quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

ENCANTADORAS DE SERPENTES

Não sei ao certo por quanto tempo dormi, mas quando acordei, ele já estava sobre mim.

Seu corpo suava, e tinha um cheiro estranho, de quem come muita carne.
Não sei bem o que estava fazendo, mas com o susto acabei empurrando-o contra um dos móveis da sala.

Ele caiu ao chão e algo muito pesado em cima do móvel balançou e caiu sobre sua cabeça.
Era um busto de gesso, e o sangue começou a escorrer da cabeça do padre aonde o busto se quebrou.
Apavorada, peguei a primeira coisa que vi, uma flamula pendurada em uma lança na parede, e bati mais ainda no padre que já estava agonizante.

O barulho chamou a atenção da freira gorda que abriu a porta de sopetão e ficou horrorizada com a cena.
Primeiro olhou para mim, que estava seminua, e abriu aquela boca enorme como se estivesse escandalizada.
Depois, viu o padre no chão, a cabeça desfigurada, o sangue formando uma poça no chão da sala.

Antes que ela pudesse dizer ou fazer alguma coisa, eu enfiei a ponta da lança em sua barriga, várias vezes. Ela deu pequenos gritos abafados, esganiçados; por causa da dor, da surpresa, do susto, e foi ao chão. A lança não parecia afiada, não sei dizer se ela havia morrido ou apenas desmaiou. Mas era ela ou eu...

Arranquei dela o hábito que ficou um pouco largo em mim, apesar de eu ser cheinha também.
Deu para ver em sua pele nua apenas alguns vergões onde a lança machucou.

Tranquei os dois na sala e saí por trás do palco do anfiteatro. Cenas da minha infância passaram rapidamente pela minha cabeça: as luzes do palco, a platéia animada, o anfiteatro cheio, as outras crianças rindo, eu arrumando minhas roupas de tule para dançar.
Mas aquele tempo para mim havia acabado, ninguém mais me veria dançar naquele anfiteatro, não dentro das instalações daquela paróquia enorme.

Saí por uma das portas e havia pessoas lá fora.
Tentei cobrir o rosto para que não me vissem, não me abordassem.
O portão estava a alguns metros á frente, precisava correr para que não me pegassem, mas não muito para que não estranhassem e me intercedessem.


Andar por aquele pátio enorme, de pedra; aquelas construções altas, o campanário, os chafarizes, me dava tonturas, vertigens, não sei explicar.
Quantas vezes eu havia brincado ali quando era criança, mas agora não era bem vinda.
Acho mesmo que me matariam se me descobrissem, era uma época de caça ás bruxas, e eu com certeza era uma delas.

Andei rapidamente até o portão, o coração quase saía pela boca, as pessoas pareciam chamar, então cobri o rosto mais ainda.
Não havia guardas na saída, então consegui sair daquele lugar sem problemas, o alívio era indescritível.

O padre, que fora um amigo de infância, havia me oferecido abrigo naquele lugar. Estava ali há alguns dias e não tinha tido uma crise sequer.
Sofro de narcolpesia moderada.
Ao que parece, ele era um tarado e estava tentando se aproveitar de uma das minhas crises.

Não tinha idéia de que ele fosse um pervertido, de que fosse capaz de se aproveitar assim de uma mulher.
Pensando bem, todos eles eram assim agora.

Não passamos de objetos para eles, pensam que podem fazer o que quiserem conosco. Mesmo ele, que era um padre, não teve escrúpulos ao me ver dormindo e totalmente indefesa.

Corri estrada afora, naquele chão seco e pedregoso, corri o mais que pude. Pude ouvir ao longe, á frente, o tropel de cavalos e vozes masculinas gritando, deviam ser caçadores de bruxas se aproximando.

Não tinha idéia de onde estava, mas antes que eles pudessem virar na curva mais ao longe na estrada e me ver, corri para o meio do mato.

Já estava anoitecendo e eu ainda não havia parado de correr. Tropecei e caí algumas vezes, rolei alguns barrancos abaixo, até que achei uma casa perdida no meio do nada.

Os muros eram tão altos que mais parecia uma fortaleza, enfiada ali no meio da floresta escura.

Tinha iluminação nos muros, postes do lado de dentro, a casa também era de pedra, com grandes janelas em vidro fumê, parecia a casa de algum mafioso.

Não tinha cerca elétrica, só aquele arame farpado enrolado no alto dos muros. Subi por uma árvore e consegui pular o muro, não sem rasgar parte do hábito na queda.

Apesar das luzes acesas, o lugar parecia abandonado, deserto.

É bem verdade que havia uma caminhonete enorme estacionada ao lado do portão, do lado de dentro, mas preferi arriscar.

