sábado, 9 de novembro de 2013

CONTO: O APOCALIPSE SEGUNDO MARIA

CONTO: O APOCALIPSE SEGUNDO MARIA



- Oh meu Deus! Aonde foi todo mundo??

É o aniversário do meu filho e de repente todo mundo desapareceu da festa! Ele acabou de fazer cinco anos. Não consigo vê-lo, nem meu marido, meu pai ou minha mãe. Estou sozinha no salão de festas, devo ter desmaiado ou coisa assim pois sinto as costas geladas, como se tivesse ficado estirada no chão por bastante tempo.
Estávamos todos no clube e agora só restam papéis de presente e balões esvoaçando pelo salão.

Sinto que há algo de muito grave acontecendo. A música ainda toca, porque todos saíram desse jeito e me deixaram aqui? Um sentimento de desolação toma conta de mim, quase paralisando o meu corpo, era como se eu já soubesse o que estava acontecendo, apenas não me lembrava. Nem consigo entender porque estava no chão, sou cardíaca, mas nunca tive um desmaio na vida. Reúno todas as forças que posso e me levanto. Tem algo errado acontecendo, além do fato de todos terem desaparecido. Mas o que me desespera mais é não saber onde meu filho está.

Saio para fora e mal posso enxergar algo á minha frente. Um brilho dourado intenso toma conta de tudo e faz as vistas arderem. Tenho dificuldade em enxergar mas sigo em frente, de volta pra casa, prescrutando o chão avermelhado. Algumas pessoas correm feito loucas, outras entoam canticos evangelicos pela vizinhança, posso ouvir o som de carros batendo, acho que a luminosidade está deixando a todos muito confusos.

Subo o morro e chego em casa resfolegando. Não estou acostumada a correr, mas preciso encontrar o meu filho! Não há ninguém em casa. Chamo pelos seus nomes e ninguém responde. O vento morno sopra por todos os cantos da casa, fazendo o telhado assobiar de forma fantasmagórica. Com dificuldade encontro as chaves da motoneta. Coloco o capacete e sigo para o hospital como posso, deviando dos carros alucinados. As pessoas parecem sem rumo nas ruas, algumas param o carro e saem chorando, se ajoelham no chão e se desesperam. Não sei nem porque saíram de casa.

Vejo pessoas saqueando o supermercado. O sino da Igreja ressoa sem parar, devem ser os padres desesperados. Viro à direita ao lado da Igreja e subo o morro, pela estrada nova de terra batida, parecia-me mais seguro já que era bem pouco usada. Ao chegar no hospital, corro para a portaria. Não há ninguém. Entro no hospital e vejo várias famílias reunidas nas salas de pronto atendimento. Sigo para a ala infantil, e abro porta a porta, pergunto pelo meu filho. Ninguém sabe me dizer nada. Não consigo encontrar uma enfermeira ou médico sequer. Seguindo para o final da ala infantil, há uma porta grande que leva até um jardim. Lá fora, vejo a única enfermeira que encontro, sentada sobre o banco e fumando.

- Alguma criança de nome Ian deu entrada neste hospital a pouco?
- Não, ninguém mais deu entrada moça.
- Eu estou procurando meu filho, todo mundo desapareceu!
- Então você não está sabendo?
- Sabendo de que? - pergunto a ela.
Ela aponta com o dedo para o céu, e responde:
- As igrejas, menina. As igrejas são o único lugar seguro... E depois disso, volta a fumar o seu cigarro com o olhar perdido no horizonte.

Penso se ela também ficou louca como todo o resto do mundo.
Saio do hospital pela porta lateral e só então consigo ter a visão de quase toda a cidade, dourada e enevoada, dali do alto do morro. O brilho no céu é tão intenso que não me arrisco a erguer os olhos.
Corro de volta para a motoneta mas antes que eu consiga dar a partida, algo me atinge na cabeça e eu caio ao chão. Não sinto muita dor devido ao capacete mas a pancada foi forte. Antes que eu consiga dizer alguma coisa, uma pessoa me arranca o capacete da cabeça e rouba a minha moto. A luz que vem do céu quase me cega, deixando-me tonta por alguns segundos.

Eu me sento protegendo os olhos e levanto, seguindo rumo à Igreja católica no centro da cidade. Só consigo cambalear olhando para os próprios pés, naquele chão avermelhado. Parece tão quente, no entanto não sinto calor algum. Só angústia, e o meu coração que parece que vai explodir, estou fora de forma.

Quem sabe minha família esteja refugiada Quem sabe minha mãe tenha se refugiado lá com a minha família, já que conforme a enfermeira disse, é o único lugar seguro da cidade.

