domingo, 10 de novembro de 2013

A BANSHEE



Alecia andava pela floresta ansiosa como sempre.
O sol não estava tão ardente naquele dia então era possível andar sem o casaco e o capuz que a protegiam.
Sua pele amorenada brilhava sob os raios de sol que penetravam pela floresta. Não era uma floresta muito densa, por isso pouca gente morava por ali...
Ela havia ido visitar o tio que tinha se mudado para perto, recentemente. Fazia mais de um ano que não o via. Ele era um dos anciãos, e na verdade, era um tio adotivo que havia encontrado Alecia muito pequena perdida em uma cidade abandonada, destruída pelas hordas...

O tio estava consertando a caixa d'água quando ela chegou. Não a viu se aproximar pois estava no alto de uma escada. Infelizmente, sua roupa nova de ser humano estava com algum problema, pois Alexia notou que estava enrugada demais na altura das canelas, e o que parecia ser a pele sobre a panturrilha na verdade era a pele que deveria estar cobrindo os glúteos.

- Oi tio, ajeita isso aí...

Sr. Oliver repuxou a pele e ajeitou a roupa de humano de forma que ficasse mais decente... Havia aberto o seu 'traje' devido ao calor da tarde.
Sabia que era Alecia quem vinha se aproximando quando ela estava ainda a um kilometro de distancia, pelos pensamentos confusos e embaralhados da menina ecoando de longe, com força.

Desceu os olhos bondosos para a garota, protegidos por um óculos de sol, mas mesmo assim notou que a pele da menina estava mais bronzeada do que de costume.

- Você tem andado sem proteção filha? - disse ele descendo da escada.
- Queimei um poudo num dia em que precisei procurar comida na cidade e encontrei uma criança perdida...
- Mais uma criança?
- Sim, estava desmaiando de fome e insolação...
- Salvaram ela?
- Ele se restabeleceu bem...
- Que bom... E os pais?
- Nem sinal, tio.



Alecia fitou o chão, meio aborrecida. Lembranças vinham e voltavam á sua mente o tempo todo, impedindo-a de alcançar um estado de tranquilidade por qualquer momento que fosse. Mesmo seus sonhos eram conturbados; era como se uma multidão a cercasse o tempo todo, todos querendo falar ao mesmo tempo, cutucando-a, chamando sua atenção, querendo ser ouvidos.

O tio se aproximou e a abraçou como de costume. Sabia que um abraço sempre era reconfortante para os humanos. A barba e o bigode do traje roçaram a orelha de Alecia, que deu um sorriso, pois sentiu cócegas. Tinham muito carinho um pelo outro, pois houve uma época em que ambos estavam sozinhos no mundo e sobreviveram devido á ajuda de um para outro.

- Gostei do cabelo curto, fica bem em você...

Só então Alecia notou a protuberante barriga do tio.

- O que é isso tio? Está doente?
- Não minha filha, estou grávido... - falou o ancião, abrindo os botões da camisa para mostrar a barriga protuberante. Naqueles dias, os homens já podiam carregar seus filhos no ventre quando suas esposas não tivessem condições. Sr. Oliver era casado com uma humana havia alguns anos.

- Nossa, vocês tem certeza disso?
- Agora seria tarde pra não ter certeza, certo filha?

O tio começou a falar sobre o bebê, a esposa amada e todas as esperanças e os procedimentos que necessitou seguir para poder carregar o bebê no ventre. O homem estava exultante, alegre, e muito otimista. Mas Alecia estava zonza, as vozes gritando na sua cabeça novamente: "Isso não vai dar certo"...

- E como o bebê se alimenta tio? - perguntou incrédula.
- Ué, pelo líquido amniótico... - respondeu o tio, com um sorriso.

"Mas isso é uma aberração!" - uma voz gritou em sua cabeça... "Não tem nem cordão umbilical!" pensou a menina. "Como é possível que o bebê se desenvolva e se alimente sem cordão umbilical, isso não está certo! Não está certo..." Alecia precisou se apoiar em uma árvore para não cair.

Seu tio já entrava em casa chamando a esposa para que a cumprimentasse, a camisa aberta mostrando a barriga, receptáculo do bebê desde já tão amado. Para Alecia, a barriga parecia agora inchada, endurecida, as veias vermelhas e roxas aparentes dando-lhe um aspecto doentio e enegrecido, como se já tivesse passado do momento... como se o bebê ali dentro fosse um morto-vivo.

Alecia não conseguiu conter a onda de desespero e tristeza que a inundaram. Não conseguiu sequer esboçar um sorriso pela alegria do tio e da esposa. Tentou disfarçar mas as sensações estranhas e negativas não paravam de tomá-la de assalto, dominando todos os seus pensamentos e ações, controlando-a, manipulando-a, e ela já sabia o que era isso... Era algo muito maior do que um simples pressentimento.

Alecia passou pelo poste de luz para ir embora mas a sua blusa ficou presa em alguma coisa... Ela tentou se desvencilhar mas um arame a puxou de volta... Voltou-se nervosamente para desprender a manga da blusa e pôde ler no medidor de energia a palavra PESAR...
Numa segunda olhada, as letras que formaram a palavra não estavam mais ali, e Alecia sabia que era mais um daqueles sinais que recebia com frequência.

Por um momento, ao se voltar para o tio, viu-o cambaleante como um daqueles mortos que andam que ela cansou de ver quando era criança... Já com lágrimas nos olhos, não conseguiu esperar a tia sair de dentro do rancho. Saiu correndo pela floresta, repetindo para si mesma que aquilo era uma aberração.

Não ouviu seu tio chamando-a de volta, magoado. Correu de volta pra casa, mas chorava tanto que nem via mais o caminho de casa. Tropeçou no mato, caiu e rolou, mas continuou correndo até chegar perto de casa e desabar, apoiando as costas em uma árvore.



Ficou ali sentada chorando alguns minutos, enxugando as lágrimas com a manga da blusa, machucando o piercing na sobrancelha direita. Prometeu a si mesma livrar-se daquilo. Recompos-se, e entrou finalmente em casa. Entrou pela porta da cozinha e encontrou várias bolsas na mesa e pelo chão. Tomas já estava de volta, seu coração ficou mais alegre por um momento.

O namorado dormia em um colchão na sala de estar. Não quis acordá-lo, por isso abaixou-se e deitou-se devagar ao seu lado, o choro ainda machucando a sua garganta... Maldita herança, pensou. Tomas percebeu sua presença, levantou a coberta para que ela entrasse debaixo dela, e aninhou a garota em seus braços. Alecia virou-se para ele e enterrou a cabeça em seu pescoço, se escondendo do mundo e da dor. Estava tão quente e aconchegante. Tomas acariciou os cabelos curtos da namorada, muito negros, e molhados pelas lágrimas.



- O que houve?
- Nada Tommy... - disse Alecia... - nada para se preocupar agora. - Ele a beijou na testa, e ela alcançou seus lábios, dando-lhe um beijo carinhoso, roçando seu rosto na barba por fazer...
- Tem certeza? - disse ele, meio sonolento.
- Vamos só dormir agora...
O rapaz abraçou-a um pouco mais forte, mas estava muito cansado para fazer mais perguntas. Acabou dormindo novamente, e Alecia ficou ali, o resto da tarde, até o anoitecer, sem conseguir dormir, apenas torcendo para que mais nada no mundo a tirasse dali, daquela zona de segurança e de conforto, de seu abrigo.


TO BE CONTINUED...

Marie Jo Cantuaria

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