Estava imunda, cansada, morrendo de fome, minha barriga chegava a doer de tanta fome.

Havia uma janela aberta na lateral, por onde deslizei para dentro da casa.
Parecia que tinha algumas pessoas lá dentro, mas estava tão silencioso, deviam estar em alguma parte distante da enorme casa.

Fui para a cozinha, e não pude deixar de observar cameras de segurança em cada canto.
Havia comida fresca sobre a mesa, pão, carne crua, algumas frutas, e bebida.

Comi uma banana e um pedaço de pão. Procurei e encontrei restos de peixe na geladeira, peixe assado, comi frio mesmo. Estava delicioso.

Passei por uma enorme e confortável sala de estar com lareira e tapete de pele de animal no chão, encontrei um banheiro enorme, e tive que usar o toalete.
Tomei um banho depois, de água gelada, chegou a doer no meu corpo que ainda estava muito quente da correria, mas eu precisava acordar. Precisava tentar me manter acordada, tinha medo de desmaiar de novo e dormir pos dois ou três dias.

Quando estava terminando meu banho, ouvi ruídos, vozes na cozinha, alguém estava denunciando minha presença na casa.

Tentei pegar uma toalha e desaparecer dali mas fui surpreendida, ainda nua e molhada, na saída do chuveiro, por um homem enorme, alto e jovem, com olhos muito azuis e felinos e barba por fazer. Parecia mais um deus nórdico do que uma pessoa normal. Num primeiro momento, fiquei apavorada e envergonhada pela minha nudez, normalmente não é assim que me sinto mas naquela hora eu fiquei pequena e vulnerável, diante daquele tipo de pessoa.

Porém, ele não disse uma palavra e me alcançou sua própria camiseta para que eu pudesse me cobrir. Não pude deixar de notar a perfeição de seu corpo.
E também seus olhos pousados sobre mim, mas não havia nada de malícia. Seu olhar parecia severo, estava obviamente zangado por eu ter invadido sua casa, mas de certa forma, ele me inspirava muita confiança.

Os outros vieram atrás dele, dois rapazes, e três moças, e estavam todos arredios, indignados por eu ter invadido a casa, incitando o rapaz a chamar a polícia, ou a me jogar pra fora do portão, me chamaram de porca imunda.

Ele pediu o telefone das mãos de uma das moças e disse que não chamariam a polícia. Estava com os olhos fixos em meus pulsos.
Levaram-me para a cozinha e começaram a me fazer perguntas, que eu não consegui responder num primeiro momento, pois eram perguntas idiotas. Xingavam-me, me chamavam de ladra, de sem vergonha, perguntaram o que eu estava fazendo ali.

O homem então puxou meu braço e examinou as tatuagens nos meus pulsos.

Ele parecia enorme perto de mim, eu era gordinha, mas ainda assim, me sentia pequena perto dele.

Podia sentir o seu hálito quente, seus olhos escrutiniando a tatuagem. Seu cabelo louro e comprido caía sobre seu rosto
Então ele tocou a minha testa, procurando pela marca. Estava meio apagada, mas ele pareceu ter percebido alguma coisa ali, pelo modo como seus dedos tateavam a minha testa e pararam bem no meio dela. Pude notar que relaxou e foi  até mais gentil comigo.

Pediu aos outros para me deixarem em paz, e deixou-me voltar ao chuveiro para me secar, e vestir algumas roupas que pediu ás garotas que me emprestassem.
Elas riram do pedido, pois obviamente nada do que vestiam poderia me servir, mas ele me levou ao banheiro pela mão e me emprestou uma bermuda e uma camiseta seca, dele mesmo.

Enquanto eu me secava no banheiro, pude ouvir a conversa deles na cozinha.
Se o celular de ao menos um deles funcionasse, já teriam chamado a polícia, mas ali naquela casa estavam fora da área de cobertura.
Ele proibiu aos outros de usarem o telefone via rádio, e disse que ele mesmo se encarregaria de tomar conta de mim.

Ao ser questionado sobre o porque de me proteger, ele respondeu que eu era uma das lendárias Encantadoras de Serpentes, dançarinas exóticas de uma arte muito antiga e sagrada.

Ele me deixaria ficar na casa naquela noite. Acho que os outros não gostaram muito. Ele me levou a um quarto, me ofereceu comida. Falei muito pouco com todos eles, pois estava desconfiada, naqueles tempos eu tinha que desconfiar até da própria sombra.

Mais tarde na noite, as moças bateram á porta do quarto e pediram se eu poderia dançar para eles na sala.
Eu disse que não poderia dançar se não tivesse as roupas apropriadas, então elas me arrumaram alguns lenços, um lençol fino.
Achei que aquela seria uma boa oportunidade de distraí-los, e quem sabe fugir.

