sábado, 9 de novembro de 2013

CONTO: OS OLHOS MAIS DOCES

OS OLHOS MAIS DOCES

Edmundo levantou-se do sofá após assis
tir à notícia na televisão:

- Agora faltam menos de sessenta minutos.


Ele começou a gargalhar até que sua risada se tornou insana, e então começou a chorar. Chorava e ria convulsivamente, até que se acalmou e ficou calado por uns instan
tes, sentindo-se ridículo. Olhou o sol de fim de tarde, arredando a cortina da janela com o dedo. 

Mais pessoas faziam o mesmo, ou então saíam às ruas, chorando, gritando, descabelando.
 Edmundo deu um suspiro, trocou as chinelas desgastadas por um par de sapatos que ele quase nunca usava, e foi para a cozinha. Pegou uma garrafa de guaraná bem gelada, que ele adorava, e bebericou um pouco.

Depois, foi para o quintal, e soltou os dois cachorros para que corressem livres por aí. Os cães eram tão velhos quanto ele. Ficou observando como eles haviam mudado pouco ao longo dos anos, embora não se pudesse negar que estivessem velhos, com a coluna meio encolhida e a traseira abaixada.


- Parecem muito com o dono, pensou consigo. 

Entrou de novo em casa, e observou a foto da falecida esposa, em um retrato que os dois haviam tirado quando festejaram suas bodas de ouro.
 Suspirou de saudades de Marta. Foi para o aparelho de som, e o ligou para ouvir um pouco de música. Pensou consigo que não havia mais muito o que fazer certo? Estava tocando uma linda música de Elton John, que sua esposa adorava. Qual era o nome mesmo? Ah, Your Song. 

Enquanto a música tocava, Seo Edmundo resolveu folhear a Bíblia. Mas não conseguiu achar nenhum texto específico que lhe chamasse a atenção naquele momento. O Apocalipse em especial, já não lhe despertava a atenção ou curiosidade, quanto outrora. Tudo havia ficado diferente tão de repente. 

Então, alguém bateu à porta. Era uma batida leve e sem cadencia. Seo Edmundo aguardou mais um pouco, até que aquela batida leve mas impaciente se repetiu. Seo Edmundo se levantou com certa dificuldade, pois ultimamente tudo se tornara mais difícil, e atendeu a porta. Era André, seu pequeno vizinho de quatro anos. 

- Oi, tio... - André falou com sua voz doce e aguda de criança.
 

- Olá menino. - respondeu Seo Edmundo. - Quer um guaraná? 

Seo Edmundo e o garoto foram para a cozinha, onde ele pegou mais uma garrafa de guaraná na geladeira. Desta vez, colocou um canudo, e a deu ao menino. O garoto sorriu e ficaram ambos tomando o refresco até que André pediu ao Seo Edmundo para levá-lo no parquinh
o. Deram as mãos, e saíram pelo portão para dar uma volta no quarteirão, coisa que invariavelmente faziam.

O guaraná do menino acabou, de modo que ele jogou a sua garrafa num terreno baldio. Seo Edmundo ralhou com ele, mas depois pediu desculpas, pois agora já não precisavam mais se preocupar com o mundo que iriam deixar para seus descendentes, como Seo Edmundo gostava sempre de pregar.
 Mas o menino ainda tinha sede, e assim foram dividindo a garrafa de guaraná de Seo Edmundo, até chegarem ao parquinho.

Encontraram os pais de André no caminho, chorando sentados na calçada. Eles nem notaram o próprio filho passando, de tanta pena de si m
esmos. 

Seo Edmundo sentou-se no banquinho e André correu para o escorregador.
 A doce música ainda tocava nos pensamentos de Seo Edmundo. André, como sempre, brincava entre todos os brinquedos, incansável.

De vez em quando chamava a atenção de Seo Edmundo, para que o visse escorregando de barriga pra baixo no escorregador, ou quando conseguia sentar-se na balança e se balançar sozinho.
 Seo Edmundo observava tudo paciente, e de vez em quando acenava para o pequeno vizinho, que tornara-se sua compania constante de uns tempos pra cá.

Seo Edmundo não tinha muito jeito com as crianças, mas go
stava da compania do menino, ainda mais que se sentia muito sozinho, depois da morte da esposa. Os filhos raramente o visitavam, e André era o parceiro ideal para quebrar a monotonia daquela vida solitária que ele até o momento levara.

Ambos estavam tão entretidos no parquinho, um com o outro, com os brinquedos e com seus próprios pensamentos, que nem notavam o desespero que crescia ao redor deles. André brincava e fazia estripulias, e Seo Edmundo observava e ria, cantando baixinho a canção preferida da esposa.

Até que, nos versos finais, ficou pensando que realmente, havia se esquecido se os
olhos de seu companheirinho, André, eram verdes ou azuis.
Seo Edmundo chamou o menino, para que este olhasse para ele: 

- André!


O menino parou, e sorriu para Seo Edmundo. Neste mesmo instante, o mundo se apagou.

E os olhos mais doces que Seo Edmundo já havia visto foram as últimas imagens que teve desta vida. 


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