segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

CRISTINA - CAPÍTULO VI


 
 
CAPÍTULO VI

 
Mateus estava na cozinha fazendo um chá quente quando Cristina acordou na sala e caminhou até ele.

 
- Que horas são?

 
- Ai, que susto! – Mateus não ouvira a amiga caminhando da sala até ele. – Fiz um chá quente pra você. São onze horas ainda. O que você estava fazendo no cemitério??? – Mateus parecia uma metralhadora. Ao encontrar Cristina daquele jeito, imaginou que ela estivesse bêbada, drogada ou ambas as coisas, mas como não havia cheiro de álcool nem qualquer outra marca, ele logo descartou a hipótese. – Você toma algum remédio faixa preta?

 
- Por que? – perguntou Cristina, ingenuamente, aceitando a xícara de chá e sorvendo o conteúdo. Parecia não se lembrar de nada.

 
- Porque quando passei em frente à sua casa ontem você estava quase correndo na direção do cemitério. Sua avó estava berrando com você tropeçando nas pantufas e o Tóbi estava muito estranho e arrepiado latindo atrás dela.

 
- Não tomo nada. Onde está a minha vó?

 
Mateus arregalou os olhos procurando um meio de contar suavemente:

 
- No hospital! – Ele tentou ser suave mas acabou gritando. Não havia dormido ainda desde a noite passada e ainda estava tremendo pelo susto todo. – Ela te seguiu até o cemitério e berrava tanto com você que de repente acho que por causa do cansaço ela ficou toda branca e caiu dura no chão e eu entrei em pânico e chamei a ambulância aí eles levaram a sua avó e eu te trouxe pra casa mas você parecia uma estátua andando daquele jeito!

 
- O que?!

 
Mateus, que ainda não tinha carro, ligou e pediu á mãe que levasse ambos ao hospital. Cristina estava atônita e o garoto já estava quase chorando. A avó de Cristina havia passado mal pela correria da noite anterior e fora medicada e colocada no soro. Agora estava dormindo e em observação. Parecia mais magra e mais pálida. Ao entrar no quarto e ver a avó naquele estado, Cristina não se conteve e chorou muito, caindo instintivamente de joelhos no chão. Agarrou a mão da avó e escondeu o rosto entre os lençóis.

 - Obrigado pela carona mãe. Vou ficar aqui um pouco com elas.

 
Mateus ficou do lado de fora do quarto e como Cristina demorasse, acabou dormindo nas poltronas. Cristina ficou um bom tempo chorando agarrada á mão da avó, sentada no chão. Um médico apareceu para tranquiliza-la dizendo que não parecia ser nada sério, mas que fariam mais exames para descartar a suspeita de um avc. Cristina acabou dormindo e acordou com um beliscão na mão.

- Aaaaaiiiiiii... Que isso vó!!! ? ?

 - Acorda menina! Quando a gente chegar em casa vai ter uma conversa séria!

 
Com a avó era sempre assim. Cristina não sabe o que faria sem ela mas a velha parecia querer repeli-la na mesma medida que a superprotegia. Mateus foi pra casa almoçar a pedido da menina que ficou com pena dele quando soube que sequer dormira, e as duas foram para casa no final do dia, de táxi.

D. Ana, que parecia estar forte novamente, esperou Cristina entrar em casa pela porta dos fundos, colocou Tóbi pra dentro, deu a ele uns biscoitos e trancou a porta cuidadosamente.

 - Agora, mocinha, senta aqui na cozinha e me explica que negócio é esse de ir de pijama no cemitério áquela hora da noite.

 Enquanto falava, D. Ana selecionava os ingredientes para fazer uma sopa, já que a neta sequer se alimentara direito.

 - Eu não sei vó, eu... vi uma coisa.

 - Sabia que não presta ficar andando em cemitério, ainda mais á noite?

 - Ah! – Uma risada sarcástica recém formada ficou contida no fundo da garganta da menina. – Por que?
 

- Dá azar. Sabe-se lá o que você pode encontrar lá! É um lugar de morte, não presta entrar assim sem motivo. Os antigos já diziam...

- Mas é que eu vi uma coisa... – Cristina não sabia se contava á avó do estranho que ficava observando a casa, pois não sabia como ela poderia reagir, já que nem ela mesma conseguia explicar esse misto de medo e fascinação que ela sentia por aquele vulto misterioso. Porém a avó insistia, queria saber o que tinha levado a neta a agir feito uma doida:

 - O que você viu menina? Desembucha!