Pedi que me deixassem a sós para pintar o rosto e o corpo, e arrumar o cabelo. Essa parte eu teria que fazer sozinha. Emprestaram-me alguma maquiagem e glitter para o corpo.
Elas saíram rindo, dizendo que já tinham ouvido falar nas Encantadoras mas nunca tiveram a chance de assistir a uma delas dançando.
Fingiam um certo respeito e curiosidade, mas eu sabia que as risadas eram de deboche.

O homem alto parecia contrariado. Veio falar comigo em particular, pedindo que não o fizesse se não tivesse vontade. Eu disse que tudo bem, que faria o que elas me pediam. No fundo, dançar para eles me envaideceria.

Ele mesmo colocou a música no aparelho de som, e sentou-se no sofá, enquanto eu ficava de frente para eles, e de costas para a lareira.
Qual não foi a minha surpresa ao ouvir os primeiros acordes de uma das músicas dos Ritos de Verão!

Meu olhar se encontrou com o dele, e ele parecia rir-se por dentro da minha cara de surpresa. Tudo bem, pensei comigo mesma. Ele vai ter o que está pedindo!

Comecei então a me movimentar de acordo, deixando que os sons e as batidas levassem o meu corpo, embalassem minha aura, preenchessem os meus membros, o meu ventre e minha coroa com a luz, aquela luz que eu conseguia enxergar quando fechava os olhos.

Não era eu quem dançava naquela hora, mas a música que me comandava, languidamente, vagarosamente, enquanto os olhos da platéia; num primeiro momento debochados frente á minha silhueta rechonchuda; foram ficando cada vez mais absortos, compenetrados em meus movimentos.

O corpo, os olhos pintados, o glitter refulgia frente ao fogo da lareira.
Eu via a platéia, e via a mim mesma dançando como se estivesse agora fora do meu corpo.
O transe começava, tanto meu, quanto das pessoas que me assistiam.

Os olhos do estranho que havia me ajudado pareciam arder em cada pedaço do meu corpo. Os olhares de todos agora estavam presos em cada partícula do meu ser.
Os lenços esvoaçavam, mas parecia que era o fogo que se refestelava sobre meus braços e pernas. As fagulhas brilhantes volitavam, volteavam ao redor de mim, meus braços pareciam abrigos acolhedores em dado momento; em outro, pareciam asas.

Meu ventre, meus seios brilhando á luz do fogo, eram convidativos, eram abrasadores, eram desnorteadores.

Meu olhar era selvagem; ora sensual, ora suave. Cruzava, atravessava a mente de cada um dos espectadores, e eu já sabia: estavam sendo hipnotizados.
Eu os dominava cada vez mais com cada olhar, com cada volta, com cada movimento do ventre e dos braços.

Meus olhos muito negros e brilhantes dardejavam armadilhas que os prendiam cada vez mais a mim, e eu percebia a fome de seus corpos crescer, encher a sala com seu perfume.
Eles acompanhavam cada movimento meu, inebriados, um desejo obscuro crescendo dentro do peito. Sentiam borboletas na boca do estomago, o famoso frio na barriga, pela espera, pela ansiedade...

Cada passo das minhas pernas poderosas no chão os levava cada vez mais fundo ao transe. Sentia que cada poro da minha pele sugava uma energia que rodopiava ao redor de nós todos. Sugava e emanava, uma energia quente, transcedental, sensual, algo fora da humanidade, algo que ninguém jamais poderia explicar, apenas sentir. Todos nós pulsávamos com a mesma onda de energia que fora despertada pela dança.


O homem louro que me ajudou também me encarava. Parecia mais belo ainda, encantado daquele jeito. Possuía um olhar que em qualquer outro momento teria me intimidado, fazendo-me corar e olhar ao chão.
Mas naquele momento, era eu quem comandava a todos, eu era a dona da brincadeira.
Senti-me poderosa, e deixei essa força fluir pelos meus membros, pelo meu cabelo, pela minha nuca, meu ventre, meu sexo.

Eu era filha da Estrela da Manhã, naquele momento. Eu era Ishtar, eu tinha poderes sobre eles, e sabia que depois da dança, fariam qualquer coisa que eu pedisse. Estavam na minha mão agora.

Eu poderia terminar os últimos acordes da música e desaparecer, ou então com um movimento suave ordenar que me dessem tudo o que precisava para fugir em segurança: um carro, dinheiro, comida, roupas, tudo o que quisesse.

A música terminou e eu mantive a pose final ainda por alguns segundos, o corpo brilhando, pelo glitter e pelo suor, ardendo como o fogo da lareira. Ninguém se movia, alguns arfavam, ansiosos.

