terça-feira, 30 de dezembro de 2014

CAUSO - O CACHORRINHO BRANCO

Fonte: http://shibashindig.blogspot.com.br/p/ghost-of-buddha.html


O CACHORRINHO BRANCO

Contado por Neuza*

Mesmo depois de idoso, meu pai afirmava que o que tinha acontecido aquele dia em Tingui era a mais pura verdade. Ele nunca foi de contar mentiras ou lorotas, e mesmo depois de certa idade, ele ainda tinha esse caso vívido na memória.

Nossa família morou muitos anos na localidade de Tingui, perto de Mafra. Meu pai trabalhava todo dia na lavoura, com sua carroça e seus cavalos. Voltava invariavelmente tarde para casa, pois gostava de passar algumas horas com os amigos no bar que ficava no caminho de casa.

Uma noite, ele ficou neste bar até tarde. Era quase meia-noite e ele ainda estava a uns quatro quilômetros de casa, em uma reta na estrada de Tingui, quando avistou ao longe, tanto quanto podia ver no escuro, um cachorrinho branco deitado na estrada.

Um dos cavalos ficou muito arredio com a presença do cachorrinho, e não quis passar por aquele trecho de jeito nenhum. Meu pai insistiu com os animais para continuar, enquanto o cachorrinho os observava ao longe.

Foi quando o cachorrinho se levantou da estrada e veio na direção deles. Meu pai não sentiu medo, pois era só um cachorrinho branco, mas aquele cavalo em particular dava pinotes e todos pareciam estar amendrontados.

O cachorrinho chegou perto deles e começou a brincar à sua maneira. Puxava os arreios por baixo daquele cavalo mais assustado, tentando arrancá-los. Meu pai fazia de tudo para segurar o cavalo antes que virasse a carroça, e tentou também várias vezes agarrar o cachorrinho para que parasse. Porém, cada vez que ele colocava suas mãos no cachorrinho branco, elas o atravessavam como se nada houvesse ali.

Meu pai desta vez ficou meio confuso. Apesar de ter estado em um bar, ele não estava realmente bêbado para ver coisas que não existiam. O cachorrinho estava de fato ali, fazendo a maior bagunça, mas era como se fosse feito de fumaça, pois não se podia agarra-lo. O cachorro puxou e puxou as cordas de couro do cavalo apavorado, até que soltou os arreios que caíram ao chão. O cavalo fugiu galopando o mais depressa que pôde na direção contrária, até que meu pai lembrou-se de um saco de bolachas que sempre carregava junto consigo, e jogou algumas para distrair o cachorrinho.

Só teve tempo de subir na carroça e atiçar os cavalos que sobraram, e correu depressa pra casa, transtornado. Mal ele chegou em casa, e o cavalo que havia se soltado dos arreios retornou também. A mãe o espiava pela janela e eu e minhas irmãs fingíamos dormir no quarto, mas na verdade estávamos ouvindo tudo.

O pai entrou pela porta branco igual um vulto, e contou o sucedido à mãe, que ralhou com ele pela hora que chegou em casa e por ter bebido:

-        Só pode estar vendo coisas mesmo, depois de beber umas no bar! – disse ela.

Mas o pai jurou que estava bem são, e que podia provar que o cachorrinho o atacara pois os arreios que ele mordeu ficaram pela estrada. No outro dia, fomos buscar os tais arreios, e lá estavam eles, no mesmo lugar em que o cachorrinho branco os havia deixado.


*Nome alterado para proteger a identidade.

CAUSO: IREI TE VISITAR

Fonte: http://www.bizarrebytes.com/the-scariest-and-most-famous-female-ghosts/#sthash.nOLeId0B.dpbs

IREI TE VISITAR

Contado por Neuza*

Quando minha mãe era recém-casada, ela morava em uma casa lá em Avencal do Meio. Havia uma vizinha muito idosa, que era afeiçoada à minha mãe, e sentiu quando minha mãe foi morar mais longe da casa dela. A vizinha, ao se despedir de minha mãe no dia de mudança, abraçou-a, e fez uma promessa:

-        Não se preocupe, irei te visitar.

Acontece que depois que minha mãe se mudou, as duas não se viram mais. Pois moravam um pouco longe, e minha mãe estava sempre muito ocupada com seus afazeres domésticos. A vizinha era velhinha, e acabou falecendo, sem ter cumprido sua promessa. Ainda...

Minha mãe conta que, certa noite, alguns meses após o falecimento da vizinha, ela acordou sobressaltada com um barulho vindo da cozinha. Ela sentou na cama e ficou escutando os passos de uma pessoa que andava de um lado para outro e veio para a frente de sua cama, mas a mãe não conseguia ver nada.