- Pensei ter visto um fantasma... – Cristina resolveu dizer pois sabia que dali em diante a avó não tocaria mais no assunto por considerar tudo uma grande bobagem. Porém a reação da avó foi bastante enigmática. Ela ficou muito séria e disse que pediria a uma amiga para que benzesse a neta. Como Cristina se recusasse, a velha logo surgiu com outra alternativa.

 - Você me empresta um casaco seu que tenha usado recentemente e eu levo pra ela benzer. E não quero mais você andando naquele lugar, entendeu, mocinha?

Cristina só revirou os olhos mas concordou com a avó. Depois de ela ter passado mal era melhor obedecê-la. Tomaram a sopa juntas e Cristina lavou a louça. Domingo amanheceu frio e nublado, e seria mais um domingo pacato em casa com a avó, porém ela saiu para levar a blusa para a tal amiga já depois das três horas, dizendo que a menina arranjasse o que fazer pois iria demorar. Não que elas passassem os dias em casa grudadas. O táxi chegou e Cristina se viu sozinha novamente.

 
            A vontade de investigar esse ser que a assombrava lá do cemitério era imensa mas achou que seria melhor obedecer a avó. Havia ficado preocupada de verdade com a mesma e só não insistiu para que ela ficasse em casa descansando porque sabia que D. Ana era a campeã da teimosia. Mateus havia ligado no dia anterior pra saber se estava tudo bem e prometeu ligar no domingo. Como ele se demorasse, Cristina ficou agoniada e levou Tóbi para passear, mas desta vez pegou o caminho contrário que levava ao centro comercial da cidade.

 A criatura no cemitério também estava a observar. Realmente a intrigava que a menina pudesse tê-la visto mesmo após ter cantado o mantra completo para encantamento naquele dia em que a havia assustado. Não era bom para sua reputação quando humanos a notavam, pois deveria ser a mestre, ou o mestre dos disfarces e das surpresas. A garota evidentemente o percebia, talvez não na sua verdadeira forma pois não parecia reagir horrorizada como a maioria e nem saía correndo em desespero, muito pelo contrário. Parecia até mesmo procura-la. E isso de certa forma a envaidecia. Agradava até. Sentiu-se surpresa o quão agradável essa atenção repentina lhe parecia. A maioria parecia viver sem notar-lhe a constante presença mas a ruiva parecia apreciá-la.

 
Ao ver a menina atravessando o portão, levantou-se num sobressalto. Mas a ruiva pareceu não te-la enxergado e seguiu pelo caminho oposto. Ela, ou ele, resolveu volitar e seguir a menina. A sua encomenda demoraria a chegar de qualquer jeito e a espera era sempre solitária.

 
De vez em quando aparecem pelo caminho essas pessoas especiais que parecem ver mais do que a maioria. Pessoas como a ruiva que enxergavam além e que mesmo assim seguiam com suas vidas, desapercebidas, ajudando a manter o equilíbrio. Ruim era quando se tornavam cientes e metiam-se com os negócios do além, dando mais trabalho do que deveriam, tirando os trabalhos de sua ordem, mudando os cursos e os caminhos. Consertar o estrago que faziam poderia ser bem trabalhoso. A ruiva não, essa não atrapalharia. A criatura tinha certeza. E de repente se viu pensando o quão prazeroso seria poder desfrutar da companhia dela.

 
Ambas riram juntas quando Cristina passou em frente á catedral no centro e viram a menina gordinha brincando com um morcego morto. A amiga dela fazia um escândalo com seus gritos agudos. Mas a criatura se assustou quando a criança lhe encarou com olhos selvagens e Cristina de repente a percebeu pelas costas. Cristina se virou repentinamente e a criatura apenas desvaneceu deixando aquele rastro obscuro que se percebe pelo canto dos olhos.

 O vento ficou mais violento e como Tóbi ficasse arisco de repente, Cristina voltou pra casa a passos rápidos.

 
CONTINUA...

domingo, 29 de janeiro de 2017

A FILOSOFIA DO BEM E DO MAL SEGUNDO O ESPIRITISMO

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=Ca8tAjaKhLM


É PRECISO HAVER TREVA
PARA RECONHECER-SE A LUZ...

E SE A MISSÃO DE ALGUMAS PESSOAS NESSA VIDA
FOR JUSTAMENTE CAUSAR O MAL AS ALGUÉM PRÓXIMO
PARA ALCANÇAR A EVOLUÇÃO?

E SE FOR PRECISO QUE EU TE MACHUQUE
PARA QUE TU APRENDAS A PERDOAR
E EU A PEDIR PERDÃO?

LONGE DE TOMAR O MAL POR GLÓRIA,
MAS NÃO FOI JUSTAMENTE ESSA HISTÓRIA
ENTRE JUDAS E JESUS?

