domingo, 12 de janeiro de 2014

NEVE VERMELHA


São doze horas e um minuto.
Eu ainda estou tentando ligar o computador.

Não acreditei quando recebi a notícia da morte do meu amigo.
Era como se eu já tivesse visto tudo aquilo antes, e mesmo assim, fiquei surpreso, estupefato.
Voltei pra casa no horário do almoço, não quis ficar no trabalho.

Estava muito chocado e as pessoas não paravam de exigir coisas de mim, em um momento em que eu não mais podia pensar. Minha cabeça parecia girar e girar, eu não consegui sequer almoçar.

Finalmente o computador ligou e eu conectei a internet, entrei no site que me indicaram.
Lá havia um vídeo onde eu poderia entender tudo melhor, pois filmaram o acidente.

Peter foi para o Canadá para esquiar com a namorada Mina.
O vídeo começava com aquela algazarra toda dos jovens quando viajam, quando se divertem.
E eu não conseguia parar de pensar no sonho que tive.

Peter mal sabia esquiar, mas nas filmagens eles estavam todos subindo a colina, ou morro, não sei como chamam aquilo, só sei que era alto pra caramba.
Tinha algumas árvores aqui e acolá, no meu sonho eram pinus e cedros.

Peter subiu e desceu algumas vezes, caiu outras tantas, mas parecia sempre seguir devagar.
Mina ria muito, estava muito feliz. Tinha neve por todo lado, eles estavam com aquelas roupas de nylon estufadas e coloridas. Mina estava linda com seu sorriso de lábios carnudos e vermelhos naquela paisagem branca.
Vermelho...

No meu sonho as coisas aconteceram um pouco diferente.
Peter descia os morros em alta velocidade até que se chocou contra um pinus e rolou tres vezes sobre o próprio corpo. Deve ter se machucado com os esquis mas continou brincando, enquanto meu desespero aumentava.
Não conseguia conter as lágrimas que rolavam quentes sobre meu rosto, á medida que os minutos passavam e eu via que Peter não checava aquela mancha que começou a aparecer em sua roupa de esqui. Também pudera, a roupa era vermelha.
Será que o frio amortecia a dor?

Peter continuou com as estripulias na neve, caindo e levantando, esquiando, subindo mais alto, descendo veloz a montanha, voando baixo. Parecia tão emocionante e irresistível.
Ele caiu mais algumas vezes até que o sangue começou a manchar a neve.

Ao invés de procurar ajuda, ele começou a dançar e fazer palhaçadas.
Eu gritava e chamava pelo seu nome mas ele não me ouvia. Parecia bebado, ou chapado com ecstasy...

Ninguém mais estava vendo aquilo?
Em um momento eu estava lá, prestes a agarrá-lo e colocá-lo ao chão, para poder chamar ajuda, para poder ao menos tentar estancar o sangue que jorrava de seus joelhos, mas quando piscava, e bastava piscar, tudo mudava e eu estava do outro lado da tela, tocando-a, soluçando alto, pedindo ajuda, impotente.

Isso estava acontecendo ou já tinha acontecido?
Eu estava quase me afogando em minhas próprias lágrimas.
Peter brincava e girava, manchando a neve com seu sangue vermelho e quente, derretendo-a, fazendo-a escorrer montanha abaixo.
Eu comecei a pedir por socorro, comecei a gritar e chorar alto mas ninguém me ouvia, eu estava do outro lado de uma tela, eu estava apenas assistindo um vídeo muito cruel que registrava a tragédia que já havia acontecido. Minha garganta doía de desespero.

Mas Peter não sentia dor, e ninguém que estava com ele sentia a gravidade daquela situação. Ninguém fez nada para ajudá-lo. Ninguém sequer estava entendendo.
Peter dançou sobre seu próprio sangue na neve até que caiu exausto, rindo.

Mas de repente ele parou de respirar, e eu também prendi a respiração.
Ele parecia cansado, e fechou os olhos, parecia dormir.
Só que não mais acordou, enquanto a neve derretida com seu sangue quente escorria morro abaixo sujando todo o seu rosto.

No vídeo do acidente, aconteceu um pouco diferente. Ele teve uma hemorragia interna.
Mas eu devia tê-lo avisado, devia tê-lo avisado...
Eu vi tudo antes de ter acontecido.

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