Minha mãe acordou meu pai, que também ficou escutando mas nada viram. Aquele barulho, à noite, se repetiu por dias. Vinha de fora, atravessava a varanda, entrava dentro de casa e parecia andar de um lado para outro.

Até que minha mãe finalmente recordou que tipo de barulho aquilo era. Era um arrastar de chinelos. Então ela se lembrou da vizinha que havia prometido vir para visitá-la. O mesmo barulho que ela fazia, andando tranqüilamente arrastando seus chinelinhos, minha mãe podia ouvir dentro de sua casa.

A vizinha cumprira sua promessa.


*Nome alterado para proteger a privacidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

CAUSO - OS DOIS CÃES NEGROS

Fonte: http://www.worth1000.com/entries/27682/ghost-dog

OS DOIS CÃES NEGROS


Contado por Mercedes Duleba Cantuaria (in memorian)

Certa vez fiquei com a minha avó nas férias de verão enquanto minha família foi à praia, pois eu estava fazendo um curso profissionalizante. Normalmente teria ficado zangada com a minha situação, pois eu era adolescente. Como assim toda a família iria à praia menos eu?

Porém, naquela época, eu estava mesmo contente de fazer o curso e passar umas férias diferentes. Aproveitei que estava em casa com a minha avó Mercedes, e comecei a perguntar sobre coisas do passado. Queria saber como ela conheceu o meu avô, como era quando eram jovens. Ela disse que conheceu meu avô na antiga Móveis Cimo. Ambos trabalhavam próximos, mas nunca haviam se falado até que um dia minha avó cortou a mão em uma serra, e meu avô, Sr. Lucas Cantuaria, correu até ela com um lenço vermelho para estancar o sangue. A partir dali, começaram a conversar, e meu avô mostrou-se interessado em namorar a D. Mercedes.

Um dia ela o questionou porque ele namoraria com ela, que era tão simples, uma gata borralheira, ao invés das irmãs dela, que eram mulheres mais exuberantes, sempre bem vestidas e arrumadas, algumas com faiscantes olhos azuis. Meu avô respondeu que gostava dela justamente por ela ser uma pessoa simples e humilde, e por isso para ele, era a mais bela de todas.

O pai de D. Mercedes, o Sr. Estefano Duleba, era um homem muito severo. Era bravo mesmo, e muitos senhores da cidade devem se lembrar dele, de quando eram crianças e entravam no estabelecimento de meu bisavô, e eram enxotados por ele que não gostava de moleques fazendo bagunça. Um senhor a alguns anos reconheceu o Estefano nos traços de meu irmão mais novo, e confessou que tinha muito medo dele, o velho Duleba.

Mas voltando à história que minha avó contou, um dia o Sr. Lucas Cantuaria deu a ela de presente um relógio muito bonito em um estojo. Foi o que bastou para exaltar a ira do Sr. Estefano, que pensou que o presente significava que havia acontecido algo a mais do que o namoro recatado que minha avó tinha com meu avô, e os obrigou a casar imediatamente.

Os dois casaram, e foram morar em uma casinha improvisada perto de onde minha família mora atualmente, pois devido á pressa do Sr. Estefano, foi o que puderam arranjar. Minha avó conta que na noite de núpcias, estava o casal dormindo, quando dois cães começaram a uivar perto da casa. Ela levantou e abriu a janela para os enxotar, e viu os dois cães negros sentados logo abaixo. Ela ralhou para que eles fossem embora, mas os cães insistiam e resolveram passar o primeiro dia de casados de meus avós uivando e incomodando debaixo da janela.

Minha avó nunca mais os viu, mas acreditava, mesmo que secretamente, que eles eram mau presságio. Pois a primeira filha que teve com meu avô, que foi batizada de Maria Eudócia, morreu algumas semanas depois de nascer. E logo, quando meu pai ainda era muito pequeno, meu avô Lucas se foi, vítima de tuberculose.


E minha avó se perguntava, ainda, depois de mais de 50 anos, se aqueles dois cães negros eram uma visagem que viera lhe avisar que em breve perderia duas pessoas amadas, de sua família recém formada. “Deus comunica-se conosco de maneiras misteriosas...”

CAUSOS - A VISAGEM

Fonte: http://above-the-norm.blogspot.com.br/2010/10/haunted-houses-in-arizona.html

A VISAGEM

Contado por Neuza*

Um tipo de “causo” ou conto muito comum aqui no sul do Brasil fala sobre as visagens. Uma visagem é um fantasma que aparece para uma pessoa em especial, e que pretende revelar o local onde enterrou um tesouro em vida, para que somente esta pessoa tenha acesso e possa usufruir dele.