JUDAS PODERÁ TER SIDO O MAIS SUBLIME DOS APÓSTOLOS,
AQUELE ENCARREGADO DA DERRADEIRA MISSÃO.

NA HORA EM QUE JESUS FRAQUEJASSE,
VISTO QUE HABITOU COMO HUMANO,
JUDAS O ENTREGARIA AOS SEUS ALGOZES,
PARA CUMPRIR AS PROFECIAS.

QUE ME PERDOEM OS DEVOTOS,
MAS PODERIA TER SIDO ASSIM,
NÃO PODERIA?

LONGE DE TOMAR O MAL POR GLÓRIA,
MAS PODERIA...

E ENTÃO MESMO APÓS TER CUMPRIDO SUBLIME MISSÃO,
JUDAS TERIA PENADO O RESTO DE SEUS DIAS
ATÉ MORRER EM AGONIA,
SUICIDANDO-SE, ENFORCADO, SUFOCADO PELA CULPA.

MAS EU DIGO QUE PODERIA TER PARTIDO EM PAZ
E QUE EM PAZ DESCANSASSE,
QUE OS OLHOS FECHASSE
SEM TRISTEZA OU ARREPENDIMENTO,
POIS PASSOU PELA MAIS DURA PROVAÇÃO,
A DE SER UM ALGOZ.

E MESMO ASSIM, EU TE PERDOO,
E CADA UM TOMOU A SUA LIÇÃO
E FOI APROVADO.
O TESTE FOI FEITO,
A PENA FOI CUMPRIDA,
PARTAMOS EM PAZ,
LIÇÃO APRENDIDA.

PORQUE EU TE PERDOO,
COMO GOSTARIA QUE ME PERDOASSE UM DIA.
POIS É PRECISO HAVER TREVAS, PARA VALORIZAR-SE A LUZ.

MARIE,

DAS ÚLTIMAS PÁGINAS DO LIVRO NEGRO, 2015.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

POEMA SEM NOME


Imagem: http://northbrookpc.org/wp-content/uploads/2016/02/2-21-2016-sermon-pic-750x420.jpg

Na escuridão fria, silenciosa do Universo
Eu vaguei...
Procurei um lar onde pudesse abandonar o meu cansaço,
Acolhimento e amor em seu regaço
E não encontrei.

As luzes perenes das estrelas e dos cometas me cegaram por cem anos
Vaguei sem rumo, flutuei sem tempo, volitei sem volta.

Cansei-me, e entreguei-me ao cansaço, á solidão e ao desânimo.
Passei vidas, eras, e gerações lutando contra algo que só agora, lamento,
Não irei mais lutar.
Quando percebi que nossa sina e nosso carma não iriam mudar,
Entreguei a espada, abandonei o escudo,
Meus braços agora pendem sem vontade
Meu corpo agora clama por piedade
É inútil, é tão inútil lutar...

Entrego-me agora a essa solidão mortal,
Que já começa a corroer os meus ossos e a minha vontade de chorar.
Não tenho lágrimas.
Sou uma inútil.
Sou um espírito sem luz.
Um pródigo sem lar.
Para retornar,
Aonde quer que seja...
Fosse somente um brincar de palavras,
Minha vida estaria salva.

SOBRE SOLIDÃO E O VAZIO DA ALMA


Imagem de: https://interfacelift.com/wallpaper/7yz4ma1/03338_emptiness_1024x1024.jpg


Cercados de homens por todos os lados
Mas ainda fazemos ilhas de nós mesmos
Isolados, solitários, sozinhos.
Vazios.
De onde vem esse vazio,
Essa solidão,
De se sentir único e incompreendido?
Se somos todos tão parecidos,
Se somos todos tão ordinários,
Como as coisas e os dias
Vão nos ensinando:
Que somos todos iguais.
Mas ainda únicos?
E é realmente possível que sejamos únicos?
E de repente alguém grita no meio da escuridão:
Você não está sozinho!
Porém, por que sinto essa opressão
A esmagar meu peito oco
Meu coração vazio...
E essa solidão que só tende a crescer
E a me triturar,
E nem tenho lágrimas pra chorar.
Sinto-me tão só,
Que já nem procuro companhia
Pois parece-me que todos são ocos também,
E que minha voz perpassa suas mentes vazias
Produzindo nada mais que ecos.
E as pessoas já nem me ouvem mais.
Mas são tantas que me afogam
Em um oceano de frivolidades.
Porque esse sentir ainda espreita?
Por que, meu Deus?
Nem Tu tens dó de mim?
Pois quando Te falo sequer me responde!
Onde está tudo pelo que vim a este mundo...
Uma estrela brilhando no fim do túnel!
E eu sorrio por um momento.
Ainda assim
A solidão que não me abandona,
E o vazio em meu peito,
A me agourar o juízo.
Preciso conversar com alguém que realmente ouça,
E oh, são raros os amigos!

