sábado, 9 de novembro de 2013

CONTO - O MUNDO DE SYLVIA

CONTO: O MUNDO DE SYLVIA


Samanta correu para dentro da casa desesperadamente. O vento lá fora estava gelado e impiedoso.
Tirou a mochila pesada das costas e a colocou no chão. Arrastou o pesado móvel e refez a barricada da porta.
- Quem é? - gritou uma voz tímida lá de cima.
- Sou eu! - Samanta tentou disfarçar ao máximo a ansiedade na voz.
Segurando o próprio pulso, foi para o banheiro, onde se trancou.
Não queria que Sylvia visse que ela havia se machucado. Pensou que a menina então se desesperaria e poderia quem sabe desistir de tudo.
Tirou o relógio de pulso, marcava 16:25.
Tirou a jaqueta com cuidado, e colocou-a dentro da banheira de cobre esmaltado. Tirou a blusa que havia se rasgado na manga, e analisou o machucado no braço.
Não era muito feio, uma mordida não muito profunda.
Limpou o ferimento, não saiu muito sangue. Chorou copiosamente, porém baixinho, ao tentar esterilizar a pequena mordida com um pouco de cloro que havia atrás da pia.
Samanta sentou-se sobre a tampa fechada da privada, segurando o braço com uma toalha enrolada sobre a mordida, e chorou copiosamente.
Sylvia bateu na porta:
- O que foi? Samanta?
- Eu estou bem! - Samanta respondeu emburrada.
- Você está chorando?

Mas é claro que ela estava chorando. Nos últimos dias, haviam feito muito isso. Choravam juntas ou cada qual em seu canto. Choraram quando parou de sair água limpa das torneiras. Choravam cada vez que voltavam de uma incursão à cidade para buscar mantimentos. Choravam cada vez que tinham que mudar de casa. Um dia, choraram e decidiram se matar quando souberam que não havia mais para onde ir, ou aonde se esconder, quando souberam que não havia mais na Terra qualquer lugar seguro e livre da infestação.
Mas não tiveram coragem de se matar quando encontraram Molly. Uma cachorrinha viralatas saudável que as seguiu pela cidade. Ela se tornou a razão de viver das meninas.
Procuraram pela cidade uma casa com quintal cercado só para poderem criar Molly. Para dar a ela um jardim onde correr e onde defecar em segurança. Acabou servindo para elas também.
Arrumaram armas e munição e passaram a fazer estoques, só para melhor protegerem Molly. Afinal, além de tudo, ela era um alarme muito útil contra invasores.

Samanta se levantou e se olhou no espelho. Fora a cara de choro, parecia que ainda estava bem. Observando melhor a mordida, constatou que fora bem superficial.
Mas, por via das dúvidas, e para não pegar Sylvia de surpresa, resolveu contar para ela. Sylvia era uma menina bastante insegura e indefesa. Mas nos últimos tempos mostrou-se bastante valente, até impiedosa, para uma criança de quatorze anos.
- Não... não parece muito grave... - Sylvia gaguejou, ao observar o ferimento no braço de Samanta.
- Não parece, mas precisamos estar preparadas, certo? - Samanta tentava parecer tranquila e segura. Mas a sua tentativa de sorriso acabou parecendo patética. Tentar sorrir com aquela cara triste e doente tornou a situação mais desesperadora. Sylvia começou a gritar:
- Mas como é que você conseguiu fazer isso!?!
Samanta se sentiu pequena diante do grito angustiado da irmã.
- Eu... é... era só uma criança! Eu achei que ela poderia estar bem... você sabe! Era só uma menininha! - Samanta tentava argumentar.
Sylvia lembrou-se da irmazinha que perderam. Não queria pensar muito no assunto. Correu para o quarto, esperou que Molly a seguisse, e se trancou.

Samanta foi deixada sozinha com seus pensamentos. Havia sido tola ao ir atrás da menininha no supermercado. Mas ela lhe lembrava tanto sua irmazinha Lola, que ela não resistiu. A menininha parecia bem. Estava com as roupas intactas e a pele alva, brilhante. Parecia nem ter notado sua presença, pois andava a esmo pelo mercado, com uma certa despreocupação. Quando Samanta a chamou, ela não se virou e veio cambaleando como os outros, gemendo com a boca torta e aquele olhar vazio. Ela apenas parou, talvez tivesse se assustado, e ficou ali estaqueada ao invés de correr ou fugir em desespero.
Samanta a tocou no ombro e só então pode ver os olhos vitrificados.

Sylvia estava no quarto, sentada contra a porta, com Molly no seu colo. A cachorrinha estava meio irrequieta, e olhava para a dona como se indagasse o que estava acontecendo. Sylvia a beijou na testa e observou por um momento aqueles olhinhos brilhantes e inocentes. A cachorrinha parecia estar ansiosa, talvez tanto ou mais do que ela.
Como Samanta podia ter sido tão burra, tão imprudente? Como ela teve coragem de arriscar tudo, arriscar deixá-la sozinha no mundo? Ela não havia prometido cuidar da irmã para sempre?

Para uma mulher de vinte e um anos, Samanta fora bastante ingenua. Ainda mais depois de tanto tempo aprendendo a se defender, a cada dia um novo truque, uma nova técnica, para poderem se manter vivas. Sylvia confiava a própria vida em Samanta. E agora a irmã havia posto tudo a perder.

Samanta levantou da mesa nauseada. Foi para o banheiro arrumar as coisas na banheira para colocar fogo, mas nem conseguiu pegar o álcool e correu vomitar na privada. Seu estomago começou a doer, uma dor pungente e lancinante, e ela vomitou novamente e novamente, e achou que logo o próprio estomago sairia pela boca.

