse relaxar também para pensar um pouco menos em comida.

Durante o banho, resolveu juntar as mãos no alto da cabeça e fazer a posição da árvore, mesmo que desajeitadamente.
Havia lido num livro que ao juntarmos as mãos para rezar, o gesto forma uma antena com a qual nos conectamos aos planos superiores.

Daniela começou então a rezar naquela posição de árvore a meio caminho, pois ela ainda não conseguia realizar o movimento todo, e as mãos formando sua "antena" no alto da cabeça, e enquanto tentava se equilibrar, tentava também organizar os pensamentos.

Pensou primeiro em para quem direcionar aquela oração, já que rezar mesmo não era o seu forte. Não conseguia se concentrar.
Não sabia nem que oração fazer, então começou a falar com Deus como sempre fazia. Com Deus, com os anjos de luz, com os espíritos de luz, com os seres iluminados, com os anjos da guarda, no final das contas, era tudo a mesma coisa.

Começou a pedir por dias melhores, por dias menos sofridos, para que Deus lhe abrisse as portas que estavam trancadas, para que pelo menos lhe mandasse alguma ajuda, um alô, sei lá, pensou.

Não conseguia sequer orar porque pensava e se preocupava com tudo ao mesmo tempo: as contas pra pagar, o chefe que enche o saco, o filho que não dorme, a mãe que vive impaciente, o salário que é tão pouco, a solidão da vida, os quilos extras, as rugas aparecendo, sua pele era um desastre, o cabelo espigado, a falta de sono, e lembrou de quando leu na internet que privação de sono pode causar problemas graves pois é inclusive usada como forma de tortura; as notas nas provas da faculdade, o trabalho pra entregar, a mensalidade atrasada, a abstinência sexual, a celulite, a abstinência do sono, a cara inchada de manhã.  Deus, como se odiava, como se achava horrível!

Talvez tivesse que começar a melhorar a partir de um único ponto: a auto-estima. Começou então a mentalizar: esta água abençoada por Deus é sagrada, e ela há de me curar. Esta água é sagrada e nela tem beleza, e onde ela toca há beleza, este braço é bonito, esta barriga é bonita, essa perna é bonita. Sou bonita porque fui criada por Deus e por isso sou divina! Essa água divina há de curar a minha ansiedade! O Anjo da guarda há de curar minha ansiedade! Santo Antonio cura minha ansiedade... pra quem mais eu peço, meu Deus?

Depois lembrou-se de uma conversa com uma amiga que lhe contou que já havia encontrado com seu guia espiritual, e como os pensamentos na cabeça de Daniela vinham e voavam feito vento, da oração pedindo ajuda que virou um mantra ela logo começou a pensar: Puxa, que legal seria se eu também pudesse conhecer o meu guia espiritual!
Acabou terminando sua oração maluca com um pedaço do responso a Santo Antonio, perdeu finalmente o equilíbrio, pediu mais um pouco pra se livrar daquela ansiedade toda, e decidiu desligar o chuveiro.

Pegou a toalha, enxugou-se, vestiu-se rapidamente e voltando para a sala, lá estava Dudu mais acordado do que nunca. Resolveu pegar o colchão do quarto e estender na sala, dormiriam ali mesmo se fosse o caso, contanto que conseguissem dormir. Já eram quase três horas da madrugada quando Dudu finalmente dormiu. Daniela desligou a televisão e procurou nem pensar que teriam apenas três horas de sono até a hora de acordar e começar a correr de novo. Mas ficou pensando, e pensou em outras coisas, e se preocupou sem necessidade, até que conseguiu dormir, e já eram quatro horas da madrugada.

Então ela começou a sonhar.
E sonhar com coisas estranhas, muito estranhas.
Daniela tinha esquecido a luz da cozinha acesa, e num estado de dormencia, ou de torpor, com os olhos semiabertos, não se sabe, ela viu quatro sombras deslizando da cozinha para a sala onde ela estava dormindo com Dudu.
Uma das sombras se aproximou de Daniela, quase encostando o rosto no dela, e ela já ía gritar de horror, quando aquela cabeçona de olhos enormes e muito negros do homenzinho cinza disse, sem mover os lábios finos: NÃO TENHA MEDO, NÃO PRECISA GRITAR, NÃO VAMOS TE MACHUCAR.



Ele parecia inclusive sorrir, mas Daniela não viu seu rosto mudar de expressão de verdade...
Daniela fechou os olhos novamente, completamente; e relaxou todo o corpo.

De repente, ela se viu de cima, como se estivesse flutuando sobre o próprio corpo. Mas como isso era possível??
Ela viu seu próprio corpo no colchão, em posição fetal, do mesmo jeito que havia pegado no sono, a cabeça quase caindo no chão... e Dudu ao seu lado, de barriguinha pra baixo, a cabeça virada pro outro lado, em sono profundo.
E aqueles quatro seres pequenos, cabeçudos, com aqueles dedos compridos, mexendo-os sem parar, se aproximando de seu corpo.
Mas ela não sentiu medo, muito pelo contrário. Sentiu uma paz maravilhosa.
E enquanto flutuava de volta para seu corpo, ouvia em seus pensamentos, aquela voz, ou as quatro vozes, muito calmas, gentis e muito doces, lhe dizendo assim, enquanto mostravam com os dedos tocando as orelhas de Daniela: VOCÊ DEVE FAZER ISSO, ISSO E ISSO, PARA SE LIVRAR DA ANSIEDADE.

Daniela acordou com o despertador do celular tocando, avisando que eram seis horas da manhã.
Havia dormido apenas duas horas, mas sentia-se incrivelmente descansada e bem disposta.
Lembrou-se do sonho esquisito, da sensação estranha de ter visto algo com os olhos semicerrados, do que os "aliens" estavam tentando lhe ensinar.
Onde foi que eles tocaram mesmo? Que pontos da orelha era pra ela tocar?
O que foi aquilo afinal, uma espécie de acupuntura?
Pena que ela já havia esquecido, quem sabe os pontos onde lhe tocaram na orelha fossem mesmo para acalmar a ansiedade, como se faz na acupuntura.

Deu algum trabalho para acordar Dudu, mas Daniela conseguiu deixá-lo tranquila na escolinha sabendo que depois do almoço ele teria a hora do soninho.
Tirou um tempo para pesquisar na internet e descobriu que possivelmente o sonho estava lhe mostrando algo sobre auriculoterapia.

No final do dia, já estava rindo sozinha de seu sonho maluco. De fato, alguns pontos para controle da ansiedade coincidiam com os que ela lembrava que seus amigos "aliens" haviam tocado em sua orelha. Será que a "antena" que ela fez durante o banho chamou aquela gente? Será que acabou indo parar no lugar errado?



Ela riu... Quem diria, ela que estava justamente pensando em conhecer seu guia espiritual, foi logo conhecendo quatro, e naquela forma, de homenzinhos cinza! Já havia ouvido falar de gente que vê seu anjo da guarda, ou um espírito, ou uma pomba gira, mas aliens? Pensando bem, no final das contas, era tudo a mesma coisa!

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