Existem algumas histórias sobre visagens com mensagens bem mais fatalistas. Dizem que a pessoa que enterrou o tesouro em vida, o fez conjurando demônios e espíritos para protegê-lo. Por isso, desenterrar tesouro de visagem pode levar á loucura e até à morte. Caso a pessoa que pretende desenterrar o tesouro não levar consigo um feiticeiro experiente, ela pode ver demônios e vários bichos estranhos saindo do local em que estiver cavando, ou ser enganada pelo próprio feiticeiro que ficará com o dinheiro ou as jóias. Pior ainda se levar alguém para ajudar, pois o tesouro pode despertar uma ganância feroz, fazendo com que até irmãos briguem e matem por ele.

Aqui em nossa região, dizem que só a pessoa que viu a visagem é que pode desenterrar o tesouro. Se alguém mais souber dessa visagem, e tentar desenterrar o mesmo, jamais encontrará nada. Foi o que aconteceu com a família da Dona Neuza.

Um dia, seu pai chegou novamente tarde da roça, todo molhado por causa da chuva.
A mãe havia estado no rancho (que era um anexo da casa onde faziam fogo para defumação) algumas horas antes com as crianças, com o fogo aceso, mas desistiram de esperar pelo pai e foram para dentro de casa.

A mãe ficou esperando na cozinha e as crianças foram para os quartos fingir que dormiam. A mãe estava novamente espiando pela janela quando o pai chegou, foi guardar seus fiéis cavalos e entrou no rancho para se secar e se aquecer com o fogo que ainda ardia.

            Ele estava distraído olhando para o fogo quando do nada, à sua frente, surgiu a figura esbranquiçada de uma mulher, alta e magra, que havia falecido alguns anos antes. Os parentes dela haviam vendido ao pai de D. Neuza alguns acres de terra que herdaram da falecida. E ela disse para ele:

-        Nas terras que foram minhas, que tu compraste, estão os meus tesouros enterrados, no meio de dois pés de palmito bem próximos.

O pai tentou responder à mulher mas a imagem dela já estava se desvanecendo na parede. Ele correu pra casa todo esbaforido onde a esposa já o aguardava, e contou à ela que havia visto a visagem da velha e falecida vizinha lhe contando sobre um tesouro enterrado. A mãe ficou brava e ralhou com ele de novo, pois devia estar vendo coisas novamente depois de passar no bar. E além do mais, a velha era pobre, a única coisa de valor que possuíra na vida eram as terras que deixara para os parentes.

O pai ficou aborrecido, mas ele também sabia que a senhora fora pobre em vida. Os anos passaram, e ele não tentou procurar nem desenterrar o tesouro, e não tocou mais no assunto. Uma pessoa da família ainda procurou com um aparelho pra encontrar metal em volta dos palmitos que a velha indicara, mas nada foi constatado. Mesmo idoso, ele ainda contava todas estas histórias de fantasmas, tão vividamente e tão verdadeiramente que era impossível não acreditar que coisas do outro mundo realmente existissem.

Depois de muitos anos a Dona Neuza herdou justamente a terra em que os pés de palmito estavam plantados.  E os pés de palmito morreram e secaram com o passar dos anos, ficando somente grama em seu lugar. Ou, conforme o povo conta, devido às magias conjuradas para proteger o tesouro que a velha destinara ao seu pai. Ninguém tentou de verdade cavar no local indicado, seja por falta de medo, ou por falta de fé...

*O nome foi alterado para proteger a privacidade de minha amiga que me contou esse causo

domingo, 7 de dezembro de 2014

CRÔNICAS SOBRE O DESTINO


Como é que se pode
Como é possível
Saber o que será escrito por outrem
Muito antes de a caneta tocar o papel?

O que foram aqueles sonhos
Que me trouxeram até aqui
Muito antes de meus pés tocarem este solo?

Vagueei perdida por uma cidade onde haviam estas igrejas, tão altas
Oh, tão bonitas

E agora estando aqui, já achei três delas
Com suas torres altas guiando como faróis
As pessoas perdidas

O que são estes sonhos
E que faculdade dos sentidos é esta
De captar muito antes que aconteça a primeira brisa,
Todo o estrondo de um furacão
No mundo dos sonhos?

Será então que é assim que acontece...
Cada germe de intenção
Cada breve inclinação
Ou átimo de pensamento
Um dia irá nos levar a grandes coisas,
A grandes mudanças...