Algo me diz que posso estar certa. O mundo de repente ficou louco, a Igreja seria um bom lugar pra se esconder e pensar um pouco.
Sigo pela estrada de asfalto do outro lado do hospital, achando que seria mais seguro. Vejo pessoas ensandecidas cavando no cemitério ao lado. Alguém vem correndo em minha direção e me derruba no mato. Tenta arrancar a minha blusa e de repente está tentando abrir a minha calça. Não consigo ver quem é mas já estou em panico o suficiente para começar a tremer. Que ódio que sinto nesse momento, quando devo lutar, o medo me bloqueia e eu começo a tremer. Quem pensaria em estrupo numa hora dessas? Eu reúno as forças que tenho e antes que o idiota consiga abaixar as próprias calças, coloco as mãos ao redor de sua cabeça e aperto com as unhas do polegar em seus olhos. Ele fede a sujeira e cachaça. Urrando de dor, ele cai para o lado, e eu consigo levantar e chutá-lo com força nas partes íntimas. Minha vontade é de matá-lo. Pego um galho de árvore e quebro na cabeça do desgraçado. Não parei pra verificar se estava morto. Haviam pessoas se aproximando, gritando feito loucas ou cantando. Saio correndo, preciso encontrar o meu filho!

Ao chegar ao centro da cidade, tenho que transpor uma barreira de gente caída ao chão, chorando convulsivamente entre seus carros batidos. Uma procissão de loucos parte da frente da Igreja. Abro as portas laterais e o interior da Igreja está silencioso como um túmulo. Engraçado como sempre a preferi assim. Chamo pela minha mãe mas ninguém responde. Procuro pelas saletas, em uma das salas laterais tem um casal transando. Peço desculpas, mas eles não parecem ter me notado. Pareciam bem jovens também. Abro todas as outras portas e nada de encontrar a minha família.

Saindo pelas portas da frente da Igreja, sigo a procissão que canta sem parar. Tento visualizar a minha mãe, meu pai, marido e filho no meio deles, mas não consigo encontrar ninguém.
Entro em desespero. O cerco parece estar se fechando, eu só queria encontrar o meu filho! Quando a procissão passa diante do museu, eu desisto de procurar e entro naquele jardim antigo, sentando-me na escadaria em frente à porta. A casa antiga que abriga o museu parece tão silenciosa, acolhedora, que resolvo entrar.

Sento-me à mesa da antiga sala de jantar, e assisto à procissão seguir adiante pela janela quadriculada da lateral. É uma bela casa, pensei. Sempre gostava de visitar o museu, que tinha ainda a decoração da casa conforme ela fora a mais de sessenta anos. Sentia-me segura ali dentro, era como se já houvesse vivido ali, ou naquela mesma época. Fiquei assim refletindo, distraída, tentando não chorar...até que ouvi o meu nome:

- Maria?
Viro-me, surpresa, e vejo meu marido. Ele corre pra me abraçar:
- Pensamos que estivesse morta! - ele parecia estar chorando.
Eu o abraço de volta e não consigo pensar em mais nada:
- Mas o que está acontecendo afinal? - pergunto.
- Você não lembra? Achamos que tivesse enfartado ao ouvir que o mundo está para acabar.
Eu o encaro atonita e pergunto pelo nosso filho.
- Estão indo à Igreja agora, lá é mais seguro, mas foram pelo outro lado, para evitar a procissão.
- Por favor, vamos pra lá!

O tempo parecia esta acabando mesmo. Uma sensação de urgencia invadiu meu coração. Corremos para a Igreja pela estrada da ponte. Minha garganta já estava doendo de tanto correr, o coração parecia saltar pela boca.

A porta lateral parecia estar trancada, meu marido já a estava chutando desesperado quando o puxei pela mão e demos a volta para entrar pela porta da frente. Escancarei as portas gigantescas, deixando a luz dourada penetrar na Igreja. Meu marido seguiu atrás. Minha mãe e meu pai conduziam meu filho Ian até um banco em frente ao altar.

Ao me ver, meu filho gritou Mãe, e sorriu com aqueles dois olhos azuis e luminosos, correndo na minha direção com os braços abertos, como sempre fazia.

Ajoelhei-me e recebi o seu abraço, e um grande clarão iluminou tudo à nossa volta. Fiquei zonza por uns instantes. Segurei meu filho com força contra o meu corpo, sem ter coragem de abrir os olhos. Pude sentir minha mãe, meu pai e meu marido nos envolvendo em um abraço.
Por uns instantes, tudo ficou negro e silencioso. Achei que iria desmaiar de novo. Até que meu marido e meus pais se levantaram e eu senti uma brisa em meu rosto. Ao abrir os olhos, estávamos em um lugar muito diferente. Eu estava ajoelhada ainda, abraçando meu filho, mas sobre um gramado muito verde. O céu estava azul e brilhante, àrvores balançavam com o vento e pude ver meus irmãos vindo ao longe, de mãos dadas com suas esposas.

Meu filho apenas ergueu a cabecinha, olhou nos meus olhos e disse: Chegamos, mãe! 

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