Levantou e se olhou no espelho. Estava ficando pálida, e abaixo dos olhos começaram a se formar olheiras. Os olhos foram ficando avermelhados, devido à força que fazia para expulsar aquela dor horrível do estomago. Samanta tentou pegar o álcool no alto da prateleira do banheiro, mas ao visualizar o próprio braço, caiu sentada. A marca da mordida havia adquirido um aspecto horroroso em apenas alguns minutos. Ao redor de onde os dentinhos da menina haviam se afundado, a pele estava ficando escura e necrosada. As veias de seu braço estavam ficando azuladas por toda a extensão deste, e a pele adquiria uma coloração amarelada e cadavérica.

Samanta parecia já não ter muito controle sobre o próprio corpo. Estava començando a suar frio e as náuseas e tonturas ficavam cada vez mais fortes. Ficou por alguns minutos deitada no chão do banheiro em posição fetal, tentando conciliar as dores pelo corpo, o suor e os seus pensamentos confusos. Lembrou-se da primeira vez em que vira Sylvia atirar em alguém. A menina em um instante criou uma coragem que ela nunca havia visto, nem em si mesma. Pela primeira vez Sylvia havia salvado sua vida. E a determinação em seu olhar selvagem, depois daquele tiroteio, era algo assustador, embora Samanta tivesse gostado de se sentir protegida uma vez na vida.
Sempre fora ela a provedora e a protetora. Sempre ela determinava os próximos passos a serem dados. Sempre ela provia comida e segurança para ambas, e também para a cadelinha. E agora não tinha controle sobre as próprias mãos.

Mas precisava terminar o que havia começado. Era melhor queimar logo a roupa suja de sangue e da saliva da menininha do mercado, antes que infectasse o resto da casa. Jogou o álcool sobre as roupas, repingando um pouco em si mesma. Estava difícil ficar em pé ou controlar os movimentos. A vista estava embaçada, e as imagens até pareciam dançar ou tremer à sua frente. Apalpou os bolsos, e não encontrou o isqueiro.

Sylvia ouviu seu nome sendo chamado num lamento fantasmagórico. Olhou no relógio em cima da comoda. Eram 16:51. Desceu com cautela as escadas para o primeiro andar. Ouviu a voz pastosa de Samanta chamando pelo seu nome mais uma vez. Ela estava fazendo alguma coisa no banheiro. Sylvia se aproximou e encontrou a irmã apoiada com uma das mãos na pia e a outra na parede.

- O que você quer?
- Ishhhguero... - Samanta tentou balbuciar a palavra isqueiro.
Sylvia tomou um tremendo susto quando Samanta se virou para encará-la. O rosto da irmã já estava macilento, amarelado, cadavérico. Os olhos haviam afundado em duas olheiras, já não se podia ver a cor castanha da íris e as pupilas pareciam ter desaparecido. Da boca, escorria um sangue escuro e espesso. Ela se virou bruscamente para vomitar novamente na privada.

Sylvia virou lentamente e foi para a cozinha. Suas mãos tremiam incontrolavelmente enquanto ela procurava pelo isqueiro nas gavetas. Um turbilhão de pensamentos passava pela sua cabeça, parecia uma multidão gritando em seus ouvidos e a confundindo. Para piorar, Molly desceu as escadarias e estava latindo para Samanta, que encarava a cachorra de volta, toda apatetada tentando ficar de pé, resmungando algo como "cachorro idiota".

Sylvia encontrou o isqueiro e voltou para o banheiro, alcançando-o, ainda tremendo, para a irmã. Encarou Samanta, procurando por algum sinal de sanidade, ou de hostilidade. Samanta parecia ainda agir normalmente em relação a ela, apesar dos movimentos vacilantes, e do olhar cada vez mais paranóico, ou vazio. Sylvia gritou com a cadelinha para que parasse de latir, e esta correu para o quarto, com o rabinho entre as pernas.

Samanta tentou acender o fogo, jogando o isqueiro sobre as roupas encharcadas com álcool. Mas é lógico que o isqueiro apagou, e devido ao seu último esforço, ela caiu sentada, com a cabeça encostada na parede, as pernas em uma posição estranha e desconfortável, de costas para Sylvia.

Sylvia esperou por alguns segundos. Cutucou a irmã, mas esta não se mexeu ou respondeu. Sylvia seguiu devagar para a cozinha, pé ante pé, com passos vacilantes e inseguros. Parecia que cada passo dado martelava no fundo de seu pensamento, agora vazio de memórias, só esperando os segundos passarem, até que sua irmã acordasse. Ela tinha certeza de que Samanta acordaria.

Pegou a caixa de fósforos sobre a bancada, e o revólver carregado em cima da geladeira. Saiu da cozinha com o corpo meio retesado, na expectativa de encontrar Samanta em pé no corredor. Mas não havia nem sinal, ainda. Subiu as escadarias devagar, fechou a porta do quarto com a cadelinha dentro. Voltou ao banheiro, e Samanta já havia se levantado. Estava ainda de costas, balançando um pouco.

Sylvia chamou a irmã pelo nome. Samanta virou, com aquele olhar bestial, vazio. Soltou um guincho agudo, não humano. Sylvia puxou o gatilho, observou o corpo cair dentro da banheira, e acendeu o fósforo. Fechou a porta do banheiro, não queria ver o fogo e o resto de seu mundo arder. Foi para o quarto, onde estava a cadelinha, e puxou o gatilho novamente. Não sentiu tristeza, mas antes, um sentimento de dever cumprido invadiu o seu peito. Andou mecanicamente para a sala de jantar. Chorou convulsivamente sobre a mesa por alguns segundos. Olhou o relógio de parede, com seu tiquetaquear automático, o único sinal de vida dentro daquela casa. Eram 17:15. Puxou o gatilho. 

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