O que é isto de ser capaz de captar no ar
Ou na movimentação de ondas de energia
Nas cordas Universais
E antever o que irá acontecer muito antes que se tenha formulado na mente a primeira idéia que levará a um acontecimento?

Como é possível então
Em sonhos viajar até mesmo a um lugar que jamais se tenha estado,
Ou ouvido falar...
E estando nele finalmente, reconhecer os prédios que se viu em sonhos com detalhes e precisão assombrosos?

Há alguém escrevendo mesmo nosso destino?
Que será essa criatura que dita cada passo que damos
E ri-se por trás de cada página, de cada palavra?

Estamos mesmo fatalmente enredados pelo destino?
E podemos mesmo, através dos sonhos, vislumbrar o que não nos é dado a conhecer?

Marie Jo

JUNHO/ 2014

CONTO: CAROLINA


Fonte: http://www.pinterest.com/saluzzo/weird-strange/

CAROLINA

Carolina era pequena
Alva, que nem cera de vela
Tinha flores, rendas, laços
Por todo o vestido dela

Seu cabelo era dourado
Caindo em cachos pelos ombros
Mas seus olhos eram negros
Pareciam dois assombros

Carregava uma cesta
Pendurada em seu bracinho
E batia de porta em porta:
- TOC, TOC, quer um docinho?

Com seus sapatinhos pretos
Pelas ruas saltitava
E todo o povo já sabia
Era Carolina que chegava

- TOC, TOC, quer um docinho?
E a pessoa abria a porta
Tanta coisa pra escolher!
Chocolate, pé-de-moça e torta!

Cocada, brigadeiro
Paçoca de amendoim
- Puxa vida, que delícia!
- Tudo isso é pra mim?

Carolina abria a boca
Num esgar torto e cruel
Mas ninguém nem percebia
Distraídos com o mel

Cada um se deleitava
Com os doces da cestinha
E lá vinha Seo Cachorro
Receber sua comidinha...

Seo Cachorro?

Seo Cachorro era um verme
Que Carolina criava
Para onde ela ía
Seo Cachorro acompanhava

Seo Cachorro era enorme
Branco, fofo e rechonchudo
Tinha as patas bem pequenas
Tantas, nem consigo contar tudo

De cachorro, não tinha nada
Mas foi o nome que ela deu
Melhor do que se chamar
Filigranas Prometeu

E se você algum dia
Ouvir falar nesse nome
Avise toda a vizinhança
Tranque a casa, esconde ou corre

Porque lá vem Carolina
E Seo Cachorro logo atrás
Bater nas portas, oferecer doces
Do jeito que ela sempre faz

Minha avó já me dizia:
"Não abra a porta pra gente estranha!"
E sabe que ela tem razão
Obedeça e não seja tacanha

Porque Carolina é fofa
E de longe parece um anjinho
Mas se você abrir a porta
E comer só um docinho

Vai ficar paralisado
E o Seo Cachorro tem fome
Cada pessoa que pega um doce
Seo Cachorro vai e come!

Marie Jo

Abril/ 2014


terça-feira, 20 de maio de 2014

Poema - Asas Suaves



Asas suaves


Se me perguntas a respeito
Da beleza escondida em teus olhos,
Escuros e profundos,
Tão tristonhos.
Eu nada te respondo,
Mas te acolho
Em meu peito morno.
Que com recato, cubro
Com este alvo manto,
E com candura,
Te envolvo em minhas asas de fada.
E sussurro em teus ouvidos,
Esta melodia suave
Que é como o ópio
Que te enleva e vicia
Que te atrai para a doce armadilha
E encanta sem que entendas por que...



Marie Jo em 26 de Fevereiro de 2001.

Poema - As Cartas



As Cartas

Haviam cartas naquela mesa.
Que nunca foram lidas.
Ninguém as havia tocado até então.
Cobertas por uma sombra de dúvida,
Uma névoa de melancolia.
Pois todos sabiam que elas
Jamais chegariam ao seu destinatário.
Eu caminhei até a mesa e as toquei.
Abri-las seria um pecado, um sacrilégio.
E eu o fiz,
E ateei fogo
Nas cartas,
Na mesa,
No lugar
Onde eu estava.
E as labaredas lambiam minha face,
Revelando a crueza de minha alma.
Há coisas sem explicação
Que são ditas,
Palavras sem sentido,
Sentenças crápulas que são proferidas.
E que se em um momento nos abarrotam a vida,
Em outro já nem acalentam a si mesmas.
E são como aquelas cartas,
Longas cartas escritas e seladas,
Que nunca chegarão.
É tão sem sentido
Que eu continuo a fitá-las sem coragem
De dar o primeiro passo em sua direção.
Que tolice,
perder-me em tais devaneios!