Marie Jo
Janeiro 2017

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

SOBRE A MORTE

Source: Pinterest.com


Corremos tão rápido
Em direção aos nossos objetivos,
Sempre lutando com os minutos
Que não tem piedade e não nos esperam.
Temos hora marcada para tudo,
Temos que respeitar os horários,
Os atrasados são sempre criticados,
Pessoas que não respeitam,
Que não tem organização.
Muitas vezes eu me pergunto
Se toda essa correria vale á pena.
Pois a morte não pede licença,
E não tem hora pra chegar.
Quando menos você esperar
Pode ser a sua vez de se deitar
Pra sempre
Embaixo da terra fria.
E aquela pessoa que você não pode beijar
Porque estava com pressa
Você nunca mais poderá tocar
Ou olhar nos olhos de novo.

Marie Jo
Dezembro de 2016

AS MÃOS DE SARAH

Foto de: Blog da Ritinha


A EXISTÊNCIA É UM PERPÉTUO EQUILIBRAR ENTRE A VIDA E A MORTE.

Guiga era um garoto normal de nove anos que ía á escola todos os dias acompanhado pela mãe, Sarah.

Ele era um excelente desenhista, porém muito tímido e reservado. E como a maioria das crianças tímidas, sofria bullying pelos mais variados motivos.

Eram coisas leves mas que ficavam na sua cabecinha de criança, martelando, incomodando, e ás vezes quando ele desabafava com a mãe, se sentia um pouco melhor.
Mas ele raramente o fazia.
Mesmo assim não carregava as tristezas que os coleguinhas lhe infligiam por muito tempo na sua cabeça despreocupada de criança.

Já a mãe de Guilherme, Sarah, não levava tudo muito na esportiva.

Ela tentava ensinar ao filho que o melhor de tudo era ficar frio e não dar muita atenção á idiotice alheia porém ás vezes o menino chorava e aquilo lhe fazia arder por dentro.

Sarah percebia que o filho gradativamente perdia o interesse por brincadeiras e que quando chegava na escola ficava um pouco mais isolado dos outros. Um dia ele chegou realmente aborrecido em casa porque, como estava ficando um pouco sedentário, os colegas estavam tirando sarro do corpo do garoto, inclusive apertando seu peito.

Eles ficaram falando: Tetinhas, tetinhas! Contou o garoto em meio a lágrimas.

Sarah decidiu que aquilo era demais! Iria á escola no dia seguinte falar com a professora, com a diretoria, com o apoio pedagógico.

Porém  saiu de lá com a certeza de que essas pessoas jamais protegeriam o seu filho como ela o faria.

Inclusive foi criticada por seu filho ser uma criança isolada, sedentária, pois a culpa era sua, claro. Não tinha nada a ver com a maneira como as outras crianças o tratavam. O sofrimento dele não era causado pelos outros colegas que eram na maioria cruéis e pouco se importavam com os sentimentos alheios.

Ela que era um mau exemplo e não estava educando o garoto direito, deixando ele ser preguiçoso e isolando-o dos demais com seus costumes estranhos e sua morbidade.

Sarah era conhecidamente uma cartomante, e as más línguas a acusavam de bruxaria e magia negra.
Na vida real não era nada disso. Sarah lia cartas sim, mas apenas para os conhecidos. E alimentava um blog dedicado á Tafofilia, para pessoas que gostavam de passear e admirar cemitérios.

Mas Sarah não se esforçava por abafar as fofocas porque sabia que as pessoas, a maioria delas pelo menos, eram falsas piedosas, e valorizavam muito mais os boatos do que a procura pela verdade.
Sarah era apenas uma estudante de esoterismo e se interessava por temas um pouco mais macabros, além de ser amante de filmes de terror.
No fundo, ela era muito zen, e tentava passar isso ao filho. Mas o que o menino herdou mesmo foi seu gosto pelo gótico e pelo terror.

Guiga desde cedo já sabia que a morte fazia parte da vida. E no fundo isso era um profundo sinal de sabedoria que Sarah admirava no garoto.

A gota d'água, porém, foi quando o garoto passou a ser ameaçado por uma coleguinha e seu irmão mais velho acerca de um desenho. Os dois viviam pedindo a Guiga para desenhá-los, mas o menino não se sentia á vontade quando era pressionado. E eles passaram a pressioná-lo mais ainda, inclusive ameaçando-o de levar uma surra no final da aula. Assim ele jamais conseguiria fazer um desenho sequer da dupla, pois estava sentindo medo e perdendo a confiança em seu dom. Desenhar era sua alegria, e eles estavam tirando essa alegria dele, bem como seu sossego.

