terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A PINHA SAGRADA


A inauguração da casa de decorações foi um sucesso!

Todos estavam se divertindo e a minha família toda estava lá. Meu filho corria pelas escadarias com os seus amiguinhos, meus próprios amigos conversavam e sorriam, com roupas elegantes e as indefectíveis taças de champanhe nas mãos.

Eu tinha que rir sozinha dos dedinhos levantados de alguns deles. Meus pais se abraçavam para as fotos a pedido da imprensa e me olhavam embevecidos. Eu era uma decoradora de sucesso. Levava uma vida de luxo e badalação, nosso nome agora era conhecido até no exterior. Estava dando a eles não apenas orgulho, mas uma vida mais confortável.

Mas eu sequer tinha talento para decorar minha própria casa. Na verdade, outra pessoa fazia isso para mim. Aquilo tudo era só fachada. Meu telefone tocou e eu tive que atender trancada dentro do banheiro. Sabia que era apenas uma mensagem de texto, mas não podia arriscar.

No dia seguinte, lá estava eu calçando meias de arrastão e botas de salto grosso, meia pata, brancas. A saia de couro envernizado era branca também, e a blusa cor de rosa me fazia parecer a penélope. Era uma cafonice sem fim, e para arrematar, uma peruca loura vagabunda. Dentro do jipe, ainda antes de o sol nascer recebi as coordenadas enquanto seguia pela estrada sem asfalto pelo interior do município, pelo meio do mato, para algum local ermo indicado pela chefia, que é como a chamamos.

Já dentro do bar, desses de beira de estrada, a proprietária e sua filha faziam de tudo para atender aos clientes e despistar os interessados. O tempo, esse trabalho sujo e a pobreza as deixaram acabadas. A menina não devia ter uns vinte anos e já tinha muitas rugas, ou talvez estivesse apenas marcada e manchada pelo sol, os cabelos de um ruivo desbotado, a pele que um dia fora branca e delicada estava arruinada.

Eu permaneci por algum tempo lá, do lado do balcão, com a minha roupa cafona e o perfume barato. O engraçado é que apesar de aquilo ser um puteiro, e eu estar vestida de puta, os homens me ignoravam, eu parecia invisível para eles. Fiquei impressionada como alguns era sujos, velhos, grosseiros, e ainda assim, respeitavam-me como se eu fosse um bibelô muito delicado que poderia quebrar com um simples olhar. Sabe-se lá o que a proprietária lhes dizia para conseguir a proeza de mante-los afastados.

Na hora marcada, eu vi a carroça passar do lado de fora. Era o sinal para eu sair. Coloquei um sobretudo de jeans, carreguei a arma e outros equipamentos que estavam no jipe e segui a carroça, a pé.

Aquele lugar poeirento parecia ter sido esquecido no tempo. Parecia mais uma comunidade de colonos alemães de 1950. Aquela bota branca estúpida me fazia levantar mais poeira do que as rodas da carroça.

As ruas parecia desertas. Havia uma casa aqui, uma acolá, e eu seguia a pé a carroça que subia um leve morro para chegar ao seu destino. Num casebre que parecia ter sido pintado de azul recentemente, pois o seu frescor contrastava com a poeira e a decadência de algumas casas vizinhas. Uma pessoa repuxou as cortinas como que para evitar que eu a visse, ou para não ter de encarar a minha pouca vergonha.

Logo chegamos á igrejinha. Era uma igreja de madeira, não muito grande, precisando de uma pintura urgente. Deve ter sido marrom, ou cor de tijolo, um dia. Os painéis das portas de entrada pareciam meio frouxos, e um enorme pé de chorão derrubava sua sombra em boa parte da fachada. A maioria das igrejas de cidades do interior possui uma enorme cruz em um pequeno jardim de entrada. Essa aqui tinha uma coluna não muito alta, adornada e pintada na cor dourada, com uma pinha maciça na ponta.

O que será que significava aquilo? Dei a volta na igreja, acompanhando para onde a carroça devia ter seguido, e me deparei com uma visão ao mesmo tempo espetacular e assustadora. Aos fundos da igrejinha, ocultos pela mesma e por uma espessa vegetação de uma pequena floresta de pinheiros altos e mata nativa, encontrava-se a igreja de pedra. Eu não acreditaria se não estivesse vendo com meus próprios olhos. Era colossal, e ainda assim, parecia uma miragem.

Estava em um ponto relativamente alto da cidade, então como não poderia ser vista de lugar algum? Mas era exatamente essa impressão que eu tinha agora. Dei uma boa observada no local enquanto estava tirando fotos da pinha dourada na parte da frente. Seria quase impossível essa igreja de pedra estar ali sem ter sido notada antes. Mas esse era o caso.