Marie Jo em 26 de Janeiro de 2001.

Poema - Papel Picado



Papel Picado

Eu não necessito,
Não necessito delas.
As pessoas inúteis.
Com suas lábias fúteis,
Suas farsas volúveis,
E falhas indissolúveis.
Talvez nunca tenha necessitado,
E talvez nunca o tenha percebido,
Que de algum modo me tenham afetado.
De tal fato e jeito que já o é esquecido,
Pois todos se tornaram sem importância,
Sem concordância, sem instância
Nem aprumo.
Sonolentas
E entediantes,
Como esta poesia.


Marie Jo em 26 de Janeiro de 2001.

Poema - Libélula



Libélula

Gostaria de poder partir esta noite.
De descansar meu pranto e iluminar meu rosto.
E encontrar razões para sorrir de novo.
Mas apesar da força, sei que não posso.
Pois em meus pensamentos vejo teus olhos tristes e chorosos.
Por isso não posso partir.
Mesmo que para somente fugir.
Ao perceber que nosso amor é como uma libélula,
Que nasce para morrer no mesmo dia.
E isso é fato.
É destino.
É o olfato do que não se pode evitar.
Se eu partisse,
Queria te levar comigo.
Mas tenho receio pelo assassínio
E pelo castigo que virá depois.
É a dor que me toma pela impotência.
Pelo controle.
Uma jaula que me castiga.
Onde estou escondida.
Encolhida num canto.
Desejando partir para longe.
Longe dos olhos e das correntes.
Das desaprovações.
Tu sabes, meu bem,
Que o tempo é curto.
Perdoa-me por te fazer chorar.
Pois agora sou eu
Esta tal libélula.
Que ao cair da noite não irá mais voar.


Marie Jo em 03 de Janeiro de 2001.

Poema - Resignação



Resignação

Tento não caminhar
Sobre essas águas lodosas
E esses asilos refutados por assombrosos sacristãos.
Não me vislumbram temor na face.
Os ferimentos que me são chagados
São por inveja e profanação ao meu respeito.
E eles não tem o direito
De me insuflar tamanho sofrimento.
De me perjurar com dentes cerrados
E me perseguir qual herege de suas crenças.
Sou só um ser humano
Que não entende
Nem aceita
Esse sistema servil e submisso que me é imposto
Não sou eu a bruxa da história
A maldade,
em verdade,
É deles.


Marie Jo em 03 de Janeiro de 2001.

Poesia - TENAIM



Tenaim

Ás vezes queria explicar
Que é isso que tenho no peito
Estranho sentimento que guardo no coração.
Que de tão forte e vivo,
Já é um ser que em mim habita.
Ás vezes doce
Outras, selvagem.
Cheio de amor, e por vezes, ódio.
Envolvido, por momentos, em torpor sensual.
E em outras horas, por terna candura.
Virgem, e casto, e malicioso.
Sorriso ingênuo,
Puro e libidinoso.
Por vezes desejo não te ver,
Mas te quero tomar nos braços.
E possuir,
Sugar essa seiva de juventude,
Sorver este encanto carnal.
Como um peregrino a saciar sua sede na fonte,
E renascer mesmo sem nunca ter morrido.


Marie Jo em 03 de Janeiro de 2001.

Poesia - Incubus



Incubus

Viagens constantes
em um interior obsesso,
ortodoxas e errantes
por pensamento possesso.

De matizes e luzes
e diáfanas aparições
universos sombrios
e luxuriantes inversões.

De excitação se tomam
qual acácia exuberante
e o tolo particípio
já se prende consoante.

A poderosos ardis
qual estupenda carme
em melindres fanáticos
sublimação da carne.

Marie Jo em 26 de Outubro de 2000.

Poesia - O FIM


O fim

Ouço o rufar dos tambores
ao longe.
O carma da besta fera
que nos devora.
Em garras insanas
banhadas de púrpura.
A dor e o ódio
pungentes no peito.
De brados e receios
eu os acalento.
E ressalvo incólume
em meu ventre brando.
Suave recante
de um rebanho possuído.
Enquanto recaem sobre nós
amarguras e desgraças.

E então o escolhido
clamará aos céus.
E ao erguer suas mãos,
os anjos virão.
Fulgurantes e imersos,
em luzes e inocências.
E de todas paciências,
seus olhos brilharão.
E seu canto nos encherá o peito
de alegria e esperança.
E ao nosso sorriso
abençoará com bonança
E gritaremos salvação
e louvaremos.
E nossas lágrimas por amor,
a terra lavarão.
Ressucitando nossos fortes protegidos.