Sarah decidiu que era hora de começar a dar o troco. Afinal, o mundo não sentiria falta de algumas pessoas idiotas. Estava saturado delas. E a vida era assim mesmo, um dia alguns nascem, no outro alguns morrem. Começou a estudar artes das quais a maioria das pessoas nunca ouviu falar. Artes ás quais ela tinha acesso graças aos contatos ao redor do mundo que ela conseguiu através de seu blog e suas pesquisas na internet.

Naquele dia Sarah levou seu filho á escola, e sentou-se com ele no muro antes da entrada. Tiraram da mochila um papel em branco e um lápis, e Sarah fazia movimentos estranhos com a mão segurando o papel e lápis enquanto murmurava algumas coisas que pareciam ser de uma língua muito antiga.

As crianças da sala de Guiga ficaram observando ao longe. Os adolescentes passavam encarando e dando risadinhas. Alguns falaram em voz alta: bruxa! Mas Sarah e o filho apenas trocaram um olhar de cumplicidade e um breve sorriso.

Quando Sarah, terminou, Guiga pegou o papel e lápis, beijou a mãe e sentou-se no alpendre da escola, começando a desenhar. Faltavam ainda dez minutos para bater o sinal e a mãe do menino ficou olhando do portão o que ele estava fazendo.
As crianças da sala dele se aproximaram e viram que ele desenhava os pombos que vez ou outra bicavam os restos de lanche no pátio..
O desenho era rápido mas estava ficando bem feito.
Mostrava alguns pombos no chão, e outros no telhado esperando o sinal bater para poderem descer ao pátio bicar restos de chips conforme sempre faziam. Conforme estava acontecendo naquele exato momento.

A menina que o ameaçava, Nataly, deu risada do desenho e Guiga o deu a ela de presente.

- Tome, o desenho que você me pediu.

- Mas eu não queria isso aqui! - Disse ela, meio grossa. - Eu queria que você desenhasse eu e meu irmão!

- Fica com esse, por enquanto.- Disse Guiga.


O sinal para a entrada bateu e Guiga lançou um aceno á sua mãe, de longe, e ela foi para casa.


Enquanto ainda estavam na fila para entrar na sala, seis pombos caíram mortos ao chão.

O fato causou um certo frenesi nas crianças, mas a aula prosseguiu normal até a hora do recreio.
Os meninos que beliscavam o peito de Guiga fizeram das suas de novo:

- E aí Tetinhas, tá ficando gordinho hein!

Um dos garotos era irmão de Nataly. Eles seguraram Guiga e o beliscaram no peito várias vezes.

- E você vai fazer o desenho que a Nataly pediu amanhã, senão eu te arrebento! - Falou o irmão de Nataly, prensando-o contra a parede.

Guiga tentou se proteger, mas sem sucesso. Porém, não soltou um gemido sequer. Em casa mostrou para a mãe as manchas roxas que chegaram a se formar onde fora beliscado.

Sarah conteve-se para não chorar. Não queria que o filho se sentisse vítima. Queria que ele aprendesse a não demonstrar sentimento, a ser forte, a reagir quando preciso fosse.

No dia seguinte, novamente a cena das mãos sobre o lápis e papel se repetiu. A maioria das pessoas adultas parecia nem perceber. Mas as crianças que observavam pareciam apreensivas. Elas se lembravam dos pombos e do desenho deles da manhã anterior.

As mãos de Sarah desenhavam formas estranhas no ar, ao redor do lápis e do papel. Desta vez porém Guiga os guardou até o recreio.
Ao final do recreio, Nataly foi até ele, no canto em que ele estava encolhido, debruçado sobre algo no degrau do alpendre.
Ele pareceu se assustar quando ela o tocou no ombro.

Recompondo-se, Guiga terminou o que fazia, e entregou um pedaço de papel á menina:

- Toma, o desenho que seu irmão pediu. O seu eu faço amanhã.

Era uma caricatura mal feita dos cinco garotos que o ameaçaram e molestaram recentemente. Eram mais velhos, de outra classe. Adolescentes barulhentos e desrespeitosos na maioria das vezes. Nataly entregou o desenho a eles, que caíram na gargalhada. Dessa vez não tocaram Guiga, apenas acenaram de longe com o dedo do meio, em meio a gargalhadas.

Ao final da aula, um deles foi atropelado ao correr de sopetão sobre a faixa de pedestres. Apesar de ser uma saída de escola, o motorista foi pego desprevenido, e o baque foi forte. Chamaram a ambulância, e levaram o garoto inconsciente para o hospital.

