sábado, 9 de novembro de 2013

O ATAQUE

O ATAQUE

Deixe-me lhes contar o que aconteceu recentemente comigo antes que o assunto esfrie em minha mente e os sentimentos estejam apagados. Pois quando os sentimentos a respeito de alguma coisa ainda estão quentes e frescos em nosso espírito, é que temos capacidade de imprimi-los à nossa narrativa para que deixem no leitor as mesmas marcas que nos deixaram.

Era um domingo de manhã, e eu estava preparando o almoço em nossa casa nova. Era uma casa antiga que ficava às margens da rodovia que saía da cidade. O terreno era um descampado ladeado por morros não muito altos, a casa ficava bem próxima à cerca, e da porteira podia-se ver parte do quintal e ainda o paiol. O morro ao lado da casa escondia o restante do terreno, que era onde as vacas e as ovelhas pastavam, e depois disso, havia o bosque. Continuando pelo bosque, chegava-se ao rio e à outra parte rural da cidade. Mas esta parte bela do nosso terreno não se podia ver, como já foi dito, devido à presença dos morros ao lado da casa. Por isso, se quiséssemos ver belas paisagens, teríamos que subir o morro, ou nos contentar com a visão da cidade, que começava mais abaixo, pois a rodovia descrevia uma leve descida da nossa casa até chegar à placa onde se lia, do outro lado: "Volte Sempre".

O céu estava meio esgazeado ainda, pois a cerração não baixara por completo, deixando as plantas e as imagens esbranquiçadas de gotículas de água e névoa. A cidade, ao longe, estava enevoada, mas já começando a exibir o brilho dourado pelos primeiros raios tímidos do sol de inverno. Eu observava pela janela da cozinha ampla, conjugada com uma grande sala de jantar e posterior sala de estar. Essa parte da casa não tinha divisórias, pois provavelmente seu primeiro dono possuía uma família grande e gostava de festas e reuniões animadas. Os únicos comodos da casa divididos por paredes e portas eram os quartos, os banheiros e o escritório.


O restante era um amplo salão com pilares e decorações antigas, no melhor estilo barroco das construções do século IXX, dividido entre cozinha, separada da sala de jantar por muretas não muito altas onde eu colocava alguns vasos de folhagens e flores. A sala de jantar era separada da sala de TV e do cantinho da leitura por dois pilares em estilo romanico, onde, com a ajuda de minha mãe, conseguimos cultivar belas trepadeiras, que ainda faziam seu caminho rumo ao topo. E uma escada de apenas dois degraus ladeava toda essa parte da casa, colocando em destaque este pequeno salão de festas em família, onde agora tínhamos o costume de nos reunir todos os domingos. Vivíamos na casa eu, meu marido, meu filho mais velho e as duas gêmeas, mas meus irmãos traziam seus filhos e meus pais e sogros invariavelmente vinham, para deixar a casa cheia de ruídos e alegria, como uma reunião em família deve ser.

As janelas eram amplas, mais baixas nos parapeitos e mais altas, ao estilo antigo. O teto, de onde pendia uma luminária antiga, também era bastante alto. Comprei a casa pois adoro casas antigas. Tudo nelas me encanta, inclusive o ar de mal-assombrada que a maioria delas tem. Só não gostei da cor, que é goiaba com portas e esquadrias marrons, mas isso poderíamos mudar até o Natal.



O frango já estava cheirando no forno à lenha, quando meus filhos e os primos vieram correndo, apavorados, de lá de fora. Estavam muito ofegantes e quase não podiam falar. Até que as gêmeas começaram a trancar as janelas e portas desenfreadamente.

- Mas o que foi que aconteceu!?! - berrei com eles.

O meu filho, o mais velho, correu a chamar o avô que estava com meu marido e um dos meus irmãos dando trato à criação que ficava solta pelo terreiro. Minha mãe veio do banheiro, quando uma das crianças, chorando e agarrando-se à pernas dela, disse, entre as lágrimas e os soluços:

- Dinossauro!

Eu já ía começar a ralhar por terem ido brincar no pântano perto do rio de novo, quando ouvi as passadas pesadas vindo ao longe. As vacas e as ovelhas vieram desesperadas morro abaixo, quase atropelando meu marido e meu pai. Achei que eles poderiam ter visto um lagarto ou jacaré perto do rio, mas aquilo parecia bem maior do que um jacaré, que aliás, não era comum por ali e nunca havia atacado os meus rebanhos.

Meu marido terminou de entrar em casa, puxado pelo meu pai, quando eu vi, lá em cima do morro, aquela cabeça gigantesca, e assustadoramente feroz. Um tiranossauro rex, com uma das minhas ovelhas na boca. Fiquei paralisada por alguns instantes. Meu irmão e a mulher ainda estavam lá fora, pensei comigo. Dei a volta cuidadosamente pela varanda, e vi meu irmão a meio caminho do paiol, paralisado, olhando para o bicho, que parecia ainda não nos ter notado. Ele lançou um olhar angustiado pra mim, e então correu para o paiol o mais que pôde, onde se trancou. Sua mulher e o bebe estavam lá dentro, pois adoravam observar os cavalos. Eu por minha vez, corri de volta para a porta, e a tranquei por dentro.

O tiranossauro deve ter nos ouvido, pois o som de suas passadas tornou-se mais forte, até parecer que estava ladeando a casa. Não havia como fechar as venezianas, pois as janelas de vidro já estavam fechadas, então ficamos espiando através da cortina. E ele parecia estar nos procurando.