E aquele que antes
era o devorador.
Agora se perde
e de dor grita.
Pela mais suave brisa,
derrotado está.
E não mais acordará.
Pois o que antes era dor
agora é bênção.
E ressurge do fogo
e viaja com o vento.
Esse tesouro que quero derramar
sobre todas as almas e orações.


Marie Jo em 25 de Outubro de 2000.

Poesia - Desperato



Desperato

Vejo um lugar
Mórbido e fugaz
onde insetos sobrevoam
mórulas e zigotos
impedindo toda
fecundação e
renascimento.
E todas as etapas
desrespeitadas e carcomidas
por ferrugens de cadáveres
se arruínam e caem em
lagos incandescentes,
onde tórridas serpentes
em dança funesta
espreitam suas vítimas.
É uma festa fúnebre que se desenrola, completando
um ciclo de dores e torturas atrozes
violentando sorrisos
e arrombando olhares.
São somente bestas fétidas
e algozes
que nos devorarão.


Marie Jo em 24 de Outubro de 2000.

terça-feira, 8 de abril de 2014

POEMETO PARA OCUPAR ESPAÇO III


Nas tardes quentes de verão

Luize costumava

Deitar-se no gramado

E observar o formato

Das nuvens

Brancas e serenas

Que desfilavam

Vagarosamente

Pelo céu.

Marie Jo em 01/03/2001

Poesia - DENTRO


 Ilustração de Rolf Armstrong (1889 - 1960)
Como a música

que soa em minha mente,

Minha alma balança

entre enigmas e assmbros,

Medos revelados pela ausência de caminhos

e paixões.

Flebilmente percorrem em minha visão

Esquizofrenias melodiosas

e triunfos sonoros contigos

em uma tortuosidade perene de idéias

Onde não há rumo,

e as rimas,

e a beleza

já não me servem de consolo.

O único segredo inexistente,

sonsamente se esvai por entre

as linhas de meu

pensamento,

e só o que resta é

uma música

incessante

que soa em minha

mente.

Marie Jo
em 24/10/2000

quarta-feira, 26 de março de 2014

POEMETO PARA OCUPAR ESPAÇO II



Eu estava naquela sala
Sozinha
Com medo de falar com o
estrangeiro...
Levantei-me
E caminhei até ele.
Fitou-me os olhos,
E começou a chover.
Enquanto raios serpenteavam
por entre as nuvens...

Marie Jo

28/02/2001

domingo, 23 de março de 2014

Poesia - Lamento da Druida




Aqui era minha
floresta encantada...

As copas das árvores se encontravam
quando ventava.

Á noite, se via uma cobertura aveludada
e ruidosa sob a brisa, que acariciava
o refúgio de tantas brincadeiras
e superstições.

Lugar onde surpreendiam
fantasmas, gnomos, ilusões.

Onde se podia observar
o por do sol
com o melhor amigo ao lado,
e as rezas e o silêncio
com o vento rodopiavam.

Mas agora só o que resta
é esse barro,
amarelo de sordidez
e destruição.
Onde os cantos dos pássaros
relembram as lágrimas 
pela infância,
e a mágoa pelas
lembranças
perdidas.


Marie Jo

24 de Outubro de 2000

sexta-feira, 14 de março de 2014

POEM - CERRIDWEN




I can almost feel the sound of the wind touching her hair

The curls and the waves dancing in the air

Brown and black autumn leaves and feathers on the ground

Flying and flowing through the cold breeze around

Got chills hurting like small needles on my body and skin

Cerridwen, Cerridwen, can you hear me cry? 

Oh my dear, can you hear me?



Marie Jo
24/03/2013

link: http://arewebeautiful.blogspot.com.br/2013/03/poema-em-ingles.html

POEMA - CONSTELAÇÕES




Arroubos expansivos e inertes

Que se convertem

Em asperções

E profanações,

Por onde tolos esconjurados

Guiam-se através

De rotas e orações...

E dos astros se formam

Espelhos de honras

E castas admirações.

Quão vãs serão tais crostas

De estrelas impostas

Em suaves abnegações?

Que despertam em ira santa

Como fugazes

Aberrações.

Marie Jo
26/09/2000

quinta-feira, 13 de março de 2014

POESIA - BRUXA


BRUXA



Eu quero proibir

todas as rotações

dessas luas.

Eu quero coibir

todas as ações

de suas manias

nuas.

Eu vou extinguir

as melodias

que retocam

rotas tuas.

E perseguir esses trovões

que relampejam 

pelas ruas.

E assim te afogarás 

e não nascerás, 

porque te proíbo 

e te domino,

e com estas palavras, 

eu te enfeitiço.