No dia seguinte, as crianças pareciam um pouco mais caladas do que de costume. Algumas andavam de olhinhos arregalados, apreensivas.

Dessa vez não houve a cena do encantamento do papel entre Sarah e Guiga.

Corria pelos corredores da escola os rumores dos últimos acontecimentos: o atropelamento do garoto no dia anterior, que bateu a cabeça muito forte e estava em coma. As meninas da sala choravam.
Um grupo veio correndo contar que mais dois deles não haviam vindo á escola e os pais haviam informado á direção que os garotos estavam desaparecidos desde o dia anterior.
A diretoria esteve na sala de aula deles e conversou com a turma procurando por informações.

Guiga observava a movimentação ao longe, no recreio. Sentado no palco do alpendre, as pernas balançando, comendo seu lanche calmamente. Nataly chegou-se devagar e sentou-se ao lado dele. Não disse uma palavra. Era chata e barulhenta com ele. Ás vezes lhe batia só por pirraça, para ele dividir o lanche. Levava coisas de seu material escolar para casa. Era uma amiga inimiga, parecia sentir gosto em importuná-lo, e ele nunca reagia.

Guiga nem dirigiu seu olhar para ela. O irmão de Nataly e o amigo que sobrou vinham se aproximando. Guiga sentiu um frio na barriga mas esperou paciente. Não se moveria dali. Eles o deixariam em paz. Os dois mal tiveram tempo de atravessar o alpendre e o amigo do irmão de Nataly se agarrou nele com uma mão e com a outra segurou com força a camiseta contra o estomago. Correu para o banheiro mal tendo tempo de segurar o vomito que subia. O irmão de Nataly correu atrás do amigo e logo o sinal para entrar na sala soou.

Guiga levantou-se e deixou Nataly observando a cena, atônita. Uma comoção pareceu abalar a escola no final da aula mas Guiga nem percebeu. Foi distraído para casa, como sempre fazia, brincando na calçada, mexendo com as plantas, conversando com a mãe.

No dia seguinte, Nataly parecia bastante assustada. Ela viu ao longe Guiga vindo com a mãe. Ele segurava um pedaço de papel e um lápis e ela fazia movimentos com as mãos como nos outros dias.

Nataly correu e se escondeu no banheiro até o sino para a entrada soar. Na fila, ela tentou desviar de Guiga mas ele logo se virou ao notar sua presença.

- Esqueci de te dar o teu desenho ontem. - Ele disse, com um meio sorriso.

- Não precisa! - Nataly arregalou os olhos.

- Eu faço depois. - O sorriso de Guiga se intensificou.

A manhã se arrastou para Nataly. Ela observava Guiga o tempo todo e parecia mais branca que de costume. Cada barulhinho lhe dava sobressaltos e ela suava frio. A escola parecia bem menos barulhenta naquele dia.

O sino para o final da aula soou e todos guardaram os materiais menos Guiga. Ele olhou para Nataly sorrindo, com um olhar malicioso e cruel, enquanto começava um desenho com aquele lápis e aquele papel em branco.

A menina saiu correndo e gritando da sala, para nunca mais ser vista.


FIM

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

CRISTINA - CAPÍTULO V


CAPÍTULO V


Demorou uma semana ainda para ela falar sobre o acontecido para alguém. Quando resolveu contar para Anabela, a amiga não prestou muita atenção. Na verdade ficou histérica, achando que Cristina estava delirando, ou tinha quase esbarrado em algum tipo de maníaco. Anabela que gostava de passar um tempo no cemitério, ou cortar caminho por ali, instruiu a amiga a evitar aquele lugar.

Porém, Cristina não parava de pensar naquele ser estranho, e mesmo não mais tendo visto o sujeito, parecia que sua presença nas redondezas de casa ainda era constante. Um final de semana chegou em que ela estava tão encucada que cada movimento que fazia dentro ou fora de casa era pretexto para espiar na direção do cemitério para ver se o vislumbrava.

A avó chamou a atenção da menina naquele dia:

- Que isso menina, está enfeitiçada?

Cristina estava derramando água sobre a ração do cachorro. D. Ana tirou o regador da mão dela e terminou de servir o cachorro sozinha, pedindo á neta para ir até o mercado comprar ovos para a maionese, pois seus pais viriam visitá-la naquele dia.

Cristina saiu pelo portão e ficou ainda uns minutos olhando na direção do cemitério sem se decidir se passaria por ali ou não. Apesar de parecer sentir a presença da criatura estranha, não tinha mais o visto. Já estava para esquecer aquele incidente mesmo, pois era o que seus instintos básicos lhe diziam. Cristina era sempre muito prática, e um tanto cética. Mas sempre tinha aquela pontinha de intuição que ficava repetindo no fundo de sua mente que ela não estava inventando nada daquilo.