Aproximei-me melhor e toquei em sua fachada. Era feita de uma espécie de barro, ou cimento amarelo, semelhante a um tipo de pedra de cascalho. Aquele mesmo tipo de solo seco e quebradiço, variando em nuances escuras e amareladas, era como se a Igreja tivesse sido entalhada no próprio barranco. Mas naquele tipo de solo, extremamente frágil e quebradiço, isso seria impossível! Meus dedos percorreram a fachada e então percebi que toda ela era adornada com pequenas flores, pássaros, folhas, e rostos de pessoas. Eram pequeninos rostos olhando para o céu, com a boca aberta, cantando, ou gritando?

Afastei-me para observar melhor e pude notar que haviam outros rostos entalhados, tão pequenos que passaram despercebidos por pouco. Aquele paredão todo, com todas aquelas colunas e torres que pareciam terminar em uma altura espetacular na mais fina ponta, foram todos entalhados á mão. E no meio daquela beleza de pássaros e flores, jaziam aqueles rostos gritando, aquelas caras contorcidas, aquelas mãos em riste, suplicantes. Alguns de olhos esbugalhados, outros de olhos fechados, sofrendo em silencio, mas estavam todos lá. De repente o que parecia tão fantástico, estava ficando mais lúgrube e macabro.

Ao dar a volta em uma das torres, percebi que poderia ter acesso a um pequeno altar escondido por uma espécie de gazebo mais á esquerda da igreja, mas ainda esculpido na rocha. Havia pequenos bancos voltados para o altar, um altar sem mesa, com apenas uma escultura de um Cristo crucificado em uma espécie de cruz de malta, com muitas flores aos seus pés e uma quantidade sem fim de velas derretidas.

De onde eu estava, pude avistar em uma das laterais da igreja uma espécie de janela que dava para um corredor que seguia para dentro do paredão, onde ardia a luz de tochas. Mas antes que pudesse sacar a máquina fotográfica para registrar tudo aquilo, um padre muito alto e robusto colocou a cabeça pela janela e disse para que eu parasse. Ele saiu depressa e nem pude ver por onde, e veio pegando pelo meu braço e me tirando dali com a maior pressa e rudeza.

Fingi ser uma turista e pedi se podia tirar fotos da sua Igreja, o que ele me negou. Sem dar maiores explicações, disse que a Igreja era muito delicada e que era melhor eu sair dali o mais depressa possível se não quisesse me machucar, e arrancou a máquina fotográfica da minha mão. Já estávamos saindo da pequena floresta quando ouvi ruídos vindos da parte da frente da Igreja, e vi que eram homens chegando a cavalo. Não quis insistir e disse que sairia dali como ele queria, mas que não era assim que se tratava uma turista. Como tenho dedos ágeis de ladra, peguei a máquina fotográfica de volta. Ele apenas deu um gemido de surpresa. Passei por três homens carrancudos que apenas me encararam e já estava descendo o morro quando eles conseguiram chegar ao padre. Vi que enquanto conversavam, alguns fiéis vinham saindo de uma porta lateral da pequena igreja de madeira em frente á floresta.

Seus olhares na minha direção eram os mais hostis. Comecei a correr, cheguei ao jipe e dei a partida o mais rápido que pude. Paguei a dona do bar como combinado, peguei o que mais pudesse ter deixado pra trás em seu quartinho, e saí dali o mais breve possível. Ela ainda me perguntou se eu iria voltar. Disse que com certeza voltaria muito em breve, pois não sou de deixar serviço inacabado, e aquele ali eu mal tinha começado.

Mas a abordagem teria que ser diferente. Algo de muito terrível estava acontecendo dentro daquela Igreja, algo verdadeiramente maligno e sem precedentes. E eu não poderia permitir que continuassem. Sou uma caçadora de anomalias, meu dever é combater o Mal onde quer que permitam que ele entre neste mundo.

Eu trabalho combatendo e eliminando heresias. Sou uma Inquisidora.

2 comentários:

Guilherme Eduardo Nossol disse...

Curti!! Fiquei imaginando você de meia pata, saia branca e peruca loira!! Visualizei a história lá no bairro Estância, a igrejinha na propriedade do Bonetti e o bar em questão no "Bar do Pônei", que antigamente era o Bar do Juvenau! Um beeeeijo!

Marie Jo Cantuaria disse...

oiii, obrigada por ter vindo ler meu conto, beijo amigo!!!