Marie Jo

25/09/2000

POESIA - VAMPIRO



Nos elos de nossa refração
Remida de tua obsessão,
Em vermelho traduzo tua reação,
Retraída em gotas de canção.

E os pés tocam a água e nos embalam,
No vermelho de olhos que te abalam,
Fugindo de pálpebras que se fecharam.

E o calor da paixão agora subtraída,
Escravidão pela qual fui traída,
Em fuga de vermelho atraída.

Convergendo e escorrendo em taça de veneno,
Esclerose e inapetência de um corpo moreno,
Não mais imprópria que a sede de um romeno,
Por vermelhas divagações que contraem teu rosto ameno.

Marie Jo
Setembro de 2000

quarta-feira, 12 de março de 2014

POESIA - EXU



EXU

Sois um trovão!
Um estrondo,
Um sopro,
Um vento afoito.
Um furacão,
Que torna, destorna,
Entorna, entoa,
Uma canção.
E em brisa leve,
De pensamento,
Percorre sedento,
Um semblante nu.
Eu, tu e a solidão.
Procuro palavras sem vazão,
Volúpia sem perdão,
Perdendo o espaço,
O tempo e a razão.

Marie Jo
Setembro/2000

POESIA - CONFUSO



NÃO SOU EU QUEM TE REMENDO AS PALAVRAS TORTAS,

NEM SOU EU QUEM TE COSTURO OS PENSAMENTOS ROTOS.

MAS POR ENTRE VÃOS DE SUAS EMOÇÕES ENGANOSAS,

EU CAMINHO ANSIANDO POR PARADEIROS MORTOS.

E SE UM DIA VIERES A PROTESTAR,

QUE ME CALO CANDIDAMENTE QUANDO FALAS,

É PORQUE NADA QUERO DECLARAR,

AO TESTEMUNHAR SUAS PRESENÇAS FALHAS.

Marie Jo

Agosto/ 2000

terça-feira, 11 de março de 2014

POEMETO PARA OCUPAR ESPAÇO I



POEMETO PARA OCUPAR ESPAÇO - I

Ladeando as escarpas
Escuras e Profundas
E agonizantes...
O elfo cavaleiro
Sela seu pacto,
E finda sua queda
Com o beijo horrendo
Da morte...

28/02/2001

ZUMBI Nº 1: CAPÍTULO IX - FINAL




CAPÍTULO IX


Meus pais começaram a chorar, o rosto do meu pai foi bem difícil de encarar:

- Filha, se ao menos tivesse um jeito...

Mas ele melhor do que ninguém sabia que eu não poderia ficar ali. Ele que foi quem mais lutou pra proteger a todos, quando devia estar sendo protegido. Ninguém nem tentou argumentar mais, pois bastava olhar pra mim pra entender que eu não me encaixava naquele lugar. Eu lia em cada olhar e em cada respiração tensa que, apesar de não admitir, eles sabiam que eu tinha que ir embora. Mas se eu tivesse um coração que fosse capaz de sentir, ele seria despedaçado pelo olhar do meu filho. Era o único que parecia achar certo eu ficar. Acho que a minha cara não ajudava muito, pois se pudesse eu já estaria chorando copiosamente. Fiz vários sinais para que entendessem que era hora de eu partir. Que não poderia continuar ao lado deles daquela maneira. O meu corpo já estava morto, e eu estava pronta pra partir.

Não se preocupem, tentei gesticular, eu estou pronta. Não tenho mais medo de morrer.
Se eles fossem capazes de compreender aquilo, acho que ficariam mais tranqüilos. Porque eu estava tranqüila. Sempre encarei a morte dessa maneira. Como apenas uma porta que todos um dia irão atravessar. E eu sentia que a própria morte já estava nos meus calcanhares há tempos. Fiz vários gestos de despedida. Tentei impedir de todo modo que se aproximassem pra dizer adeus. Mesmo que tivessem a maior vontade de me abraçar, sei que não fariam, pois eu estava repugnante. E não os condeno por sentir nojo de mim. Eu mesma estava sentindo.

Gesticulei mais algumas vezes, com ambos os polegares pra cima, apontando pro meu próprio corpo indicando que estava ok, que precisava ir, quando meu marido se aproximou. E como não poderia jamais me dar um último beijo no estado em que eu estava, ele me deu algo melhor. Bem melhor. Uma pistola. Alcançou-me a arma por cima da porteira. Fiquei feliz por ele ter entendido e sugerir o que eu deveria fazer. Naquele momento, todos se calaram. Por um instante, pelo menos, se calaram para que a compreensão os invadisse. Minha mãe abraçou o meu filho com força, que ainda tentava vir em minha direção, e disse a ele:

- Não se preocupe, ela está pronta.