Distraiu-se com alguma coisa, e pudemos perceber que mais tiranossauros estavam atacando a cidade. Minha irmã mais velha morava lá, naquela parte da cidade. Seus filhos estavam em minha casa esta manhã. Ao ver os dinossauros atacando próximo de sua casa, meus sobrinhos começaram a chorar, e minha mãe os abraçou tentando acalmá-los.

Estávamos todos nos encarando, tentando entender toda aquela situação, quando começamos a ouvir os gritos desesperados da criação tentando fugir dos predadores. Agora haviam três tiranossauros ladeando a casa, e estavam correndo desordenadamente pelo terreiro fazendo a casa tremer pelo peso de suas passadas.



Algumas vacas desesperadas lançavam-se contra as cercas de arame farpado. Havia galinhas pisoteadas por toda parte. Logo a casa estava cercada por mais de cinco deles. As carcaças dos animais que não conseguiram fugir estavam se espalhando pelo gramado em frente à casa e pelo terreiro. Da janela da área de serviço, atrás da casa, eu observava o paiol que ainda estava intacto, onde meu irmão havia se escondido. Pareciam estar seguros, até que minha sobrinha teve a idéia de ligar no celular do pai, e antes que percebessemos, os cavalos no estábulo dentro do paiol, que já deviam estar bastante assustados, começaram a relinchar e escoicear, assustados pelo celular de meu irmão que tocava. Dois dinossauros, que pareciam estar ainda bastante famintos, cabecearam as portas, até que elas cederam e eles entraram pela porta ampla. Fiquei retesada naquele momento, meu pai que também estava olhando, começou a chorar.

Então, meus três cavalos saíram em disparada de lá de dentro, e os tiranossauros foram em seu encalço. Todos os que estavam rodeando a casa seguiram para caçar os cavalos, deixando o terreno livre para meu irmão e a mulher, que vieram correndo. Abri a porta dos fundos, na área de serviço, e eles vinham correndo quando a minha sobrinha saiu pela porta para ir ao encontro deles. Mas ela ficou paralisada a meio caminho e gritando, pois detrás do paiol ainda havia um tiranossauro, que viu todos correndo e veio em nosso encalço. Meu irmão ainda fez meia volta e agarrou a menina, correndo para dentro da casa bem a tempo de eu fechar a porta e o dinossauro bater com a cabeçorra contra ela.

Caí para trás e a porta quase cedeu. O maldito ainda deu mais uma cabeçada na porta, que quase caiu sobre mim, e ficou tentando enfiar aquela boca assustadora pelos batentes. Levantei desajeitadamente e pulei para dentro do corredor, fechando a outra porta em seguida. Agora a área de serviço estava sem a porta, e o tiranossauro ainda estava tentando destelhá-la na tentativa de nos descobrir.

Nossa agonia estava só começando. Lá fora agora caía uma garoa grossa, e estávamos todos encolhidos pelos cantos. Ao invés de espiarmos o animal pelas janelas, ele agora quem nos espiava. Suas passadas ao redor da casa estavam já me enlouquecendo. Mal posso descrever a sensação terrível de impotência ao vê-lo quebrando todas as vidraças e esquadrias, tentando enfiar o focinho janela adentro para agarrar a minha família. Quase não tínhamos mais onde nos esconder, alguns se encolhiam por trás dos móveis, e eu, meu filho e minha mãe estávamos bem atrás da mureta da cozinha.

Ele dava voltas pela casa, fazendo-a tremer pelo peso das suas enomes patas e seu corpo poderoso. Os passos do tiranossauro ecoavam em minha mente enquanto eu tentava encontrar alguma saída daquela situação horrível. Se corresemos, ele ou outros deles nos alcançariam com facilidade, devorando-nos. Se ficássemos, poderíamos acabar esmagados pela casa que a fera tentava demolir.

Ele andava de um lado para o outro, ao redor da casa, enquanto ficávamos em silencio, encolhidos, e algumas crianças faziam de tudo para conter o choro. Até que meu marido resolveu pegar a carabina escondida em nosso quarto, achando que aquela arma tão pequena poderia dar cabo de um monstro poderoso como aquele. Fiz sinal para que não se mexesse mas ele já estava pulando para fora de uma das janelas quebradas e esperou até que o tiranossauro desse mais uma volta pela casa. Ao vê-lo, o tiranossauro urrou com aquela garganta imensa e medonha e meu marido deu um tiro bem na cara dele.

O tiranossauro recuou, pois foi ferido bem no olho, e quando meu marido pulou de volta para dentro de casa, ele quase foi agarrado pela bocarra imensa do tiranossauro que enfiou a cabeça pelo buraco da janela derrubando um monte de tijolos e cacos sobre quem estava escondido no canto da cozinha. Desta vez, ele conseguiu enfiar a metade do corpo para dentro de nossa casa e quando meu filho, que estava abraçado à minha mãe, levantou-se para correr em panico, o tiranossauro se virou para agarrá-lo e eu acordei, assustada e angustiada, com essa droga de sonho do qual eu tentava mas não conseguia acordar.

Mirei ainda por alguns instantes o quarto, no escuro, para ter certeza de que estava na minha casinha antiga alugada no centro da cidade. Eu estava verdadeiramente aborrecida com o pesadelo que acabara de ter, mas contente por ser somente um pesadelo e eu finalmente ter acordado dele. Chequei meu filho, que ainda nem tinha completado quatro anos e dormia numa cama ao nosso lado. Afaguei os seus cabelos e demorei alguns minutos até aquela sensação de terror se dissipar completamente. Foi aí que descobri o que eram aquelas passadas de dinossauro que ecoavam em minha mente e provocavam o meu sonho angustiante: era o ronco ritmado do meu marido, que dormia placidamente ao meu lado.

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