Na volta do supermercado, resolveu passar por dentro do local. Passou perto das três estátuas, e sentiu novamente o inconfundível perfume de jasmin. Ao olhar para dentro do mausoléu, o homem encapuzado; ou o que parecia ser um homem encapuzado; caminhou ameaçadoramente em sua direção. Cristina recuou assustada, tropeçando e caindo de bunda, derrubando a sacola com os ovos no chão.

Não conseguia tirar os olhos do sorriso estranho e cruel que aparecia por debaixo do capuz negro. Era um sorriso brilhante, uma boca maldita, que proferia palavras rápidas e assustadoras, ameaçando a menina, dizendo que ficasse fora do seu caminho. Cristina não ouviu uma palavra, e embora tentasse se lembrar do que o estranho lhe dissera, não conseguia se recordar de palavra alguma. Era mais como uma música, irresistível, lenta, entrando pelos seus ouvidos. Mas ela não entendia exatamente as palavras, apenas seu sentido. E o sentido que elas tinham era de perigo. Era como se dissessem que era melhor ela se afastar, mas o efeito que causavam em seu juízo era exatamente o contrário.

O estranho saiu do mausoléu e Cristina perdeu-o de vista entre as tumbas. Seus pais vieram almoçar com elas mas a menina não lhes deu muita atenção. Estava alheia a tudo. Á noite, a avó foi até o quarto conversar com ela. Mas foi inútil. Era como se o corpo de Cristina estivesse ali, mas seus pensamentos estivessem longe. A garota olhava para a avó falando com ela mas tudo o que conseguia ouvir era a música que saía dos lábios ou dos caninos brancos do sujeito do mausoléu das três estátuas.

No dia seguinte, Cristina foi trabalhar na loja de música e mal cumprimentou a chefe e as colegas. Vendeu alguns CDS, cuidou de algumas encomendas de instrumentos, e só não causou nenhum incidente porque já estava mais atenta lá pelo meio-dia. Sua chefe perguntou, preocupada, se ela estava se sentindo bem, e ela apenas a olhou indiferente e fez que sim com a cabeça.

Foi para casa almoçar e só então notou que havia esquecido o portão aberto e Tóbi estava fora do canil. Ele a aguardava, sentado na varanda, em pose de sentinela, todo retesado pela expectativa de que ela lhe desse permissão para sair e dar umas voltas:

- O que você andou aprontando? – Foi a frase que a dona lhe dirigiu, mal humorada e desconfiada. Pobre Tóbi, Cristina estava sendo injusta. Na verdade, ele notou o portão aberto, mas não arriscou a se aventurar pela cidade sem a permissão da dona. Passara a manhã toda na varanda aguardando até que ela chegasse em casa e lhe dissesse pra sair.

Ela abriu a porta ainda encarando o cachorro e ele, na mesma posição, acompanhou-a com a cabeça, devolvendo o olhar, para então entrar dentro de casa, com o rabo entre as pernas. Não seria daquela vez que ela lhe permitiria passear sozinho pela cidade. Da próxima vez, seria melhor fugir mesmo.

A avó parecia preocupada com a menina. Escondeu alguns papéis que estavam na mesa e afagou os cabelos ruivos da mesma quando ela sentou para almoçar. Coisa que não fazia com frequência. Cristina nem notou nada, absorta que estava com seu mundo interior.

À tarde, a tontura já havia passado, e Cristina estava sempre de olho no relógio, esperando que terminasse logo o expediente. Pensou em dar uma passada no cemitério antes de chegar em casa, para ver se encontrava de novo o seu “amigo”. Mas quando chegou a hora de ir para casa, uma dúvida cruel acabou a invadindo, e ela ficou se enrolando ainda uns dez minutos, tentando se decidir, antes de sair da loja. Um leve temor tomou conta de seus pensamentos, enquanto caminhava, misturado a um sentimento de ansiedade e leve excitação.

Acabou se atrasando para a faculdade, e não obteve sucesso em seu passeio no cemitério. Precisava desabafar com alguém sobre o acontecido, e mal Anabela se aproximou e cumprimentou-a, Cristina, sem dizer palavra, puxou a amiga pelo braço e foram sentar em uns bancos mais afastados até que o sinal fosse dado para entrarem na sala.

- Preciso te contar uma coisa... – disse Cristina, meio sussurrando.

- Nossa, que foi? – respondeu Anabela, pescando a tensão no ar.