E quem sabe, pensei, a gente se encontre do outro lado, um dia. Era isso que me dava esperança, e tranqüilidade para morrer. Sentindo que não havia mais nada a ser feito, e que já haviam todos compreendido a nossa despedida, lancei um último olhar, tentando dar a impressão de que estava feliz. Ver o meu filho chorando por mim quase me matou de angústia. Mas reuni as últimas forças que tinha e dei as costas a eles. Um dia, quando tudo melhorasse, ele entenderia, pensei comigo. Ele veria o quanto a vida é bonita e o quanto eu destoava de tudo aquilo... e então parti, fazendo o caminho de volta. Virava a todo momento para abanar um tchau, como fazia com meu filho quando ele ficava em casa com minha mãe e eu corria para o porto de ônibus para ir para o trabalho,enquanto o cavalo me seguia. Nunca vou esquecer o olhar de todos eles. No fundo, eles também tinham a esperança de me encontrar um dia, mesmo se não acreditassem nessas coisas espirituais, pensei.

Meu filho me chamava, e eu só podia acenar um tchau. Joguei beijos a todos, e antes de virar a curva na estrada, juntei as duas mãos em concha, e joguei um beijo ao meu marido, que foi o amor da minha vida e ao meu filho, por quem eu tentei enganar a morte. Como já disse, não podia mais chorar, mas em minha mente, lágrimas escorriam aos borbotões de meu rosto. Já estava caminhando de novo quando o cavalo me cutucou nas costas. Virei pra ver o que ele apontava e vi meu filho ao longe pulando a porteira e correndo em nossa direção. Teria sido melhor se eles tivessem me dado um tiro. Doeu ver o rosto contorcido de dor do meu menino. Montei como pude, e o cavalo parecia ter entendido a urgência de nossa partida, pois me ajudou a montar, e cavalgamos velozmente como quem foge da cruz.

Atravessamos finalmente a barreira na estrada, e cavalgamos pra bem longe, até o pôr-do-sol. Achamos um lugar bonito pra cair, e não sentar, porque antes que o cavalo parasse, eu já tinha caído de cima dele. Ele voltou e deixou-se cair, também, ao chão. Estávamos perto da cidade, pelo barulho de sirenes e confusão que vinha de não muito longe. De onde estávamos, dava pra ver o sol se pondo, uma última vez.

Verifiquei a arma, havia duas balas. Bem conveniente, pensei. Uma pra mim, e outra pro cavalo. Pensei se teria coragem de matá-lo, pois ele havia sido tão bom pra mim naqueles momentos finais. O cavalo meneou a cabeça, e pousou-a próxima à minha perna. Parecia até ouvir os meus pensamentos. Afaguei-o, e ele fechou os olhos, soltando a última bufada de ar. O tiro ecoou várias vezes ao longe. Ele não se mexia mais. Vai com Deus, pensei.

Fiquei ainda alguns momentos apreciando as cores do poente. Acho que nunca tinha dado tanto valor à criação como naquele momento. Nunca tinha ficado tão grata a Deus, ou á Deusa, ou sei lá a Quem, como naquele momento. Fiquei pensando porque eu, dentre tantos zumbis, havia acordado naquele dia, morta, mas com consciência. Acho que era porque eu tinha uma motivação, uma razão pra continuar : precisava salvar minha família. Precisava deixar o meu filho, o que há de mais precioso pra mim, a salvo.

Acho que, quando não temos motivação na vida, morremos antes mesmo do nosso corpo. Viramos uma casca vazia, sem alma, sem alegria. Agradeci a Deus e á Deusa, sem conseguir me decidir de uma vez por todas, por tudo. E implorei que salvasse a minha família daquela maldição. Que salvasse todos eles. De alguma forma, tive certeza disso, de que ficariam todos bem, e de que podia partir em paz. Nunca imaginei que receberia a morte tão placidamente. Acho que nunca alguém se sentiu tão à vontade com a própria morte como eu naquele dia.

Bem, eu estava pronta, não é mesmo? E afinal, todo mundo morre um dia. Acabei rindo sozinha, com a minha risada obscena de zumbi, forçando o ar pra dentro e pra fora e através das minhas cordas vocais meio apodrecidas. Afinal, tinha acabado de lembrar que eu já tinha morrido a quase 4 dias. Respirei fundo, por reflexo, uma última vez. Já podia sentir o cheiro da morte vindo. E puxei o gatilho.

FIM


MARIE JO CANTUARIA
15/07/2013