Porém o homem louro, sem tirar os olhos de mim, veio em minha direção e antes que eu pudesse dizer uma palavra, ele me agarrou e me arrastou para o quarto. Fiquei com medo de sua força, ele me abraçava forte e eu não conseguia me livrar. Beijou-me no pescoço e na orelha até que me jogou na cama, e fechou a porta.

Fiquei com medo do que pudesse fazer, de que quisesse fazer algo á força, não esperava aquela reação, nunca havia acontecido antes.
Fiquei com mais medo ainda de ele tentar me obrigar a algo e eu acabar cedendo...
Nunca fora subjugada pela beleza de um homem, como filha de Ishtar nunca me deixei enganar. Mas aquele rapaz possuía algo que me desarmava, e eu não sabia dizer o que era.

Mas ele me colocou sentada na cama, meio sem jeito, e se ajoelhou segurando e beijando a minha mão.
Chamou-me de Deusa e disse que estava a meu serviço.

Fiquei estupefata!
Ele me mostrou a tatuagem em sua nuca. Usava o cabelo mais comprido para cobri-la. Ele era um de nós! Um filho da Deusa!
Explicou que os outros não eram como ele, e que era perigoso estarmos no meio deles, pois ele não sabia que reação poderiam ter ao saber que eu era uma bruxa.

Segurei seu rosto com as mãos e beijei o alto de sua testa, agradecendo á Deusa por ter me enviado um protetor.
Eu poderia retornar ás nossas terras sagradas sozinha, ilesa, se não fosse meu problema com narcolepsia que havia me colocado em muitas confusões até agora.

Ele me deu novamente algumas roupas para vestir e me enrolou em uma manta. Disse que era melhor que agíssemos rápido e saíssemos dali. Pegamos algumas provisões na cozinha, todos os telefones, cobertores, e até algumas armas. No pátio havia mais um carro pequeno, mas optamos pela caminhonete que aguentaria o tranco daquelas estradas poeirentas e difíceis.

Ao sairmos, as três garotas já estavam beijando os dois rapazes restantes. O transe os levaria a ter uma noite inesquecível. E eu nem precisei ordenar-lhes que fizessem nada...

Meu novo amigo nem pareceu se importar, apesar de eu ter certeza que uma delas era sua namorada.
Olhou apenas pelo canto do olho, num total desapego por aquelas pessoas.
Parecia determinado...

No carro, já na estrada, a lua cheia iluminava o nosso caminho.
A missão parecia ser bastante simples, tanto para ele quanto para mim: voltar pra casa, para Heiderghal.

Mas nesses tempos loucos, de caça ás bruxas, de Inquisição, de heresias, e considerando a minha narcolepsia, aquela poderia ser uma viagem bastante conturbada.
Eu era uma bruxa bastante fácil de ser reconhecida, pelas tatuagens espalhadas pelo corpo.

Começamos a discutir sobre como atravessar a Argentina e chegar a Pichilemu, no Chile, para tentar fazer a travessia.
A voz grave e profunda dele, o jeito protetor, aquele olhar que parecia me derreter, o que estava acontecendo comigo afinal?
Justo eu, justo agora, a perder o foco...

Precisava fugir, precisava me proteger, precisava retornar viva a Heiderghal e a única garantia que tinha de que ele poderia me ajudar era a tatuagem na nuca, que eu nem tinha certeza se era verdadeira.
Precisava averiguar, precisava ter certeza, ele poderia muito bem ser um inquisidor disfarçado.

Muitas de nós, Encantadoras de Serpentes, já estavam mortas. A Arte poderia se perder para sempre.
Muitas outras filhas de Ishtar estavam sendo silenciadas, mortas, ardendo em fogueiras. Algumas eram torturadas, usadas, tratadas como algo que valesse menos que um trapo, para depois arderem... Quantas irmãs eu perdi!

Todas precisávamos voltar para casa antes que as brumas, novamente, não pudessem mais ser chamadas, e os caminhos se fechassem por mais uma era.

Ele me explicou que haviam mais como ele procurando por nós para nos enviar para casa.
Eu tive que explicar sobre meu problema com narcolepsia.
Estava quase pegando no sono com aquela voz inebriante em meus ouvidos.

No fundo, preferia nem dormir, tinha medo de que ele desaparecesse, ou de acordar novamente dentro de mais uma armadilha.
Mas, apesar de eu lutar com todas as forças, chegando a me estapear na cara, acabei pegando no sono, embalada por aquela voz celestial.
Antes de adormecer, pude vislumbrar ainda o olhar e o sorriso compadecido do meu anjo protetor.




CONTINUA...

Um comentário:

ROSANE disse...

demais este conto, me vi em cada detalhe amiga, e esta foto heim, o que é esse moço? adoooooorooo! parabéns!!!