- Você não acredita, fui ontem no cemitério, de manhã, e vi de novo aquele vulto.

- Sério? – Anabela estava mais incrédula do que excitada, ao contrário da amiga.

- Sim, e ele é estranho... – Sua expressão de excitamento se alterou repentinamente para uma tensão bastante aparente.

- Hum? Estranho? E quem é ele? – quis saber Anabela, meio desconfiada pela excentridade da amiga naquele momento. - Será que você viu então um fantasma, pela primeira vez?

- Será? – Cristina encarou Anabela, desconfiada. A hipótese não poderia ser descartada. O modo como as duas cochichavam acabou chamando a atenção de Mateus que passava por ali. Pensou que na certa estariam falando dele, e resolveu cumprimentar de longe, jogando charme, mas mal foi notado por Cristina.

- Oi Mateus. – disse Anabela.

Cristina foi desperta de seu devaneio sobre o estranho do cemitério e acabou só acenando para Mateus com a cabeça, que só não ficou frustrado porque estava muito distraído fazendo charme, e nem percebeu que quase não fora notado pela sua preferida.

- E o Mateus, hein?

- Que tem ele? – perguntou rapidamente Cristina.

- Achei que estivesse interessada nele. – disse Anabela.

- Ah, não sei... – respondeu Cristina, pois estava realmente incerta sobre ele. – Você sabe, nunca achei nada nele...

- Ta brincando que não acha ele um fofo!?! – respondeu Anabela surpresa.

- Até acho... – Cristina expirou o ar de seus pulmões, confessando: - Acho ele fofo sim, adorei toda a atenção que ele me deu... mas é que não sei... se ele me conhecesse melhor, perderia o interesse rapidinho.

- Ai, guria, você é pior do que eu no quesito auto-estima hein!!

Anabela então se calou repentinamente, observando Cristina olhando para os próprios pés, sentada sobre as mãos, com aquela touca estranha enfiada na cabeça. Na verdade estava aborrecida e queria desabafar com a amiga, por isso, estava procurando uma brecha na conversa. Porém, o sinal para entrada dos estudantes bateu, e elas tiveram que ir para a sala, evitando conversar assuntos muito pessoais que pudessem virar fofoca na sala de aula.

A semana toda passou e Cristina passava todos os dias em frente ao cemitério, ao meio-dia e à tarde, para tentar ter ao menos um vislumbre de seu estranho novo amigo. Não chegava a entrar, por medo ou prudência, embora o desejo de vê-lo fosse maior.

Estava no quarto, assistindo TV, na Sexta-feira á noite, quando o vento bateu mais forte nas persianas do quarto. A avó já havia dormido cedo.

O uivo do vento na janela surpreendeu-a, e ela ficou arrepiada no mesmo instante. Havia ficado em casa apesar do convite insistente de Anabela para que saíssem juntas para dançar, já que Anabela havia tido uma briga feia com o namorado e estavam dando um tempo.

- Foi a nossa primeira briga. – dissera Anabela.

- Acho que se vocês se gostam, não deveriam brigar... – respondeu a experiente Cristina.

- Ah, Cris, mas todo mundo tem uma briga de vez em quando.

Cristina sorrira consigo mesma, pensando que se fosse com ela, jamais teria uma briga ou discussão com o ser amado. Levantou da cama devido ao vento insistente na janela, achou que valia á pena dar uma espiada para ver se o vulto estranho estaria lá no mesmo lugar. Ao abrir a janela, o vento quase lhe arrancou os cabelos para entrar na casa. Ela segurou as janelas com força e procurou na escuridão do cemitério pelo seu vulto conhecido. E não se decepcionou, pois lá estava ele a encará-la de volta.

Cristina nem fechou a janela e correu pegar um casaco no armário, quase rolando escada abaixo porque Tóbi resolvera se esparramar pelo meio do caminho. Correu para fora da casa, fechando a porta desajeitadamente, e o vento lhe fustigou as faces e os cabelos enquanto ela se dirigia feito uma insana para o cemitério.

A jaqueta preta de nylon quase voava e o pijama fino ficava grudado ao corpo enquanto ela andava, com pressa. Quando a avó a viu no corredor saindo daquela forma, correu pegar um casaco e foi atrás da garota.

- Mas que disparate! – D. Ana gritou. – Cristina sua louca! Volte aqui!

Cristina já estava atravessando a rua. A avó continuou seguindo a menina, seguida por Tóbi, que agora latia feito louco. Cristina estava indiferente a tudo, como se estivesse hipnotizada.

Tudo o que ela via era o vulto negro, e estava com tanto medo que seu estomago se contorcia, era como se borboletas geladas pipocassem dentro de si.

CONTINUA...